Saturday, June 16, 2012

1987 - ACM e Globo

Jornal do Brasil

7/7/1987



BRIGA DE TV BAIANA PELA GLOBO FAZ MANCHETE SUMIR



SALVADOR - Pela terceira vez neste ano, surpresos, os telespectadores baianos ficaram privados por algum tempo da programação da Rede Manchete, enquanto duas das cinco emissoras de televisão da Bahia retransmitiam simultaneamente a programação da Rede Globo, pela qual estão em luta judicial. Provocado por uma liminar do desembargador Nicolau Mary Júnior, do Conselho de Magistratura do Rio de Janeiro, o problema durou apenas uma hora, ao contrário das vezes anteriores, quando se prolongou por várias horas e até dias.



Em mandado de segurança impetrado pela TV Globo, defendendo a validade de contrato que firmou em janeiro com a TV Bahia, o desembargador concedeu medida liminar que reforma sentença da 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio e restabelece decisão do Conselho de Magistratura, fazendo valer o contrato entre a Globo e a TV Bahia. Exatamente às 18h, esta passou a transmitir o sinal da Globo, enquanto a TV Aratu, uma hora depois, trocava a Globo pela Rede Manchete - que até às 18h tinha seu sinal transmitido pela TV Bahia.



Desde janeiro as televisões Aratu e Bahia vêm se habituando a esse troca-troca de programação, desencadeado pela decisão da Globo de não renovar o contrato que mantinha há 18 anos com a TV Aratu, firmando um novo com a TV Bahia. A batalha judicial desencadeada pela Aratu teve seus lances também no âmbito político, envolvendo a mobilização do governador Waldir Pires, do presidente nacional do PMDB, Ulysses Guimarães, e da bancada federal do PMDB da Bahia - todos em apoio da TV Aratu. Gestões foram feitas junto ao presidente Sarney e ao presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, mas nada alterou a disposição deste de fazer valer o contrato com a TV Bahia.



Diretores da TV Aratu e adversários políticos do ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, já o acusaram de haver arquitetado a transferência da programação da Globo para a TV Bahia, que controlaria através de parentes e amigos. O diretor Milton Tavares, da TV Aratu, disse que vai continuar a luta. ''Já estávamos preparados, pois quem está numa guerra tem que estar pronto para os acidentes e incidentes que podem acontecer."



Logo que recebeu, às 16h30min, telex do desembargador Nicolau Mary Júnior com a notificação da decisão, Milton Tavares falou com a direção da Manchete por telefone e obteve autorização para transmitir a programação da rede, chegando pouco depois confirmação por telex. A notificação do desembargador também foi enviada à TV Bahia, onde um diretor comentou que não houve comemorações nem muito corre-corre: "Nós já estamos acostumados com essas mudanças. Teremos que reajustar alguns horários, mas não havíamos desmontado a estrutura do período em que transmitimos a Globo por algum tempo''.



1981 - Crianças na TV

Jornal do Brasil

1/1/1981


OS FILHOS PROBLEMA DA FAMÍLIA TV



Provavelmente muitos deles já estão condenados pela máquina a serem psicologicamente crianças-adulto para sempre. Ou fisicamente, como Ferrugem aos 11 anos tem tamanho de seis e gasta tudo o que ganha na TV para vencer um distúrbio da hipófise que atrapalha seu crescimento



Crescer sempre foi o grande problema dos meninos prodígios do cinema e da televisão. Hollywood, por exemplo, nunca soube muito bem o que fazer com Mickey Rooney quando ele começou a ter de se barbear duas vezes por dia. E Judy Garland era constantemente multada pela Metro por se apresentar de ressaca para a filmagem, embora tivesse apenas 14 anos. A carreira de Shirley Temple começou a declinar quando o estúdio se deu conta de que seus cachos não estavam combinando com o busto que insistia em emergir. No fundo, o problema do cinema não foi exatamente o de que seus meninos prodígios cresciam - a idade mental dos espectadores é que estava crescendo. Em meados dos anos 30, ninguém mais seria capaz de admitir Mary Pickford - mãe de família várias vezes - interpretando Pollyanna.



