Wednesday, July 25, 2012

1970 - O Futuro da Novela

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 21/10/1970
Autor/Repórter: Valério Andrade
OS CAMINHOS DA NOVELA 
 
Lançada pela Rádio Nacional, em junho de 1941, a novela conquistou o país de supetão, passando imediatamente a figurar entre os hábitos diários de milhões de brasileiros.

A novela radiofônica foi, durante anos e anos, a canalizadora romântica de uma platéia que não encontrou no cinema brasileiro a alternativa da ilusão. A voz substituiu a imagem, que, em países cinematograficamente desenvolvidos, conquistava o coração do público através dos símbolos físicos dos astros e estrelas.

A VOZ DE OURO

Na impossibilidade prática de criar a sua própria fábrica de sonhos, com atrizes e atores nossos, o cinema nacional jamais conseguiu impor-se como amante, pois, desde cedo, foi passado para trás pelo rival estrangeiro. O máximo que conseguiu foi, eventualmente, furar o bloqueio às custas do carnaval e do humorismo.

A novela conseguiu o milagre de canalizar os anseios ocultos da alma feminina. Para tanto, bastava uma bela voz. A imaginação tratava de criar a imagem idealizada secretamente, enquanto o texto retirava do infinito arsenal romântico as fórmulas almejadas pelos corações ingênuos.

A TIRANIA DA IMAGEM

Com o advento e a expansão geográfica da televisão no Brasil, pouco a pouco, e em relação direta ao seu progresso, o rádio foi perdendo o encanto e a condição de conquistador. Envelheceu. Deixou de ser o amante ideal. Adaptou-se à nova realidade, enquanto, simultaneamente, mostrava-se impotente para concorrer com o rival que acrescentava à voz a beleza física.

Era flagrante que a novela teria de dar fatalmente certo na televisão. Pois, na realidade, o grau de exigência do grande público se manifestava apenas quanto à questão fundamental da imagem, enquanto, do ponto-de-vista intelectual, permanecia inalterado e emocionalmente faminto de emoções. Por isso, anos após a consagração radiofônica, o delírio provocado pela xaropada mexicanizada de O Direito de Nascer voltou a repetir-se no vídeo.

A brutalidade da realidade cotidiana transforma cada telespectador num fugitivo alquebrado, que, por uma infinidade de fatores psicológicos, costuma recorrer ao refúgio da telinha branca tal qual um viciado ao vício. Por outro lado, em termos físicos, a TV oferece o comodismo que o cinema e o teatro, com o conseqüente deslocamento geográfico e exigência material (ingresso), não estão aptos a oferecer.

A DOSE DIÁRIA

A telenovela atende a todas essas necessidades e, ainda por cima, mantém o telespectador em permanente estado de expectativa emocional. Esse golpe é velho, tendo, nos tempos do folhetim, a sua eficácia comprovada definitivamente.

E, muito antes de chegar à televisão, sequer dela existir, a fórmula da narrativa fragmentada fora testada com retumbante êxito pelo cinema. O sucesso que o velho Alexandre Dumas conseguira obter nos jornais, através de suas aventuras de capa e espada, os roteiristas de Hollywood lograram repetir em todas as latitudes da aventura e da imaginação.

Embora a televisão brasileira não disponha dos recursos técnicos e econômicos de Hollywood, e não tenha alcançado o nível de diversificação temática e ambiental dos seriados, vem usando com eficiência a sua técnica, que, acrescentada à experiência local da fórmula radiofônica, vem dando novo sabor ao espetáculo, e, conseqüentemente, aumentando a ansiedade em torno da dose diária.

1988 - Telejornalismo

Revista Visão
Data de Publicação: 13/4/1988
Autor/Repórter: Dilson Osugi
NA ESPERANÇA DE UM ÍNDICE MELHOR
As emissoras decidem investir ia busca do melhor jornalismo.

O jornalismo está em alta na televisão brasileira. Trava-se nos bastidores das pequenas e grandes redes um verdadeiro tour de force por suas estrelas mais brilhantes e busca-se resgatar, com força e vigor, a reportagem investigativa. Prova desse apetite é o investimento que as redes de televisão estão fazendo em suas programações, dedicando cerca de oito horas diárias ao jornalismo. O duelo vem sendo travado, na verdade, desde o final do ano passado, quando as redes ensaiavam os primeiros passos de sua programação de 1988.

De cara, a Rede Bandeirantes transformou seu departamento jornalístico em superintendência com ampla autonomia, como garante o superintendente Fernando Barbosa Lima. "Com essa iniciativa, a Bandeirantes ousa criar dentro da emissora uma outra empresa com toda a infra-estrutura necessária para dar à notícia tratamento profundo e criativo. Pretendemos colocar no ar cerca de oito horas de jornalismo diariamente, envolvendo informação, entrevistas, debates, prestação de serviços e reportagens investigativas, tanto em âmbito nacional quanto internacional."

Concorrência acirrada - Se a Bandeirantes cria uma nova empresa dentro da emissora, o Sistema Brasileiro de Televisão, do empresário - e agora político - Sílvio Santos, também promove suas mudanças e contrata, numa única tacada, dois profissionais do jornal O Estado de S. Paulo para comandar o setor de jornalismo: Luiz Fernando Emediato e Marcos Wilson. Eles garantem que a emissora vai fazer grandes investimentos e apresentará uma programação renovada a partir de julho: "No momento, estamos procurando comprar equipamentos, formar estrutura básica, planejar os novos programas e contratar uma equipe competente de novos ou já experientes", explica Emediato.

Descobrindo a importância do público paulistano, a Rede Manchete direciona sua nova programação artística para São Paulo, criando programas e tentando contratar profissionais pesos pesados que desfilam seu talento por outras emissoras, como Augusto Nunes, de O Estado de S. Paulo e TV Cultura, e Nei Gonçalves Dias, da Bandeirantes. Em sua nova programação, a Manchete colocará no ar dois programas específicos que serão produzidos em São Paulo e transmitidos por toda a rede, abordando principalmente a investigação jornalística e o debate, que ocuparão parte da manhã e deverão desenvolver um trabalho mais amplo por meio de sua sucursal de Brasília, especialmente após a perda de Alexandre Garcia para a Rede Globo. Esta, por sua vez, com a queda de audiência do seu Globo Repórter, às quintas-feiras, mudou-o para sexta, explorando temas de maior profundidade e interesse. E este mês estreou o polêmico e criativo Garcia no Jornal Nacional e no Fantástico, com a missão de revelar grandes segredos brasilienses. Além disso, transferiu diversos profissionais do seu Departamento de Jornalismo de São Paulo para outros pontos da rede e procura "roubar" das emissoras concorrentes trunfos que podem comprometer sua liderança.

Pequenas, mas criativas - Enquanto as grandes redes investem fortunas para conquistar alguns pontos de audiência, as emissoras locais, Gazeta e Cultura, apostam na criatividade para agradar a seus telespectadores mais fiéis e atrair novos. A TV Gazeta apostou também na juventude e lançou alguns programas dirigidos a essa faixa no final do ano passado, que gradativamente vêm conquistando preciosos pontos e revelando profissionais talentosos. Mas ela quer mais, como assegura o diretor de Programação, Marcelo Machado. "A emissora apresentava uma programação ultrapassada e pretendia uma renovação e reciclagem. Foi reunido um conselho para discutir o assunto e ele chegou à conclusão de que tudo precisava ser feito com urgência, voltando sua programação a um segmento mais crítico e inteligente da população. Lançamos inicialmente o TV Mix, o Paulista 900 e recuperamos antigas séries. O resultado é que o retorno nos surpreendeu, pois percebemos que há um público exigente, inteligente e ávido por informações apresentadas, sempre, com muito talento."

