Saturday, June 16, 2012

1977 - Audiência da Globo se Pulveriza

 Jornal do Brasil

7/10/1977
Maria helena Dutra


O PÚBLICO APRENDE A MUDAR DE CANAL



A Rede Globo continua a dominar os índices de audiência da televisão carioca, mesmo com quatro estações concorrentes. Só que existem frestas ou tendências bem diversas, como era lógico prever, do tempo em que ela era combatida apenas pela cambaleante Tupi e a Rio, prestes a morrer. Hoje o canal quatro já registra derrotas em horários variados, e tem quase dez por cento de audiência outrora cativa procurando diferentes opções em outras estações. Nestas escaramuças de Ibope, que não se pode chamar de guerra, existem dois aspectos. A desvantagem do nivelamento por baixo, que todos negam, mas acontece mesmo quando a concorrência é para valer, e a vantagem de diferentes vozes atingem o público em lugar de concórdia fala de uni só e quase monopolístico emissor. Um dado que justifica qualquer luta.



Passeando pelos números, sem qualquer pretensão ou paciência para trabalho técnico estatístico, observemos o combate. A Educativa é plena de traços, zero ponto vir- , gula pouco, uns e dois pontos. Mais do que isso é desempenho surpreendente, como conseguir muito raramente um seis no programa infantil Arco Íris, o mesmo para o musical Opus, ou até mesmo sete para o balé apresentado em Movimento. Até programas bons e de apelo popular, como Os Mágicos e É preciso Cantar, mantém a condição de últimos colocados numa estação que faz um trabalho totalmente desconhecido pelo público.



Exatamente o contrário da poderosa Rede Globo que para muitos cariocas continua a ser sinônimo de televisão. Só que agora seus gigantescos números também apresentam pequenas variações. Explicando melhor, continua dona e senhora de pelo menos a metade do público que assiste televisão no Rio em quase todos os horários, sendo que das seis da noite até as dez seu território aumenta para quase 70%. Só que esses números dependem mais do sucesso do programa do que do hábito de não mudar de canal. No momento a maior média fica entre seis e sete meia da noite. D. Xepa, apesar de telenovela melosa, plena de lugares comuns e tendo como estrela personagem com todas as características de débil mental, estourou na emoção do público chegando a piques de 80. Muito ruim, e como bem observou o excelente critico Artur da Távola, apenas um festival de ressentimentos de seu autor, Sem. Lenço, Sem Documento, de Mário Prata tem, apesar de tudo, obtido bons rendimentos médios de audiência embora menores que sua antecessora no horário.



O Jornal Nacional pela inércia mantém os mesmos ouvintes, mas Espelho Mágico, mesmo contando duas novelas diferentes, fica entre 50 e 60 pontos, muito raramente chegando 70. Média que a donatária deste horário, a autora Janete Clair, geralmente consegue brincando. Enfim, a telenovela como hábito de audiência permanece imbatível quando recebe os cuidados globais de produção, e prossegue beneficiando com sua esteira de luz os horários vizinhos. Aqui não me parece haver nenhuma perspectiva ou remota possibilidade de mudança de tendência.



Também as atrações variadas das nove da noite seguem o mesmo rumo. Só que neste horário a Globo já conheceu o pó da derrota, fato inédito na faixa das três novelas sucessivas. E infelizmente, ou melhor, muito compreensivelmente devido à cultura carioca, isto aconteceu com os Concertos Internacionais uma série de música erudita que a estação transmitia nesse horário numa sexta-feira. Em 19 de agosto, quando foi ao ar apresentando Beethoven, apanhou de 23 para, os 32 pontos conseguidos pelo provinciano e antigo Clube dos Artistas da Tupi. O susto foi tanto que o programa nem voltou em setembro: só retorna agora, em outubro. Todas as outras atrações das sextas oferecidas pela Globo tem desempenhos melhores mesmo no caso de enlatados, caso especial teatral ou Brasil Especial musical. Voltam a ter o dobro de audiência da Tupi e das outras. Como acontece também com Chico City, Fantástico, Planeta dos Homens, Globo Repórter e Quarta Nobre. A concorrência aumenta mesmo é na faixa das dez. Nina, bela mas parada telenovela do horário é "campeã de audiência" só que não passa dos trinta pontos. Dizem que para melhorar, a estação exigiu reformulação e a história, de crônico, vai passar a dramalhão. Os horários de ação e de longas-metragens - enlatados e filmes quase sempre repetidos - espantam os notivagos. Nem os telejornais, que não são maus, seguram o público. Kojak já andou perdendo para o Hawai 5.0 da Guanabara e filmes velhos foram derrotados pela inqualificável Sessão Terror do Canal 11.



