Sunday, February 12, 2012

1981 - A importância do Sumaré

Jornal do Brasil
21/9/1981
Samuel Wainer Filho
O ALTO DAS TORRES DA IMAGEM E DO SOM E DE MUITAS LENDAS
Existem apenas duas maneiras de se fotografar ao mesmo tempo o Cristo Redentor e o Păo de Açúcar: sobrevoando a cidade ou do alto do Sumaré, onde dezenas de técnicos fazem uma vigília ininterrupta nos transmissores das televisőes, rádios FM e outras emissoras.

Isolados do Centro da Cidade, năo dispőem sequer de linhas telefônicas para comunicaçăo com o mundo externo. Mas săo os primeiros a saber das notícias que chegam via satélite de todas as partes do mundo.

Sem os transmissores instalados no Sumaré năo existiriam as imagens das novelas, as matérias internacionais dos telejornais, o som puro das rádios FM. Sem os estúdios, poderia, teoricamente, ser gerada, a partir do Sumaré, qualquer programaçăo.

O requisito mais importante para uma boa adaptaçăo ao trabalho: năo sofrer de vertigens. Eventualmente, as antenas que ficam no topo das torres de transmissăo apresentam algum defeito, e o único jeito é subir de 130 a 170 metros, em escadas externas, para sanar o defeito. Outros requisitos: gostar de solidăo e năo temer frio, tempestades, raios. No rol das lendas do Sumaré, pelo menos tręs pessoas já morreram fulminadas pelos raios.

Em dezembro de 1966, dois operadores de transmissores da extinta TV Excelsior assistiam ŕ programaçăo da emissora. Passava das 22h e uma violenta tempestade castigava o Rio. De repente, os operadores notaram que o sinal saíra do ar. A suspeita inicial recaiu sobre o equipamento: possivelmente o desarme de algum componente eletrônico. Um dos operadores foi verificar se havia algum problema com a torre onde se localizava a antena. A torre, de 130 metros de altura, toda de ferro, tinha sido levada pelo vento, despencando pelo barranco em direçăo ŕ Rua Uruguai. Até hoje pode-se ver a trilha deixada na mata pela queda da torre. Durante alguns dias, o Rio ficou sem as imagens da TV Excelsior.

Esta é uma das muitas histórias contadas pelos técnicos e operadores de transmissăo do Sumaré. A 800 metros de altura, único lugar de onde se vę o Cristo Redentor de cima, o Sumaré, com um quilômetro de extensăo e 40 metros de largura em seu plató, abriga todas as torres de transmissăo das emissoras de TV do Rio, todas as antenas das rádios FM, dos repetidores de VHF e UHF que servem para comunicaçőes de rádio (bombeiros, Light, PM, Telerj), a torre de telemetria de Furnas.

A primeira estaçăo que chegou ao Sumaré, a TV Rio, instalou sua torre de transmissăo em 1958. Nesta época, a da TV Tupi ficava no morro do Păo de Açúcar, mas logo depois houve a transferęncia para o Sumaré. Em seguida, chegou a TV Continental e, em 1965, a TV Globo. Alguns anos mais tarde, a TVE, a TV Bandeirantes e TVS, que construiu a torre mais alta do Sumaré: 165 metros, abrigando as antenas de transmissăo da TVS e da TV Manchete, que herdou os equipamentos da TV Tupi. O mesmo funcionário que operava os 'transmissores da Tupi está diariamente no Sumaré, apenas para aquecer os equipamentos, evitar que sofram com a umidade. Mesmo quando o Dentel lacrou o cristal da Tupi, Oscar Silva Júnior continuou seu trabalho, apesar do atraso nos salários. A recompensa pelo esforço chegou: Oscar foi contratado pela TV Manchete e vai continuar a rotina de 22 anos de trabalho no Sumaré.

- Isso aqui é como uma cachaça. Năo conseguiria trabalhar em outro lugar.