A TV Cultura ousou um pouco mais. Aproveitou a Lei Sarney e buscou na iniciativa privada a fonte de inspiração para a realização de seus projetos jornalísticos mais ambiciosos. Contratou Carlos Nascimento, repórter da Globo, para ser o anchorman de seu mais importante telejornal, e os competentes Renato Faleiros e Mona Dorf, da Globo e Manchete, respectivamente. "Tínhamos um jornal noticioso que competia com as grandes redes nacionais e chegamos à conclusão de que precisávamos fazer algumas modificações. Nossa primeira decisão", diz Roberto Muylaert, superintendente da Fundação Padre Anchieta, responsável pela emissora estatal, "foi passar nosso mais importante telejornal, o Jornal da Cultura, para as 22h30, tornando-o muito mais opinativo e interpretativo, dirigindo-se a um público mais específico. Ele será dividido em três partes: noticioso, opinativo e investigativo. Outra novidade é o programa Metrópolis, lançado nesta semana e que se preocupa principalmente com a análise e a observação da produção cultural. Além disso, mantemos a estrutura básica de nossos programas de maior sucesso: Roda Viva e O Advogado do Diabo."

Duelo de titãs - Enquanto as emissoras menores vão definindo as novas programações e anunciando boas contratações, as grandes redes mostram certa incapacidade para encontrar talentos. A Manchete, por exemplo, ameaça levar para seu time Carlos Nascimento, recém-contratado pela Cultura, e está de olho em Augusto Nunes, recém-contratado pelo "Estadão" e pretendido pela Rede Bandeirantes, além de acenar com uma proposta tentadora ao apresentador Nei Gonçalves Dias, que acaba de renovar seu contrato com a emissora do Morumbi. Nessa corrida, tropeços são inevitáveis. O problema mais recente aconteceu entre a Bandeirantes e a atriz Lala Deheinzellin, que, pela vontade da emissora, seria transformada em apresentadora do Jornal de Vanguarda. No entanto, a TV Globo ofereceu-lhe um papel de destaque na sua próxima novela das 20h00, Vale Tudo, cuja trama vem sendo desenvolvida por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. E a Bandeirantes ficou a ver navios.

Mas, ao que parece, a grande novidade do jornalismo televisivo será o lançamento do Jornal do Meio pela TV Bandeirantes. Trata-se, na verdade, de uma reunião de pauta ao vivo, com editores discutindo os principais temas do dia, mostrando aos telespectadores como se faz um jornal. Seu comando ficará por conta de Fernando Mitre, ex-Jornal da Tarde e revista Afinal. Além dos editores de Economia, Política, Esportes, Cidades e Cultura, serão convidados a participar dessas reuniões editores de outros jornais e revistas com a intenção clara, como observa Barbosa Lima, "de prender a atenção dos telespectadores". "Assim, eles ficarão atentos durante toda a programação para ver o noticiário completo do dia. De acordo com a importância dos fatos, avisaremos os espectadores em que programa verão a reportagem completa. Afinal, nada informa melhor do que uma reunião de pauta, em que os assuntos são tratados com desembaraço e informalidade." Outro programa em que a emissora aposta alto cacife é o Jornal de Vanguarda, que busca um público mais sofisticado e inteligente. "Vamos conquistar o telespectador que sabe compreender o mundo de hoje e ver o de amanhã."
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1976 - TV Silvio Santos

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 12/6/1976
Autor/Repórter: Maria Helena Dutra
VÃO TER QUE EXPERIMENTAR MUITO MAIS 
 
Fatigado das qualidades e defeitos da Rede Globo de Televisão, o espectador carioca sentiu renascer a esperança das sonhadas opções ao ser informado que este ano teria mais dois canais de televisão mesmo que fossem em caráter experimental apenas. Há algum tempo ele apenas assiste à Rede Globo porque esta tem um padrão aceitável em sua programação artística e informativa e uma excelente transmissão técnica. Mas o seu virtual monopólio de audiência deriva muito mais da falta total de concorrência do que destas suas qualidades. O público vem gradualmente abandonando a Rede Tupi porque esta apenas lhe oferece um jornalismo amador, novelas em slowmotion involuntário, nada além de dramalhões em câmera lenta, e seus programas humorísticos e musicais são francamente anacrônicos. E para cada especial de rara qualidade, como a Série Universo 76, há um eterno concurso de Miss Brasil para compensar.

A outra velha opção, completa 21 anos em julho próximo sem festas ou comemorações, é a vacilante TV Rio que o público não mais assiste para não chorar de piedade. Quando ela consegue ir para o ar, superando problemas de equipamentos penhorados por falta de pagamento, sua imagem corre mais que ladrão porque é gerada por equipamentos tropegos e não recebe a iluminação devida por falta de tampadas. Os programas ao vivo dependem do talento, quase sempre nulo, de quem comprou seus espaços ou o recebeu como fórmula de pagamento de antigas dividas. Filmes e enlatados são repetidos a exaustão porque fazem parte de único pacote que sobrou na estação e não há com substituí-los devido, evidentemente também, as elevadas dívidas com as empresas distribuidoras.

Este constrangedor panorama faz que o carioca procure com sofreguidão qualquer novidade em termos de televisão. Iguais porém a taxa de lixo e o depósito compulsório para as viagens ao exterior, as transmissões experimentais dos dois canais - o dois, TV Educativa e o 11, TV Sílvio Santos - não foram novidades muito felizes. A mais antiga destas experimentações, a Educativa, tem até programas defensáveis como alguns especiais, mas padece de um mal impossível de ser aceito numa estação de estrutura estatal e de objetivos determinados até pelo seu nome. Só que a Educativa até agora não apresentou uma personalidade definida e nem um sinal de adoção de uma política educacional e cultural destinada a prestar um serviço especifico e criar uma audiência constante.

É possível aceitar programas improvisados e gratuitos da televisão comercial que se serve de qualquer recurso para conseguir público e anunciantes, mas não se pode concordar com este tipo de picadinho servido por uma estação possuidora de um telecentro que há anos produz programas educacionais, que a lei obriga a serem transmitidos por estações comerciais, e se prepara há cerca de cinco anos para ocupar um canal próprio. A maioria dos seus programas de entrevistas, por exemplo, parece ser feita sem ensaios e com pessoal desinformado. Lembram penosamente as mesas-redondas da antiga e falida TV Continental. A um padre pergunta-se o que é um coelho de Páscoa, a um cantor popular, Cauby Peixoto, se faz a grave acusação de pagar a fãs para desmaiar e não lhe, permite resposta., exatamente como nos antigos programas de Flávio Cavalcanti. Note-se que o entrevistador, no, era Mister Eco, originário desta maneira de fazer televisão. Estas tolices são incompatíveis com a educação e até mesmo com a competência profissional. Um dado patente ao iniciarem a retrospectiva de filmes do cineasta brasileiro Humberto Mauro pela sua última realização. Um desastre didático, sem dúvida alguma, pois só a obediência cronológica pode esclarecer o julgamento da evolução artística. Além disso, a metade de seu pequeno horário experimental é dedicada ao futebol como se fosse o único esporte praticado no Brasil e tratado também como única fonte de interesse do brasileiro e sua maior realização coletiva ou individual. E agora, ainda, repetem a telenovela educativa João da Silva, vista pelos responsáveis da estação como a melhor realização educacional da TV no país. Até pode ser, ela rendeu muito bem em termos de auxílio ao Mobral, mas, ao ser revista, lembra demais as paródias de Jô Soares sobre novelas culturais. Repetimos, porém, que todos os pecadinhos poderiam ser perdoados se a estação revelasse qualquer linha definida sobre educação e cultura. Sem isso, ela não passa de uma estação igual às outras onde apenas faltam os comerciais.

