Sunday, October 24, 2010

1976 = Bolshoi Censurado no Brasil

Jornal do Brasil
29/3/1976
Paulo Maia
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CENSURA NĂO É CULTURA
O lastimável episódio da proibiçăo da transmissăo do balé Romeu e Julieta, dançado pelo grupo do Teatro Bolshoi, de Moscou, para todo o Brasil, pela Rede Globo de televisăo, só serve para reafirmar um velho teorema: a arbitrariedade năo tem limites no seu senso de ridículo e se deixa expor com a mais espantosa facilidade. Poder-se-ia até dizer: "O que é bom para 111 países nem sempre é bom para o Brasil''. Pelo menos; o que é útil para 111 países ditos civilizados năo é cultura para os zelosos censores do Ministério da Justiça da República Federativa do Brasil.

Nas lendas vivas que correm na boca da populaçăo, consta que essa mesma instituiçăo já foi responsável por atitudes surrealistas como apreensăo de livros como a Enciclopédia Barsa, porque continha a barbuda efígie de Fidel Castro ou a colorida boina de Che Guevara. Pode ser levada pela conta do exagero num país de exageros ou nas sobras da exceçăo (comum demais num regime de exceçăo) a automática ligaçăo do romance O Vermelho e o Negro, de Stendhal, com o vermelho da bandeira da Uniăo Soviética, primeira naçăo a adotar o marxismo como filosofia de constituiçăo do Estado. A proibiçăo do Balé Bolshoi entra nessa relaçăo de absurdos como uma confirmaçăo da regra, uma prova insofismável de que essas lendas vivas estăo mais vivas do que săo lendas.

O Balé Bolshoi, sabem os menos incultos, é uma respeitável e secular instituiçăo internacional de dança. É tăo marxista como o seria Leon Tolstoi, e o germe da subversăo comunista está tăo presente nos compassos de sua dança como poderia estar vivo nas barbas do Czar Nicolau II. Sem medo de exagero, pode-se garantir que ele é tăo soviético como Shakespeare é inglęs. Quer dizer: trata-se de um patrimônio cultural da Humanidade que nem pode ser aprisionado pelo realismo socialista lucakseano nem vai deixar de falar a linguagem universal da dança por vontade de uma política, seja a nossa tropical, seja a temperada nas estepes da Uniăo Soviética.

Ao programar o espetáculo internacional gerado em Moscou para o domingo, ŕs 22 horas, a Rede Globo e, principalmente, a televisăo brasileira deram mostras de bom senso e maturidade até surpreendentes no momento atual. A descoberta de que televisăo também é cultura năo vai mal em qualquer momento. A constataçăo de que erudiçăo pode ser vendida como um produto sofisticado e caro no sistema televisivo de imagem e som só pode ser aplaudida e considerada.

A proibiçăo da transmissăo para o Brasil redime (ou pelo menos justifica) a televisăo da culpa de muitos erros entre os que ela vem cometendo nesse quarto de século em que precariamente está instalada aqui no lado Sul do Hemisfério, no chamado país do carnaval. A censura está chamando a si a responsabilidade cada vez maior pela violęncia das ruas, aprendida nos coloridos enlatados norte-americanos trazidos da Califórnia, pela fragilidade intelectual de uma populaçăo que se imbeciliza em doses diárias no doce veneno da telenovela e sobretudo pela debilidade mental galopante que ameaça tomar conta da Naçăo inteira, como um cavalo de Tróia penetrando numa cidade sitiada.

Năo vale a pena chorar um vale de lágrimas porque a televisăo năo pôde sequer comunicar que năo levaria ao ar o programa porque ele havia sido censurado. Nada é mais arbitrário do que a própria arbitrariedade e ela năo conhece regras, nem códigos de ética. Caso conhecesse, năo seria suficientemente arbitrária. A televisăo é uma concessăo precária e, como tal, é obrigada e treinada para ser paciente, covarde e passiva, oferecer sempre a outra face, quando atingida, para simplesmente năo morrer. A censura, logicamente, năo quer correr o risco de se assumir, preferindo utilizar aqueles métodos de Stalin quando expurgou a elite do regime soviético, nas décadas de 20 e 30, ao obrigar que a televisăo confesse um erro quando tinha cometido um raro acerto. Ao imputar o erro que cometeu 'a televisăo, a censura está sendo lógica em seu próprio absurdo: afinal, a arbitrariedade é elemento vital em suas veias e a violęncia năo seria completa se fosse autocrítica.

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