Sunday, October 24, 2010

1971 = Incêndio na Globo

O Globo
1/11/1971
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CANAL 4 VOLTA COM TODOS OS PROGRAMAS


Às onze horas de sábado "Big Boy" chegou na TV GLOBO - onde os bombeiros ainda trabalhavam no rescaldo do incêndio da véspera - e comentou: "Nunca mais vou dizer que é uma brasa..."

A essa hora, muitos dos funcionários que tinham passado a noite no local começavam a ir para casa. Outros movimentavam-se para colocar no ar a estação, usando os geradores próprios, pois a energia elétrica ainda não fôra restabelecida.

A perícia estava examinando tudo e fotografando para estudos posteriores. Ficou constatado que não há qualquer perigo de desabamento. Por volta do meio-dia, a força foi religada e a TV GLOBO voltou ao ar. Transmitiu inicialmente um comunicado e um telejornal.

O palco, onde estava sendo feita a gravaçăo do programa Moacyr Franco Especial, quando começou o incêndio, ficou totalmente destruído. Na manhã de sábado os bombeiros ainda permaneciam no local, para a operação de rescaldo. De vez em quando aparecia um novo foco de incêndio e o trabalho dos bombeiros de localização desses focos era dificultado pelo grande volume de fumaça, que invadia tudo pelos corredores.

Não foi possível estimar de pronto os prejuízos em equipamentos. Mas se sabia, na manhã de sábado, que além dos cenários, também o guarda-roupa estava totalmente perdido.

Quanto a causa do incêndio, só a Perícia poderá dar a palavra final, após o exame das numerosas fotografias colhidas. Inicialmente, supunha-se que o incêndio tivesse sido causado por curto-circuito em uma das câmaras. Em seguida, surgiu outra hipótese: um curto nos exaustores do sistema de ar condicionado central.

O auditório, com capacidade para 300 pessoas, não voltará logo a ser usado. Vários teatros e cinemas puseram à disposiçăo da TV GLOBO suas salas, para transmissão de programas de auditório, O programa do Chacrinha, por exemplo, deverá ser feito em São Paulo e transmitido para o Rio.

As novelas e outros programas gravados vão ser examinados, pois não se sabe ainda se o calor afetou as fitas. A aparelhagem de vídeo-tape, bastante delicada, foi sem dúvida a mais atingida. A programação, no entanto, continuará sendo apresentada, transmitida por uma das mesas do segundo andar, que não foi atingida.

Em nota oficial, a TV GLOBO comunicou que os shows de auditórios serão transferidos e a emissora avisará as mudanças de local.

A nota oficial, divulgada sábado, foi a seguinte:

"A REDE GLOBO de Televisão informa ao público que o incêndio irrompido à noite passada em suas instalações não impediu que, num esforço conjunto de diretores e funcionários, a emissora reinicie suas transmissões normais. O incêndio declarou-se às 20h20m e destruindo o palco-auditório e equipamentos de estúdio de vídeo-tape, especialmente o destinado às transmissões à cores. Não houve vitimas. A REDE GLOBO de Televisão manifesta seus agradecimentos ao Governador Chagas Freitas, ao Corpo de Bombeiros e a toda população carioca. Informa também que toda a programação habitual será apresentada ao público e pede atenção para os comunicados referentes a realizaçăo de shows habitualmente apresentados no auditório, que terão que ser transferidos."

DIRETOR AGRADECE SOLIDARIEDADE

O Sr. Wálter Clark Bueno, diretor da Rede GLOBO de Televisão, fez o seguinte pronunciamento ao se reiniciarem as transmissões:

"A Rede GLOBO de Televisão agradece, ardentemente, ao Corpo de Bombeiros da Guanabara pela pronta e decisiva operação de combate ao incêndio ocorrido ontem à noite nas suas instalações, na Rua Von Martius. Não menos expressiva para nós, da Rede GLOBO, foi a solidariedade do povo carioca, manifestada por toda sorte de ajuda e oficialmente representada pelo Governador Chagas Freitas, que compareceu em pessoa à sede da Globo, no momento mais dramático do incêndio.

