Tuesday, February 21, 2012

1981 - Jornalismo Forte da Bandeirantes


Jornal do Brasi
19/4/1981
José Neumanne Pinto
TELEJORNALISMO DA BANDEIRANTES
Menos técnico e mais talento para competir com a Globo

SÃO PAULO -: Sem os recursos tecnológicos de sua concorrente, a Rede Globo de Televisão, a Bandeirantes resolveu apostar no homem como matéria-prima fundamental para os produtos de seu Departamento de Telejornalismo. Isso vale principalmente para o carro-chefe de sua programação noticiosa, o Jornal Bandeirantes, que ancorou nos vídeos brasileiros dia 6 de abril último com uma inusitada figura, a do comentarista, que os norte-americanos chamam de anchorman, palavras inglesa ainda sem tradução adequada para o português.

O novo esquema, que inclui a contratação de comentaristas exclusivos (Carlos Castelo Branco deverá comentar politica, Newton Carlos já faz o comentário internacional e Márcio Guedes encarrega-se da opinião esportiva), tomou corpo quando Walter Clark assumiu a direção-geral da rede e resolveu apostar no jornalismo e no esporte. Com um olho em sua falta de recursos (o telejornalismo da Bandeirantes custa à empresa cerca de 2 milhões de dólares por ano, ou seja, Cr$ 160 milhões, 10% do custo do telejornal da Globo, segundo os cálculos da emissora paulista) e outro na concorrente, Walter Clark cunhou a fórmula de um "jornalismo que não seja substantivo em excesso", como é o da Globo.

- Isso tem muito a ver com o próprio espírito das duas casas. Evidentemente tem muito a ver com os proprietários das empresas. O Sr Roberto Marinho não gosta de adjetivos. O Sr João Saad tem atração especial pelas polêmicas. Isso faz a diferença entre as duas emissoras. Por isso, podemos dizer que trabalho aqui com independência total. No dia do julgamento de Lula na Justiça Militar, fiz uma comparação entre os noticiários da Globo e da Bandeirantes. A Globo deu a notícia e a repercutiu com o Promotor e o advogado de defesa dos lideres sindicais condenados. De Lula e seus companheiros apareceram apenas imagens. Nós demos Lula e outros sindicalistas falando além de tudo o que a Globo tinha dado. Há uma grande diferença aí, não? - aponta Paulo Mário Mansur, que dirigiu o departamento de Telejornalismo da TV Globo - Canal 5 - de São Paulo durante oito anos, passou quatro tomando conta de sua Assessoria de Imprensa e, antes de Walter Clark assumir a direção geral da Rede Bandeirantes de Televisão, assumiu o telejornalismo da rede comandada pelo canal 13 de São Paulo.

Há muitas outras diferenças entre o Jornal Nacional, telejornal da Globo no horário nobre (19h45m) e o Jornal Bandeirantes, que vai das 19h30m às 20h. Se a Globo tem seis vezes o número de jornalistas em atividade carregando suas câmaras e empunhando seus microfones e gasta 10 vezes mais com um esquema que inclui correspondentes no exterior, especialista em economia da imprensa brasileira (escreve na Folha de São Paulo e em O Globo e na própria TV Bandeirantes); se a Globo atingiu um grau de limpeza da imagem no vídeo que as duas ilhas de produção e montagem do telejornal da Bandeirantes ainda estão longe de conseguir - o jogo da rede dirigida por Walter Clark é apostar na opinião e apoiar-se numa maior flexibilidade, capaz de interromper sempre a programação para dar uma notícia ao vivo. Por enquanto, as maiores dificuldades para se adotar um esquema assim são as condições materiais (a rede dispõe de apenas 150 profissionais em suas emissoras). Mas - pelo menos - a intenção já existe.

- A Globo tem condições técnicas de interromper, em rede, sua programação normal a qualquer momento para transmitir uma notícia importante. Só não faz isso constantemente porque não quer. Nós temos de fazer um grande esforço nesse sentido, como foi feito no furo internacional que lhes demos, o atentado recente contra o Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Aliás, naquele dia, a Globo nos bloqueou o satélite norte-americano. A sorte é que recebemos diariamente uma transmissão de satélite gerada em Londres e demos antes - diz Paulo Mário Mansur.

Além do atentado contra Reagan e da descida do Columbia, transmitida ininterruptamente durante uma hora e meia na tarde da última terça-feira, a Bandeirantes não tem condições de falar num esforço contínuo de pôr no ar notícias ao vivo. Por enquanto, a vitória que seu Departamento de Telejornalismo pode comemorar é a de, enfim, a televisão brasileira haver-se libertado do padrão Globo, rico, mas assético, também na transmissão de notícias, feita, como bem define Walter Clark, de forma luxuosa, mas excessivamente substantiva.

A nova fórmula da Bandeirantes apóia-se numa linguagem mais informal dos textos, numa edição mais relaxada, na costura existente entre as matérias, ligadas umas às outras, como se fizessem parte de uma corrente, mas principalmente nos comentários inseridos no pé das notícias.