Seja como for, o menino Luís Alves Pereira Neto, conhecido no Brasil inteiro pelo apelido de Ferrugem, provavelmente nunca terá esse problema: aos 11 anos, sua altura não ultrapassa a de uma criança normal de seis - e tudo indica que ele não crescerá muito mais, devido a um distúrbio em sua glândula hipófise. Assim, enquanto tamanho for documento para seu estrelato infantil, Ferrugem terá futuro assegurado na televisão.



Claro que, para seus pais, a carreira artística de Ferrugem é, por enquanto, um acidente. Na realidade, só querem que ele cresça, e quanto mais depressa melhor. D Maura, sua mãe e agente, explica:



Já não sei o que fazer. Ferrugem fez um tratamento, mas cresceu muito pouco. Agora precisamos comprar um remédio sueco que custa Cr$ 1 mil a ampola, num total de 10 por mês. Como ele ganha apenas Cr$ 5 mil na TV Tupi, tem de se defender trabalhando em comerciais. Se não, o dinheiro não daria nem para o tratamento.



Isto, de certa forma, abala bastante a idéia de que a vida de um miniastro é um sonho dourado, trabalhando em pé de igualdade com os grandes ídolos da televisão e ele próprio convertendo-se, aos poucos, também num ídolo. A carreira de Ferrugem nunca chegou a ser fácil. Morando com sua família em Barretos, a 450 quilômetros de São Paulo, foi descoberto pelo produtor Lúcio Mauro e convidado a trabalhar em Gente Inocente. Durante um ano Ferrugem dividiu-se entre São Paulo e Barretos, para trabalhar e estudar, acabando por não fazer direito nem uma coisa, nem outra. Finalmente sua família mudou-se para São Paulo, indo morar na Lapa (um bairro tradicionalmente de operários), o que pelo menos poupou-o das idas e vindas.



Há algum tempo, Ferrugem saiu do Gente Inocente, passando a aparecer em Domingo É Dia de Graça, ao lado de Costinha. Ás vezes grava oito horas por dia na TV Tupi, ao vivo, ouvindo toda espécie de desaforos que os produtores dirigem ao auditório, pedindo silêncio. Ferrugem sempre sabe suas falas de cor, porque, segundo sua mãe, não gosta de usar o ponto na orelha - um aparelhinho que dá as deixas para a entrada em cena e que hoje substitui o antigo ponto do teatro, encerrado numa caixa. (Costinha, por exemplo, não consegue decorar seus textos. Apesar disso, os dois se dão bem, e há pouco fizeram um filme juntos, Costinha e o King Monk, a estrear em junho.)



Ferrugem tem oito irmãos. Seu dia é passado em cima de scripts e dos deveres do Colégio Campos Sales, em São Paulo. "As aulas em primeiro lugar", diz. D Maura acrescenta que ele é "um garoto responsável e aplicado." Mas, com todo o seu sucesso, Ferrugem não se sente satisfeito: o que gostaria mesmo é de morar no Rio, para ir à praia e - embora corintiano de coração - ver o Flamengo (seu time favorito) jogar. Seu prato favorito é macarrão com batata frita e ele tem rigorosa formação religiosa:



Nunca vi Nossa Senhora, mas deve ser parecida com minha irmã Marisa.



Em novela, criança e bicho são indispensáveis. Se possível, reúna os dois", diz Gilberto Garcia, que trabalha no Departamento de Elenco da TV Globo. Nos seus fichários contendo nomes, fotografias, idade, peso e habilidades de centenas de pessoas, há também inúmeras crianças que esperam por um contrato como atores. Por coincidência, seus três filhos foram alguns dos contemplados:



Rosana, Isabela e Ricardo são extremamente profissionais na hora das gravações. Fora da televisão, são crianças normais. Encaram o trabalho apenas como diversão. E faço questão de que estejam na cama às nove da noite.



Rosana, a Narizinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo, está longe de ser estreante. Aos cinco anos trabalhou com Sérgio Cardoso em O Primeiro Amor. Agora tem 12 e muito mais experiência. Até já sabe o que não quer:



Quando crescer não pretendo ser atriz e sim psicóloga infantil, porque adoro crianças. Mas fico contente quando gostam do meu trabalho. No começo faziam muitas perguntas, mas agora já estou acostumada.