Nosso reconhecimento público também ao gesto da TV Tupi, incorporando-se à Equipe GLOBO, durante e depois do acidente.

Dependendo ainda do pronunciamento da Perícia, o fogo parece ter começado no setor de ar condicionado do Estúdio A, assumindo logo vulto impressionante, que, em pouco tempo, destruiu por completo o nosso palco-auditório. A operação, de que participaram os infatigáveis funcionários de toda a hierarquia da Rede GLOBO, durou cerca de oito horas e foi muito dificultada pelo excesso de fumaça que bloqueou inteiramente a penosa manobra dos bombeiros para chegar às nascentes do fogo. A fumaça e o calor danificaram sensivelmente as instalações da emissora, atingindo, inclusive, valioso equipamento eletrônico.

Com o testemunho de todos vocês, o incêndio nos atingiu na hora em que a Rede GLOBO de Televisão mais se empenha para oferecer um nível de qualidade técnica e artística à altura de nosso incomparável público, justamente às vésperas da grande realidade da tevê colorida. Tenham, porém, a certeza de que o incêndio de ontem não nos desanima do grande e honroso desafio que representa para nós a liderança. Pelo contrario, a Rede GLOBO, amparada na aplicação profissional de seus funcionários e estimulada pela confiança de seu público, venceu o "round" e continuou no ar com sua programação integral: "shows", novelas, filmes de longa metragem e telejornais, cumprindo, assim, mesmo na adversidade, a regra de ouro de sua vida que é recrear e informar o povo deste respeitável País.

Não nos esquecemos jamais de que há seguramente dois anos a GLOBO de São Paulo, que agora nos socorreu com sua imagem, sofria um incêndio de vulto aterrador e de cujas cinzas partiu a nossa equipe para o grande empreendimento na integração nacional através da imagem. Se agora estamos diante de novo desafio, é sinal de que dias muito melhores haveremos de construir sempre de mãos dadas com você."

1990 = MTV Brasil Saindo do Forno

Folha de S. Paulo
8/3/1990
Ângelo Marsia
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TV ABRIL ESTRÉIA CLIPS DA MTV ATÉ SETEMBRO




A TV Abril é a MTV no Brasil. A emissora brasileira anunciou ontem, oficialmente, que passará a transmitir - e a produzir - programaçăo com a marca da rede mundial Music Television. A meta é inaugurar as transmissőes entre 1.o de julho e 30 de setembro para a Grande Săo Paulo.

A MTV é uma divisão da Viacom International que lançou em 1981 um novo conceito: a TV do videoclip, que transmite prioritariamente música para um público jovem, entre 12 e 34 anos, além de informação ligada aos interesses dessa faixa. A Abril vai seguir a fórmula, com muito videoclip (50% estrangeiro, 50% nacional). Também vai transmitir programas como o noticiário Week in Rock, a comédia ''Saturday Night Live'' e o inédito ''Buzz'' - um show com os principais acontecimentos da semana. Todos serão adaptados e falados em português. Haverá ainda esportes como o surfe e o skate e destaque no jornalismo para temas como ecologia.

A meta inicial é a transmissão de 13 horas diárias (exceto às sextas e sábados, quando serão 16 horas). A emissora quer alcançar no ano que vem 20 horas diárias, para ir progressivamente chegando às 24 horas das demais emissoras no mundo.

