Tuesday, September 21, 2010

1989 - Estreia de Leda Nagle na Manchete e Origem do "Com Certeza"

1983 - Sandra Bréa na Bandeirantes

Jornal do Brasil
3/4/1983
Alberto Beuttenmuller
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SABOR DE MEL 
Sandra Bréa, Raul Cortez, Carmen Silva, Eva Todor, Zaíra Bueno e até o costureiro Clodovil - grande arrecadador de Ibope - fazem parte do elenco milionário contratado pela Rede Bandeirantes para Sabor de Mel, estréia de amanhă ŕs 20h. Os dois artistas principais - Sandra e Raul - assinaram contrato de Cr$ 2 milhőes mensais para trabalhar nessa novela com que a emissora paulista pretende desbancar a Globo no nobre horário das oito, aproveitando o vácuo deixado pelo fim prematuro de Sol de Verăo e sua substituiçăo por uma reprise.



''Laura, esfinge do Morumbi, tem um enigma para lhe propor. Se adivinhar, ganhará Cr$ 50 milhőes. Venha e encontre sua sorte e seu verdadeiro caminho. Mas com uma ressalva: posso revelar a resposta ŕquele ou ŕquela que tiver o olhar do tempo, portanto o da verdade. Tel: 211.3011". Este é o anúncio que Laura (Sandra Bréa) coloca na imprensa, propondo um enigma a todos que quiserem aventurar-se a entrar no jogo. Na novela Sabor de Mel a situaçăo năo é diferente: a Bandeirantes pretende oferecer uma quantia ainda năo determinada para quem desvendar o enigma de Laura, misterioso personagem de Jorge Andrade.

O autor de ''Sabor de Mel diz que Laura propőe uma charada partindo de seu próprio mistério: "É preciso descobrir o segredo de Laura para desvendar o enigma proposto no anúncio e, assim, ganhar o pręmio. É uma novela que se tem de acompanhar desde o inicio; caso contrário será difícil. desvendar o enigma de Laura."

Édipo desvendou o enigma da esfinge de Gizeh: qual o animal que nasce de quatro, vive com dois e morre de tręs". A resposta é o homem, que ao nascer engatinha, depois cresce andando sobre duas pernas e na velhice anda de bengala. O enigma de Laura começa assim: "Năo existiu, mas aprisionou e torturou..." Só no sábado, dia 9, o enigma será proposto aos telespectadores e aos próprios personagens da novela, dando assim um, clima de romance policial a Sabor de Mel.

- Tudo nasceu de um anúncio que eu li num jornal paulista - conta Jorge Andrade. Dizia: "As bonecas Laura e Evita convidam vocęs para virem ao apartamento e vocęs jamais esquecerăo". Curioso, ele ligou para o número publicado: tratava-se de oferta de prazeres sexuais em grupo. Assim nasceu Laura, no texto de Jorge, e o anúncio serviu-lhe para compor o enigma que causará, segundo ele mesmo, "um mistério jamais visto nas novelas de TV". Além disso, pela primeira vez o Departamento de Marketing estará trabalhando junto com o autor, criando uma campanha que, por ser inusitada, deverá dar bom, Ibope, segundo o diretor da Divisăo de Comunicaçăo da Bandeirantes, Geraldo Tassinari.

Atraídos pelos Cr$ 50 milhőes, reúnem-se em torno de Laura personagens dos mais diferentes tipos e classes sociais: é Albertina (Karin Rodrigues), mulher divorciada de um portuguęs que vę no dinheiro a possibilidade de ir a Portugal seqüestrar a filha que ficou com o pai; é Pedro (Gianfrancesco Guarnieri), operário aposentado, que luta contra a família para tentar o desafio e acaba se apaixonando por Laura; săo os tręs universitários do Instituto de Física da Universidade de Săo Paulo que se apresentam por desejarem uma bolsa de pós-graduaçăo no exterior.

Laura, no centro da trama, é uma mulher fina e elegante, proprietária de uma metalúrgica herdada.do marido Samuel (Odilon Wagner) que se suicidou cinco anos antes para evitar a falęncia de sua empresa. Rica (propiciando cenários luxuosos, bem ao gosto de Jorge de Andrade, também autor de Ninho da Serpente) propőe: "Se vocę năo descobriu seu próprio enigma, como quer descobrir o meu?"

Alberto (Raul Cortez) é o diretor executivo da metalúrgica. Apaixonado por Laura há anos, ele se torna a alma da empresa para se aproximar mais dela. Mas năo consegue conquistá-la, nem decifrar alguns de seus enigmas. Quem é realmente Laura? Aonde ela vai? Por que esconde certas facetas de sua vida? Por que, jovem e bonita, recusa todos os homens?

Clodovil Hernandes fará seu próprio papel ele é o costureiro de Laura, além de seu amigo e confidente - e sua biografia é a única coisa năo-ficçăo na novela de Jorge Andrade."Se ele deixar, eu desvendo o seu enigma" - diz Jorge referindo-se ao costureiro famoso. Na verdade, Jorge acredita que Clodovil repete a história de Cinderela, pois "nasceu numa pobreza da mais miserável, saiu daquele buraco infecto onde passou a infância, chegando hoje ao topo do sucesso". Sabor de Mel deverá ter 120 capítulos, se depender do autor: "Năo acredito muito em textos com mais de 120 capítulos, mas tudo dependerá da emissora".

