Friday, February 24, 2012

1983 - O Povo na TV


O Estado de S. Paulo
1/1/1983
A PARTICIPAÇÃO PLANEJADA
"O programa ajuda a pessoa, é uma utilidade pública, mas apenas para uma ou outra pessoa e não muitos".

A colocação de Carla, de 15 anos, moradora de Nova Cachoeirinha, define, com sabedoria, a natureza do programa "O Povo na TV", levado ao ar pela TV-S. de segunda a sexta, de uma as seis da tarde, em oito Estados brasileiros.

Da mesma forma que Carla, milhares de telespectadores assistem ao desenrolar dos quadros, que tratam desde a perda de animais de estimação, parentes, até mortes e violências.

Como confessa um assíduo espectador, "é um programa de muita utilidade, porque traz para fora muita coisa que está no fundo da terra. Se não houvesse este programa, não tínhamos a quem reclamar".

'O POVO NA TV'

"A televisão estava alienada da vontade do povo, mas agora está voltando para servir ao povo".

"O 'Povo na TV" é a procuradoria geral do povo".

Através de expressões como estas, o programa procura autodefinir-se, sugerindo até ser o responsável pelo acesso à TV daqueles que até agora foram impedidos de nela participar.

Como é possível constatar, a população responde a esses apelos: diariamente são milhares as pessoas que se acotovelam nas imediações do estúdio, na tentativa de levar ao programa seus dilemas: desde a ausência absoluta dos direitos mínimos até conflitos familiares afetivos e sociais, em geral.

Além disso, também é grande o número de pessoas que procura o programa em busca das curas milagrosas do professor Lengruber, ou simplesmente em busca de participação no auditório.

Entretanto, como esta alta demanda de causas populares é tratada pelo programa, pelos apresentadores, pela produção?

REIVINDICAÇÕES

Quando os casos caracterizam-se por reivindicações, geralmente já levadas ao poder público inutilmente, os apresentadores acionam as mesmas autoridades procurando solução.

As instituições manifestam-se publicamente e comprometem-se a atender às solicitações, justificando a inoperância anterior como um pequeno desajuste do sistema. Com isso, o programa tenta, reiteradamente, recuperar o crédito às instituições, já desmoralizadas diante da população. Os erros são atribuídos a indivíduos "incompetentes" ou "preguiçosos", nunca ao caráter verdadeiro e classista das instituições.

Assim, o programa tenta ser uma ponte de conciliação entre o "povo" e as autoridades. Os antagonismos de classe são camuflados e substituídos por uma falsa fraternidade, denominada pelo programa como "legião de amigos".

OS AMIGOS

Entre os mais ilustres amigos do programa, estão o presidente Figueiredo, a Rota, a presidente da LBA, o delegado do Deops paulista, os ministros e autoridades em geral, até as pessoas mais simples, trabalhadores e outros.

Os momentos iniciais da apresentação são coroados pela "Canção da Fraternidade", como tentativa de irmanar a todos. Wilton Franco, o apresentador principal, comanda a música e todos cantam de mãos dadas, enquanto o apresentador expressa votos de esperança aos desvalidos e agradece ao presidente pelo direito de expressão, concedido por sua benevolência.

A aproximação do programa com o poder é tão flagrante que são rotineiros os elogios ao PDS, os ataques às oposições e a disposição das autoridades em comparecer ao programa.

O PROGRAMA E A POLÍCIA

Wagner Montes, o "chicote do povo", é o responsável pela apresentação dos casos relacionados com a "justiça". Pessoas simples levam ao programa os mais variados dramas, envolvendo brigas familiares, roubos, violências cometidas por vizinhos, desconhecidos e pela polícia.

Assumindo o papel de juiz das causas, Wagner Montes chega ao ponto de sugerir a morte para aqueles que julga criminosos irrecuperáveis, e de convocar a Rota para agir mais rigorosamente no combate aos crimes. São também constantes as manifestações silenciosas em apoio ao esquadrão da morte, quando, por exemplo, o seu símbolo é localizado pelas câmeras.

Ao som de um rugido de metralhadoras, o apresentador apropria se de valores caros às classes populares como a honestidade, a solidariedade, a justiça, para transformá-los em artifícios emocionais e distorcê-los com argumentos em favor de punições drásticas para os "criminosos" Em nenhum momento, o programa contempla as razões mais profundas da violência.

Quando a violência parte da polícia, o programa tenta resgatar a imagem da instituição, transferindo os erros aos indivíduos. As autoridades superiores são chamadas para manifestar sua discordância com tais atos e prometem providências imediatas. O programa, como se vê, poupa a instituição maiores críticas e evita desmascaramento do seu caráter ostensivamente repressivo.