A jornada de trabalho no Sumaré é peculiar: cada operador trabalha 24 horas seguidas e tem direito a 48 de folga. Mas săo poucos os que tęm apenas um emprego. Normalmente, terminadas as 24 horas em uma das empresas, há apenas a mudança de prédio e o inicio de nova jornada de 24 horas. As emissoras de TV mantęm pelo menos dois funcionários em cada plantăo. As rádios, apenas um, o que provoca certo temor.

- Se um de nós morrer, tiver um ataque cardíaco, passar mal, só haverá socorro quando chegar a substituiçăo, ou se por acaso algum operador vier aqui visitar a gente - diz Mano Montenegro, há mais de 15 anos no Sumaré, trabalhando em duas emissoras de rádio.

Entre os quase 50 operadores (por turno) que vivem no Sumaré, nenhuma mulher. Cada equipe escala um mestre-cuca que fica encarregado da parte culinária. Praticamente todos os prédios possuem uma cozinha, um quarto com camas beliche. A única forma de comunicaçăo é através de radiotransmissores ou telefones ligados diretamente ŕ sede das emissoras. Năo há ligaçőes externas.

- É estranho. Do início ao fim do nosso plantăo, ficamos completamente isolados da cidade, que está a poucos minutos daqui. Ao mesmo tempo, somos os primeiros a saber das noticias do mundo. Quando houve o atentado contra o Papa, em tręs minutos já estávamos recebendo as imagens, ao vivo.

Toda a área do Sumaré pertence ao IBDF, e existe um profundo respeito pela ecologia. As normas traçadas pelo IBDF săo seguidas ŕ risca. Todos os prédios săo pintados de verde, para năo destoar da cor da vegetaçăo. Uma das torres da TV Bandeirantes, a de microondas, apontada diretamente para os estúdios de Botafogo, năo pode ter qualquer interferęncia física. Uma árvore cresceu, bem em frente ŕ torre, e, ao invés de podá-la para eliminar a interferęncia, os técnicos aumentaram a altura da torre, para evitar a depredaçăo. A torre ficava um metro acima do prédio da emissora, já está a tręs metros e "vai continuar, subindo, na mesma velocidade de crescimento da árvore".

Do alto do Sumaré, ouve-se o ronco da cidade. O único ruído a quebrar o silęncio vem do gerador da TV Globo, que fica ligado 24 horas por dia, para que năo haja qualquer possibilidade de interrupçăo da programaçăo por falta de energia. É a única emissora que funciona com o gerador ininterruptamente, gastando 20 mil litros de óleo diesel por męs. Por determinaçăo do Governo, o sistema passará a ser feito, dentro de alguns meses, via light, e para isso está sendo construída uma subestaçăo de eletricidade.

A Globo também é a única emissora que possui um elevador para as eventuais subidas ŕ torre de transmissăo. Em todas as outras, é necessário escalar as escadas para sanar os defeitos das antenas de transmissăo. É também da Globo o flash eletrônico alimentado por gásde xénon que pisca dia e noite e faz parte do sistema de rotas aeronáuticas. A maior equipe é a da Globo, que possui diversos engenheiros capazes de sanar qualquer problema nos transmissores, sem necessidade de auxilio do departamento técnico da sede. A última vez que a emissora saiu do ar por problemas de transmissăo aconteceu há mais de dois anos. e a pane durou precisamente 20 segundos.

Um técnico (pelo menos) fica permanentemente na sala por onde chegam e saem as imagens vindas dos estúdios ou dos outros Estados ou ainda de qualquer parte do mundo. Por isso dizem os técnicos, é um trabalho tenso, de imensa responsabilidade. E que năo pára, mesmo quando as emissoras encerram suas programaçőes. É a partir deste momento que começam as geraçőes para outros Estados, via Embratel. Este horário é utilizado por motivos de custo. Na madrugada. o minuto -de satélite é mais barato, como as ligaçőes telefônicas.