Se a Educativa é difícil de entender, é absolutamente incompreensível a fase experimental da TV SS. Uma sigla muito antipática para aqueles que têm boa memória, e que não está agradando nem aos desmemoriados que começam a desconfiar do famoso tino comercial de Sílvio Santos. Em menos de sete meses, ele colocou sua estação no ar em recorde difícil de ser igualado por qualquer outro concessionário. Só que para nada, como o gaúcho do poema famoso de Ascenço Ferreira que botava espora, montava no cavalo "pra quê? pra nada". É impossível descobrir o sentido de exibir enlatados produzidos há duas décadas e já transmitidos por outros canais. Inclusive utilizando uma forma que é difícil até para explicar. Eles passam em três sessões, numerando suas partes no canto direito e em cima da tela, para poderem ser assistidos outra vez por quem perdeu algum de seus trechos. Só que não se divulga e nem ninguém sabe os horários fixos de exibição de cada trecho e por isso o filme tem que ser assistido todo outra. vez para se descobrir o pedaço perdido. Um complicado quebra-cabeça a ser cometido apenas para rever Shirley Booth como empregada em enlatado ancião. Exercício que, o público já entendeu, não vale a pena ser sequer tentado ou mesmo entendido. Ao vivo, a SS tem apenas o Sílvio Santos Diferente, igual aos antigos programas de debates de Flávio Cavalcante com júri e tudo, onde se discute, no mesmo tom e com igual desfaçatez, problemas de sexo ou se faz mal ou não tomar banho depois das refeições. Fora disso, resta Ronald Golias num tal de Bacará 76 que faz o público sentir saudades ou considerar Renato Aragão um gênio de comicidade e o próprio Flávio Cavalcante ressuscitado e ressuscitando Um Instante Maestro cada vez mais chocho. Sem entrar nos méritos da discussão do valor artístico de Sílvio Santos, acreditamos que sua estação não poderia ter optado por um pior caminho experimental. Até o momento, ela não consegue sequer a ser uma estação igual às outras.

1980 - Vera Fischer Sensual?

O Globo
Data de Publicação: 31/8/1980
Autor/Repórter: Artur da Távola
PARA VOCÊ VERA FISCHER PASSA SENSUALIDADE OU ? 
 
Sensualidade, Afetividade, Segurança, eis os três elementos que conflitam no ser humano, inevitáveis e sempre em busca de equilíbrio. Tenho escrito muito a respeito, pois desde que me ocorreu fazer esse enfoque, muitos temas ligados à figura de comunicação dos atores, personagens etc. ficaram claros, mais fáceis de definir.

Vera Fischer, ora em grande evidência com "Coração Alado", é uma figura curiosíssima de ser analisada por esse ângulo. Sendo uma mulher muito bela e tendo vindo de um começo como Miss Brasil, foi levada a passar pela dura realidade dos que a queriam nos elencos como objeto sexual. Ela chegou ao estrelato depois de bastante esforço e de provas de sua segurança e talento como atriz, hoje inconsteste.

Do ponto de vista dos signos externos, portanto, seja pela beleza, seja pelas formas, Vera Fischer emerge conotada

com o elemento sensualidade. Ocorre, porém, um fato contrário enriquecedor: a figura de comunicação dela não tem dominante na sensualidade. Tem-na, na segurança! Claro, uma sensualidade normal está presente, mas quem observar os signos dominantes verificará que, atriz tem na segurança o seu elemento básico. Ela passa segurança na relação afetiva ou seja, dependência de compromissos assumidos, fidelidade e outros elementos mais ligados ao dado segurança que ao irriquieto dado sensualidade.

Dá-se, então, o riquissimo fenômeno de uma figura de comunicação conotada (aparentemente) com a sensualidade, mas a rigor passando mensagens de segurança, dai seu atual personagem e o comportamento cênico de todas as criações que fez. Daí, a vida privada discreta e morigerada da atriz. Ela é um dos mais curiosos fenômenos de símbolo de beleza e sensualidade cujo elemento dominante é a segurança. Caso raro.

1972 - O Colorido em Preto e Branco

Revista VEJA
Data de Publicação: 7/12/1972
A NOVELA DA COR 
 
A primeira novela em cores da televisão brasileira é em preto e branco. A segunda também. Durante muitos dias, em outubro, a Tupi de São Paulo anunciou com estardalhaço o seu lançamento pioneiro. Mas, quando "A Revolta dos Anjos" foi vara o ar no começo de novembro (VEJA nº 219, de 15-11-72), os decepcionados telespectadores constataram que seus ídolos continuavam tão cinzentos quanto antes: o equipamento especial para gravação colorida não havia chegado e a emissora resolveu gravar a novela com o que tinha à mão. Agora, com a promessa de mudar o sistema assim que chegar o novo equipamento, os fiéis seguidores da novela acrescentaram mais um ingrediente à alquimia dos suspenses regulares: o momento em que as cores dos dramas e alegrias se derramarem sobre a tela como num velho filme de Walt Disney.

Na semana passada. com todo o equipamento necessário, e sem espalhafato., a Rede Globo começou a rodar, em Salvador os primeiros capítulos em cores de "O Bem Amado", de Dias Gomes, com Paulo Gracindo, Jardel Filho e Itala Nandi - uma novela para substituir "O Bofe" e talvez produzir um novo Tucão. Gracindo, outra vez de terno branco e chapéu, como o seu famoso personagem de ''Bandeira 2", desta vez é Odorico, um matreiro coronel do cacau, envolvido numa luta política entre as poderosas famílias da imaginária cidade de Sicupira. Viúvo, vive às voltas com o assédio insistente de quase todas as moças casadoiras do lugar.

Corrida - Mas os poucos proprietários de receptores coloridos terão ainda de se conformar em assistir em preto e branco as periódicas tribulações de seus bem-amados atores. A novela só será exibida em cores para os próprios técnicos da estação, numa espécie de curso interno de aperfeiçoamento.

Desde o início, preocupada com a televisão em cores, a emissora redobrou os cuidados em relação ao seu uso nas telenovelas, os milionários carros-chefe de sua programação. "A Globo preza muito os altos índices do Ibope conseguidos com a programação em preto e branco e não Pretende se aventurar em um terreno ainda pouco conhecido", explica Daniel Filho, coordenador da central de telenovelas.

Para uma TV acusada freqüentemente de improvisação, essa preocupação pelo planejamento é, no mínimo, surpreendente, Mas, bem aproveitadas, suas lições podem ser fundamentais no futuro. Na primeira semana de experiencias, a Rede Globo já comprovou duas diferenças importantes entre os dois processos de filmagem: a gravação e o acabamento em cores exigem muito mais cuidado e levam o dobro do tempo para serem executados.

