Sunday, October 24, 2010

1981 = Novo Jornal Bandeirantes

Jornal do Brasil
26/4/1981
Maria Helena Dutra
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DAS INEVITÁVEIS COMPARAÇÕES


Está mais para Itararé. A anunciada batalha e confronto sangrento entre as hostes da Globo e da Bandeirantes no campo do jornalismo ainda năo aconteceu e acredito muito pouco que realmente se travará algum dia. Porque este campo especifico da televisăo brasileira é muito mais para escaramuças do que guerras de verdade. Isso porque apenas uma reduzida elite liga o veículo ou muda de canal à procura de informações, e o Jornal Nacional só é há anos campeăo de audiência no Canal 4 por estar estrategicamente situado no meio das duas novelas mais nobres da casa.

A bem da verdade mais absoluta, apenas estas e mais os programas popularescos, sensacionalistas ou doses cavalares de filmes têm feito alterar os quadros normalmente monolíticos de uma audiência totalmente dominada em todo o país pela Rede Globo. Mas a precavida estaçăo, mesmo sabendo disso, andou reformulando sua linha jornalística admitindo que um bom serviço nesse setor, embora năo renda grandes audiências, confere prestigio e adesăo das faixas mais aquisitivas da naçăo. Por, que apenas a entrada pouco mais forte da Bandeirantes no ramo já causou um certo tititi entre os notáveis que fazem algumas cabeças.

E, justiça se faça, está bom o Jornal da Bandeirantes em seu comprido horário das sete meia às oito da noite. Mil furos acima de seus pequenos bolentins  'Atenção' e da apenas esforçada 'Primeira Ediçăo'. É verdade que luta contra as desvantagens de ter numericamente pequena equipe de repórteres e editores e equipamentos técnicos precários. Entăo se torna muito difícil a este noticioso furar concorrentes até impressos ou dar informaçőes de primeira măo. Acredito que o milagre só uma vez aconteceu e foi no atentado ao Presidente Reagan. Mas compensa estas deficiências - que esperamos sejam brevemente sanadas na forma de maior investimento no setor pelos donos da estaçăo - com análises e criticas às noticias. Coisa que muito raramente acontecia em qualquer canal. Márcio Guedes e Newton Carlos săo especialistas mesmo em seus campos, esporte e noticiário internacional, e analistas concisos e bastante confiáveis. No setor de política ainda năo conseguiram encontrar um profissional que alie, como os outros, bastante conhecimento com os requisitos objetivos da televisăo. O locutor principal, Ferreira Martins, é bastante seguro mesmo nos longos minutos em que suas informaçőes năo têm apoio de qualquer imagem. Falha que muito se repete por lá como também é lacuna a falta de noticiário e análise sobre eventos culturais. Qualquer jogo de futebol ou cricket recebe honras de horário nobre, mas os artistas que năo matam companheiros, ou mulheres ou vizinhos, se restringindo a escrever livros, debates idéias ou transformá-las em música, apenas surgem na parte da tarde. Mostrar e criticar esta parte importante de nosso cotidiano seria um ponto a mais da estação na sua procura de repercussăo.

Alguma ela já tem conseguido pela sorte de ter como centro do seu jornal ou sua âncora o excelente Joelmir Betting. Há muito tempo reconhecido como o melhor analista econômico da televisăo pelas suas participaçőes anteriores nos noticiosos da casa. Agora elevado a comentarista geral continua com a mesma forma irônica, idioma impecável, conhecimento lúcido de todos os assuntos e capaz sempre de dizer a coisa certa no tempo adequado. Sendo especialista é lógico que seja mais forte em seu setor, mas tem sempre a coragem de estabelecer relaçőes e prever conseqüências de todos os fatos. Suas conclusões, por exemplo, sobre os aumentos alucinados do álcool como combustível automotivo, foram perfeitas por somar as razões com coerência, explicar as culpas e tudo realizar em linguagem totalmente acessível a qualquer cidadão brasileiro, mesmo não alfabetizado sobre economia.

Enquanto a Bandeirantes vai, portanto, bem nas escaramuças, a sua concorrente Global tem altos e baixos no seu campo de ação. Mudou alguma coisa, para melhor e para pior, mas na essência permanece fazendo um telejornalismo de muita cautela política, preocupaçăo marcante com o visual e de otimismo raramente crítico. Enfim, continua a mesma apesar de algumas modificações de mesas. Mas é impossível não constatar que se agilizou bem mais. O Hoje, por exemplo, que igualmente aos outros noticiosos da casa era furado pelos jornais do dia anterior, em 81 está em bem melhor forma. Deixou de ser ontem, para ser de manhã e dar aspectos novos das histórias já focalizadas. A outra reformulação, colocar na mesma mesa seus apresentadores Berto Filho, Leda Nagle e Lígia Maria é que até agora năo funcionou como fator de descontraçăo. Segundo os padrões da casa, é compulsório olhar a câmara de frente, por isso o trio fica como três fregueses de pub que só dão atençăo ao homem do bar e jamais encaram os companheiros.

Até agora sozinho (dizem que em breve terá a companhia de mesa de Sérgio Chapelin) Cid Moreira não tem ainda este problema. Mas o bom locutor, coitado, foi colocado numa mesa que é um espanto ou, como dizem agora, uma bobagem. Parece coisa de deuses astronautas ou uma visăo espacial das construçőes egípcias. Mas o monstrengo atrapalha menos do que a terrível parcialidade do Jornal Nacional para as coisas e graças do governo. Não tem ministro ou autoridade bancária que não ganhe tapes, repórteres de barbas ou moças bem vestidas e ar de simpatia do Cid.

Mas a oposição só recebe o mesmo tratamento quando é chefiada pretensamente por Ivete Vargas e Jânio Quadros. Líderes sindicais, políticos fora do PTB, críticos avulsos, só merecem bonecos quando têm acesso ao diálogo. No mais são esquecidos ou viram notícias rápidas sem imagens. Importante mesmo continua o otimismo nacional: noventa por cento das notícias dão conta de soluções para tudo, a euforia do apresentador com o constante aumento do rateio da loteria esportiva e o sangue e a dor internacional. Pena isto continuar a acontecer com estação tão bem equipada e de profissionais rigorosamente competentes. Conforme demonstram na cobertura, completa e detalhada, do caso Ronald Biggs, inclusive com o brilho técnico do telefonema internacional dele para seu filho. Imaginem que coisas não poderiam fazer se tratassem o povo brasileiro com o mesmo carinho dispensado ao famoso ladrão.

O mesmo estilo é seguido na segunda edição do Jornal Nacional, uma redução infeliz do anterior Jornal da Globo que, ao menos, informava melhor e mais as pessoas que só à noite têm tempo para a televisão. Um horário em que a preocupação obsessiva da estação com a audiência abrangente, justa por sinal, poderia ser trocada pela caça ao prestígio maior e menos visual. Mas preferiram fazer isto apenas uma vez por semana, segunda-feira, com o Globo Revista. Até agora ainda muito amarrado às regras da casa e a um ancoreiro, Ennio Pesce, bem aquém da expectativa. O esquema do programa é bom mas,à exceçăo de Paulo Francis e José Augusto Ribeiro, ainda não foi totalmente dominado pelos apresentadores. De qualquer forma, um avanço analítico em uma estação que antes tinha horror a isso.

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