Para se recuperar, a Globo exumou até Kung-Fu na terça e mandou Bareta para o domingo para ver se rende mais do que os filmes da mesma má qualidade. Recurso pouco imaginativo mas que rendeu bem contra outros inimigos. Um deles foi o Rio Dá Samba, uma fraca imitação que João Roberto Kelly faz do já ruim original que é Sargenteli. Vencedora em todos os horários vespertinos da semana, a Globo conheceu no sábado da tarde o amargo gosto da derrota para o esquema samba e mulata. Seus Rock Concert, comédia nacional e enlatado Waltons chegaram a ter a metade da audiência do concorrente. A emenda foi trazer a música americana para mais cedo, trocar filmes brasileiros por comediotas americanas (que lástima) e só conservar mesmo o enlatado. Deu certo, e voltou ao primeiro lugar. Mesma estratégia usada para combater um mais potente inimigo que, embora agora derrotado, mostrou ter muito mais fôlego. Ao retornar seu programa para o Rio de Janeiro, Chacrinha chegou a dar banhos até nas médias. Filmes italianos, Pão, Amor e Fantasia e Pão Amor e Ciúme, e outros mais sofisticados, como Leão no Inverno e As Garras do Leão sucumbira ante a força popular do animador, agora na Tupi. Esquecendo o padrão de qualidade, a Globo mandou ver e ficou com filmes, mas agora só de faroeste e de ciências fajutas. E anda vencendo talvez porque o velho guerreiro seja muito repetitivo. Trata-se porém de um combate ainda não terminado. No domingo, as coisas estão mais claras. Depois de algumas derrotas, o Canal Quatro arrumou cinco horas de desenhos animados e enlatados cuidadosamente planejados para segurar a atenção das crianças. E quem pode discutir com infantes presos em casa? Com isso a maratona de Sílvio Santos foi para o brejo e só muito esporadicamente consegue alguns pontos a mais. Como todo cuidado é pouco, a programação da Globo deste dia muda muito. É a única da estação que o público habitual jamais consegue decorar, algo que há muito não acontecia com a estação.



Outra situação inesperada, bem mais previsível, porém, passa a Tupi que vê muito ameaçado seu tradicional segundo lugar de audiência. De tarde, a colocação é tranqüila nos sábados, domingos e mesmo nos outros dias quando as fuleiras as ações do Capitão Aza. chegam até a dar 10 pontinhos. De noite, dezenas só para Chacrinha e Clube dos Artistas. Em outros horários, magras unidades e muitas derrotas para os programas dos canais sete e onze. As possibilidades de recuperação dependem exclusivamente da estação, hoje perdida em programações sujeitas a mudanças diárias. Não dá nem para despertar simpatias no eleitorado.



E isto tem a Guanabara, mesmo trazendo uma fraca seqüência de atrações onde se alternam muitos filmes e enlatados com produções nacionais já antigas. E que mesmo nestes ainda não traduziu para uma linguagem nacional seu forte sotaque paulista. Chega até, em sua programação vespertina de ínfima audiência, a apresentar profissionais daquele cidade fazendo relações públicas de serviços que não podem interessar a nenhum carioca. Tem porém boa divulgação, agilidade em telejornalismo e esporte e sabe trabalhar bem: serve musical quando a outra tem novela ou apresenta enlatados quando as concorrentes têm humorísticos ou variedades. E seus Cyborg, Justiça em Dobro, Mulher Biônica, Missão Impossível chegam já em segundo enquanto o Hawai deu até primeiro. Só que suas produções melhores, tapes de futebol e musicais especiais com Chico Buarque, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, não têm rendido bem em termos de audiência. Se Chico, no impacto da estréia chegou a 16 pontos, Mílton Nascimento e todo seu prestigio ficaram com apenas 4 pontecos. Até seu famoso telejornal, agora às 19h15m, que todos apontam corno bom parece ser mais elogiado do que visto. Apresenta a péssima média de 2 pontos apenas e 5 chega a ser pique. Afinal, uma injustiça popular.

Outra é o atual bom desempenho da TVS nesta lutinha.

Igual à Guanabara, ela quase só tem importados. Pior porém do que a concorrente, e que estes são velhos, esmaecidos e roucos de tanta exibição por variados canais antecessores. Além deste desleixo e sovinice, a estação fica muito abaixo da Tupi e da própria Guanabara em termos de programação nacional e telejornalismo. Mesmo assim, é muitas vezes a segunda estação em audiência em horários noturnos. De tarde não arranja nada, a não ser uns desenhos animados e Tarzan que no sábado já tiraram um segundo, mas suas sessões policiais e de terror já atingiram a casa da dezena e até 1º lugar. Ao colocar filmes de longa-metragem, embora caquéticos às nove da noite mandando o malfadado Espantalho agonizar às 19h30m, está conseguindo boas medias neste horário já que as concorrente só têm programas nacionais ou enlatados para competir. Suas maiores audiências até agora foram o jogo de Pelé na tarde de primeiro de outubro. Um negócio ridículo, mas que foi, repetimos, grande jogada comercial que provou a existência da estação como compradora e ofertante de coisas excepcionais. Isto conta muito ponto com o público; não há audiência cativa que resista a um apelo maior vindo de qualquer canal que seja.



Se este foi um dado muito importante para o jogo de xadrez do mercado da concorrência de televisão, outro: aspecto relevante nestas refregas também deve ser assinalado. Apesar de todas os rojões, estréias, trabalhos de marketings, futebol ao vivo, mais jornalismo e dança de enlatado, o número enorme de aparelhos desligados continua o mesmo. E nenhum combatente parece se importar ou tem talento para enfrentar esta situação.



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