O PROGRAMA E A RELIGIÃO

Se por um lado, "O Povo na TV" utiliza um discurso muito próximo àquele utilizado pelas CEBs, ele é acompanhado por uma prática que o nega, como por exemplo, no que se refere ao direito dos pobres.

Na sua intenção de dar voz aos pobres, as CEBs priorizam o coletivo e a organização das classes trabalhadoras, enquanto o programa destitui a reivindicação do seu caráter coletivo e transforma-a em concessão ao indivíduo isoladamente.

A linguagem do programa é penetrada pela religiosidade popular, que se manifesta através de provérbios, citações bíblicas, apelos a outras crenças, além dos quadros destinados à devoção e fé do povo, como a hora da Ave-Maria, e as curas do professor Lengruber.

O programa recupera a visão de que a ordem natural e social decorrem da vontade divina e só por ela podem ser modificadas. Assim, perante as dificuldades, só resta rezar a Deus.

Ao contrário desta prática, as CEBs buscam atingir uma nova linguagem, intrinsecamente libertadora e reveladora do real, que possibilite a conscientização do povo enquanto agente de mudança social.

O programa capta a importância e a relação que as classes populares mantêm com os "santos", para reforçar a idolatria e adoração das imagens.

No momento da reza, uma imagem de Nossa Senhora é colocada no palco para ser beijada e consagrada com flores, ao som da Ave-Maria e das reflexões do apresentador, Wilton Franco tenta impor uma relação de mediação entre o povo e o sagrado, procurando impedir que as pessoas relacionem com o seu cotidiano.

São também constantes as criticas à igreja mais progressista, responsável, segundo programa, pelo abandono das pessoas à igreja".

PARTICIPAÇÃO PLANEJADA

Tais pressupostos, combinados com uma visão dos direitos dos pobres, permite compreender o caráter estratégico do "Povo na TV" no atual momento político brasileiro.

Justamente no momento em que toda sociedade se organiza e reivindica um espaço maior de expressão e participação nas decisões do poder e nos meios de divulgação, surge um programa autodenominando-se "porta-voz do povo".

Exatamente quando se cristaliza a necessidade de solidariedade da grande maioria, como caminho fundamental para a construção de uma nova sociedade surge o programa.

Baseando-se na retorica da defesa dos direitos humanos coletivos, o programa continua a perseguir o cumprimento dos direitos individuais, tentando, assim, dissolver a força do coletivo.

Ao tentar constituir-se como ponte entre o poder e a população, o programa está, na verdade, dissimulando a compreensão da desigualdade social, que produz os conflitos levados ao palco. Suas soluções (obtidas através de um perfeito entendimento com o poder) são individuais quando os problemas são coletivos; sua resposta aos dramas familiares é o julgamento moral e condenação de pessoas; sua receita para a violência é a punição drástica para os envolvidos.

A articulação das lutas comunitárias para a conquista de uma sociedade mais justa, é uma questão intocada pelo programa.

"O Povo na TV" coloca-se como espaço aberto para a antecipação (para isso faz uso do esquema de auditório, de grande peso popular), mas faz deste espaço a tradicional prática assistencialista e paternalista, fundada numa fraternidade que esconde os antagonismos de classe.

A RECEPÇÃO POPULAR

No entanto, tal projeto de manipulação popular, não pode ser entendido de forma absoluta. Se o poder pode controlar a emissão das mensagens, ele não pode controlar a sua recepção. Neste sentido, o "Povo na TV", como qualquer outro programa, apresenta contradições.

Observa-se, em cada programa, por exemplo, a evidente inoperância das instituições, o descrédito e a revolta do povo em relação à forma como elas estão constituídas.

Nos freqüentes apelos do programa à "legião de amigos", vemos que se exploram determinados valores eminentemente populares, como a solidariedade. As pessoas se mobilizam motivadas por um valor que lhes pertence e não por desejo do programa. O apelo ao espírito comunitário traz em si um potencial organizativo, cuja liberação pode ocorrer a qualquer momento.

Embora o programa use todos os seus recursos para minimizar as reivindicações coletivas, os grupos que dele participam usam o programa para expor suas queixas e fazer suas críticas, e assim manifesta o seu descontentamento.

Os limites deste projetos de manipulação dos anseios populares no entanto, são muito claros: apesar do majestoso planejamento de uma famosa agência de propaganda e da presença de Sérgio Malandro e Wagner Montes (apresentadores do programa), no comício do presidente Figueiredo, no dia 8 de novembro, no Rio de Janeiro, as cem mil pessoas presentes não deixaram por menos - manifestaram-se com estrondosas vaias.


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