Tuesday, September 21, 2010

1983 - O Povo na TV

O Estado de S. Paulo
1/1/1983
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A PARTICIPAÇĂO PLANEJADA
"O programa ajuda a pessoa, é uma utilidade pública, mas apenas para uma ou outra pessoa e năo muitos".

A colocaçăo de Carla, de 15 anos, moradora de Nova Cachoeirinha, define, com sabedoria, a natureza do programa "O Povo na TV", levado ao ar pela TV-S. de segunda a sexta, de uma as seis da tarde, em oito Estados brasileiros.

Da mesma forma que Carla, milhares de telespectadores assistem ao desenrolar dos quadros, que tratam desde a perda de animais de estimaçăo, parentes, até mortes e violęncias.

Como confessa um assíduo espectador, "é um programa de muita utilidade, porque traz para fora muita coisa que está no fundo da terra. Se năo houvesse este programa, năo tínhamos a quem reclamar".

'O POVO NA TV'

"A televisăo estava alienada da vontade do povo, mas agora está voltando para servir ao povo".

"O 'Povo na TV" é a procuradoria geral do povo".

Através de expressőes como estas, o programa procura autodefinir-se, sugerindo até ser o responsável pelo acesso ŕ TV daqueles que até agora foram impedidos de nela participar.

Como é possível constatar, a populaçăo responde a esses apelos: diariamente săo milhares as pessoas que se acotovelam nas imediaçőes do estúdio, na tentativa de levar ao programa seus dilemas: desde a ausęncia absoluta dos direitos mínimos até conflitos familiares afetivos e sociais, em geral.

Além disso, também é grande o número de pessoas que procura o programa em busca das curas milagrosas do professor Lengruber, ou simplesmente em busca de participaçăo no auditório.

Entretanto, como esta alta demanda de causas populares é tratada pelo programa, pelos apresentadores, pela produçăo?

REIVINDICAÇŐES

Quando os casos caracterizam-se por reivindicaçőes, geralmente já levadas ao poder público inutilmente, os apresentadores acionam as mesmas autoridades procurando soluçăo.

As instituiçőes manifestam-se publicamente e comprometem-se a atender ŕs solicitaçőes, justificando a inoperância anterior como um pequeno desajuste do sistema. Com isso, o programa tenta, reiteradamente, recuperar o crédito ŕs instituiçőes, já desmoralizadas diante da populaçăo. Os erros săo atribuídos a indivíduos "incompetentes" ou "preguiçosos", nunca ao caráter verdadeiro e classista das instituiçőes.

Assim, o programa tenta ser uma ponte de conciliaçăo entre o "povo" e as autoridades. Os antagonismos de classe săo camuflados e substituídos por uma falsa fraternidade, denominada pelo programa como "legiăo de amigos".

OS AMIGOS

Entre os mais ilustres amigos do programa, estăo o presidente Figueiredo, a Rota, a presidente da LBA, o delegado do Deops paulista, os ministros e autoridades em geral, até as pessoas mais simples, trabalhadores e outros.

Os momentos iniciais da apresentaçăo săo coroados pela "Cançăo da Fraternidade", como tentativa de irmanar a todos. Wilton Franco, o apresentador principal, comanda a música e todos cantam de măos dadas, enquanto o apresentador expressa votos de esperança aos desvalidos e agradece ao presidente pelo direito de expressăo, concedido por sua benevolęncia.

A aproximaçăo do programa com o poder é tăo flagrante que săo rotineiros os elogios ao PDS, os ataques ŕs oposiçőes e a disposiçăo das autoridades em comparecer ao programa.

O PROGRAMA E A POLÍCIA

Wagner Montes, o "chicote do povo", é o responsável pela apresentaçăo dos casos relacionados com a "justiça". Pessoas simples levam ao programa os mais variados dramas, envolvendo brigas familiares, roubos, violęncias cometidas por vizinhos, desconhecidos e pela polícia.

Assumindo o papel de juiz das causas, Wagner Montes chega ao ponto de sugerir a morte para aqueles que julga criminosos irrecuperáveis, e de convocar a Rota para agir mais rigorosamente no combate aos crimes. Săo também constantes as manifestaçőes silenciosas em apoio ao esquadrăo da morte, quando, por exemplo, o seu símbolo é localizado pelas câmeras.

Ao som de um rugido de metralhadoras, o apresentador apropria se de valores caros ŕs classes populares como a honestidade, a solidariedade, a justiça, para transformá-los em artifícios emocionais e distorcę-los com argumentos em favor de puniçőes drásticas para os "criminosos" Em nenhum momento, o programa contempla as razőes mais profundas da violęncia.

Quando a violęncia parte da polícia, o programa tenta resgatar a imagem da instituiçăo, transferindo os erros aos indivíduos. As autoridades superiores săo chamadas para manifestar sua discordância com tais atos e prometem providęncias imediatas. O programa, como se vę, poupa a instituiçăo maiores críticas e evita desmascaramento do seu caráter ostensivamente repressivo.