O acordo operacional, cujos valores não foram revelados, envolve também a exportação de produtos locais. Roger Karman, vice-presidente corporativo da Abril, tem uma meta ambiciosa (''nossa música vai brilhar lá fora'') e dá um exemplo na área dos quadrinhos: ''A Abril já é a maior produtora de histórias Disney do mundo''. A vice-presidente de Novos Negócios da MTV, Sara Levinson, năo contesta: ''O lançamento da MTV no Brasil levará ao resto do mundo a música vibrante e a cultura brasileira.'' Além dela, veio para o lançamento a vice-presidente de Programaçăo Internacional Liz Nealon, que passará a vir mensalmente para auxiliar na implantação.

A TV Abril transmitirá a MTV pelo seu canal aberto UHF 32 (disponível para todos que tiverem antena receptora UHF e um aparelho de TV UHF-VHF, ou ainda um televisor convencional acoplado a um videocassete, já que estes sintonizam também o UHF). Ela espera, no início, 1 ou 2 pontos de audiTV ABRIL ESTRÉIA CLIPS DA MTV ATÉ SETEMBRO
A TV Abril é a MTV no Brasil. A emissora brasileira anunciou ontem, oficialmente, que passará a transmitir - e a produzir - programaçăo com a marca da rede mundial Music Television. A meta é inaugurar as transmissőes entre 1ş de julho e 30 de setembro para a grande Săo Paulo.

A MTV é uma divisăo da Viacom International que lançou em 1981 um novo conceito: a TV do videoclip, que transmite prioritariamente música para um público jovem, entre 12 e 34 anos, além de informaçăo ligada aos interesses dessa faixa. A Abril vai seguir a fórmula, com muito videoclip (50% estrangeiro, 50% nacional). Também vai transmitir programas como o noticiário - Week in Rock -, a comédia ''Saturday Night Live'' ou o inédito ''Buzz'', um show com os principais acontecimentos da semana. Todos serăo adaptados e falados em portuguęs. Haverá ainda esportes como o surfe e o skate e destaque no jornalismo para temas como ecologia.

A meta inicial é a transmissăo de 13 horas diárias (exceto ŕs sextas e sábados, quando serăo 16 horas). A emissora quer alcançar no ano que vem 20 horas diárias, para ir progressivamente chegando ŕs 24 horas das demais emissoras no mundo.

O acordo operacional, cujos valores năo foram revelados, envolve também a exportaçăo de produtos locais. Roger Karman, vice-presidente corporativo da Abril, tem uma meta ambiciosa (''nossa música vai brilhar lá fora'') e dá um exemplo na área dos quadrinhos: ''A Abril já é a maior produtora de histórias Disney do mundo''. A vice-presidente de Novos Negócios da MTV, Sara Levinson, năo contesta: ''O lançamento da MTV no Brasil levará ao resto do mundo a música vibrante e a cultura brasileira.'' Além dela, veio para o lançamento a vice-presidente de Programaçăo Internacional Liz Nealon, que passará a vir mensalmente para auxiliar na implantaçăo.

A TV Abril transmitirá a MTV pelo seu canal aberto UHF 32 (disponível para todos que tiverem antena receptora UHF e um aparelho de TV UHF-VHF, ou ainda um televisor convencional acoplado a um videocassete, já que todos sintonizam também UHF). Ela espera, no início, 1 ou 2 pontos de audiência em Săo Paulo (1 ponto são 40 mil lares) e estima que só na cidade existam mais de 1,5 milhão de receptores capazes de sintonizar em UHF.

EMISSORA QUER FORMAR REDE - Ainda não há datas, mas a MTV estará disponível também fora da Grande São Paulo. A TV Abril quer formar uma rede e tenta contratos de afiliaçăo no interior de São Paulo e nas capitais (as primeiras são Rio, Belo Horizonte e Brasília). A emissora também estuda o licenciamento de algumas horas de programaçăo para não afiliadas.

Além disso, seu sinal estará disponível para as cem mil antenas parabólicas já existentes no país através do satélite Brasilsat 2.