No Parque Lage, onde são gravadas as externas do Sítio, Rosana tem de descobrir tempo para fazer alguns dos deveres da escola. Ma começa, é chamada pelo diretor Geraldo Casé e tem de entrar nova mente em cena com Pedrinho e com c Marquês de Rabicó, um leitãozinho que reluta em comer as jabuticabas indispensáveis ao quadro. Distraída, Narizinho esquece o texto, e Casé já nervoso com o atraso, berra:



- Você é macaca velha, Rosana. Não pode esquecer nada!



Longe dali, sua irmã Isabela explica a personagem que representará na próxima novela das 10 - A la Garçonne - e que trará uma mudança radical na sua tumultuada vida de miniartista: passará a deitar-se quase às 11, depois de ter assistido aos capítulos que terá gravado algumas semanas antes:



Vou fazer uma menina chamada Isadora, de sete ou oito anos, que perdeu a mãe quando ainda era muito pequena. O pai dela, prof. Frazão, dá aulas de dança. A história se passa nos anos 20 ou 30, não sei bem, acho que é isso. Aliás, eu só recebi o primeiro capítulo. Ainda não conheço o script completo.



Atualmente, Isabela vai à escola de manhã e depois participa (com seus colegas mais velhos) das reuniões de elenco que antecedem as primeiras tomadas. Não perde uma só palavra e não tira os olhos de Maria Fernanda, que também está na novela:



Maria Fernanda é muito inteligente e imito tudo que ela faz. Se ela ri, eu também rio, porque assim finjo que estou entendendo tudo e não passo por boba.



Mais tarde, Isabela acompanha com sua mãe e a irmã as gravações do Sítio do Pica-Pau Amarelo e, antes do jantar repassa com seu pai os textos a serem decorados para as filmagens de A la Garçonne. Só então Isabela está livre para fazer o que quiser. E o que ela mais gosta de fazer, naturalmente, é ver televisão.



Chegar à posição de Isabela é hoje o sonho de muitas crianças brasileiras. As vezes é apenas o sonho dos pais, que inscrevem os seus prodigiosos filhos nos pesados catálogos de candidatos a artistas de TV. Os mais velhos pensam que ali pode estar a garantia para o futuro de seus filhos. Mas estes, quase sempre, encaram a coisa apenas como uma brincadeira divertida.



- Na época em que fazia O Feijão e o Sonho, diz Márcio Bernstein, de 12 anos - tinha muita garota que dava em cima de mim. Na escola só me chamavam de Edgar, que era o nome do meu personagem. Mas foi bom. Naquele tempo, ganhava Cr$ 2 mil 600 por mês e emprestava uma parte para minha mãe. Cheguei até a comprar uma bicicleta, daquelas bacanas, com 10 marchas. Hoje só estou aceitando propostas de trabalho se não atrapalharem minhas provas na escola.



Depois de gravar alguns capítulos da censurada Despedida de Casado, onde fazia o papel de filho de Regina Duarte e Antônio Fagundes ("menino bagunceiro, filho de pais separados"), Márcio impõe agora certas condições para aceitar personagens:



- Se for muito cansativo, não faço mesmo. Também não quero fazer papel de gente besta. E, de mulherzinha, não faço de jeito nenhum.



A mesma sinopse do personagem que Márcio exige, para saber se aceitará ou não o papel, é também enviada ao Juizado de Menores. Gilberto Garcia explica como isso é feito:



-Junto ao pedido de autorização, enviamos o perfil do personagem e normalmente não há cortes. Todas as crianças são obrigadas a comprovar que estudam e seus horários são limitados. A produção faz a divisão de maneira a que nenhuma criança fique nos estúdios depois das 19 horas. Elas vêm aqui e tiram as medidas para suas roupas, exatamente como os adultos. Todos os atores têm guarda-roupa próprio, mesmo que a novela não seja de época. Também tomam parte nas reuniões e devem ser acompanhadas por responsáveis até o local da gravação. E no contrato está estipulado que deverão trabalhar durante seis meses, embora o personagem possa ser esticado para mais quatro meses.



Carlinhos Poyart é o Téo de Duas Vidas, filho de Bete Faria e Francisco Cuoco. Mas quem cuida de sua carreira e o leva diariamente aos estúdios da Usina é a sua mãe na vida real, D Inês:



- Foi tudo muito natural. Moro perto da Ruth de Sousa, que é atriz, e tentei saber quais eram as possibilidades de Carlinhos. Depois, perguntei a ele se gostaria de trabalhar. Quando fez o teste final, junto a outras crianças, a Bete o escolheu logo. Era o que tinha maior sensibilidade. Os dois têm-se dado muito bem. A vida de artista não está atrapalhando em nada o dia-a-dia de Carlinhos. Acho que foi até muito bom porque, aos oito anos, ele desenvolveu um enorme senso de responsabilidade.