Daniel Filho explica: "A cor requer uma movimentação de câmaras muito mais precisa e Planejada. Os ensaios têm de ser mais demorados. Os interiores, mais bem cuidados, e a escolha de exteriores feita a dedo, pois qualquer imperfeição não passa despercebida como no Preto e branco. E a maioria dos cenários tem de ser construída em alvenaria porque a artificialidade da madeira fica evidente num vídeo colorido".

Experiência - Se uma câmara em preto e branco leva meia hora para ficar pronta, as moderníssimas Schnneider que a Globo levou a Salvador precisam de uma hora e meia de ajuste antes da gravação. E as cenas em cor, repetidas numa média de seis vezes por tomada, gastam mais do dobro do tempo necessário para as filmagens em preto e branco. A gravação da última cena feita na Bahia (Gracindo em um candomblé entregando flores a um pai-de-santo) exigiu três horas de tomadas para uma seqüência que na montagem tomará apenas alguns minutos. Em branco e preto ela poderia ser feita em uma hora apenas. Assim, a média de seis capítulos em três dias, conseguida com o preto e branco, cai à metade.

"Isso é ótimo para o meu personagem, o Odorico", afirma Paulo Gracindo. De fato, com gravações mais demoradas, os atores têm tempo para estudar seus papéis e preparar melhor o personagem - aliviados da correria das gravações convencionais. "Além disso", diz Gracindo, "a novela em cores vai valorizar as paisagens e os personagens. É como um Postal em cores e outro em preto e branco - o colorido é o que todo mundo compra. E, como uma coisa puxa outra, acho que a novela em cor será a grande responsável pelo incremento nas vendas de aparelhos coloridos."

Por enquanto, porém, para a Globo, o resultado de sua experiência é tão imprevisível quanto os caminhos da novela condicionados Pelo Ibope. 'A única coisa certa é que estamos fazendo uma experiência que pode ser bem ou mal sucedida", diz Daniel Filho. "O que queremos saber com 'O Bem Amado' é se a novela em cor é economicamente viável. Se for, quem sabe, essa novela mesmo pode ir ao ar. Mas só se tudo correr muito bem, porque mais vale um Ibope em preto e branco do que um fracasso colorido."

1986 - Concessão para a Abril

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 4/1/1986

ROBERTO CIVITA DIZ QUE CONCESSÃO DE CANAL DE TV FOI UM BOM PRESENTE 
 
São Paulo - Com surpresa, mas considerando ter recebido "um interessante presente de ano novo", o diretor da Editora Abril, Roberto Civita, informou ontem que ainda não foi definida a linha de programação para o canal de TV em UHF, concedido à Abril Vídeo, que funciona como divisão de televisão da empresa.

- Mas isso será conversado nos próximos dias, com várias pessoas, especialmente com o diretor da Abril Vídeo, Roger Karman, que está passando férias no exterior - acrescentou.

Roberto Civita não lembra detalhes do processo de licitação: "ela foi feita em 1984, envolvendo outros 11 ou 12 concorrentes e nunca mais ouvimos falar nada", mas garantiu que a Abril atenderá aos requisitos da concessão assinada pelo presidente José Sarney no último dia 30, elaborando um projeto de programação em seis meses.

- Isso não é problema. Só não sei ainda o que vamos colocar nesse programa. Fomos apanhados de surpresa e ainda teremos que analisar o assunto para dar a melhor destinação à emissora - observou.

A Abril, de acordo com o decreto de concessão, terá dois anos para colocar a emissora no ar, mas isso poderá fazê-lo na metade desse tempo, já que a Abril Vídeo reuniu boa experiência durante os dois anos e meio em que alugou espaço na TV Gazeta até novembro último, quando não houve acordo para renovação do contrato. No momento, depois de ter dispensado cerca de 70 funcionários, a Abril Vídeo dedica-se à produção de comerciais e planeja produzir programas especiais a partir de uma nova sede no bairro de Pinheiros.

A empresa terá que importar novos equipamentos, específicos para a faixa de UHF (ultra high frequency) e, dependendo da definição quanto à linha de operação, a instalação da nova emissora custará um mínimo de um milhão de dólares. Em princípio, a área de abrangência do canal se limitará à cidade de São Paulo, diferentemente dos canais comuns que atuam em VHF (very high frequency). Mas a empresa poderá solicitar novas concessões para retransmitir sua programação a outros estados.

Roberto Civita não quis confirmar o retorno dos profissionais dispensados pela Abril Vídeo em novembro: "não dá para fazer televisão ou qualquer outro veículo de comunicação sem gente, mas primeiro teremos que ver em que direção vamos atuar para então definir o tipo de profissionais necessários -afirmou.

1977 - Estado do Jornalismo Televisivo

Jornal do Brasil
Data de Publicação: 28/9/1977
Autor/Repórter: Maria Helena Dutra
NOVIDADE: TELEJORNALISMO JÁ TEM NOTÍCIA
Todas as estações de televisão do Brasil são obrigadas por lei a ter, no mínimo, 5% de seu tempo destinados ao noticiário. Telejornalismo portanto, não é uma opção de entretenimento ou improvisado arrasta-pé para tapar espaços, mas sim um dever imposto ao veiculo para ter razão de existir. Em se tratando, porém, de informação diária, que hoje abrange tudo o país pelo contínuo aumento do número de estações regionais que transmitem notícias geradas pelas três redes nacionais - a Globo principalmente, mais a Tupi e agora a Bandeirantes iniciando sua expansão - esta prestação de serviços embora esteja agora mais bem cumprida ainda apresenta graves deficiências.

A maior deles é a irrefutável verdade de estar unicamente na Rede Globo um telejornalismo com bases profissionais. As outras estações, nacionais ou municipais, operam com equipamentos obsoletos, crônica falta de recursos e pessoal sacrificado. Nesses padrões, não há a menor oportunidade de trabalho sequer porque em nossa atual televisão é impossível partir para soluções nanicas - isto é, oferecer alternativas pobres mas plenas de inventiva, estilos pessoais ou coragem política em telejornalismo. Ao contrário do que aconteceu com a imprensa, o sufoco da férrea censura prévia e posterior não permite no momento qualquer ousadia ou inéditas noticias que compensem ou façam esquecer o amadorismo reinante. Esta situação é plenamente visível, por exemplo, na nada estimulante cidade do Rio de Janeiro,

Seu Canal Dois, a Educativa, mostra primário telejornal Repórter, às 9h da noite. O esforço é pungente e a equipe deve ter as melhores intenções do mundo, mas o resultado é nulo. Amontoados em torno de pequena mesa, meia dúzia de jornalistas têm poucas imagens - e na maioria antiquíssimas, de arquivo - para se apoiar. Então, falam muito, mas não escondem a penúria de informações, reportagens e a pequena liberdade que têm para dizer as coisas numa emissora oficial. Apesar de todos os esforços, é mesmo um Diário Oficial mimeografado. A Tupi tem compactos (Agora) totalmente radiofônicos porque a imagem constante é o visual do locutor, e um Grande Jornal, às 20h40m. Este só cobre cerimônias previamente anunciadas no país e no mundo, noticias não pautadas são demais para a sua agilidade de paquiderme. A TVS, que chegou a ser multada pelo Dentel por não cumprir a lei dos 5%, Improvisou um fugaz Plantão Onze, 10 edições diárias com medos de cinco minutos cada uma, também de base radiofônica. A TV Guanabara ainda não pôde ser avaliada por ser muito recente, mas até agora não demonstrou ter muitos recursos técnicos para apoiar o bom trabalho dos repórteres e insiste em apresentadores antipaticamente super formais.

