Wednesday, July 25, 2012

1968 - O Velho Guerreiro

Revista: Manchete
Data de Publicação: 5/9/1968
Autor/Repórter: Ana Maria Rebouças
VOCÊS QUEREM BACALHAU? 
 
Comunicação. A palavra tomou conta do mundo inteiro e uma verdadeira corria foi iniciada. Chacrinha mantém, com toda tranqüilidade, a liderança da disputa. O povo gosta dele e entra na onda com todo entusiasmo. O que acontece, paralelamente, nos bastidores dos programas é uma outra conversa. Uma loucura total, um corre-corre sem fim. E os personagens vão surgindo, de todos os tipos, até o caos. Pois todos querem, por vários motivos, participar, aparecer. Querem o seu momento de glória, não importa como. E as histórias se sucedem, as situações mais absurdas vão sendo criadas.

A mulher que tem a maior cabeleira do Brasil se agita toda, numa espécie de dança-de-são-guido ritmada. A galinha que dá cambalhotas, saracoteia pelo palco enquanto os anõezinhos circunspectos, que querem um sindicato, tentam desesperadamente fazer um discurso. Depois do black-power espera-se o mini-power. Nelson Ned, acompanhado de toda a família, inclusive o papagaio e o violão de estimação, entoa uma canção para as delicias do auditório, ávido de ternura enlatada. Os cameramen correm de um lado para o outro, fazendo milagres para não focalizar o senhor distinto que pulou no palco e quer dar um beliscão na pernoca da chacrete. Um português nervosinho esquece as armas e os barões assinalados e dá broncas camonianas na fila irrequieta de calouros. No auditório, o operário nordestino paquera abertamente a doméstica do Encantado, enquanto um grupo de colegiais de uniforme balança faixas e berra gritos de guerra de dois em dois minutos. Um calouro furibundo tenta furar o cerco e invadir o palco, brandindo um jornal. Na primeira página, em manchete, sua foto e a legenda: Waldick Soriano Me Deu o Beiço. O lusíada, irritado, tenta conter o homem, que a essa altura berra mais que o cantor focalizado: Eu não sou calouro coisa nenhuma, me disfarcei para vir aqui e mostrar ao público quem é Waldick Soriano. Dou nele! Na platéia, não resistindo ao excesso de calor humano, uma fanzoca desmaia e tem de ser levada para o pronto-socorro (voltou assim que conseguiu abrir o olho). Diante dos refletores, a irmã de caridade conta como vendeu mil jornais na Rodoviária, enquanto distribui santinhos. Comandando tudo isso, rei do pequeno território que vai dos bastidores à platéia, passando pelo palco, Abelardo Chacrinha Barbosa vive a inconseqüência de sua Passárgada e, no fim do programa, acaba contraparente da nora que nunca teve.

O MEIO É A MENSAGEM

Alô, seu Noronha, já tomou vergonha? Alô, dona Maria, vai ficar para titia? Vocês querem bacalhau? Alô, gatinhas, alô, bodes, alô, cachorrões! E vários outros alôs!

Para criar toda essa confusão e dar ao público a oportunidade de irromper num acesso de miados, balidos e latidos de fundir a cuca de qualquer zoólogo, gasta-se, toda a semana, uma verba de 13 milhões, 8 milhões na quarta feira, com A Discoteca, e 5 no domingo, com A Buzina. A Discoteca sai mais caro, porque o prato forte são os artistas das paradas de sucesso que ganham cachês altos e viajam de lá para cá de Caravelle. Calouro sai de graça e garota bonita, para mostrar as pernas em concurso, por qualquer 50 cruzeiros se arranja por isso, no domingo, eles só gastam um pouco mais para pagar os prêmios.

