Friday, February 24, 2012

1976 - Baixarias na TV


Jornal do Brasil
29/2/1976
Paulo Maia
O DESAFIO DA ESFINGE
Um antigo mito na história das comunicações sociais precisa ser revisto, com urgência. Durante este meio século de reinado absoluto da televisão, o templo máximo do lazer na sociedade consumista de nossos tempos, se tem acreditado, sistemática e inquestionavelmente que a cultura de massas se destina a baixar o máximo possível o teor de informação de suas mensagens, aumentando violentamente o teor da redundância, para se atingir mais gente de mais baixo nível intelectual.

O sucesso (inclusive empresarial) de Sílvio Santos, no Brasil, tem sido usado com alta freqüência para demonstrar a força das mensagens vazias para as audiências das classes B e, principalmente, C. Segundo os mesmos argumentos, para os públicos de classe A, de nível cultural e poder aquisitivo mais altos, já existem os teatros, os cinemas, os discos, as óperas, os livros e outros galhos da frondosa árvore da indústria cultural massiva.

Esse é, contudo, um argumento falho e falso em sua essência. Há um fundo de verdade nessa retórica boba, mas ela não é absoluta, una e indivisível, devendo, ao contrário, ser vista em conjunto no complexo real que envolve como uma teia de aranha essa questão. Se o público da chamada classe C tem necessidade de televisão e essa necessidade deve ser suprida com uma programação simples e fluente (mas nem por isso idiota), também as outras camadas de público merecem atenção.

Os homens de comunicação no Brasil têm medo da palavra elite, que lhes parece uma inacessível esfinge cheia de segredos mortais. Na realidade, esse medo é uma forma de disfarçar seu comodismo. Porque a lógica e o bom senso não estão ao seu lado na argumentação mais fácil do sucesso quantitativo de audiência. Afinal, se considerarmos que a indústria cultural - a televisão em particular - é sustentada por anúncios, só nos resta entender que um público consumidor a alimenta. Ninguém vai precisar aqui reunir conceitos sociológicos ou econômicos para demonstrar que alguns produtos da sociedade de consumo, justamente os mais caros e mais sofisticados, só são consumidos por, uma elite econômica e cultural,' existente em qualquer sociedade em que prevaleça uma economia de mercado num sistema capitalista.

Assim, as listagens de audiência do IBOPE não estão dizendo Uma verdade tão absoluta como parece à primeira vista. Atrás delas, existe uma realidade mercantil, muito além de seus diagnósticos apressados e simplórios. Numa simplificação grosseira, em que nos arriscamos para melhor deixarmos explicitada a questão, é natural que se leve lazer ao operário e à população de renda baixa em geral, mas, numa indústria cultural, não se deve esquecer de vender um produto ao seu público natural, cujo poder aquisitivo é mais alto e cujas chances de consumir são maiores. Não se trata evidentemente de uma questão ideológica, muito menos de uma tese cultural. Aqui está feita, na medida do possível, uma constatação meramente mercadológica que, apesar de sua franqueza abusada, demonstra muito bem em que castelos de areia repousam os mais gratos axiomas da comunicação massiva e da indústria cultural brasileira, principalmente nas matrizes de Rio e São Paulo.

Quanto ao conteúdo e à forma da programação em si, os ideais populistas dos que conduzem a locomotiva da cultura de massas brasileira são meros preconceitos imbecis. É claro, não se pode contestar o baixo nível de informação das classes populares. Afundá-las mais ainda na areia movediça de uma comunicação oca, sem qualquer miolo de informação, pode ser, porém, o caminho mais fácil para o sucesso, mas nunca será o meio mais responsável de conduzir esse público por mensagens mais proveitosas.

Acreditar que a destinação da televisão para um público, o mais extenso, o menos culto e o mais pobre possível, é a única saída mercadológica possível e inteligente para a indústria cultural da televisão é a mesma coisa que pensar que o chamado respeitável público tem a obrigação de agradecer pelas maciças doses diárias de estupidez que lhe são injetadas através do facho luminoso do televisor.

A descoberta das outras opções é o desafio da esfinge, com fascinantes enigmas que urgem ser decifrados.


No comments:

Post a Comment

Followers