Resta então a Globo que tem uma hora e meia diária de telejornalismo. Este já foi o saco de pancadas preferido daqueles que abominam seu "padrão de qualidade'' por caracterizá-lo muito bem. A imagem bem comportada, editada e limpa sempre predominou sobre qualquer conteúdo e seus locutores, inclusive os quase perfeitos Cid Moreira e Sérgio Chapelin, levavam as sobras por personificarem, dentro de ternos coloridos e sob penteados absolutamente impecáveis, toda esta filosofia e culto. A única defesa era a correta utilização da parafernália técnica, os filmes recentes, o belo serviço internacional e o maior, apesar de mau pago, mercado de trabalho para jornalistas na televisão. Muito pouco, porém, para compensar a procurada irrelevância das notícias e representar o trabalho de respeitáveis nomes de suas equipes.

Atualmente, este panorama não sofreu radicais alterações. Mas há evidentes vestígios de tentativas de melhores desempenhos, mesmo em doses homeopáticas, nestes últimos dois meses. Politica voltou a existir e a empáfia está gradativamente sendo substituída por noticias e, pelo menos, a edição otária de Painel é um programa obrigatório para quem quer se informar. Uma observação que nunca, pôde ser feita antes para os telejornais diários da estação.

Eles agora são seis e pertencem a um núcleo, fixação da Globo, que tem no topo Armando Nogueira, diretor da Central Globo de Telejornalismo, Alice Maria, diretora da Divisão de Telejornais, Nilson Viana, secretário de redação, Luis Edgar de Andrade, produtor especial e José Carlos de Andrade, editor de reportagem. O Globinho, editado por Fernanda Marinho, tem duas edições diárias de cinco minutos dedicadas a crianças. Notícias, reportagens e serviços são bem dosados, escritos e apresentados e por isso formam um bom programa. Nada brilhante, mas bem correto. A 1h da tarde, editado por Célia Maria Ladeira chega o Hoje. Não há explicação plausível para ter reduzida a equipe e menos primor técnico porque, embora fora da faixa nobre, tem audiência média de 20 pontos no IBOPE e muitos dias chega a pique de 30. Para esse enorme número de pessoas no horário, o jornal oferece notícias ralas, mas uma cobertura apreciável das artes, shows e esportes da cidade. Sua prestação de serviços também é de boa qualidade. Já foi mais imaginativo e testemunhou melhor as formas diferentes de comportamento, mas permanece necessário como complementação obrigatória da leitura dos jornais da manha.

As 19h40m é que nada muda. O Jornal Nacional, editado agora pela própria Alice Maria, prossegue temeroso nas notas e precioso demais nas imagens. Continua a se perder nos supérfluos e a esconder o essencial. A cantora lírica Maria Callas não têm menção no texto, apenas faleceu o caso de Onassis. Erros municipais ainda podem, federais nunca. Toda autoridade de Brasília é infalível e única, como o Ministro João Paulo dos Reis Veloso, que deve ser o recordista, a fornecer entrevistas e respostas. Só que para perguntas e críticas nunca noticiadas. E' óbvio que a censura externa é feroz, mas os cuidados internos são maiores. Representantes do MDB, D Pedro Casaldáliga e outros sacerdotes, cientistas, estudantes e projetos de anistia não existem no Brasil global nesta hora de maciça audiência. Tudo aqui são flores, nós e desenvolvimento.

Dois minutos apenas tem o Jornalismo Eletrônico, editado por Renato Kloss, às 21h50m. Não tem muita razão de ser, porque jamais dá um furo ou nos oferece algo instantâneo que justifique o pomposo título. Às 22h35m vem maiorzinho, mas não muito, pois tem apenas 12 minutos, o Amanhã, editado por Carlos Castilho. O problema aqui é falta de maior caracterização do telejornal. Espremido entre os Nacional e o Painel, Amanhã nem é noticioso, nem tem tempo para aprofundar qualquer matéria. Assim indefinido, se limita a localizar gente, sobras locais e muita coisa internacional. As frases da semana, na sexta-feira, acabam por isso se tornando sua melhor atração. As 23h55m e com 18 minutos de duração, a Globo finaliza o dever diário com seu melhor programa da atualidade: Painel. Editado por Ronam Soares, vem apresentando reportagens maiores, excelentes entrevistas feitas por Oto Lara Rezende e notícias realmente atuais. A situação política ganha honras de belas matérias, como aquela realizada sobre o famoso diálogo com os principais lideres dos dois Partidos, e os assuntos do momento merecem cuidadoso tratamento de imagem e texto como aquele realizado sobre a morte de Cláudia Lessin e o problema dos tóxicos. As entrevistas de estúdio têm disparatado nível, mas qualquer falha é insignificante perante o retorno desta saudável prática na estação. Os tapes esportivos em cima dos fatos e a agilidade de repórteres e cinegrafistas caçando o Coronel Erasmo Dias em meio à passeata de estudantes paulistas, entre outros bons trabalhos apresentados, demonstram que, pelo menos neste horário, a noticia e seus significados são mais importantes que os padrões e as formas coloridas mutiladas e friamente editadas.

Mesmo sendo apenas para notívagos, Painel é um digno e competente trabalho profissional. Um exemplo, que esperamos seja imitado pelas estações concorrentes, do dever agora realmente bem melhor e mais honestamente cumprido.

1968 - O Velho Guerreiro

Revista: Manchete
Data de Publicação: 5/9/1968
Autor/Repórter: Ana Maria Rebouças
VOCÊS QUEREM BACALHAU? 
 
Comunicação. A palavra tomou conta do mundo inteiro e uma verdadeira corria foi iniciada. Chacrinha mantém, com toda tranqüilidade, a liderança da disputa. O povo gosta dele e entra na onda com todo entusiasmo. O que acontece, paralelamente, nos bastidores dos programas é uma outra conversa. Uma loucura total, um corre-corre sem fim. E os personagens vão surgindo, de todos os tipos, até o caos. Pois todos querem, por vários motivos, participar, aparecer. Querem o seu momento de glória, não importa como. E as histórias se sucedem, as situações mais absurdas vão sendo criadas.

A mulher que tem a maior cabeleira do Brasil se agita toda, numa espécie de dança-de-são-guido ritmada. A galinha que dá cambalhotas, saracoteia pelo palco enquanto os anõezinhos circunspectos, que querem um sindicato, tentam desesperadamente fazer um discurso. Depois do black-power espera-se o mini-power. Nelson Ned, acompanhado de toda a família, inclusive o papagaio e o violão de estimação, entoa uma canção para as delicias do auditório, ávido de ternura enlatada. Os cameramen correm de um lado para o outro, fazendo milagres para não focalizar o senhor distinto que pulou no palco e quer dar um beliscão na pernoca da chacrete. Um português nervosinho esquece as armas e os barões assinalados e dá broncas camonianas na fila irrequieta de calouros. No auditório, o operário nordestino paquera abertamente a doméstica do Encantado, enquanto um grupo de colegiais de uniforme balança faixas e berra gritos de guerra de dois em dois minutos. Um calouro furibundo tenta furar o cerco e invadir o palco, brandindo um jornal. Na primeira página, em manchete, sua foto e a legenda: Waldick Soriano Me Deu o Beiço. O lusíada, irritado, tenta conter o homem, que a essa altura berra mais que o cantor focalizado: Eu não sou calouro coisa nenhuma, me disfarcei para vir aqui e mostrar ao público quem é Waldick Soriano. Dou nele! Na platéia, não resistindo ao excesso de calor humano, uma fanzoca desmaia e tem de ser levada para o pronto-socorro (voltou assim que conseguiu abrir o olho). Diante dos refletores, a irmã de caridade conta como vendeu mil jornais na Rodoviária, enquanto distribui santinhos. Comandando tudo isso, rei do pequeno território que vai dos bastidores à platéia, passando pelo palco, Abelardo Chacrinha Barbosa vive a inconseqüência de sua Passárgada e, no fim do programa, acaba contraparente da nora que nunca teve.