Aliás, uma das mais importantes tarefas da equipe que trabalha para o Chacrinha é fica bolando cada semana novas apelações que dêem IBOPE: O que dá mais? Os soluços angustiados ou as declarações do morto-vivo do Espirito Santo? Isso se decide numas salas de pré-fabricado, armadas no terraço da TV-Globo, onde os papas da comunicação dão o que podem e o que não podem para saber quem vende mais. O mito Chacrinha é resultante das bolações da equipe. Desde suas caretas até suas fantasias, tudo é decidido em conjunto, num esforço coletivo que exige sangue, suor e lágrimas. Afinal de contas, tempo é dinheiro e eles são muito bem pagos para pensar. Perguntei: -Vocês têm tempo para vida particular? Eles me apontam a moreninha que entra e vai falar com o rapaz da mesa em frente. É a noiva dele. Quando a saudade aperta, ela vem aqui bater um papinho.

A flexibilidade da produção é grande, porque, além dos funcionários da TV Globo que trabalham na sua equipe, o Chacrinha ainda dispõe de assessores particulares. Uma parte da equipe se dedica à Discoteca, outra é responsável pela Buzina. Nalígia, simpaticíssima mulata, está com o Chacrinha há muito tempo. Sua marca registrada são os óculos enormes, cada dia com lentes de cor diferente. Parece que passa o tempo todo na base da ponte-aérea, caçando aquele cantor que vai dar IBOPE se cantar nessa quarta-feira, e fugindo daquele que quer cantar mas não dá pé. Vou ver se encaixo você na semana que vem ou talvez na outra, tá bem, querido? A regra é não dizer não definitivamente, nunca se sabe se aquele cara vai Estourar no Norte no dia seguinte! Portanto, calma.

O Ferreira, PUBLIC-RELATION, é o tal, capaz de fazer um Bonzo aceitar o convite para ser júri do concurso das mais lindas pernas do Brasil. Aliás, a barra fica pesada, quando se trata de escolher os jurados que vão julgar os candidatos ao trono de qualquer coisa.

O baixinho eficientíssimo - Achei! O Kiko, da novela! Ótimo para julgar a estudante mais bonita do Brasil.

Chacrinha: - Kiko! Quem é Kiko? Assim ninguém vai acreditar no meu concurso! A gente precisa de gente de gabarito, que enalteça o concurso.

O baixinho sabe o que diz:- O Kiko é ídolo dessas garotas. Ainda mais, tem a mesma idade que elas!

Chacrinha: - Um menino! Este é um concurso de âmbito nacional. Tem que ser alguém de responsabilidade!

Afinal, no dia da eleição da mais bonita estudante do Brasil, coube ao Secretário de Turismo, o Sr. Levy Neves, dar o cunho de responsabilidade a uma mesa de jurados que começava por Luiz Jasmim e ia parar em Tony Tornado, uma beleza.

Antes de qualquer outro talento, a equipe do Chacrinha tem que aprender a andar na corda bamba. Qualquer mancada, e pode rolar a cabeça de um. Houve um calouro que, inconformado de ter sido excluído pela equipe no dia da seleção, saiu de lá e foi cantar debaixo da janela do Chacrinha. Agradou e a equipe quase foi despedida por incompetência. No dia do programa, na hora da apresentação, a voz que tinha encantado o Chacrinha emudeceu de nervoso. A equipe quase foi despedida de novo. É uma corda bamba!

Por essas e outras, eles dizem que, se metade da semana ficam bolando tarefas do arco-da-velha para alguém realizar, a outra metade da semana ficam rezando para essa pessoa conseguir, senão... cadê o dinheiro pro leite das crianças? É de fundir a cuca.

A principal preocupação da produção é o telespectador. Ao auditório, batatas, quero dizer, as bananas, o mocotó, o bacalhau. E, tome de chacrete, de calouro e de concurso, que o povo fica feliz.

QUEM NÃO REBOLA, SE ATOLA

A ordem é rebolar, e elas levam o negócio a sério. Samba, bolero, rumba, tango, valsa vienense, elas rebolam em qualquer ritmo. Não é mole ser chacrete. A fórmula é simples: pernas grossas, um pouquinho de pano (para a censura não chiar) e muita resistência para agüentar duas horas do mais frenético rebolado. Originalmente, parece que elas eram mocinhas afáveis e simpáticas. Depois, quando viraram notícia e passaram a ser procuradas por repórteres, fotógrafos e sociólogos, resolveram ter consciência de classe e ficaram difíceis de aturar. Entrevistar uma delas requer coragem e muita paciência, pois, se ela não estiver de bom humor, o repórter vai encontrar um arzinho de ai-que-coisa-chata-ser-sexy e o tradicional passa-amanhã. Dizem que ficaram assim depois que os velhos babões da vida as transformaram em símbolos eróticos. A verdade é que em cada programa há uma meia dúzia de cavalheiros aposentados gastando toda a pensão em flores e cartãozinhos galantes. Seguindo a lógica da oferta e da procura, é muito compreensível que as chacretes tenham resolvido dar uma esnobada.