Uma história de suspense com momentos hilariantes, na definiçăo de Jorge de Andrade, Sabor de Mel tem a direçăo de Roberto Talma, que, assim como muitos atores da novela, foram capturados ŕ Globo pela Bandeirantes nesta guerra de audięncia. Com o mesmo objetivo, a emissora está oferecendo pręmio aos telespectadores que decifrarem o enigma de Laura, ao final da novela.

ENIGMÁTICA, COMO A ESFINGE

Toda de branco, contrastando com os cabelos negros, cortados ŕ moda egípcia Sandra Bréa está completamente envolvida com seu novo personagem, Laura, ''uma mulher forte, marcante, determinada feliniana, frágil só diante dos homens''. Para a atriz, 32 anos, esse é o melhor papel que já lhe foi dado em seus 15 anos de carreira.

- Lembra um pouco a Telma, de O Bem Amado, forte, enigmática, mas sem o elemento lúdico que existe em Laura - diz.

Sandra Bréa vę também, em Sabor de Mel, a oportunidade de contracenar, pela primeira vez, com Raul Cortez: "só me interessa trabalhar com atores melhores que eu, pois a minha escola vem deles", diz. E considera positiva a mudanças para a Bandeirantes, depois de 13 anos Globo fazendo de tudo - musicais, velas, apresentaçăo de programas, humor.

- Encontrei um bom ambiente de trabalho, inclusive o Roberto Talma, dirigindo novelas. As mudanças săo pequenas e boas - diz.

Essa atriz, que na juventude queria ser médica, faz questăo de declarar que Jardel. Filho, recentemente falecido, foi definitivo para a sua carreira. Jardel foi seu padrasto quando ela era criança e vendo-o no palco apaixonou-se pela profissăo. O ator disse-lhe entăo que ''teatro era uma brincadeira, como uma casa de bonecas''. Coincidęncia ou năo, foi na peça Casa de Bonecas, de Ibsen, que Sandra estreou no teatro, aos 17 anos.

Sua măe, Aurora, trabalhava como comissária, de bordo, no tempo dos velhos aviőes Constellation. Seu pai, Joseph Brito Filho, é um aviador norte-americano. Sandra nasceu em um aviăo americano em espaço aéreo brasileiro - "é por isso que vivo no ar" - e tem dupla nacionalidade. Declara-se sem enigmas em sua vida particular e disponível, no momento, para viver intensamente o de Laura, ponto crucial de toda a trama do texto de Jorge Andrade, autor a quem a atriz dedica especial carinho, pois foi com ele que fez um de seus melhores trabalhos, em Ossos do Barăo.

UM EXECUTIVO APAIXONADO.

Raul Cortez se prepara para deixar o palco teatral onde faz temporada com a peça Amadeus, de Peter Shaffer, em cartaz há um ano e tręs meses - trocando-o pelo vídeo em Sabor de Mel. Segundo o ator, é impossível conciliar o personagem desgastante do compositor Salieri, de Amadeus, com Alberto, o moderno executivo da novela da Bandeirantes.

Voltando com alegria ŕ televisăo - para ele, um divertimento - Cortez acha, entanto, que no teatro é que o ator se encontra e onde tem possibilidade de posicionar-se por inteiro.

- Tive, no passado, preconceito contra telenovelas, mas agora sinto que representar é minha profissăo e tenho de aproveitar o mercado existente - declara.

Preconceito ou năo, Raul Cortez é um veterano no gęnero. Nos idos de 1966, participou das primeiras novelas da extinta TV Excelsior. Mas foi na Globo e com Roberto Talma, diretor de Sabor de Mel, que fez seus melhores trabalhos em TV: em Água Viva, de Gilberto Braga, e em Baila Comigo, de Manoel Carlos. Como Alberto, na nova novela da Bandeirantes, o ator quer dar a seu melhor desempenho.

Sinto muita lealdade em Alberto. Apesar de ninguém ter dito nada, sinto que é uma pessoa do nosso tempo, um executivo de boa capacidade profissional. Neurótico pelo trabalho, como qualquer paulista profissional e sóbrio, Alberto pode ser de uma frieza cortante, mas também tem seus momentos de rara emotividade. Possui também o seu enigma - uma filha de um casamento mal-sucedido busca em Laura a mulher de sua vida, ainda que esta pouco ou nada lhe deixe de esperança - diz.

Satisfeito com sua opçăo pela Bandeirantes, Raul Cortez acha que a emissora está certa ao contratar grandes atores e diretores, com altos salários, formando unia equipe competente. "Estamos sentindo que há mudanças na Bandeirantes. E para melhor", afirma.

PRINCIPAIS PERSONAGENS

- Rebeca - (Françoise Fourton) - filha de Alberto, jovem de 18 anos, alegre, moderna e sem preconceitos

- Albertina (Karin Rodrigues) - 42 anos, dona de uma loja de artigos para homens, em Săo Paulo. Sua obsessăo é seqüestrar a filha, que vive há 10 anos em Portugal com seu ex-marido.