O MEIO É A MENSAGEM

Alô, seu Noronha, já tomou vergonha? Alô, dona Maria, vai ficar para titia? Vocês querem bacalhau? Alô, gatinhas, alô, bodes, alô, cachorrões! E vários outros alôs!

Para criar toda essa confusão e dar ao público a oportunidade de irromper num acesso de miados, balidos e latidos de fundir a cuca de qualquer zoólogo, gasta-se, toda a semana, uma verba de 13 milhões, 8 milhões na quarta feira, com A Discoteca, e 5 no domingo, com A Buzina. A Discoteca sai mais caro, porque o prato forte são os artistas das paradas de sucesso que ganham cachês altos e viajam de lá para cá de Caravelle. Calouro sai de graça e garota bonita, para mostrar as pernas em concurso, por qualquer 50 cruzeiros se arranja por isso, no domingo, eles só gastam um pouco mais para pagar os prêmios.

Aliás, uma das mais importantes tarefas da equipe que trabalha para o Chacrinha é fica bolando cada semana novas apelações que dêem IBOPE: O que dá mais? Os soluços angustiados ou as declarações do morto-vivo do Espirito Santo? Isso se decide numas salas de pré-fabricado, armadas no terraço da TV-Globo, onde os papas da comunicação dão o que podem e o que não podem para saber quem vende mais. O mito Chacrinha é resultante das bolações da equipe. Desde suas caretas até suas fantasias, tudo é decidido em conjunto, num esforço coletivo que exige sangue, suor e lágrimas. Afinal de contas, tempo é dinheiro e eles são muito bem pagos para pensar. Perguntei: -Vocês têm tempo para vida particular? Eles me apontam a moreninha que entra e vai falar com o rapaz da mesa em frente. É a noiva dele. Quando a saudade aperta, ela vem aqui bater um papinho.

A flexibilidade da produção é grande, porque, além dos funcionários da TV Globo que trabalham na sua equipe, o Chacrinha ainda dispõe de assessores particulares. Uma parte da equipe se dedica à Discoteca, outra é responsável pela Buzina. Nalígia, simpaticíssima mulata, está com o Chacrinha há muito tempo. Sua marca registrada são os óculos enormes, cada dia com lentes de cor diferente. Parece que passa o tempo todo na base da ponte-aérea, caçando aquele cantor que vai dar IBOPE se cantar nessa quarta-feira, e fugindo daquele que quer cantar mas não dá pé. Vou ver se encaixo você na semana que vem ou talvez na outra, tá bem, querido? A regra é não dizer não definitivamente, nunca se sabe se aquele cara vai Estourar no Norte no dia seguinte! Portanto, calma.

O Ferreira, PUBLIC-RELATION, é o tal, capaz de fazer um Bonzo aceitar o convite para ser júri do concurso das mais lindas pernas do Brasil. Aliás, a barra fica pesada, quando se trata de escolher os jurados que vão julgar os candidatos ao trono de qualquer coisa.

O baixinho eficientíssimo - Achei! O Kiko, da novela! Ótimo para julgar a estudante mais bonita do Brasil.

Chacrinha: - Kiko! Quem é Kiko? Assim ninguém vai acreditar no meu concurso! A gente precisa de gente de gabarito, que enalteça o concurso.

O baixinho sabe o que diz:- O Kiko é ídolo dessas garotas. Ainda mais, tem a mesma idade que elas!

Chacrinha: - Um menino! Este é um concurso de âmbito nacional. Tem que ser alguém de responsabilidade!

Afinal, no dia da eleição da mais bonita estudante do Brasil, coube ao Secretário de Turismo, o Sr. Levy Neves, dar o cunho de responsabilidade a uma mesa de jurados que começava por Luiz Jasmim e ia parar em Tony Tornado, uma beleza.

Antes de qualquer outro talento, a equipe do Chacrinha tem que aprender a andar na corda bamba. Qualquer mancada, e pode rolar a cabeça de um. Houve um calouro que, inconformado de ter sido excluído pela equipe no dia da seleção, saiu de lá e foi cantar debaixo da janela do Chacrinha. Agradou e a equipe quase foi despedida por incompetência. No dia do programa, na hora da apresentação, a voz que tinha encantado o Chacrinha emudeceu de nervoso. A equipe quase foi despedida de novo. É uma corda bamba!

Por essas e outras, eles dizem que, se metade da semana ficam bolando tarefas do arco-da-velha para alguém realizar, a outra metade da semana ficam rezando para essa pessoa conseguir, senão... cadê o dinheiro pro leite das crianças? É de fundir a cuca.

A principal preocupação da produção é o telespectador. Ao auditório, batatas, quero dizer, as bananas, o mocotó, o bacalhau. E, tome de chacrete, de calouro e de concurso, que o povo fica feliz.

QUEM NÃO REBOLA, SE ATOLA

A ordem é rebolar, e elas levam o negócio a sério. Samba, bolero, rumba, tango, valsa vienense, elas rebolam em qualquer ritmo. Não é mole ser chacrete. A fórmula é simples: pernas grossas, um pouquinho de pano (para a censura não chiar) e muita resistência para agüentar duas horas do mais frenético rebolado. Originalmente, parece que elas eram mocinhas afáveis e simpáticas. Depois, quando viraram notícia e passaram a ser procuradas por repórteres, fotógrafos e sociólogos, resolveram ter consciência de classe e ficaram difíceis de aturar. Entrevistar uma delas requer coragem e muita paciência, pois, se ela não estiver de bom humor, o repórter vai encontrar um arzinho de ai-que-coisa-chata-ser-sexy e o tradicional passa-amanhã. Dizem que ficaram assim depois que os velhos babões da vida as transformaram em símbolos eróticos. A verdade é que em cada programa há uma meia dúzia de cavalheiros aposentados gastando toda a pensão em flores e cartãozinhos galantes. Seguindo a lógica da oferta e da procura, é muito compreensível que as chacretes tenham resolvido dar uma esnobada.

Sua função no programa é de pau-para-tôda-obra. Rebolam para desviar a atenção do público da mediocridade que está cantando, buscam os calouros nos bastidores e os entregam nas mãos do Chacrinha, levam os buzinados para fora e os aprovados para o trono (É ele? Vai ou não vai para o trono?) e fazem mágicas para encaixar a coroa no estranho emaranhado de cachos e laquê das cantoras vitoriosas. A coreografia não importa muito, o que importa é não parar nunca. Por isso, cada uma rebola como bem entende. Mas, cada uma tem a sua especialidade: ninguém segura a ruivinha no iê-iê-iê; quando o negócio é samba, a mulata descasca e dá olé. Elas só perdem mesmo para o Chacrinha, que dá umbigadas em qualquer ritmo. A gente nota que elas têm um certo desprezo pelos calouros. Para muitas, conduzir pelo braço o pretendente a ídolo é um grande sacrifício. Deve ser mesmo. Cada um daqueles calouros, em seu lamê falsificado ou seu terninho, deve lembrar-lhes os outros dias-sem-fama-e-sem-rebolado que elas gostariam muito de esquecer.