Carlinhos também está vibrando: - Gosto de ser ator, e acho que vou continuar sendo quando crescer. No princípio não foi muito legal. Minha mãe me botou para fazer o teste e acharam que eu era o melhor, mas foi meio chato porque os outros meninos ficaram dizendo que eu era sortudo. Agora dizem que tenho talento. Não sei bem o que é isso, mas devo ter. Afinal, não é qualquer um que entra aqui. Lá na escola, os outros dizem que gostariam de ser eu. Não sabem como essa vida é sacrificada!



O próprio Carlinhos se surpreende com sua loquacidade:



Eu acho gozado, assim, sei lá, eu ficar batendo papo. Mas é bom, porque, se eu falo errado, não tem importância, não é? Não estou sendo adulto, estou? Criança fala assim mesmo. Meu signo é Touro. No colégio, não sou o melhor aluno, mas tenho amigos até no ginásio. Tem até um lá que me defende. Hoje não brigo tanto, mas antigamente era muito folgado e apanhava pra valer. Eu era um chato. Agora todos gostam de mim.



Gisela Carneiro não tem muito tempo para conversar. Aos 10 anos, sua preocupação maior é a de que as gravações de As Loco Motivas acabem logo, para que possa ter umas férias. Em sua pasta carrega apenas o material da novela - roteiro para mais uma semana de trabalho que terá de decorar em casa.



Não vejo televisão, não tenho tempo. Fico lendo o script de manhã à noite e só paro para filmar. Por isso quase não dá para estudar. Que trabalho cansativo!



E Gisela pede licença porque o diretor ("Ele é muito legal"! quer fazer as últimas cenas da manhã. A troca de roupa é rápida e ela reaparece de biquíni e camiseta, pois a próxima locação será num clube da Barra da Tijuca. Mais uma cena e Gisela sai correndo. Recebe as últimas instruções pára a cena da tarde e sai apressada, porque sua babá está lá fora, esperando para levá-la ao colégio.



Com os Cr$ 500 que recebe por dia de trabalho, Gisela já comprou um anel, uma pulseira e um relógio. Só lamenta ainda não ter recebido nenhuma carta de fã.



Não sei o que pensam de mim. Ela diz ansiosa - mas sou uma estrela. Ou não sou?



Hoje, aos 22 anos e com uma filha de três, Elisângela - o grande exemplo da criança que cresceu artista - divide com Míriam Fisher e Gisela Carneiro o sucesso de As Loco Motivas junto ao público infantil. Diz ela:



Prodígio, nunca fui. O que eu tinha era murta "Sensibilidade. Mas não imaginava que ficaria na profissão por tanto tempo. Comecei aos sete anos, fazendo um programa para adultos, e achei que aquilo tudo fazia parte de mim. Mas só na adolescência comecei a perceber o que realmente estava fazendo e tive estrutura para sustentar-me. Para os que estão começando, eu diria que nunca esquecessem o lado infantil. Ganhei muita noção de responsabilidade, mas perdi a infância e custei a perceber isso. Fui adulta demais.



Pelo menos por enquanto, Júlio César, de 12 anos, não tem nenhuma queixa de sua vida profissional. Depois de ser filho de Tarcísio Meira em várias novelas, o atual Pedrinho do Sitio do Pica-Pau Amarelo não dá entrevistas durante o almoço, não diz quanto ganha e não erra suas falas:



- Não me considero muito adulto para minha idade. O que interessa é que estou trabalhando. Todos dizem que sou minigênio, mas o que eles não sabem é que vou me aposentar muito mais cedo do que pensam.



Nas gravações do Sítio, Narizinho pergunta:



Você não acha que a gente devia continuar brincando de faz-dei conta?



Ao que Pedrinho responde:



- Acho que fiz de conta errado!



Narizinho deixa a cena. Desta vez para retocar a maquilagem, um problema de fácil solução. Nenhum deles sente o drama de Ferrugem, condenado a ser criança, mas com todas as responsabilidades de um adulto, sem poder crescer o bastante para se defender de gente, quase sempre, muito pouco inocente.