O PROGRAMA E A RELIGIĂO

Se por um lado, "O Povo na TV" utiliza um discurso muito próximo ŕquele utilizado pelas CEBs, ele é acompanhado por uma prática que o nega, como por exemplo, no que se refere ao direito dos pobres.

Na sua intençăo de dar voz aos pobres, as CEBs priorizam o coletivo e a organizaçăo das classes trabalhadoras, enquanto o programa destitui a reivindicaçăo do seu caráter coletivo e transforma-a em concessăo ao indivíduo isoladamente.

A linguagem do programa é penetrada pela religiosidade popular, que se manifesta através de provérbios, citaçőes bíblicas, apelos a outras crenças, além dos quadros destinados ŕ devoçăo e fé do povo, como a hora da Ave-Maria, e as curas do professor Lengruber.

O programa recupera a visăo de que a ordem natural e social decorrem da vontade divina e só por ela podem ser modificadas. Assim, perante as dificuldades, só resta rezar a Deus.

Ao contrário desta prática, as CEBs buscam atingir uma nova linguagem, intrinsecamente libertadora e reveladora do real, que possibilite a conscientizaçăo do povo enquanto agente de mudança social.

O programa capta a importância e a relaçăo que as classes populares mantęm com os "santos", para reforçar a idolatria e adoraçăo das imagens.

No momento da reza, uma imagem de Nossa Senhora é colocada no palco para ser beijada e consagrada com flores, ao som da Ave-Maria e das reflexőes do apresentador, Wilton Franco tenta impor uma relaçăo de mediaçăo entre o povo e o sagrado, procurando impedir que as pessoas relacionem com o seu cotidiano.

Săo também constantes as criticas ŕ igreja mais progressista, responsável, segundo programa, pelo abandono das pessoas ŕ igreja".

PARTICIPAÇĂO PLANEJADA

Tais pressupostos, combinados com uma visăo dos direitos dos pobres, permite compreender o caráter estratégico do "Povo na TV" no atual momento político brasileiro.

Justamente no momento em que toda sociedade se organiza e reivindica um espaço maior de expressăo e participaçăo nas decisőes do poder e nos meios de divulgaçăo, surge um programa autodenominando-se "porta-voz do povo".

Exatamente quando se cristaliza a necessidade de solidariedade da grande maioria, como caminho fundamental para a construçăo de uma nova sociedade surge o programa.

Baseando-se na retorica da defesa dos direitos humanos coletivos, o programa continua a perseguir o cumprimento dos direitos individuais, tentando, assim, dissolver a força do coletivo.

Ao tentar constituir-se como ponte entre o poder e a populaçăo, o programa está, na verdade, dissimulando a compreensăo da desigualdade social, que produz os conflitos levados ao palco. Suas soluçőes (obtidas através de um perfeito entendimento com o poder) săo individuais quando os problemas săo coletivos; sua resposta aos dramas familiares é o julgamento moral e condenaçăo de pessoas; sua receita para a violęncia é a puniçăo drástica para os envolvidos.

A articulaçăo das lutas comunitárias para a conquista de uma sociedade mais justa, é uma questăo intocada pelo programa.

"O Povo na TV" coloca-se como espaço aberto para a antecipaçăo (para isso faz uso do esquema de auditório, de grande peso popular), mas faz deste espaço a tradicional prática assistencialista e paternalista, fundada numa fraternidade que esconde os antagonismos de classe.

A RECEPÇĂO POPULAR

No entanto, tal projeto de manipulaçăo popular, năo pode ser entendido de forma absoluta. Se o poder pode controlar a emissăo das mensagens, ele năo pode controlar a sua recepçăo. Neste sentido, o "Povo na TV", como qualquer outro programa, apresenta contradiçőes.

Observa-se, em cada programa, por exemplo, a evidente inoperância das instituiçőes, o descrédito e a revolta do povo em relaçăo ŕ forma como elas estăo constituídas.

Nos freqüentes apelos do programa ŕ "legiăo de amigos", vemos que se exploram determinados valores eminentemente populares, como a solidariedade. As pessoas se mobilizam motivadas por um valor que lhes pertence e năo por desejo do programa. O apelo ao espírito comunitário traz em si um potencial organizativo, cuja liberaçăo pode ocorrer a qualquer momento.

Embora o programa use todos os seus recursos para minimizar as reivindicaçőes coletivas, os grupos que dele participam usam o programa para expor suas queixas e fazer suas críticas, e assim manifesta o seu descontentamento.

Os limites deste projetos de manipulaçăo dos anseios populares no entanto, săo muito claros: apesar do majestoso planejamento de uma famosa agęncia de propaganda e da presença de Sérgio Malandro e Wagner Montes (apresentadores do programa), no comício do presidente Figueiredo, no dia 8 de novembro, no Rio de Janeiro, as cem mil pessoas presentes năo deixaram por menos - manifestaram-se com estrondosas vaias.



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