POR UM LUGAR AO SOL

- Quem precisa de acompanhamento é procissão e entêrro. Microfone,meu chapa, é pra deputado ou líder estudantil. Vai abrindo o bico e dando o seu recado, que a gente vê e dá para encaixar você desta vez no programa. É a quarta, quinta vez em que ele mata trabalho, sai de casa ao meio-dia, pega trem, pega um ônibus, depois outro, enfrenta a fila de inscrição, enfrenta as broncas do Marrom, o crioulão com jeito de feitor que mantém a ordem na fila, enfrenta as gozações da equipe, que para passar cinco horas selecionando caIouros tem mesmo que arranjar qualquer coisa com que se divertir.

Um metro e cinqüenta e cinco, óculos de ladrão, camisa vermelha, cabelo comprido oxigenado (Diocil da Silva, às suas ordens, mas pode me chamar de Reginaldo) está no seu dia de glória. Cansaço, fome, humilhações, nada diminui o seu entusiasmo. Depois que ele aparecer na televisão não vai haver doméstica que lhe resista!

- O melhor calouro é desse tipo: convencido, pretensioso. Quanto mais se acreditar um artista, quanto mais cara-de-pau tiver, melhor é. Esse tipo nós sempre classificamos, tenha ou não tenha boa voz. É delicioso quando um cara destes leva uma buzinada.

- Não é a equipe do Chacrinha que é sádica. Sádico é o público que ela tem que divertir. Por isso, 70% dos calouros que eles selecionam são fracos. Teve aquele que, quando o maestro, no ensaio, disse:

- Você ai, está cantando muito alto, abaixa - referindo-se ao tom -, o cara tomou ao pé da letra e se abaixou. Cantou de joelhos!

Os outros calouros não podem nem se relaxar gozando a caveira do companheiro que dá mancada, que lá vem bronca. Ora essa, deboche não vale. Mas ninguém liga. Quem está neste barco está para tudo: aplausos ou chacotas. Quer é aparecer. Como aquele que, quando os outros calouros foram bronqueados por estar rindo dele, disse, humilde:

- Deixa, podem rir de mim que não me importo; já fui palhaço de circo.

Cantar não é o único talento desses artistas incompreendidos, se a voz não dá pé, na semana seguinte ele volta como compositor e, se não agradar, ele volta para sapatear. Por um minuto na glória dos refletores, ele se candidata até a comer caco de vidro. É comovente como podem viver só de esperança.

E que não se pense que isso são loucuras-da-mocidade-depois-endireita. Mesmo que a maioria seja de vinte anos, tá assim de velho de sessenta, louco para ser buzinado pelo Chacrinha. Neste dia se apresenta para a seleção um que achava que podia fazer a festa sozinho: muito malandrinho, na flor dos seus cinqüenta e oito anos, terno branco e gravata borboleta, olhar de tango:

- Pois é, eu canto pra esquentar os corações das moças; eu danço iê-iê-iê, eu faço umas brincadeiras, mas sem machucar ninguém.

Coitado. Desafinado e enferrujado, vai fazer uma brincadeira com um bamba da capoeira, leva uma banda de saída e é ele que acaba se machucando.

No domingo seguinte, às duas da tarde, estão lá os dez classificados, enfarpelados em seus terninhos os mais tímidos, os mais exuberantes em alguma indumentária prafrentex. Essencial e não esquecer as meias, se não quiserem ser fulminados pelo leão-de-chácara. Ensaiam, suam, ensurdecem com os berros da equipe, impacientes (não é para menos), rezam, fumam e até tomam alguns golinhos, escondido, para criar coragem e ir em frente.

Tudo está em jogo: o futuro, a carreira artística, a conta do armazém, o coração da amada. Mas, depois de tanta mão-de-obra e tanta esperança, a maioria deles sobra.

- Você fica para domingo que vem.

Dois entraram para ser buzinados, dois para disputar realmente. As cartas são marcadas: -É esse? ' É esse?

O auditório urra, deliciado e o calouro que berrou mais vai para o trono. Já se esboça uma certa profissionalização entre os calouros. E aquele que ganhou no Chacrinha foi cantar no Sílvio Santos e volta depois ao Chacrinha. Ganha sempre.

CONCURSO, PRA QUE TE QUERO?

Programa de auditório sem concurso é o mesmo que casamento na roça sem foguete. O Chacrinha sabe disso melhor do que ninguém. Há concursos de todos os tipos: quem dá a gargalhada mais engraçada, quem tem a perna mais bonita, a cabeleira mais comprida, o galo que canta primeiro, quem anda melhor de patinete, quem faz a melhor frase sobre a Transamazônica, etc. Cada um tem sua fauna própria. As candidatas a mais bonita estudante do Brasil são completamente diferentes das moças que disputam a coroa das praias cariocas, e assim por diante. As mães, porém, são todas iguais. Que nem mãe de miss, ficam dando pulinhos nos vestiários, e suspirando: - Ai, meu Deus, se eu tivesse podido, no meu tempo... Mas minha filha...

Como a promissora carreira artística de todas elas foi cortada por um nefasto casamento (hoje só são artistas do fogão), transferiram para as filhas a responsabilidade de viver seus sonhos. Empurrada pela mãe, a candidata de hoje ao título de qualquer coisa mais do Brasil foi o sucesso de anteontem no Clube do Guri Todas elas ainda sabem cantar Ai Lili, ai lô, na perfeição!

Mas sempre tem umas que chegam lá com outras motivações: Suzete, do Méier, 18 anos, precisa de dinheiro e não consegue trabalhar porque, em todos os empregos que arranja, os patrões tentam agarrá-la. O primeiro conseguiu e é só para o filhinho, que resultou disso, que Suzete precisa tanto de dinheiro. Agora Suzete está mais esperta e veio servir de manequim no concurso da melhor costureira, o que parece ser uma coisa menos perigosa. Ela é tão bonita e tem um jeitinho tão meigo que a costureira disse que se o seu vestido ganhasse, dava o prêmio todo para ela. Eu também estava torcendo por Suzete, mas naquela noite o prêmio ficou com a moreninha de cabelos escorridos que desfilou um maxi-arco-íris. Que não ganhou sozinha. Uma loura alta, com uma classe sensacional, conseguiu empatar o concurso, sem que o Chacrinha entendesse por quê (em seus programas as moreninhas sempre ganham ). Acontece que a moça se chamava simplesmente Vera Barreto Leite, o mais famoso manequim do Brasil. Sem alcançar o significado disso, o Chacrinha, furioso, gritava que lá estavam julgando o melhor vestido e não o melhor manequim. Foi assim que o auditório do Chacrinha vaiou o manequim que sempre arrancou aplausos das platéias mais exigentes do mundo inteiro. Vera estava lá para ajudar sua costureira, uma moça muito simples e que precisa muito. Se a outra concorrente não fosse moreninha, e não usasse vestido cor de arco-íris. Vera levava sozinha o prêmio para sua costureira.

