Wednesday, July 25, 2012

1970 - O Futuro da Novela

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 21/10/1970
Autor/Repórter: Valério Andrade
OS CAMINHOS DA NOVELA 
 
Lançada pela Rádio Nacional, em junho de 1941, a novela conquistou o país de supetão, passando imediatamente a figurar entre os hábitos diários de milhões de brasileiros.

A novela radiofônica foi, durante anos e anos, a canalizadora romântica de uma platéia que não encontrou no cinema brasileiro a alternativa da ilusão. A voz substituiu a imagem, que, em países cinematograficamente desenvolvidos, conquistava o coração do público através dos símbolos físicos dos astros e estrelas.

A VOZ DE OURO

Na impossibilidade prática de criar a sua própria fábrica de sonhos, com atrizes e atores nossos, o cinema nacional jamais conseguiu impor-se como amante, pois, desde cedo, foi passado para trás pelo rival estrangeiro. O máximo que conseguiu foi, eventualmente, furar o bloqueio às custas do carnaval e do humorismo.

A novela conseguiu o milagre de canalizar os anseios ocultos da alma feminina. Para tanto, bastava uma bela voz. A imaginação tratava de criar a imagem idealizada secretamente, enquanto o texto retirava do infinito arsenal romântico as fórmulas almejadas pelos corações ingênuos.

A TIRANIA DA IMAGEM

Com o advento e a expansão geográfica da televisão no Brasil, pouco a pouco, e em relação direta ao seu progresso, o rádio foi perdendo o encanto e a condição de conquistador. Envelheceu. Deixou de ser o amante ideal. Adaptou-se à nova realidade, enquanto, simultaneamente, mostrava-se impotente para concorrer com o rival que acrescentava à voz a beleza física.

Era flagrante que a novela teria de dar fatalmente certo na televisão. Pois, na realidade, o grau de exigência do grande público se manifestava apenas quanto à questão fundamental da imagem, enquanto, do ponto-de-vista intelectual, permanecia inalterado e emocionalmente faminto de emoções. Por isso, anos após a consagração radiofônica, o delírio provocado pela xaropada mexicanizada de O Direito de Nascer voltou a repetir-se no vídeo.

A brutalidade da realidade cotidiana transforma cada telespectador num fugitivo alquebrado, que, por uma infinidade de fatores psicológicos, costuma recorrer ao refúgio da telinha branca tal qual um viciado ao vício. Por outro lado, em termos físicos, a TV oferece o comodismo que o cinema e o teatro, com o conseqüente deslocamento geográfico e exigência material (ingresso), não estão aptos a oferecer.

A DOSE DIÁRIA

A telenovela atende a todas essas necessidades e, ainda por cima, mantém o telespectador em permanente estado de expectativa emocional. Esse golpe é velho, tendo, nos tempos do folhetim, a sua eficácia comprovada definitivamente.

E, muito antes de chegar à televisão, sequer dela existir, a fórmula da narrativa fragmentada fora testada com retumbante êxito pelo cinema. O sucesso que o velho Alexandre Dumas conseguira obter nos jornais, através de suas aventuras de capa e espada, os roteiristas de Hollywood lograram repetir em todas as latitudes da aventura e da imaginação.

Embora a televisão brasileira não disponha dos recursos técnicos e econômicos de Hollywood, e não tenha alcançado o nível de diversificação temática e ambiental dos seriados, vem usando com eficiência a sua técnica, que, acrescentada à experiência local da fórmula radiofônica, vem dando novo sabor ao espetáculo, e, conseqüentemente, aumentando a ansiedade em torno da dose diária.

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