Wednesday, July 25, 2012

1972 - O Colorido em Preto e Branco

Revista VEJA
Data de Publicação: 7/12/1972
A NOVELA DA COR 
 
A primeira novela em cores da televisão brasileira é em preto e branco. A segunda também. Durante muitos dias, em outubro, a Tupi de São Paulo anunciou com estardalhaço o seu lançamento pioneiro. Mas, quando "A Revolta dos Anjos" foi vara o ar no começo de novembro (VEJA nº 219, de 15-11-72), os decepcionados telespectadores constataram que seus ídolos continuavam tão cinzentos quanto antes: o equipamento especial para gravação colorida não havia chegado e a emissora resolveu gravar a novela com o que tinha à mão. Agora, com a promessa de mudar o sistema assim que chegar o novo equipamento, os fiéis seguidores da novela acrescentaram mais um ingrediente à alquimia dos suspenses regulares: o momento em que as cores dos dramas e alegrias se derramarem sobre a tela como num velho filme de Walt Disney.

Na semana passada. com todo o equipamento necessário, e sem espalhafato., a Rede Globo começou a rodar, em Salvador os primeiros capítulos em cores de "O Bem Amado", de Dias Gomes, com Paulo Gracindo, Jardel Filho e Itala Nandi - uma novela para substituir "O Bofe" e talvez produzir um novo Tucão. Gracindo, outra vez de terno branco e chapéu, como o seu famoso personagem de ''Bandeira 2", desta vez é Odorico, um matreiro coronel do cacau, envolvido numa luta política entre as poderosas famílias da imaginária cidade de Sicupira. Viúvo, vive às voltas com o assédio insistente de quase todas as moças casadoiras do lugar.

Corrida - Mas os poucos proprietários de receptores coloridos terão ainda de se conformar em assistir em preto e branco as periódicas tribulações de seus bem-amados atores. A novela só será exibida em cores para os próprios técnicos da estação, numa espécie de curso interno de aperfeiçoamento.

Desde o início, preocupada com a televisão em cores, a emissora redobrou os cuidados em relação ao seu uso nas telenovelas, os milionários carros-chefe de sua programação. "A Globo preza muito os altos índices do Ibope conseguidos com a programação em preto e branco e não Pretende se aventurar em um terreno ainda pouco conhecido", explica Daniel Filho, coordenador da central de telenovelas.

Para uma TV acusada freqüentemente de improvisação, essa preocupação pelo planejamento é, no mínimo, surpreendente, Mas, bem aproveitadas, suas lições podem ser fundamentais no futuro. Na primeira semana de experiencias, a Rede Globo já comprovou duas diferenças importantes entre os dois processos de filmagem: a gravação e o acabamento em cores exigem muito mais cuidado e levam o dobro do tempo para serem executados.

Daniel Filho explica: "A cor requer uma movimentação de câmaras muito mais precisa e Planejada. Os ensaios têm de ser mais demorados. Os interiores, mais bem cuidados, e a escolha de exteriores feita a dedo, pois qualquer imperfeição não passa despercebida como no Preto e branco. E a maioria dos cenários tem de ser construída em alvenaria porque a artificialidade da madeira fica evidente num vídeo colorido".

Experiência - Se uma câmara em preto e branco leva meia hora para ficar pronta, as moderníssimas Schnneider que a Globo levou a Salvador precisam de uma hora e meia de ajuste antes da gravação. E as cenas em cor, repetidas numa média de seis vezes por tomada, gastam mais do dobro do tempo necessário para as filmagens em preto e branco. A gravação da última cena feita na Bahia (Gracindo em um candomblé entregando flores a um pai-de-santo) exigiu três horas de tomadas para uma seqüência que na montagem tomará apenas alguns minutos. Em branco e preto ela poderia ser feita em uma hora apenas. Assim, a média de seis capítulos em três dias, conseguida com o preto e branco, cai à metade.

"Isso é ótimo para o meu personagem, o Odorico", afirma Paulo Gracindo. De fato, com gravações mais demoradas, os atores têm tempo para estudar seus papéis e preparar melhor o personagem - aliviados da correria das gravações convencionais. "Além disso", diz Gracindo, "a novela em cores vai valorizar as paisagens e os personagens. É como um Postal em cores e outro em preto e branco - o colorido é o que todo mundo compra. E, como uma coisa puxa outra, acho que a novela em cor será a grande responsável pelo incremento nas vendas de aparelhos coloridos."

Por enquanto, porém, para a Globo, o resultado de sua experiência é tão imprevisível quanto os caminhos da novela condicionados Pelo Ibope. 'A única coisa certa é que estamos fazendo uma experiência que pode ser bem ou mal sucedida", diz Daniel Filho. "O que queremos saber com 'O Bem Amado' é se a novela em cor é economicamente viável. Se for, quem sabe, essa novela mesmo pode ir ao ar. Mas só se tudo correr muito bem, porque mais vale um Ibope em preto e branco do que um fracasso colorido."

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