UM SACI PERERÊ DE VERDADE - Da Vila América, em Salvador, para o Sitio do Pica Pau Amarelo, em Guaratiba, a vida de Genivaldo dos Santos transformou-se radicalmente. Aos 13 anos ele representa o Saci Pererê, um papel fácil para quem, com uma perna só, caminha, corre e joga bola sem qualquer ajuda.



A encarnação do mitológico personagem do folclore do Norte brasileiro foi muito natural para Genivaldo, que fuma tranqüilo seu pito e enverga o capuz vermelho com ar maroto.



"Não sei decorar o texto, mas acho que ainda vou aprender como é."



Seus espertos olhos pretos mexem-se rapidamente e Genivaldo prepara-se para atirar uma pedra em seu doublé, Romeu Evaristo, ou no Tio Barnabé, também personagem do Sítio, com quem ele vive no camping da Barra da Tijuca.



"Quando é sábado pra domingo, os meninos vão ao camping e aí eu jogo bola. Não, caio não. Agora a praia que mais gosto de ir é a de Botafogo, porque lá o mar é mais calmo."



Enquanto alguém da produção interrompe para dizer que ele nunca esteve na praia de Botafogo, ele continua: "Só estive até agora no parque de diversões e outros lugares. Falta ainda o Pão de Açúcar, o Cristo, muita coisa.



Com a responsabilidade de comparecer às gravações da novela, Genivaldo sabe bem o que veio fazer no Rio: "Vim trabalhar. Mas vou começar a estudar também. Lá em Salvador, fazia o 3° primário. Era muito melhor, porque tinha amigos para brincar. E depois eu volto para Salvador, já estou com saudades!"



Romeu Evaristo diz as falas de Genivaldo, que segundo ele, "não tem expressão como ator, por isso me chamaram". Tendo participado da novela João da Silva, ele é operador de telecine na TVE à noite e estuda Comunicação de manhã. A tarde está gravando o Sítio: "Em termos de ator, estou realizado". E relembra alto as falas da gravação: "Pensei que isso fosse coisa do meu primo Curupira, que é tinhoso feito eu, mas que tem dois pés, só que virado para trás". E dá uma risada.



Como Curupira, Romeu tem duas pernas e pés, só que na posição normal, e ganha Cr$ 4 mil 800. Genivaldo não diz quanto ganha. Está mais preocupado em brincar, arrancando galhos das árvores em que sobe com a maior rapidez. Soltando fumaça, ele ri: "Vocês tão me abusando. Não vou falar mais nada."



1977 - Audiência da Globo se Pulveriza

 Jornal do Brasil

7/10/1977
Maria helena Dutra


O PÚBLICO APRENDE A MUDAR DE CANAL



A Rede Globo continua a dominar os índices de audiência da televisão carioca, mesmo com quatro estações concorrentes. Só que existem frestas ou tendências bem diversas, como era lógico prever, do tempo em que ela era combatida apenas pela cambaleante Tupi e a Rio, prestes a morrer. Hoje o canal quatro já registra derrotas em horários variados, e tem quase dez por cento de audiência outrora cativa procurando diferentes opções em outras estações. Nestas escaramuças de Ibope, que não se pode chamar de guerra, existem dois aspectos. A desvantagem do nivelamento por baixo, que todos negam, mas acontece mesmo quando a concorrência é para valer, e a vantagem de diferentes vozes atingem o público em lugar de concórdia fala de uni só e quase monopolístico emissor. Um dado que justifica qualquer luta.



Passeando pelos números, sem qualquer pretensão ou paciência para trabalho técnico estatístico, observemos o combate. A Educativa é plena de traços, zero ponto vir- , gula pouco, uns e dois pontos. Mais do que isso é desempenho surpreendente, como conseguir muito raramente um seis no programa infantil Arco Íris, o mesmo para o musical Opus, ou até mesmo sete para o balé apresentado em Movimento. Até programas bons e de apelo popular, como Os Mágicos e É preciso Cantar, mantém a condição de últimos colocados numa estação que faz um trabalho totalmente desconhecido pelo público.



