Sunday, February 12, 2012

1983 - Boni versus Silvio Santos

Folha de S. Paulo
1/1/1983
Boni versus Silvio Santos

Quando Sílvio Santos inaugurou sua emissora de televisăo, há 19 meses, o superintendente da TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, achava que a impertinęncia do homem do baú năo duraria muito. "Ele dizia que estaríamos acabados em tręs meses", lembra Luciano Callegari, vice presidente do Sistema Brasileiro de Televisăo. Năo foi isso que aconteceu: a TVS conquistou em um ano o segundo lugar de audięncia (com índices raramente alcançados por outras emissoras, até entăo) e em determinados horários — no período da manhă, por exemplo, roubou ŕ Globo o monopólio do primeiro posto. Mas Sílvio Santos quer mais: contratou recentemente (ao que se comenta, por um salário de oito milhőes) aquele que é considerado o melhor locutor brasileiro de telejornais, Sérgio Chapelin, que estréia no começo de maio como apresentador de "O Show é o Limite". Um jornalista que afirma ter visto o contrato diz que o salário é de cinco milhőes. Estaria também de contrato assinado com Cidinha Campos, campeă de audięncia nos áureos tempos da Record — iniciando ao mesmo tempo uma nova etapa de conquista de outras estrelas, globais e avulsas.

Marília Gabriela, Vera Fischer, Dina Sfat, Juca de Oliveira, Renata Sorrah, Leonardo Villar e Baby Garroux, entre outros, estariam na lista de contatos já iniciados pela direçăo da TVS — embora a emissora năo admita o ato. "Só posso dizer que ninguém deve brincar com a gente", alerta Callegari. "Năo temos nenhum gęnio por aqui, mas todo mundo trabalha sério, com empenho. Aos poucos, estamos realizando nossos sonhos." O próprio Chapelin, aliás, era uma dessas velhas fantasias. Desde que a TVS começou a funcionar, Sílvio Santos pensava em contratá-lo para ser o primeiro locutor do telejornal da casa, o "Noticentro". As negociaçőes foram iniciadas, mas a TVS cometeu um erro fundamental: "Deixamos que ele pensasse no assunto. E a Globo conseguiu convencę-lo a ficar", lembra Callegari. Desta vez, a pressăo foi direta: "Apresentamos o contrato pronto e ele assinou logo sem pestanejar".

Verdade que, além do salário de Cr$ 8 milhőes que, segundo se comenta, passará a receber mensalmente, Chapelin achou irresistível uma das cláusulas do contrato proposto pela TVS: sua liberaçăo para participar de comerciais, o que a Globo năo permitia. "Isso garante a ele uma retirada extra muito boa, já que seu nome é hoje um sucesso", diz o vice-presidente da emissora.

A cadeia de contrataçőes iniciada com Sérgio Chapelin e Cidinha Campos deve ajudar a TVS a manter o segundo lugar no Ibope, destaca Luciano Callegari, e em alguns casos até mesmo o primeiro posto poderá ser conquistado, e mantido. Mas, diz ele, é importante năo sonhar alto demais — ao menos por enquanto. "Quem năo reconhece a força da Globo năo entende de televisăo. Ela tem os melhores profissionais, uma estrutura muito bem montada e leva o trabalho a sério — tanto que suas novelas ganham em qualidade dos filmes americanos feitos para TV."

Ainda assim, aproveitando falhas e deslizes da Globo e incrementando sua programaçăo "voltada para o povo", a emissora de Sílvio Santos espera entrar na briga direta pelo primeiro lugar "dentro de dois anos, dois anos e meio", segundo Callegari. E conta, a seu favor, com a experięncia desenvolvida no trato com o público das classes C e D — fonte onde a própria Globo se abasteceu, quando iniciou sua ascensăo no final dos anos 60. Na época, predominava na emissora os chamados programas populares e os campeőes de audięncia eram "Dercy de Verdade", "TeleCatch", "Programa Sílvio Santos", os novelőes cubanos, argentinos e mexicanos, o "jornalismo" de "Amaral Neto, o Repórter", além dos agora recuperados "Discoteca do Chacrinha" e "Balança Mas Năo Cai". Aos poucos, a Globo foi sofisticando seu produto final — e é justamente isso que a TVS pretende fazer daqui para a frente: "Melhorar a qualidade sem deixar de atender ao nosso público", diz Luciano Callegari. Tudo se repete tediosamente, completaria Abelardo Barbosa, o filósofo Chacrinha.

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