O sistema de funcionamento é o seguinte: da sede das emissoras é gerado um sinal, transmitido ŕs torres do Sumaré. Este sinal é captado pelos receptores e jogado para os transmissores, que o amplificam enviando-o para os receptores domésticos (aparelhos de televisăo). Ou o contrário: um correspondente envia uma matéria da Europa, por exemplo, as torres do Sumaré recebem o sinal, transmitem para o estúdio para que seja feita a ediçăo daquela matéria.

Para as rádios (FM), o sistema é mais simples: as torres apenas recebem o sinal vindo dos estúdios, o amplificam e transmitem. As torres funcionam como um espelho e a localizaçăo năo poderia ser melhor. Do alto do Sumaré, tem-se uma visăo de 360° sobre todo o Rio. Os únicos bairros escondidos săo Botafogo, Copacabana, Barra da Tijuca, onde a recepçăo de som e imagem é ruim, sanada com a utilizaçăo de antenas coletivas.

A frieza da operaçăo técnica é quebrada por acontecimentos curiosos. Na época das enchentes de janeiro de 1966. um dos operadores da TV Globo. Júlio Braga, viu um automóvel chegar perto do prédio da Globo, com um homem e uma criança. Foi até o carro para perguntar o motivo da "visita" ao Sumaré. O homem disse que tinha sonhado com Deus jogando baldes de água nas Zonas Norte e Sul da cidade, e que o único lugar que năo seria afetado era exatamente o Sumaré. Ele contou o sonho ŕ sua família, que năo lhe deu crédito.

A polícia foi chamada para retirar o sonhador do local, mas ele insistiu. alegando que o local era público e que ele -iria ficar ali. No dia seguinte começou a chuva que provocou enchentes em toda a cidade. Mais que mil pessoas morreram.

RÁDIOS E TVS NUM COMPLEXO TODO VERDE - Chegando ao Sumaré, há alguns obstáculos móveis colocados pela Polícia Militar (que faz a segurança da área), para que os automóveis diminuam a velocidade. Logo após, um pequeno prédio onde dois PMs ficam dia e noite (em regime de revezamento) pedindo a identificaçăo de todos os que desejam entrar na área. O prédio da PM é o único que năo se enquadra nas especificaçőes do IBDF - é azul e branco, ao contrário de todos os outros prédios, pintados de verde.

Tomando-se a estrada ŕ direita, chega-se ŕ TVS. RÁDIO JORNAL DO BRASIL FM, TV Manchete, Central de irradiaçăo do BIP, Rádio Metropolitana, Rádio Manchete. Ŕ esquerda, as TV s Bandeirantes e Educativa, que funcionam no mesmo prédio e dividem a torre de transmissăo em regime do condomínio, junto com a Rádio Nacional FM.

Mais ŕ frente, o prédio da TV Globo, cuja torre lembra as torres de controle dos aeroportos, a Torre de Telemetria do sistema Furnas. Săo ao todo 26 prédios. As torres distribuem em quatro ângulos - através das antenas - som e imagens para todo o Estado do Rio. Em prédios menores, as repetidoras de VHF , UHF, Detran, Bombeiros, PM, Telerj.

O funcionário mais antigo do complexo do Sumaré é Armando de Barros Filho, que atualmente trabalha na TV Bandeirantes e que há 30 anos trabalha com torres de transmissăo. Junto com ele, Haroldo Lima, há 28 anos na profissăo. Começou em 1960 na TV Rio, em 1965 passou para a TV Globo, onde trabalhou durante 13 anos. Quando foi fundada a TV Educativa, acumulou dois empregos. Passou para a Tupi onde ficou quase até seu fechamento.

Agora espera a aposentadoria. O fato mais marcante de sua carreira aconteceu no final da década de 60, quando um temporal isolou o Sumaré do resto da cidade. Durante uma semana, ficou preso, recebendo alimentaçăo por helicópteros da FAB. O caminho que leva ao Sumaré teve que ser aberto a dinamite.

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