1981 = Novo Jornal Bandeirantes

Jornal do Brasil
26/4/1981
Maria Helena Dutra
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DAS INEVITÁVEIS COMPARAÇÕES


Está mais para Itararé. A anunciada batalha e confronto sangrento entre as hostes da Globo e da Bandeirantes no campo do jornalismo ainda năo aconteceu e acredito muito pouco que realmente se travará algum dia. Porque este campo especifico da televisăo brasileira é muito mais para escaramuças do que guerras de verdade. Isso porque apenas uma reduzida elite liga o veículo ou muda de canal à procura de informações, e o Jornal Nacional só é há anos campeăo de audiência no Canal 4 por estar estrategicamente situado no meio das duas novelas mais nobres da casa.

A bem da verdade mais absoluta, apenas estas e mais os programas popularescos, sensacionalistas ou doses cavalares de filmes têm feito alterar os quadros normalmente monolíticos de uma audiência totalmente dominada em todo o país pela Rede Globo. Mas a precavida estaçăo, mesmo sabendo disso, andou reformulando sua linha jornalística admitindo que um bom serviço nesse setor, embora năo renda grandes audiências, confere prestigio e adesăo das faixas mais aquisitivas da naçăo. Por, que apenas a entrada pouco mais forte da Bandeirantes no ramo já causou um certo tititi entre os notáveis que fazem algumas cabeças.

E, justiça se faça, está bom o Jornal da Bandeirantes em seu comprido horário das sete meia às oito da noite. Mil furos acima de seus pequenos bolentins  'Atenção' e da apenas esforçada 'Primeira Ediçăo'. É verdade que luta contra as desvantagens de ter numericamente pequena equipe de repórteres e editores e equipamentos técnicos precários. Entăo se torna muito difícil a este noticioso furar concorrentes até impressos ou dar informaçőes de primeira măo. Acredito que o milagre só uma vez aconteceu e foi no atentado ao Presidente Reagan. Mas compensa estas deficiências - que esperamos sejam brevemente sanadas na forma de maior investimento no setor pelos donos da estaçăo - com análises e criticas às noticias. Coisa que muito raramente acontecia em qualquer canal. Márcio Guedes e Newton Carlos săo especialistas mesmo em seus campos, esporte e noticiário internacional, e analistas concisos e bastante confiáveis. No setor de política ainda năo conseguiram encontrar um profissional que alie, como os outros, bastante conhecimento com os requisitos objetivos da televisăo. O locutor principal, Ferreira Martins, é bastante seguro mesmo nos longos minutos em que suas informaçőes năo têm apoio de qualquer imagem. Falha que muito se repete por lá como também é lacuna a falta de noticiário e análise sobre eventos culturais. Qualquer jogo de futebol ou cricket recebe honras de horário nobre, mas os artistas que năo matam companheiros, ou mulheres ou vizinhos, se restringindo a escrever livros, debates idéias ou transformá-las em música, apenas surgem na parte da tarde. Mostrar e criticar esta parte importante de nosso cotidiano seria um ponto a mais da estação na sua procura de repercussăo.

Alguma ela já tem conseguido pela sorte de ter como centro do seu jornal ou sua âncora o excelente Joelmir Betting. Há muito tempo reconhecido como o melhor analista econômico da televisăo pelas suas participaçőes anteriores nos noticiosos da casa. Agora elevado a comentarista geral continua com a mesma forma irônica, idioma impecável, conhecimento lúcido de todos os assuntos e capaz sempre de dizer a coisa certa no tempo adequado. Sendo especialista é lógico que seja mais forte em seu setor, mas tem sempre a coragem de estabelecer relaçőes e prever conseqüências de todos os fatos. Suas conclusões, por exemplo, sobre os aumentos alucinados do álcool como combustível automotivo, foram perfeitas por somar as razões com coerência, explicar as culpas e tudo realizar em linguagem totalmente acessível a qualquer cidadão brasileiro, mesmo não alfabetizado sobre economia.