O Jornal Nacional, da concorrente, é muito tenso e joga no ar uma quantidade excessiva de notícias num prazo muito curto, levando o telespectador comum normalmente a esquecer o noticiário que acaba de ver. A notícia na Bandeirantes, em seu novo esquema, tem mais tempo e, assim, é transmitida de forma a fazer com que o telespectador saiba o que está vendo e ouvindo.

Além disso, a edição do Jornal Nacional funciona como uma espécie de colagem em que as notícias não se sequenciam umas às outras. Ao mosaico global, a Bandeirantes preferiu adotar a fórmula de costurar uma notícia à outra, a exemplo do que fazia a extinta TV Excelsior - canal 9 - de São. Paulo no tempo do Show de Notícias (início dos anos 60). Essa forma é aproximada das edições "Coordenadas" dos jornais impressos.

O comentário, como a adoção da corrente e o ritmo mais solto e descontraído da edição, serve não apenas para, de alguma forma, adjetivar o noticiário, como pretende o novo Diretor Geral, mas também para ajudar a fixar a notícia na cabeça do telespectador. Quando o Embaixador Roberto Campos foi ouvido quarta-feira passada, o acréscimo de um comentário rápido de Joelmir Betting funcionou, conforme pretendem os telejornalistas da Bandeirantes, como uma espécie de cola fixadora da notícia que acaba de ser dada na mente do telespectador.

O encarregado de servir de pião nesse caso foi o jornalista Joelmir Betting:

- Encontramos em Joelmir seriedade profissional, perfeita adaptação ao veículo eletrônico e as qualidades de um bom narrador -explica Paulo Mário Mansur. Com uma agradável voz metálica, seu estilo de frases curtas e irônicas e o conhecimento de causa de quem já foi editor de economia de mercado de jornal (Folha de São Paulo), Betting é a tentativa brasileira Mais aproximada de repetir o sucesso de Walter Cronkite, que acaba de se aposentar nos Estados Unidos, justamente na função que a telev. si" brasileira pretende inaugurar.

Duas vezes por semana Paulo Mário Mansur espera contar com a colaboração fixa de Carlos Castelo Branco, do JORNAL DO BRASIL. A opinião internacional foi resolvida com a manutenção de Newton Carlos, segundo Mansur, agora menos prolixo e mais contido. Como Márcio Guedes foi localizado no Departamento de Esportes da TV Bandeirantes - Canal 7 - do Rio para gravar o comentário esportivo, sempre que for exigido no jornal.

O objetivo de Paulo Mário Mansur é adotar a fórmula de Walter Cronkite por inteiro e não parcialmente. Cronkite reunia numa mesa os editores de cada seção, fazendo com que cada um deles apresentasse seu noticiário próprio enquanto o anchorman cuidava de "costurar" o telejornal como um todo. Por enquanto, reconhece, a Bandeirantes não tem recursos para isso. Mas, enquanto não é possível, ele pretende ter um quadro de cerca de 20 jornalistas especializados em diversos setores à disposição para fazer Comentários esporádicos sobre os assuntos de sua especialidade. A Bandeirantes lhes pagará cachês por participação e evitará contar com uma grande equipe assalariada, a exemplo do que faz a CBS.

Mas a Bandeirantes ainda não adotou a fórmula completa de Cronkite também em relação ao "pião". Os editores, segundo o modelo norte-americano, acompanham todo o processo de produção do telejornalismo. Joelmir Betting entra em contato com o noticiário apenas uma hora antes de ir para o ar, quando o processo de produção chega a seu final.

Esse processo obedece à seguinte ordem:

1 - Durante a noite e a madrugada, um pauteiro prepara, para estar pronto às 4h, o roteiro do que deverá ser o noticiário das 19h30m. Enquanto isso, é produzido o jornal Primeira Edição, uma versão do Hoje da Globo, que vai ao ar às 13h, com o noticiário sobre artes e espetáculos. A pauta tem de prever o que vai ao ar às 19h30m, em rede nacional, mas também as pequenas (três minutos) edições dos jornais locais atenção, no ar em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador, às 18h, 19h, 21h e 23h.

2 - A pauta é transmitida, às 6h, por telex às emissoras de outras cidades.

3 - Às 7h, a chefia de reportagem recebe a pauta, checa as indicações de horários e a atualiza. Começa então o processo de produção, quando as equipes compostas por cinegrafista, repórter, iluminador e técnico de som saem às ruas.

4 - O processo de edição começa às 15h, quando o produtor da chefia de reportagem verifica a qualidade técnica de cada teipe produzido, sabendo se é possível ou não levá-lo ao ar. Esse é o processo definido por Paulo Mário Mansur como de "limpeza da área para edição".

Também neste horário a chefia de reportagem reúne-se com os seis editores (um deles é o chefe) e a editora internacional para discutir o pré-espelho. A editora internacional leva à reunião a pauta do satélite. O tempo é distribuído, cada editor (ao contrário do jornal, não há editores de áreas determinadas) recebe sua cota no noticiário e terá de administrar com a produção a pauta de recebimento das matérias produzidas pelos estados e encaminhados à central de VT.