Exatamente o contrário da poderosa Rede Globo que para muitos cariocas continua a ser sinônimo de televisão. Só que agora seus gigantescos números também apresentam pequenas variações. Explicando melhor, continua dona e senhora de pelo menos a metade do público que assiste televisão no Rio em quase todos os horários, sendo que das seis da noite até as dez seu território aumenta para quase 70%. Só que esses números dependem mais do sucesso do programa do que do hábito de não mudar de canal. No momento a maior média fica entre seis e sete meia da noite. D. Xepa, apesar de telenovela melosa, plena de lugares comuns e tendo como estrela personagem com todas as características de débil mental, estourou na emoção do público chegando a piques de 80. Muito ruim, e como bem observou o excelente critico Artur da Távola, apenas um festival de ressentimentos de seu autor, Sem. Lenço, Sem Documento, de Mário Prata tem, apesar de tudo, obtido bons rendimentos médios de audiência embora menores que sua antecessora no horário.



O Jornal Nacional pela inércia mantém os mesmos ouvintes, mas Espelho Mágico, mesmo contando duas novelas diferentes, fica entre 50 e 60 pontos, muito raramente chegando 70. Média que a donatária deste horário, a autora Janete Clair, geralmente consegue brincando. Enfim, a telenovela como hábito de audiência permanece imbatível quando recebe os cuidados globais de produção, e prossegue beneficiando com sua esteira de luz os horários vizinhos. Aqui não me parece haver nenhuma perspectiva ou remota possibilidade de mudança de tendência.



Também as atrações variadas das nove da noite seguem o mesmo rumo. Só que neste horário a Globo já conheceu o pó da derrota, fato inédito na faixa das três novelas sucessivas. E infelizmente, ou melhor, muito compreensivelmente devido à cultura carioca, isto aconteceu com os Concertos Internacionais uma série de música erudita que a estação transmitia nesse horário numa sexta-feira. Em 19 de agosto, quando foi ao ar apresentando Beethoven, apanhou de 23 para, os 32 pontos conseguidos pelo provinciano e antigo Clube dos Artistas da Tupi. O susto foi tanto que o programa nem voltou em setembro: só retorna agora, em outubro. Todas as outras atrações das sextas oferecidas pela Globo tem desempenhos melhores mesmo no caso de enlatados, caso especial teatral ou Brasil Especial musical. Voltam a ter o dobro de audiência da Tupi e das outras. Como acontece também com Chico City, Fantástico, Planeta dos Homens, Globo Repórter e Quarta Nobre. A concorrência aumenta mesmo é na faixa das dez. Nina, bela mas parada telenovela do horário é "campeã de audiência" só que não passa dos trinta pontos. Dizem que para melhorar, a estação exigiu reformulação e a história, de crônico, vai passar a dramalhão. Os horários de ação e de longas-metragens - enlatados e filmes quase sempre repetidos - espantam os notivagos. Nem os telejornais, que não são maus, seguram o público. Kojak já andou perdendo para o Hawai 5.0 da Guanabara e filmes velhos foram derrotados pela inqualificável Sessão Terror do Canal 11.



Para se recuperar, a Globo exumou até Kung-Fu na terça e mandou Bareta para o domingo para ver se rende mais do que os filmes da mesma má qualidade. Recurso pouco imaginativo mas que rendeu bem contra outros inimigos. Um deles foi o Rio Dá Samba, uma fraca imitação que João Roberto Kelly faz do já ruim original que é Sargenteli. Vencedora em todos os horários vespertinos da semana, a Globo conheceu no sábado da tarde o amargo gosto da derrota para o esquema samba e mulata. Seus Rock Concert, comédia nacional e enlatado Waltons chegaram a ter a metade da audiência do concorrente. A emenda foi trazer a música americana para mais cedo, trocar filmes brasileiros por comediotas americanas (que lástima) e só conservar mesmo o enlatado. Deu certo, e voltou ao primeiro lugar. Mesma estratégia usada para combater um mais potente inimigo que, embora agora derrotado, mostrou ter muito mais fôlego. Ao retornar seu programa para o Rio de Janeiro, Chacrinha chegou a dar banhos até nas médias. Filmes italianos, Pão, Amor e Fantasia e Pão Amor e Ciúme, e outros mais sofisticados, como Leão no Inverno e As Garras do Leão sucumbira ante a força popular do animador, agora na Tupi. Esquecendo o padrão de qualidade, a Globo mandou ver e ficou com filmes, mas agora só de faroeste e de ciências fajutas. E anda vencendo talvez porque o velho guerreiro seja muito repetitivo. Trata-se porém de um combate ainda não terminado. No domingo, as coisas estão mais claras. Depois de algumas derrotas, o Canal Quatro arrumou cinco horas de desenhos animados e enlatados cuidadosamente planejados para segurar a atenção das crianças. E quem pode discutir com infantes presos em casa? Com isso a maratona de Sílvio Santos foi para o brejo e só muito esporadicamente consegue alguns pontos a mais. Como todo cuidado é pouco, a programação da Globo deste dia muda muito. É a única da estação que o público habitual jamais consegue decorar, algo que há muito não acontecia com a estação.