Enquanto a Bandeirantes vai, portanto, bem nas escaramuças, a sua concorrente Global tem altos e baixos no seu campo de ação. Mudou alguma coisa, para melhor e para pior, mas na essência permanece fazendo um telejornalismo de muita cautela política, preocupaçăo marcante com o visual e de otimismo raramente crítico. Enfim, continua a mesma apesar de algumas modificações de mesas. Mas é impossível não constatar que se agilizou bem mais. O Hoje, por exemplo, que igualmente aos outros noticiosos da casa era furado pelos jornais do dia anterior, em 81 está em bem melhor forma. Deixou de ser ontem, para ser de manhã e dar aspectos novos das histórias já focalizadas. A outra reformulação, colocar na mesma mesa seus apresentadores Berto Filho, Leda Nagle e Lígia Maria é que até agora năo funcionou como fator de descontraçăo. Segundo os padrões da casa, é compulsório olhar a câmara de frente, por isso o trio fica como três fregueses de pub que só dão atençăo ao homem do bar e jamais encaram os companheiros.

Até agora sozinho (dizem que em breve terá a companhia de mesa de Sérgio Chapelin) Cid Moreira não tem ainda este problema. Mas o bom locutor, coitado, foi colocado numa mesa que é um espanto ou, como dizem agora, uma bobagem. Parece coisa de deuses astronautas ou uma visăo espacial das construçőes egípcias. Mas o monstrengo atrapalha menos do que a terrível parcialidade do Jornal Nacional para as coisas e graças do governo. Não tem ministro ou autoridade bancária que não ganhe tapes, repórteres de barbas ou moças bem vestidas e ar de simpatia do Cid.

Mas a oposição só recebe o mesmo tratamento quando é chefiada pretensamente por Ivete Vargas e Jânio Quadros. Líderes sindicais, políticos fora do PTB, críticos avulsos, só merecem bonecos quando têm acesso ao diálogo. No mais são esquecidos ou viram notícias rápidas sem imagens. Importante mesmo continua o otimismo nacional: noventa por cento das notícias dão conta de soluções para tudo, a euforia do apresentador com o constante aumento do rateio da loteria esportiva e o sangue e a dor internacional. Pena isto continuar a acontecer com estação tão bem equipada e de profissionais rigorosamente competentes. Conforme demonstram na cobertura, completa e detalhada, do caso Ronald Biggs, inclusive com o brilho técnico do telefonema internacional dele para seu filho. Imaginem que coisas não poderiam fazer se tratassem o povo brasileiro com o mesmo carinho dispensado ao famoso ladrão.

O mesmo estilo é seguido na segunda edição do Jornal Nacional, uma redução infeliz do anterior Jornal da Globo que, ao menos, informava melhor e mais as pessoas que só à noite têm tempo para a televisão. Um horário em que a preocupação obsessiva da estação com a audiência abrangente, justa por sinal, poderia ser trocada pela caça ao prestígio maior e menos visual. Mas preferiram fazer isto apenas uma vez por semana, segunda-feira, com o Globo Revista. Até agora ainda muito amarrado às regras da casa e a um ancoreiro, Ennio Pesce, bem aquém da expectativa. O esquema do programa é bom mas,à exceçăo de Paulo Francis e José Augusto Ribeiro, ainda não foi totalmente dominado pelos apresentadores. De qualquer forma, um avanço analítico em uma estação que antes tinha horror a isso.

1976 = Bolshoi Censurado no Brasil

Jornal do Brasil
29/3/1976
Paulo Maia
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CENSURA NĂO É CULTURA
O lastimável episódio da proibiçăo da transmissăo do balé Romeu e Julieta, dançado pelo grupo do Teatro Bolshoi, de Moscou, para todo o Brasil, pela Rede Globo de televisăo, só serve para reafirmar um velho teorema: a arbitrariedade năo tem limites no seu senso de ridículo e se deixa expor com a mais espantosa facilidade. Poder-se-ia até dizer: "O que é bom para 111 países nem sempre é bom para o Brasil''. Pelo menos; o que é útil para 111 países ditos civilizados năo é cultura para os zelosos censores do Ministério da Justiça da República Federativa do Brasil.