- Beatriz (Júlia Lemmertz) - filha de Albertina, 18 anos, estuda Direito. Na casa de Laura conhece Sérgio, por quem se apaixona.

- Sérgio, William e Paulo (Carlo Briani, Taumaturgo Ferreira e Giuseppe Oristânio) - recém-formados em Física, tęm o sonho de fazer o curso de pós-graduaçăo nós Estados Unidos.

- Jojô (Carmem Silva) - uma senhora de 70 anos com mentalidade de jovem. Alegre, comunicativa, moderna, se entende ŕs mil maravilhas com os personagens jovens da novela, atacando os mais velhos.

- Marta (Eva Todor) - filha de Jojô. viúva de 45 anos, trabalha muito, numa agęncia de Turismo e vendendo jóias, para sustentar as filhas. Quer desvendar o enigma para poder conhecer o mundo.

- Teresa (Cláudia Alencar) - filha de Marta, 23 anos, dentista, decide morar sozinha, chocando sua măe.

- Flávia (Zaíra Bueno) - filha de Marta, 21 anos, estudante de Direito.

- Ângela (Cristina Prochaska) - filha de Marta, 19 anos, romântica e sonhadora, pretende fazer a Faculdade de Letras.

- Pedro (Gianfrancesco Guarieri) - 48 anos, metalúrgico aposentado que só quer aproveitar bem o resto da vida, passada em sua, maior parte na fábrica. Encantador, vibrante, é o rei da Boca do Lixo de Săo Paulo.

- Guilherme (Flávio Galvăo), - filho de Pedro e Isolina, 30 anos, é o metalúrgico mais atraente da fábrica. Honesto e competente no trabalho, depois que viu Laura nunca mais se aproximou de nenhuma outra mulher.

- Isolina (Célia Helena) - mulher de Pedro, cinco anos mais velha do que ele. Pudica em excesso, é o espelho do fracasso como mulher e amante, para desgosto do marido, que a despreza.

- Terezinha (Mayara Magri) - filia de Pedro e Isolina, 18 anos, trabalha nos escritórios da metalúrgica e sonha ascender socialmente. - Humberto (Luiz Serra) - 36 anos viúvo, técnico em computaçăo: acha. que com auxílio das máquinas vai conseguir a soluçăo do enigma.

- Valquíria. (Maria Helena Imbassahy) - solteirona, irmă de Humberto, tem por ele verdadeiro amor materno, com grande dose de ciúme.

- Luba Assunçăo (Mila Moreira) - 25 anos, modelo de alta costura, desfila para Clodovil Hernandez. Sonha ter sua própria butique.

- Samuel (Odilon Wagner) - marido de Laura, falecido há cinco anos, aparece sempre em flashback.

Clodovil Hernandes - o figurinista interpreta a si mesmo, em determinada fase de sua vida. Aparece como grande amigo e confidente de Laura.

1983 - O Povo na TV

O Estado de S. Paulo
1/1/1983
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A PARTICIPAÇĂO PLANEJADA
"O programa ajuda a pessoa, é uma utilidade pública, mas apenas para uma ou outra pessoa e năo muitos".

A colocaçăo de Carla, de 15 anos, moradora de Nova Cachoeirinha, define, com sabedoria, a natureza do programa "O Povo na TV", levado ao ar pela TV-S. de segunda a sexta, de uma as seis da tarde, em oito Estados brasileiros.

Da mesma forma que Carla, milhares de telespectadores assistem ao desenrolar dos quadros, que tratam desde a perda de animais de estimaçăo, parentes, até mortes e violęncias.

Como confessa um assíduo espectador, "é um programa de muita utilidade, porque traz para fora muita coisa que está no fundo da terra. Se năo houvesse este programa, năo tínhamos a quem reclamar".

'O POVO NA TV'

"A televisăo estava alienada da vontade do povo, mas agora está voltando para servir ao povo".

"O 'Povo na TV" é a procuradoria geral do povo".

Através de expressőes como estas, o programa procura autodefinir-se, sugerindo até ser o responsável pelo acesso ŕ TV daqueles que até agora foram impedidos de nela participar.

Como é possível constatar, a populaçăo responde a esses apelos: diariamente săo milhares as pessoas que se acotovelam nas imediaçőes do estúdio, na tentativa de levar ao programa seus dilemas: desde a ausęncia absoluta dos direitos mínimos até conflitos familiares afetivos e sociais, em geral.

Além disso, também é grande o número de pessoas que procura o programa em busca das curas milagrosas do professor Lengruber, ou simplesmente em busca de participaçăo no auditório.

Entretanto, como esta alta demanda de causas populares é tratada pelo programa, pelos apresentadores, pela produçăo?

REIVINDICAÇŐES

Quando os casos caracterizam-se por reivindicaçőes, geralmente já levadas ao poder público inutilmente, os apresentadores acionam as mesmas autoridades procurando soluçăo.