Sua função no programa é de pau-para-tôda-obra. Rebolam para desviar a atenção do público da mediocridade que está cantando, buscam os calouros nos bastidores e os entregam nas mãos do Chacrinha, levam os buzinados para fora e os aprovados para o trono (É ele? Vai ou não vai para o trono?) e fazem mágicas para encaixar a coroa no estranho emaranhado de cachos e laquê das cantoras vitoriosas. A coreografia não importa muito, o que importa é não parar nunca. Por isso, cada uma rebola como bem entende. Mas, cada uma tem a sua especialidade: ninguém segura a ruivinha no iê-iê-iê; quando o negócio é samba, a mulata descasca e dá olé. Elas só perdem mesmo para o Chacrinha, que dá umbigadas em qualquer ritmo. A gente nota que elas têm um certo desprezo pelos calouros. Para muitas, conduzir pelo braço o pretendente a ídolo é um grande sacrifício. Deve ser mesmo. Cada um daqueles calouros, em seu lamê falsificado ou seu terninho, deve lembrar-lhes os outros dias-sem-fama-e-sem-rebolado que elas gostariam muito de esquecer.

POR UM LUGAR AO SOL

- Quem precisa de acompanhamento é procissão e entêrro. Microfone,meu chapa, é pra deputado ou líder estudantil. Vai abrindo o bico e dando o seu recado, que a gente vê e dá para encaixar você desta vez no programa. É a quarta, quinta vez em que ele mata trabalho, sai de casa ao meio-dia, pega trem, pega um ônibus, depois outro, enfrenta a fila de inscrição, enfrenta as broncas do Marrom, o crioulão com jeito de feitor que mantém a ordem na fila, enfrenta as gozações da equipe, que para passar cinco horas selecionando caIouros tem mesmo que arranjar qualquer coisa com que se divertir.

Um metro e cinqüenta e cinco, óculos de ladrão, camisa vermelha, cabelo comprido oxigenado (Diocil da Silva, às suas ordens, mas pode me chamar de Reginaldo) está no seu dia de glória. Cansaço, fome, humilhações, nada diminui o seu entusiasmo. Depois que ele aparecer na televisão não vai haver doméstica que lhe resista!

- O melhor calouro é desse tipo: convencido, pretensioso. Quanto mais se acreditar um artista, quanto mais cara-de-pau tiver, melhor é. Esse tipo nós sempre classificamos, tenha ou não tenha boa voz. É delicioso quando um cara destes leva uma buzinada.

- Não é a equipe do Chacrinha que é sádica. Sádico é o público que ela tem que divertir. Por isso, 70% dos calouros que eles selecionam são fracos. Teve aquele que, quando o maestro, no ensaio, disse:

- Você ai, está cantando muito alto, abaixa - referindo-se ao tom -, o cara tomou ao pé da letra e se abaixou. Cantou de joelhos!

Os outros calouros não podem nem se relaxar gozando a caveira do companheiro que dá mancada, que lá vem bronca. Ora essa, deboche não vale. Mas ninguém liga. Quem está neste barco está para tudo: aplausos ou chacotas. Quer é aparecer. Como aquele que, quando os outros calouros foram bronqueados por estar rindo dele, disse, humilde:

- Deixa, podem rir de mim que não me importo; já fui palhaço de circo.

Cantar não é o único talento desses artistas incompreendidos, se a voz não dá pé, na semana seguinte ele volta como compositor e, se não agradar, ele volta para sapatear. Por um minuto na glória dos refletores, ele se candidata até a comer caco de vidro. É comovente como podem viver só de esperança.