Mas a sensação da noite é o concurso da rainha das praias cariocas. Meia hora antes do programa ir para o ar, as candidatas, coitadas, já estão suando debaixo dos refletores: a secretária do Chacrinha tenta ensiná-las a desfilar. Mas é duro, desiste e resolve ensinar um manequim elegante a ficar parado:

- Assim, o pé esquerdo um pouquinho mais para a frente, apontando bem para a esquerda. Pronto, há oito estátuas pregadas no chão. E agora, as mãos, ninguém sabe o que fazer das mãos. Como último recurso, acabam todas em posição de sentido.

A equipe do Chacrinha está desesperada: o nível das candidatas é realmente muito baixo. Enfim, perna de fora acaba sempre dando IBOPE. Tem gosto para todo tipo de perna e ali tem perna para todos os gostos: bonita, gorda, fina, torta, com celulite e joelhos pontudos, o caos.

Quem está na sua, confiante na candidata que trouxe, é Ricardo:

- Carla (ou Karla) é uma parada. Vai tirar todas essas aí de letra.

Ele dirige uma agência de modelos que supre o programa do Chacrinha, como supre outros concursos, desfiles e outras badalações no gênero. Ele gosta de falar e é dos tais que dão entrevista sem a gente pedir:

- Eu também sou advogado e tenho uma financeira. Mas a agência dá mais. Hoje, por exemplo, estou ganhando Cr$ 50,00 p/garota que trouxe. A elas não pago nada, nem faço contrato. Elas ganham dos promotores dos concursos dos desfiles e, além do mais, badalam, ficam conhecidas, recebem convites. Vale a pena, não vale, Carla?

A PROVÁVEL RAINHA DAS PRAIAS, UMA MOÇA MUITO RELATIVA

Ela tem um rosto lindo de anjo suburbano e é boazudissima. 18 anos, mas aparenta mais. Sorri, cheia de promessas pra ele, como, aliás, sorri cheia de promessas para todo mundo.

- O que eu gosto de fazer? . . . Praia, boate . . essas coisas. É muito relativo... Casar? Não sei, talvez mais tarde... é muito relativo... se eu encontrar aquele homem, aí eu vou gostar provavelmente de ser dona de casa, varrer, espanar... Trabalhar fora é muito relativo, pode ser... se aparecer coisa interessante... acho que prefiro mesmo casar... por enquanto estou na minha, né, não estudo, não trabalho, não faço nada... Vivo, né? Moro com minhas irmãs, em Copacabana. Meus pais? Ah, me dou muito bem com eles, adoro eles, mas eles moram em Petrópolis... Bem quadrados, não queria que fossem diferentes, me dou mesmo muito bem com eles (está aflita para ver se eu acredito). Minhas irmãs também não trabalham... bem, só de vez em quando. Agora uma delas vai ser lançada como cantora, sabe? Namorado? Nada sério. Livros? Não. Politica? Isso é muito relativo. Nunca pensei muito... dizem que a democracia é o melhor regime. Eu, francamente, não me importo muito com o que esteja acontecendo, desde que eu possa levar a vida que quero... É o que penso, né?

Ela sublinha cada frase com um sorriso encantador. Palmas que ela merece. Desse jeito, Carla vai ganhar todos os concursos de rainha da praia, mesmo que seu reinado seja muito relativo. Mas ela acha ótimo.

WOODSTOCK TROPICAL

- Não me importa que a mula manque, eu quero é rosetar.

A frase de marchinha é o lema perfeito para o auditório dos programas do Chacrinha. Todos vão com um único objetivo: se divertir ao máximo. E como se divertem! A doméstica esquece o fogão e as panelas e tem sua noite de Vanderléia: canta e dança no fundo do auditório, alucinando o crioulo que aproveita para conversar. Juntando o útil ao agradável, dona Maria, moradora do bairro de Madureira, levanta as mãos ávidas sempre que ouve falar em bacalhau. A entrada de Waldick Soriano (que estourou no Norte. Boom!) deixa a mulatinha de mini-saia às portas de um ataque histérico. Ela dá cambalhotas na cadeira, faz o que pode para chamar sua atenção, mas ele continua a mastigar seu bolero, entrincheirado atrás de fantásticos óculos escuros, que só vendo se acredita.

O auditório do Chacrinha vive em clima de festival. Tanto faz se for Woodstock ou festival da cerveja. Todos, sem exceção vibram o tempo todo, aproveitando qualquer deixa para rir e se sacudir. Todos, desde as fanzoca - segunda geração de macacas de auditório - aos hippies amigos da Baby Consuelo, para eles o programa do Chacrinha é melhor do que qualquer viagem.

Quanto à fanzoca segunda geração, esta é individualista, nem pensa em se organizar en clubes como sua mamãe. (Aliás, organização em ritmo de festival é furado, todo mundo sabe. ) Para elas o importante é a curtição Estão na sua. Ainda encontrei uma garota de 15 anos que economiza seu salário de babá para mandar rosas a Vanderléia.

- Estão por Cr$ 50,00, sabe? - Mas é um exemplo isolado.

O tipo mais comovente é o solitário, que espera o domingo para ir fazer uma sauna de calor humano. A gente conhece logo. Terno azul-marinho, impecável, caneta no bolsinho de fora para mostrar que sabe ler, óculos de tartaruga, preto, que nem embaixador dc Gana. Este não quis dizer o nome, mas, com sua cara de bedel do tempo do Império, só pode chamar-se Tibúrcio. Solteiro, 52 anos. Ficou nervoso quando foi entrevistado, enrolando mil vezes a gravata enquanto pensava cada resposta. Cantor preferido é o Nelson Ned e, quando pergunto por quê, responde com muita dignidade:

- A senhora sabe, além de ter boa voz, eu gosto dele porque ele representa um dos Estados do nosso querido Brasil (??? ) . Pois é, aqui na Guanabara nós somos assim, altos e fortes... Deve existir por ar algum Estado em que os habitantes sejam assim desse tamaninho, não é? O Brasil tem tantos Estados... ele deve ser de algum, por isso é que eu gosto dele!

O surrealismo da resposta fica por conta do ardor patriótico.

OS ELEMENTOS CONTRA O CHACRINHA

Segunda-feira, 6 horas da tarde. Todos já acordaram de sua viagem. A doméstica-cinderela, que foi para o trono no domingo já está de volta ao seu borralho. O calouro já devolveu o paletó de lamé e come de sua marmita fria, sentado entre os tabiques da obra. O solitário tem agora nas mãos um pedaço de papel que é e desamassa com carinho: é um número de telefone.

Enquanto isso, os comandantes se reúnem para fazer um balanço da batalha. Chacrinha, Napoleão dos auditórios, discute com seus assessores o programa da véspera. A pesquisa do IBOPE (quinhentos cruzeiros por semana) indica números menores que os esperados. Muito menores. O Chacrinha perdeu para o Flávio Cavalcanti!

- Mas, não é possível, o programa ontem estava sensacional! Nós tínhamos todos os trunfos!. . . Por quê? Por quê?. . .

Afinal, alguém descobre: foi a chuva. Quando chove, no subúrbio as televisões são desligadas porque seguro morreu de velho e ninguém quer receber um raio na sala de visitas. Nessas horas, o melhor é desligar tudo, queimar palha benta e rezar para Santa Bárbara. A audiência do Flávio se concentra na Zona Sul, onde a chuva não é capaz de provocar nenhum acesso de religiosidade. E eles ficam um pouco consolados em saber que o Chacrinha não perdeu para o Flávio, mas para a meteorologia, que não dá para prever.

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