As instituiçőes manifestam-se publicamente e comprometem-se a atender ŕs solicitaçőes, justificando a inoperância anterior como um pequeno desajuste do sistema. Com isso, o programa tenta, reiteradamente, recuperar o crédito ŕs instituiçőes, já desmoralizadas diante da populaçăo. Os erros săo atribuídos a indivíduos "incompetentes" ou "preguiçosos", nunca ao caráter verdadeiro e classista das instituiçőes.

Assim, o programa tenta ser uma ponte de conciliaçăo entre o "povo" e as autoridades. Os antagonismos de classe săo camuflados e substituídos por uma falsa fraternidade, denominada pelo programa como "legiăo de amigos".

OS AMIGOS

Entre os mais ilustres amigos do programa, estăo o presidente Figueiredo, a Rota, a presidente da LBA, o delegado do Deops paulista, os ministros e autoridades em geral, até as pessoas mais simples, trabalhadores e outros.

Os momentos iniciais da apresentaçăo săo coroados pela "Cançăo da Fraternidade", como tentativa de irmanar a todos. Wilton Franco, o apresentador principal, comanda a música e todos cantam de măos dadas, enquanto o apresentador expressa votos de esperança aos desvalidos e agradece ao presidente pelo direito de expressăo, concedido por sua benevolęncia.

A aproximaçăo do programa com o poder é tăo flagrante que săo rotineiros os elogios ao PDS, os ataques ŕs oposiçőes e a disposiçăo das autoridades em comparecer ao programa.

O PROGRAMA E A POLÍCIA

Wagner Montes, o "chicote do povo", é o responsável pela apresentaçăo dos casos relacionados com a "justiça". Pessoas simples levam ao programa os mais variados dramas, envolvendo brigas familiares, roubos, violęncias cometidas por vizinhos, desconhecidos e pela polícia.

Assumindo o papel de juiz das causas, Wagner Montes chega ao ponto de sugerir a morte para aqueles que julga criminosos irrecuperáveis, e de convocar a Rota para agir mais rigorosamente no combate aos crimes. Săo também constantes as manifestaçőes silenciosas em apoio ao esquadrăo da morte, quando, por exemplo, o seu símbolo é localizado pelas câmeras.

Ao som de um rugido de metralhadoras, o apresentador apropria se de valores caros ŕs classes populares como a honestidade, a solidariedade, a justiça, para transformá-los em artifícios emocionais e distorcę-los com argumentos em favor de puniçőes drásticas para os "criminosos" Em nenhum momento, o programa contempla as razőes mais profundas da violęncia.

Quando a violęncia parte da polícia, o programa tenta resgatar a imagem da instituiçăo, transferindo os erros aos indivíduos. As autoridades superiores săo chamadas para manifestar sua discordância com tais atos e prometem providęncias imediatas. O programa, como se vę, poupa a instituiçăo maiores críticas e evita desmascaramento do seu caráter ostensivamente repressivo.

O PROGRAMA E A RELIGIĂO

Se por um lado, "O Povo na TV" utiliza um discurso muito próximo ŕquele utilizado pelas CEBs, ele é acompanhado por uma prática que o nega, como por exemplo, no que se refere ao direito dos pobres.

Na sua intençăo de dar voz aos pobres, as CEBs priorizam o coletivo e a organizaçăo das classes trabalhadoras, enquanto o programa destitui a reivindicaçăo do seu caráter coletivo e transforma-a em concessăo ao indivíduo isoladamente.

A linguagem do programa é penetrada pela religiosidade popular, que se manifesta através de provérbios, citaçőes bíblicas, apelos a outras crenças, além dos quadros destinados ŕ devoçăo e fé do povo, como a hora da Ave-Maria, e as curas do professor Lengruber.

O programa recupera a visăo de que a ordem natural e social decorrem da vontade divina e só por ela podem ser modificadas. Assim, perante as dificuldades, só resta rezar a Deus.

Ao contrário desta prática, as CEBs buscam atingir uma nova linguagem, intrinsecamente libertadora e reveladora do real, que possibilite a conscientizaçăo do povo enquanto agente de mudança social.

O programa capta a importância e a relaçăo que as classes populares mantęm com os "santos", para reforçar a idolatria e adoraçăo das imagens.

No momento da reza, uma imagem de Nossa Senhora é colocada no palco para ser beijada e consagrada com flores, ao som da Ave-Maria e das reflexőes do apresentador, Wilton Franco tenta impor uma relaçăo de mediaçăo entre o povo e o sagrado, procurando impedir que as pessoas relacionem com o seu cotidiano.

Săo também constantes as criticas ŕ igreja mais progressista, responsável, segundo programa, pelo abandono das pessoas ŕ igreja".

PARTICIPAÇĂO PLANEJADA

Tais pressupostos, combinados com uma visăo dos direitos dos pobres, permite compreender o caráter estratégico do "Povo na TV" no atual momento político brasileiro.

Justamente no momento em que toda sociedade se organiza e reivindica um espaço maior de expressăo e participaçăo nas decisőes do poder e nos meios de divulgaçăo, surge um programa autodenominando-se "porta-voz do povo".

Exatamente quando se cristaliza a necessidade de solidariedade da grande maioria, como caminho fundamental para a construçăo de uma nova sociedade surge o programa.