E que não se pense que isso são loucuras-da-mocidade-depois-endireita. Mesmo que a maioria seja de vinte anos, tá assim de velho de sessenta, louco para ser buzinado pelo Chacrinha. Neste dia se apresenta para a seleção um que achava que podia fazer a festa sozinho: muito malandrinho, na flor dos seus cinqüenta e oito anos, terno branco e gravata borboleta, olhar de tango:

- Pois é, eu canto pra esquentar os corações das moças; eu danço iê-iê-iê, eu faço umas brincadeiras, mas sem machucar ninguém.

Coitado. Desafinado e enferrujado, vai fazer uma brincadeira com um bamba da capoeira, leva uma banda de saída e é ele que acaba se machucando.

No domingo seguinte, às duas da tarde, estão lá os dez classificados, enfarpelados em seus terninhos os mais tímidos, os mais exuberantes em alguma indumentária prafrentex. Essencial e não esquecer as meias, se não quiserem ser fulminados pelo leão-de-chácara. Ensaiam, suam, ensurdecem com os berros da equipe, impacientes (não é para menos), rezam, fumam e até tomam alguns golinhos, escondido, para criar coragem e ir em frente.

Tudo está em jogo: o futuro, a carreira artística, a conta do armazém, o coração da amada. Mas, depois de tanta mão-de-obra e tanta esperança, a maioria deles sobra.

- Você fica para domingo que vem.

Dois entraram para ser buzinados, dois para disputar realmente. As cartas são marcadas: -É esse? ' É esse?

O auditório urra, deliciado e o calouro que berrou mais vai para o trono. Já se esboça uma certa profissionalização entre os calouros. E aquele que ganhou no Chacrinha foi cantar no Sílvio Santos e volta depois ao Chacrinha. Ganha sempre.

CONCURSO, PRA QUE TE QUERO?

Programa de auditório sem concurso é o mesmo que casamento na roça sem foguete. O Chacrinha sabe disso melhor do que ninguém. Há concursos de todos os tipos: quem dá a gargalhada mais engraçada, quem tem a perna mais bonita, a cabeleira mais comprida, o galo que canta primeiro, quem anda melhor de patinete, quem faz a melhor frase sobre a Transamazônica, etc. Cada um tem sua fauna própria. As candidatas a mais bonita estudante do Brasil são completamente diferentes das moças que disputam a coroa das praias cariocas, e assim por diante. As mães, porém, são todas iguais. Que nem mãe de miss, ficam dando pulinhos nos vestiários, e suspirando: - Ai, meu Deus, se eu tivesse podido, no meu tempo... Mas minha filha...

Como a promissora carreira artística de todas elas foi cortada por um nefasto casamento (hoje só são artistas do fogão), transferiram para as filhas a responsabilidade de viver seus sonhos. Empurrada pela mãe, a candidata de hoje ao título de qualquer coisa mais do Brasil foi o sucesso de anteontem no Clube do Guri Todas elas ainda sabem cantar Ai Lili, ai lô, na perfeição!

Mas sempre tem umas que chegam lá com outras motivações: Suzete, do Méier, 18 anos, precisa de dinheiro e não consegue trabalhar porque, em todos os empregos que arranja, os patrões tentam agarrá-la. O primeiro conseguiu e é só para o filhinho, que resultou disso, que Suzete precisa tanto de dinheiro. Agora Suzete está mais esperta e veio servir de manequim no concurso da melhor costureira, o que parece ser uma coisa menos perigosa. Ela é tão bonita e tem um jeitinho tão meigo que a costureira disse que se o seu vestido ganhasse, dava o prêmio todo para ela. Eu também estava torcendo por Suzete, mas naquela noite o prêmio ficou com a moreninha de cabelos escorridos que desfilou um maxi-arco-íris. Que não ganhou sozinha. Uma loura alta, com uma classe sensacional, conseguiu empatar o concurso, sem que o Chacrinha entendesse por quê (em seus programas as moreninhas sempre ganham ). Acontece que a moça se chamava simplesmente Vera Barreto Leite, o mais famoso manequim do Brasil. Sem alcançar o significado disso, o Chacrinha, furioso, gritava que lá estavam julgando o melhor vestido e não o melhor manequim. Foi assim que o auditório do Chacrinha vaiou o manequim que sempre arrancou aplausos das platéias mais exigentes do mundo inteiro. Vera estava lá para ajudar sua costureira, uma moça muito simples e que precisa muito. Se a outra concorrente não fosse moreninha, e não usasse vestido cor de arco-íris. Vera levava sozinha o prêmio para sua costureira.