Outra situação inesperada, bem mais previsível, porém, passa a Tupi que vê muito ameaçado seu tradicional segundo lugar de audiência. De tarde, a colocação é tranqüila nos sábados, domingos e mesmo nos outros dias quando as fuleiras as ações do Capitão Aza. chegam até a dar 10 pontinhos. De noite, dezenas só para Chacrinha e Clube dos Artistas. Em outros horários, magras unidades e muitas derrotas para os programas dos canais sete e onze. As possibilidades de recuperação dependem exclusivamente da estação, hoje perdida em programações sujeitas a mudanças diárias. Não dá nem para despertar simpatias no eleitorado.



E isto tem a Guanabara, mesmo trazendo uma fraca seqüência de atrações onde se alternam muitos filmes e enlatados com produções nacionais já antigas. E que mesmo nestes ainda não traduziu para uma linguagem nacional seu forte sotaque paulista. Chega até, em sua programação vespertina de ínfima audiência, a apresentar profissionais daquele cidade fazendo relações públicas de serviços que não podem interessar a nenhum carioca. Tem porém boa divulgação, agilidade em telejornalismo e esporte e sabe trabalhar bem: serve musical quando a outra tem novela ou apresenta enlatados quando as concorrentes têm humorísticos ou variedades. E seus Cyborg, Justiça em Dobro, Mulher Biônica, Missão Impossível chegam já em segundo enquanto o Hawai deu até primeiro. Só que suas produções melhores, tapes de futebol e musicais especiais com Chico Buarque, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, não têm rendido bem em termos de audiência. Se Chico, no impacto da estréia chegou a 16 pontos, Mílton Nascimento e todo seu prestigio ficaram com apenas 4 pontecos. Até seu famoso telejornal, agora às 19h15m, que todos apontam corno bom parece ser mais elogiado do que visto. Apresenta a péssima média de 2 pontos apenas e 5 chega a ser pique. Afinal, uma injustiça popular.

Outra é o atual bom desempenho da TVS nesta lutinha.

Igual à Guanabara, ela quase só tem importados. Pior porém do que a concorrente, e que estes são velhos, esmaecidos e roucos de tanta exibição por variados canais antecessores. Além deste desleixo e sovinice, a estação fica muito abaixo da Tupi e da própria Guanabara em termos de programação nacional e telejornalismo. Mesmo assim, é muitas vezes a segunda estação em audiência em horários noturnos. De tarde não arranja nada, a não ser uns desenhos animados e Tarzan que no sábado já tiraram um segundo, mas suas sessões policiais e de terror já atingiram a casa da dezena e até 1º lugar. Ao colocar filmes de longa-metragem, embora caquéticos às nove da noite mandando o malfadado Espantalho agonizar às 19h30m, está conseguindo boas medias neste horário já que as concorrente só têm programas nacionais ou enlatados para competir. Suas maiores audiências até agora foram o jogo de Pelé na tarde de primeiro de outubro. Um negócio ridículo, mas que foi, repetimos, grande jogada comercial que provou a existência da estação como compradora e ofertante de coisas excepcionais. Isto conta muito ponto com o público; não há audiência cativa que resista a um apelo maior vindo de qualquer canal que seja.



Se este foi um dado muito importante para o jogo de xadrez do mercado da concorrência de televisão, outro: aspecto relevante nestas refregas também deve ser assinalado. Apesar de todas os rojões, estréias, trabalhos de marketings, futebol ao vivo, mais jornalismo e dança de enlatado, o número enorme de aparelhos desligados continua o mesmo. E nenhum combatente parece se importar ou tem talento para enfrentar esta situação.



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