Baseando-se na retorica da defesa dos direitos humanos coletivos, o programa continua a perseguir o cumprimento dos direitos individuais, tentando, assim, dissolver a força do coletivo.

Ao tentar constituir-se como ponte entre o poder e a populaçăo, o programa está, na verdade, dissimulando a compreensăo da desigualdade social, que produz os conflitos levados ao palco. Suas soluçőes (obtidas através de um perfeito entendimento com o poder) săo individuais quando os problemas săo coletivos; sua resposta aos dramas familiares é o julgamento moral e condenaçăo de pessoas; sua receita para a violęncia é a puniçăo drástica para os envolvidos.

A articulaçăo das lutas comunitárias para a conquista de uma sociedade mais justa, é uma questăo intocada pelo programa.

"O Povo na TV" coloca-se como espaço aberto para a antecipaçăo (para isso faz uso do esquema de auditório, de grande peso popular), mas faz deste espaço a tradicional prática assistencialista e paternalista, fundada numa fraternidade que esconde os antagonismos de classe.

A RECEPÇĂO POPULAR

No entanto, tal projeto de manipulaçăo popular, năo pode ser entendido de forma absoluta. Se o poder pode controlar a emissăo das mensagens, ele năo pode controlar a sua recepçăo. Neste sentido, o "Povo na TV", como qualquer outro programa, apresenta contradiçőes.

Observa-se, em cada programa, por exemplo, a evidente inoperância das instituiçőes, o descrédito e a revolta do povo em relaçăo ŕ forma como elas estăo constituídas.

Nos freqüentes apelos do programa ŕ "legiăo de amigos", vemos que se exploram determinados valores eminentemente populares, como a solidariedade. As pessoas se mobilizam motivadas por um valor que lhes pertence e năo por desejo do programa. O apelo ao espírito comunitário traz em si um potencial organizativo, cuja liberaçăo pode ocorrer a qualquer momento.

Embora o programa use todos os seus recursos para minimizar as reivindicaçőes coletivas, os grupos que dele participam usam o programa para expor suas queixas e fazer suas críticas, e assim manifesta o seu descontentamento.

Os limites deste projetos de manipulaçăo dos anseios populares no entanto, săo muito claros: apesar do majestoso planejamento de uma famosa agęncia de propaganda e da presença de Sérgio Malandro e Wagner Montes (apresentadores do programa), no comício do presidente Figueiredo, no dia 8 de novembro, no Rio de Janeiro, as cem mil pessoas presentes năo deixaram por menos - manifestaram-se com estrondosas vaias.



1976 - Dias Gomes

Jornal do Brasil
6/9/1976
Lena Farias
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UMA EXPLOSĂO CRIATIVA OU PLAGIÁRIA?
"Saramandaia" no ar

Primeira pergunta: o personagem Joăo Gibăo, com suas asas de escândalo e esta dúvida de ele ser anjo ou demônio - isto é criaçăo de Dias Gomes ou de Garcia Marquez, no conto Um Homem, muito Velho com Suas Asas Enormes?

Segunda: aquela Dona Redonda, explodindo de tăo gorda em cima do povo de uma cidade - isto aconteceu na Saramandaia de Dias Gomes ou na Cajazeiras reinventada por Zé do Norte (o músico premiado de Muié Rendęra; em 1973, ele entregou seus originais de O Lobisomem de Cajazeiras numa emissora de TV, e nunca mais conseguiu encontrá-los - a năo ser em certas situaçőes que a novela Saramandaia está mostrando)?

Terceira: após a explosăo de Dona Redonda, ficou um cheiro de rosas. Autoria de Dias Gomes ou ainda Garcia Marquez, em O Mar do Tempo Perdido? Quarta: o linguajar do Odorico Bem Amado, sucesso das telenovelas de anos atrás, é muito diferente do usado pelo mesmo personagem em 1960, ano em que ele foi criado para o teatro. O Odorico da novela e sua engraçada fala regionalista é criaçăo de Dias Gomes ou de José Candido de Carvalho que, em 1964, publicou O Coronel e o Lobisomem?

Um acusador de Dias Gomes diz: "O Brasil é um pais engraçado, onde o sujeito anoitece burro e acorda gęnio".

Dias Gomes: "Sabe de urna coisa? A televisăo tem o estranho poder de ativar neuroses. A novela faz sucesso e logo aparecem acusaçőes assim".

Voz calma, pausada, gestos contidos, é mesmo Dias Gomes quem dá o tom da entrevista. Mais um encontro que uma entrevista, ŕ noite, no casarăo de uma ladeira que desemboca na Lagoa Rodrigo de Freitas. -"Prefiro falar da minha viagem (dia 9) aos Estados Unidos. É mais importante para mim, que esses assuntos que trouxeram vocę aqui."

É' natural que seja. Seria para qualquer autor, de qualquer parte do mundo: uma vez por ano, a Pennsylvania State University convida um escritor, um dramaturgo de qualquer parte do mundo, cuja obra seja de reconhecida importância universal para, durante 10 semanas, ele realizar um seminário, dar aulas. Seminário cujo tema é a própria obra do artista convidado.