5 - Somente às 18h45m começa a ser recebido o noticiário transmitido pelo satélite de Londres. Joelmir deve ter chegado há 15 minutos.

6 - As 19h, prontos os noticiários local e nacional, na dependência da chegada do internacional ("este é o nosso calcanhar de aquiles. Por isso, todos aqui aguardam ansiosamente o verão, quando na Europa os calendários são antecipados em uma hora", diz Mansur), Joelmir Betting e o apresentador Ferreira Martins já estão a postos no estúdio. "Joelmir tem uma incrível capacidade de memorização", define Mansur.

7 - O Jornal Bandeirantes vai ao ar diariamente, às 19h30m, ao vivo e em quatro blocos, separados por comerciais. Desde as 19h15m é iniciada a contagem regressiva, mas, a qualquer momento, o jornal pode ser alterado com alguma notícia espetacular, entre um bloco e outro, quando o telespectador está vendo o comercial.

- Nossas equipes de reportagem são jovens. Estão sendo formadas no dia-a-dia. A maioria de nossos repórteres é gente recém-formada pelas escolas de Comunicação. Preferimos essa gente, pois, você sabe, não é fácil formar um profissional. Esses jovens saem de escolas que não têm equipamentos, não têm câmaras nem estúdios. Então, é preciso escolher, no meio desse material humano, aqueles que realmente servem, têm talento para a profissão - diz Mansur.

Para Paulo Mário, as diferenças entre a imprensa e os meios de comunicação eletrônicos são tão grandes que dificilmente um repórter de jornal se dá bem fazendo televisão.

No jornal, o repórter entrega a matéria a outro e vai embora. Na televisão, ele tem contato com outro tipo de material e outros tipos de profissionais: iluminadores, cinegrafistas, técnicos de som, produtores e editores. E acompanha o processo de confecção de sua matéria até o fim - explica. Mesmo assim, informa, prefere profissionais com currículo em imprensa para chefiar a redação, a reportagem e para editar as matérias.

Os jornais impressos servem também de parâmetro para avaliação da qualidade do material apresentado à noite pelo anchorman e pelos locutores, repórteres e comentaristas no vídeo. O princípio do Departamento de Telejornalismo da Rede Bandeirantes de Televisão é o de que pelo menos 60% das notícias dadas em primeira página pelos principais jornais brasileiros tenham sido editadas na noite anterior por sua equipe.

Depois de quatro anos fora da televisão, Paulo Mário Mansur acha que só agora está-se livrando do padrão globo, ideal em termos de técnica, de volume e de acabamento, mas não de conteúdo.

- Quando eu cheguei à Bandeirantes, minha obsessão era fazer como a Globo. Ficava desesperado quando via que não havia condições para isso. Hoje, a ordem é "fazer diferente" da Globo. Se nossos locutores também são bem-vestidos, isso não quer dizer que estejamos seguindo o padrão globo de guarda-roupa. Ferreira Martins costuma vestir-se bem, normalmente. O mesmo acontece com Joelmir. Mas há uma diferença fundamental da Globo. Não estamos preocupados demais com a moda. Se a moda altera a lapela do paletó, Cid Moreira é obrigado a fazer o mesmo. Conosco não acontece isso - diz.

Nos quatro anos que passou fora da TV, Paulo Mário observou muito o telejornalismo produzido no Brasil. E reconhece que a Bandeirantes tem feito pouco para resolver dois problemas jamais solucionados nos jornais apresentados diariamente pela televisão:

1) Há uma pequena proporção de fatos mostrados por imagens. A grande maioria das imagens gravadas é de gente falando.

2) Essas imagens são sempre feitas em ambientes internos, quase nunca ao ar livre, em imagens externas.

- Reconheço que esses defeitos continuam existindo. Mas os atribuo à juventude e à inexperiência das equipes de reportagem que dirijo. Tentamos corrigir tais erros com um esquema de criação que pretendemos instalar. Também acreditamos que possamos dar uma colaboração maior, à televisão brasileira forçando a Globo a se comportar como nunca fez, levando, direto ao vivo, imagens ao ar com notícias acontecidas no decorrer do dia. Isso aconteceu, por exemplo, no caso do incêndio do Edifício Grande Avenida, em São Paulo, e no da eleição do Presidente da Câmara dos Deputados, Nélson Marchezan. Não tinha acontecido antes de Walter Clark falar em nossas prioridades, pelo menos com constância.

1 comment:

  1. Parabéns, quem faz o que gosta, não trabalha, vai para o seu "robi" é assim que sempre pensei em relação ao meu trabalho, que eu amava.Fico muito feliz e orgulhosa de saber e constatar que tu fazes com muita dedicação o teu trabalho, também.Mais orgulhosa ainda por saber que de alguma forma contribui para esta felicidade!! Grande abraço!!Fica com DEUS.

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