Mas a sensação da noite é o concurso da rainha das praias cariocas. Meia hora antes do programa ir para o ar, as candidatas, coitadas, já estão suando debaixo dos refletores: a secretária do Chacrinha tenta ensiná-las a desfilar. Mas é duro, desiste e resolve ensinar um manequim elegante a ficar parado:

- Assim, o pé esquerdo um pouquinho mais para a frente, apontando bem para a esquerda. Pronto, há oito estátuas pregadas no chão. E agora, as mãos, ninguém sabe o que fazer das mãos. Como último recurso, acabam todas em posição de sentido.

A equipe do Chacrinha está desesperada: o nível das candidatas é realmente muito baixo. Enfim, perna de fora acaba sempre dando IBOPE. Tem gosto para todo tipo de perna e ali tem perna para todos os gostos: bonita, gorda, fina, torta, com celulite e joelhos pontudos, o caos.

Quem está na sua, confiante na candidata que trouxe, é Ricardo:

- Carla (ou Karla) é uma parada. Vai tirar todas essas aí de letra.

Ele dirige uma agência de modelos que supre o programa do Chacrinha, como supre outros concursos, desfiles e outras badalações no gênero. Ele gosta de falar e é dos tais que dão entrevista sem a gente pedir:

- Eu também sou advogado e tenho uma financeira. Mas a agência dá mais. Hoje, por exemplo, estou ganhando Cr$ 50,00 p/garota que trouxe. A elas não pago nada, nem faço contrato. Elas ganham dos promotores dos concursos dos desfiles e, além do mais, badalam, ficam conhecidas, recebem convites. Vale a pena, não vale, Carla?

A PROVÁVEL RAINHA DAS PRAIAS, UMA MOÇA MUITO RELATIVA

Ela tem um rosto lindo de anjo suburbano e é boazudissima. 18 anos, mas aparenta mais. Sorri, cheia de promessas pra ele, como, aliás, sorri cheia de promessas para todo mundo.

- O que eu gosto de fazer? . . . Praia, boate . . essas coisas. É muito relativo... Casar? Não sei, talvez mais tarde... é muito relativo... se eu encontrar aquele homem, aí eu vou gostar provavelmente de ser dona de casa, varrer, espanar... Trabalhar fora é muito relativo, pode ser... se aparecer coisa interessante... acho que prefiro mesmo casar... por enquanto estou na minha, né, não estudo, não trabalho, não faço nada... Vivo, né? Moro com minhas irmãs, em Copacabana. Meus pais? Ah, me dou muito bem com eles, adoro eles, mas eles moram em Petrópolis... Bem quadrados, não queria que fossem diferentes, me dou mesmo muito bem com eles (está aflita para ver se eu acredito). Minhas irmãs também não trabalham... bem, só de vez em quando. Agora uma delas vai ser lançada como cantora, sabe? Namorado? Nada sério. Livros? Não. Politica? Isso é muito relativo. Nunca pensei muito... dizem que a democracia é o melhor regime. Eu, francamente, não me importo muito com o que esteja acontecendo, desde que eu possa levar a vida que quero... É o que penso, né?

Ela sublinha cada frase com um sorriso encantador. Palmas que ela merece. Desse jeito, Carla vai ganhar todos os concursos de rainha da praia, mesmo que seu reinado seja muito relativo. Mas ela acha ótimo.

WOODSTOCK TROPICAL

- Não me importa que a mula manque, eu quero é rosetar.