Seria o Teatro de Dias Gomes, que o próprio dramaturgo conseguiu transformar em Dias Gomes e o Teatro Brasileiro, com a intençăo de abrir uma panoramica sobre o assunto e se deter na obra de outros autores brasileiros. Como fim de curso, a sua peça O Berço do Herói, censurada e proibida nos palcos brasileiros, fará a estréia mundial na Pensilvânia, em montagem profissional.

E a televisăo, Dias Gomes? E os problemas de acusaçăo de plágio que vocę vem sofrendo desde a época de O Bem-Amado, e agora mais intensa com Saramandaia?

Dias Gomes exibe urna expressăo cansada ("estou, inclusive fisicamente, cansado, escrevendo tręs capítulos de Saramandaia por dia. Tenho que deixar a novela pronta antes de ir para os Estados Unidos, quinta-feira que vem"). "Sempre que a gente escreve uma novela de sucesso - e Saramandaia é sucesso absoluto - aparecem, pelo menos, uns 30 doidos alegando autoria".

"O Brasil é um país realmente engraçado", diz o jornalista Carlos Silva, estudioso da obra de José Candido de Carvalho, especialista em falares regionais. "O único pais onde, segundo conhecido humorista, o sujeito anoitece burro e acorda gęnio. O caso do Sr Dias Gomes é típico. De engenhoso autor de novelas, passou, nos últimos tempos, a ser considerado um inovador de linguagem nacional, uma ediçăo melhorada e ampliada do saudoso Guimarăes Rosa. E o pior é que o Sr. Dias Gomes acredita piamente nisso. E tanto acredita, que ao expelir a sua conhecida novela O Bem-Amado (1973) deu entrevista a Artur da Távola, dizendo que o linguajar do prefeito Odorico era uma pesquisa sua levada a efeito no Sul da Bahia. Acontece que essa é precisamente uma regiăo trabalhada ficcionalmente por dois grandes romancistas baianos, Jorge Amado e Adonias Filho. E nem Jorge Amado nem Adonias, em nenhum dos seus admiráveis livros, usou em nenhum momento, esse pretenso dizer baiano. E năo usaram, pelo simples motivo de năo existir no Sul da Bahia nem no Sul de coisa alguma um falar corno o de Odorico. Que só existe no livro O Coronel e o Lobisomem, do fluminense José Candido de Carvalho".

Dias Gomes nega que, em qualquer momento, tenha feito tal declaraçăo.

"Eu nunca disse que a linguagem de O Bem-Amado ou de Saramandaia eram faladas em qualquer parte do Brasil, ou, especificamente, no Sul da Bahia. Eu é que estou sempre encontrando pessoas que dizem: "Sabe que vocę fez um trabalho felicíssimo, captou muito bem aquela linguagem do interior. Conheço gente que fala exatamente como o Odorico. E eu respondo que é apenas uma questăo de coincidęncia, que a linguagem de Odorico, o Bem-Amacio, como de Saramandaia é invençăo minha, mesclada com termos do linguajar popular".

"Antes de fazer a novela (Saramandaia era uma peça de teatro que eu estava começando a escrever e se chamava Subitamente os Homens Voaram. Comecei logo depois da interdiçăo do Roque Santeiro)". Dias Gomes esteve no interior de Pernambuco fazendo uma pesquisa. "Tive por cicerone um autęntico senhor de engenho, que se expressava de maneira muito peculiar. Ouvi dele, por exemplo, um verbo inusitado: espingardar.

- Eu uma vez espingardei um cabra safado...

Foi o mote para neologismos corno pistolar, que usei e uso".

Carlos Silva diz, porém, que na primeira versăo de O Bem-Amado, aparecida em 1960, "antes do surgimento da grande mina, O Coronel e o Lobisomem, que o Sr Dias explora até hoje", Odorico falava diferente, sem. invençőes, portuguęs sem distorçőes''.

Citando exemplos:

"Odorico: Diz muito bem D Cotinha Monçăo, dedicada professora do nosso Grupo Escolar; é incrível que esta cidade, orgulho do nosso Estado pela beleza de sua paisagem, por seu clima privilegiado, por sua água radioativa, pelo seu azeite de dendę, que é o melhor do mundo, até hoje năo tenha onde enterrar seus mortos... (Teatro de Dias Gomes, Ed. Civilizaçăo Brasileira, 1972)".

Odorico, o personagem, falava em sono eterno, seio da terra, e haveremos de tę-lo, sem-vergonhice (e năo sem-vergonhista), bem, eu entendi premiá-lo pelo seu trabalho na minha campanha.

"Como se vę", prossegue Carlos Silva, "a linguagem do Sr Dias Gomes era comum, lisa, sem atrativos, quase de relatório. Anos depois com O Coronel e o Lobisomem nas măos, Dias Gomes mudou de tom. Deu para falar em sem-vergonhistas , ladronismo, donzelas militantes, moças de sofá e saleta, finalmęncias. Era um Dias Gomes novo em folha, cheio de novidades, inventivo como ele só. É que o novelista, sem dúvida engenhoso, havia descoberto a mina, na literatura de José Candido de Carvalho. Dessa leitura nasceu um Dias Gomes diferente, que passa, agora, por um inovador da língua portuguesa, fazendo conferęncias sobre o que ele chama de linguagem nova. Rateando um livro que tem hoje mais de 50 ediçőes, além de traduçőes em línguas estrangeiras, o Sr Dias Gomes quer passar um vasto atestado de incultura neste país".