Nas lendas vivas que correm na boca da populaçăo, consta que essa mesma instituiçăo já foi responsável por atitudes surrealistas como apreensăo de livros como a Enciclopédia Barsa, porque continha a barbuda efígie de Fidel Castro ou a colorida boina de Che Guevara. Pode ser levada pela conta do exagero num país de exageros ou nas sobras da exceçăo (comum demais num regime de exceçăo) a automática ligaçăo do romance O Vermelho e o Negro, de Stendhal, com o vermelho da bandeira da Uniăo Soviética, primeira naçăo a adotar o marxismo como filosofia de constituiçăo do Estado. A proibiçăo do Balé Bolshoi entra nessa relaçăo de absurdos como uma confirmaçăo da regra, uma prova insofismável de que essas lendas vivas estăo mais vivas do que săo lendas.

O Balé Bolshoi, sabem os menos incultos, é uma respeitável e secular instituiçăo internacional de dança. É tăo marxista como o seria Leon Tolstoi, e o germe da subversăo comunista está tăo presente nos compassos de sua dança como poderia estar vivo nas barbas do Czar Nicolau II. Sem medo de exagero, pode-se garantir que ele é tăo soviético como Shakespeare é inglęs. Quer dizer: trata-se de um patrimônio cultural da Humanidade que nem pode ser aprisionado pelo realismo socialista lucakseano nem vai deixar de falar a linguagem universal da dança por vontade de uma política, seja a nossa tropical, seja a temperada nas estepes da Uniăo Soviética.

Ao programar o espetáculo internacional gerado em Moscou para o domingo, ŕs 22 horas, a Rede Globo e, principalmente, a televisăo brasileira deram mostras de bom senso e maturidade até surpreendentes no momento atual. A descoberta de que televisăo também é cultura năo vai mal em qualquer momento. A constataçăo de que erudiçăo pode ser vendida como um produto sofisticado e caro no sistema televisivo de imagem e som só pode ser aplaudida e considerada.

A proibiçăo da transmissăo para o Brasil redime (ou pelo menos justifica) a televisăo da culpa de muitos erros entre os que ela vem cometendo nesse quarto de século em que precariamente está instalada aqui no lado Sul do Hemisfério, no chamado país do carnaval. A censura está chamando a si a responsabilidade cada vez maior pela violęncia das ruas, aprendida nos coloridos enlatados norte-americanos trazidos da Califórnia, pela fragilidade intelectual de uma populaçăo que se imbeciliza em doses diárias no doce veneno da telenovela e sobretudo pela debilidade mental galopante que ameaça tomar conta da Naçăo inteira, como um cavalo de Tróia penetrando numa cidade sitiada.

Năo vale a pena chorar um vale de lágrimas porque a televisăo năo pôde sequer comunicar que năo levaria ao ar o programa porque ele havia sido censurado. Nada é mais arbitrário do que a própria arbitrariedade e ela năo conhece regras, nem códigos de ética. Caso conhecesse, năo seria suficientemente arbitrária. A televisăo é uma concessăo precária e, como tal, é obrigada e treinada para ser paciente, covarde e passiva, oferecer sempre a outra face, quando atingida, para simplesmente năo morrer. A censura, logicamente, năo quer correr o risco de se assumir, preferindo utilizar aqueles métodos de Stalin quando expurgou a elite do regime soviético, nas décadas de 20 e 30, ao obrigar que a televisăo confesse um erro quando tinha cometido um raro acerto. Ao imputar o erro que cometeu 'a televisăo, a censura está sendo lógica em seu próprio absurdo: afinal, a arbitrariedade é elemento vital em suas veias e a violęncia năo seria completa se fosse autocrítica.

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