A frase de marchinha é o lema perfeito para o auditório dos programas do Chacrinha. Todos vão com um único objetivo: se divertir ao máximo. E como se divertem! A doméstica esquece o fogão e as panelas e tem sua noite de Vanderléia: canta e dança no fundo do auditório, alucinando o crioulo que aproveita para conversar. Juntando o útil ao agradável, dona Maria, moradora do bairro de Madureira, levanta as mãos ávidas sempre que ouve falar em bacalhau. A entrada de Waldick Soriano (que estourou no Norte. Boom!) deixa a mulatinha de mini-saia às portas de um ataque histérico. Ela dá cambalhotas na cadeira, faz o que pode para chamar sua atenção, mas ele continua a mastigar seu bolero, entrincheirado atrás de fantásticos óculos escuros, que só vendo se acredita.

O auditório do Chacrinha vive em clima de festival. Tanto faz se for Woodstock ou festival da cerveja. Todos, sem exceção vibram o tempo todo, aproveitando qualquer deixa para rir e se sacudir. Todos, desde as fanzoca - segunda geração de macacas de auditório - aos hippies amigos da Baby Consuelo, para eles o programa do Chacrinha é melhor do que qualquer viagem.

Quanto à fanzoca segunda geração, esta é individualista, nem pensa em se organizar en clubes como sua mamãe. (Aliás, organização em ritmo de festival é furado, todo mundo sabe. ) Para elas o importante é a curtição Estão na sua. Ainda encontrei uma garota de 15 anos que economiza seu salário de babá para mandar rosas a Vanderléia.

- Estão por Cr$ 50,00, sabe? - Mas é um exemplo isolado.

O tipo mais comovente é o solitário, que espera o domingo para ir fazer uma sauna de calor humano. A gente conhece logo. Terno azul-marinho, impecável, caneta no bolsinho de fora para mostrar que sabe ler, óculos de tartaruga, preto, que nem embaixador dc Gana. Este não quis dizer o nome, mas, com sua cara de bedel do tempo do Império, só pode chamar-se Tibúrcio. Solteiro, 52 anos. Ficou nervoso quando foi entrevistado, enrolando mil vezes a gravata enquanto pensava cada resposta. Cantor preferido é o Nelson Ned e, quando pergunto por quê, responde com muita dignidade:

- A senhora sabe, além de ter boa voz, eu gosto dele porque ele representa um dos Estados do nosso querido Brasil (??? ) . Pois é, aqui na Guanabara nós somos assim, altos e fortes... Deve existir por ar algum Estado em que os habitantes sejam assim desse tamaninho, não é? O Brasil tem tantos Estados... ele deve ser de algum, por isso é que eu gosto dele!

O surrealismo da resposta fica por conta do ardor patriótico.

OS ELEMENTOS CONTRA O CHACRINHA

Segunda-feira, 6 horas da tarde. Todos já acordaram de sua viagem. A doméstica-cinderela, que foi para o trono no domingo já está de volta ao seu borralho. O calouro já devolveu o paletó de lamé e come de sua marmita fria, sentado entre os tabiques da obra. O solitário tem agora nas mãos um pedaço de papel que é e desamassa com carinho: é um número de telefone.

Enquanto isso, os comandantes se reúnem para fazer um balanço da batalha. Chacrinha, Napoleão dos auditórios, discute com seus assessores o programa da véspera. A pesquisa do IBOPE (quinhentos cruzeiros por semana) indica números menores que os esperados. Muito menores. O Chacrinha perdeu para o Flávio Cavalcanti!

- Mas, não é possível, o programa ontem estava sensacional! Nós tínhamos todos os trunfos!. . . Por quê? Por quê?. . .

Afinal, alguém descobre: foi a chuva. Quando chove, no subúrbio as televisões são desligadas porque seguro morreu de velho e ninguém quer receber um raio na sala de visitas. Nessas horas, o melhor é desligar tudo, queimar palha benta e rezar para Santa Bárbara. A audiência do Flávio se concentra na Zona Sul, onde a chuva não é capaz de provocar nenhum acesso de religiosidade. E eles ficam um pouco consolados em saber que o Chacrinha não perdeu para o Flávio, mas para a meteorologia, que não dá para prever.

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