Saramandaia, para Carlos Silva, nada mais é que uma continuaçăo de O Bem-Amado, com todos aqueles achados que fizeram de O Coronel e o Lobisomem um clássico da literatura no Brasil.

"É incrível como um livro tăo popular seja copiado impunemente por novelistas que só săo importantes porque pirateiam a obra alheia. Esses bucaneiros precisam ser contidos através de medidas de proteçăo ao autor nacional. Se em Odorico já havia uma indisfarçável extraçăo de linguagem, em Saramandaia vemos todos os personagens falando do Coronel. Sem a graça do Coronel. Ainda assim, Ponciano de Azeredo Furtado poderia entrar em cena sem se sentir de todo deslocado. Tudo é legitimamente seu e semvergonhistamente copiado pelo Sr Dias Gomes."

Nelson Werneck Sodré, escritor e crítico literário nega esses argumentos:

"A questăo me parece inteiramente descolocada. O Guimarăes Rosa é, aliás, um exemplo raríssimo de fusăo do ficcionista com o lingüista. Ele usa, na formaçăo de palavras novas, quer a fonte erudita, quer a fonte popular. É' o caso também de José Candido de Carvalho. Năo é o caso de Dias Gomes, que usa apenas a fonte popular. Eu năo vejo, entăo, nenhuma semelhança entre um caso e outro caso. Quanto ŕ questăo dos tipos, ainda muito menos. Os tipos de Saramandaia săo inteiramente diferentes daqueles criados por Guimarăes Rosa. E diferentes do Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, criaçăo de José Candido de Carvalho. A distinçăo fundamental deveria ser procurada no conteúdo dessas obras de arte e năo na forma. Eu considero Dias Gomes o maior criador no teatro nacional e, na novela de televisăo, está realizando inovaçőes de profundo interesse."

"Fez de conta o sem-vergonhista que era galo sem rumo, perna sem força, bico caído. Um caçoista, do fundo do terreiro, largou deboche na praça... e especial atençăo prestei a uma pendęncia de terras que sustentou a poder de rabulice, dando ganho de causa ao que era torto. Em duas penadas limpou a escritura de toda a impureza. E o demandista seu amigo ficou possuído de chăo que era seu e que năo era... A velha muito prezou o meu severismo." (O Coronel e o Lobisomem, José Candido de Carvalho, Ed. José Olympio).

O escritor fluminense José Candido de Carvalho năo gosta de falar a respeito de um assunto que parece até incomodá-lo bastante. Ainda assim revela as suas impressőes:

"O que é preciso saber é se o Sr Dias Gomes escreve assim antes do aparecimento de O Coronel e o Lobisomem, lançado na praça em 1964. Repito: se era esse o seu jeităo de dizer, năo há nada a reclamar. Eu é que devo pagar pedágio por ter transitado sem licença pelos falares e escreveres do Sr Dias Gomes. Se a primeira versăo de O Bem-Amado, que é de 1960 e fonte, na forma televisada, da atual linguagem da novela Saramandaia, já trazia essas novidades e invencionices o Sr Dias Gomes está de parabéns. Se, ao contrário, essas novidades săo recentes, pesquisadas na obra alheia, meus pęsames. O ilustre produtor de televisăo escolheu o largo caminho do facilitário, que năo leva a nada."

"Pessoalmente, considero a linguagem do Coronel superada, pois estou trabalhando em novos caminhos da ficçăo. O que sempre me amedrontou, e por isso năo persisti na linha do meu segundo romance, era acabar sendo plagiário de mim mesmo. O que seria um triste fim de carreira."

"Abrindo a janela rapidamente, Maria Redonda despeja sobre eles o conteúdo fétido de uma laca de dez quilos - urina e fezes - acumulado durante trinta dias...

Menino, quem é seu pai?

Meu pai é Nosso Senhor.

Menino quem é sua măe?

Minha măe é a măe do Criador.

Menino, diga onde vai?

Pelo mundo eu vou girar.

Tenho muito que aprender

E o tempo vai me ensinar...

Quem será que está virando bicho aqui em Cajazeiras? - o sofisma recaia sobre algumas pessoas que sofriam de amarelidăo" (O Lobisomem das Cajazeiras, Zé do Norte, 1971).

O paraibano das Cajazeiras, Alfredo Ricardo do Nascimento, só tem esse nome comprido para efeitos civis, administrativos e protocolares. Para efeitos artísticos, ele é Zé do Norte, autor das músicas do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, que ganhou, em Cannes, em 1952, o pręmio de melhor trilha sonora. Entre elas, a estilizaçăo do tema folclórico Mulher Rendeira, regravado 82 vezes, com quase 300 mil cópias vendidas só nos Estados Unidos. É também autor do livro Brasil Sertanejo, histórias sertanejas, curiosidades sertanejas, cantigas do sertăo, mentiras e anedotas, poemas, dialeto sertanejo (Ed. Asa, 1948).

