Wednesday, July 25, 2012

1976 - TV Silvio Santos

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 12/6/1976
Autor/Repórter: Maria Helena Dutra
VÃO TER QUE EXPERIMENTAR MUITO MAIS 
 
Fatigado das qualidades e defeitos da Rede Globo de Televisão, o espectador carioca sentiu renascer a esperança das sonhadas opções ao ser informado que este ano teria mais dois canais de televisão mesmo que fossem em caráter experimental apenas. Há algum tempo ele apenas assiste à Rede Globo porque esta tem um padrão aceitável em sua programação artística e informativa e uma excelente transmissão técnica. Mas o seu virtual monopólio de audiência deriva muito mais da falta total de concorrência do que destas suas qualidades. O público vem gradualmente abandonando a Rede Tupi porque esta apenas lhe oferece um jornalismo amador, novelas em slowmotion involuntário, nada além de dramalhões em câmera lenta, e seus programas humorísticos e musicais são francamente anacrônicos. E para cada especial de rara qualidade, como a Série Universo 76, há um eterno concurso de Miss Brasil para compensar.

A outra velha opção, completa 21 anos em julho próximo sem festas ou comemorações, é a vacilante TV Rio que o público não mais assiste para não chorar de piedade. Quando ela consegue ir para o ar, superando problemas de equipamentos penhorados por falta de pagamento, sua imagem corre mais que ladrão porque é gerada por equipamentos tropegos e não recebe a iluminação devida por falta de tampadas. Os programas ao vivo dependem do talento, quase sempre nulo, de quem comprou seus espaços ou o recebeu como fórmula de pagamento de antigas dividas. Filmes e enlatados são repetidos a exaustão porque fazem parte de único pacote que sobrou na estação e não há com substituí-los devido, evidentemente também, as elevadas dívidas com as empresas distribuidoras.

Este constrangedor panorama faz que o carioca procure com sofreguidão qualquer novidade em termos de televisão. Iguais porém a taxa de lixo e o depósito compulsório para as viagens ao exterior, as transmissões experimentais dos dois canais - o dois, TV Educativa e o 11, TV Sílvio Santos - não foram novidades muito felizes. A mais antiga destas experimentações, a Educativa, tem até programas defensáveis como alguns especiais, mas padece de um mal impossível de ser aceito numa estação de estrutura estatal e de objetivos determinados até pelo seu nome. Só que a Educativa até agora não apresentou uma personalidade definida e nem um sinal de adoção de uma política educacional e cultural destinada a prestar um serviço especifico e criar uma audiência constante.

É possível aceitar programas improvisados e gratuitos da televisão comercial que se serve de qualquer recurso para conseguir público e anunciantes, mas não se pode concordar com este tipo de picadinho servido por uma estação possuidora de um telecentro que há anos produz programas educacionais, que a lei obriga a serem transmitidos por estações comerciais, e se prepara há cerca de cinco anos para ocupar um canal próprio. A maioria dos seus programas de entrevistas, por exemplo, parece ser feita sem ensaios e com pessoal desinformado. Lembram penosamente as mesas-redondas da antiga e falida TV Continental. A um padre pergunta-se o que é um coelho de Páscoa, a um cantor popular, Cauby Peixoto, se faz a grave acusação de pagar a fãs para desmaiar e não lhe, permite resposta., exatamente como nos antigos programas de Flávio Cavalcanti. Note-se que o entrevistador, no, era Mister Eco, originário desta maneira de fazer televisão. Estas tolices são incompatíveis com a educação e até mesmo com a competência profissional. Um dado patente ao iniciarem a retrospectiva de filmes do cineasta brasileiro Humberto Mauro pela sua última realização. Um desastre didático, sem dúvida alguma, pois só a obediência cronológica pode esclarecer o julgamento da evolução artística. Além disso, a metade de seu pequeno horário experimental é dedicada ao futebol como se fosse o único esporte praticado no Brasil e tratado também como única fonte de interesse do brasileiro e sua maior realização coletiva ou individual. E agora, ainda, repetem a telenovela educativa João da Silva, vista pelos responsáveis da estação como a melhor realização educacional da TV no país. Até pode ser, ela rendeu muito bem em termos de auxílio ao Mobral, mas, ao ser revista, lembra demais as paródias de Jô Soares sobre novelas culturais. Repetimos, porém, que todos os pecadinhos poderiam ser perdoados se a estação revelasse qualquer linha definida sobre educação e cultura. Sem isso, ela não passa de uma estação igual às outras onde apenas faltam os comerciais.

Se a Educativa é difícil de entender, é absolutamente incompreensível a fase experimental da TV SS. Uma sigla muito antipática para aqueles que têm boa memória, e que não está agradando nem aos desmemoriados que começam a desconfiar do famoso tino comercial de Sílvio Santos. Em menos de sete meses, ele colocou sua estação no ar em recorde difícil de ser igualado por qualquer outro concessionário. Só que para nada, como o gaúcho do poema famoso de Ascenço Ferreira que botava espora, montava no cavalo "pra quê? pra nada". É impossível descobrir o sentido de exibir enlatados produzidos há duas décadas e já transmitidos por outros canais. Inclusive utilizando uma forma que é difícil até para explicar. Eles passam em três sessões, numerando suas partes no canto direito e em cima da tela, para poderem ser assistidos outra vez por quem perdeu algum de seus trechos. Só que não se divulga e nem ninguém sabe os horários fixos de exibição de cada trecho e por isso o filme tem que ser assistido todo outra. vez para se descobrir o pedaço perdido. Um complicado quebra-cabeça a ser cometido apenas para rever Shirley Booth como empregada em enlatado ancião. Exercício que, o público já entendeu, não vale a pena ser sequer tentado ou mesmo entendido. Ao vivo, a SS tem apenas o Sílvio Santos Diferente, igual aos antigos programas de debates de Flávio Cavalcante com júri e tudo, onde se discute, no mesmo tom e com igual desfaçatez, problemas de sexo ou se faz mal ou não tomar banho depois das refeições. Fora disso, resta Ronald Golias num tal de Bacará 76 que faz o público sentir saudades ou considerar Renato Aragão um gênio de comicidade e o próprio Flávio Cavalcante ressuscitado e ressuscitando Um Instante Maestro cada vez mais chocho. Sem entrar nos méritos da discussão do valor artístico de Sílvio Santos, acreditamos que sua estação não poderia ter optado por um pior caminho experimental. Até o momento, ela não consegue sequer a ser uma estação igual às outras.

No comments:

Post a Comment

Followers