A repórter foi encontrar Zé do Norte na sua casa carioca, o Hotel Primor, na Rua dos Andradas, onde seu Ismael da portaria o apresentou na base do "ô cangaceiro, olha aqui essa moça procurando por ti". Chapéu curto, de feltro, uma pena pequena enfiada no lado direito, uma cruz de ouro grande, cravejada de pedras coloridas, ele começa a falar.

"Olha, eu nunca acusei o Dias Gomes de plágio, nem pensei nisso. E essa história que eu vou entrar na Justiça é mentira. Năo tem isso năo. E olha que eu mesmo nem tinha reparado no caso de Saramandaia parecer com o meu livro. É que eu nem assisto ŕ novela. É um capítulo ou outro, distraído. Aí os amigos começaram a me dizer: olha, Zé, vocę precisa ver isso, seu lobisomem, sua Maria Redonda está tudo na novela."

Espia a repórter com os olhos vivos, alegres, que se apertam quando observam a gente com maior cuidado.

- Comecei a escrever meu livro em 1959, acabei em 1965. Aqui mesmo no Rio, incentivado pelo Roberto Corte Real, que era diretor artístico da CBS.

Ele achava que năo tinha capacidade para escrever um romance de fôlego, "coisa para pessoas de instruçăo superior", conforme pensava na época. Quando ponderou isso com Corte Real, ele limitou-se a responder que "pra essa finalidade é bastante saber ler e escrever, conhecer o que vocę conhece e viver o que vocę viveu".

Foi assim que se iniciou O Lobisomem de Arapiraca. Por que de Arapiraca? "Por nada. Depois eu pensei que era mais interessante contar mesmo o caso de Cajazeiras e fiz O Lobisomem de Cajazeiras, pois esse era um assunto muito farto, que eu conhecia desde menino".

"Os lobisomens" - continua Zé do Norte - ŕs segundas e sextas-feiras cruzavam a cidade. Eles vinham do alto do Cabelăo - hoje bairro do Alto Belo Horizonte - para as capoeiras. E do Boi Morto para a Curicaca."

As andanças dos personagens de Zé do Norte ainda năo estăo editadas. Mas ele dispunha de um original e quatro cópias. Uma delas está na casa da filha Josefina, em Vila Isabel; a segunda, no Conselho Estadual de Cultura da Paraíba, que deverá editar o livro: a terceira, presentemente com a repórter. A quarta cópia desapareceu. Como foi isso, Zé?

"Eu entreguei a cópia para um conhecido meu, de uma rede de jornais e televisăo. Foi em 1973. Eu queria saber se prestava pra novela. Pedi que ele lesse. Um męs depois, voltei, perguntei pelo livro. A resposta me estarreceu: tinha sumido. Seis meses depois, a mesma resposta: nada do livro."

"Todo trabalho de recriaçăo literária de uma linguagem parte da mesma fonte", argumenta Dias Gomes". E o processo de recriaçăo de neologismos é semelhante. Entăo é evidente que tende a cair em resultados semelhantes, em palavras parecidas. No caso de Guimarăes Rosa, no caso de José Candido de Carvalho, no meu ou de outro qualquer autor, a fonte é o linguajar popular, é a criatividade natural do povo, que nós manipulamos. A linguagem de José Candido é criada, como a minha linguagem também é, mas a fonte é o povo. Estou cansado de ouvir, até mesmo em programas populares de televisăo, pessoas dizerem emboramente, até por horamente já escutei. Minhas personagens, antes de 64, falavam de modo diferente, porque, a partir de entăo fui tentado a fazer uni trabalho de recriaçăo de linguagem. E só vim a ler O Coronel e o Lobisomem quando já havia escrito mais da metade de O Bem-Amado para a televisăo. Quanto a Guimarăes Rosa eu conhecia anteriormente e há quem me acuse de sofrer influęncias dele."

"Sabe de uma coisa?" - é Dias Gomes quem pergunta - "a televisăo tem o estranho poder de ativar neuroses. Entăo, toda novela que vai para o ar, tem sucesso, provoca o aparecimento de situaçőes assim. Năo só de pessoas que se julgam autoras, como outras, que se imaginam retratadas nos personagens. Na época de O Bem-Amado, o cronista Mister Eco publicou o estudo de uma filóloga provando que năo havia qualquer semelhança entre o trabalho que eu realizava, o de José Candido e o de Guimarăes Rosa, e cita uma série de 1 mil neologismos que năo aparecem nem em um nem em outro."

A "questăo Saramandaia" fez voltar ŕ tona o velho problema do plágio pela televisăo. O escritor Guilherme Figueiredo cita, entre outros muitos exemplos, dois particularmente significativos:

A minha traduçăo do Tartufo, de Moličre foi totalmente camuflada e apresentada na TV Globo como sendo de outro cavalheiro. Reclamei com a SBAT - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais - e trataram imediatamente de me pagar. Pagamento feito até ŕ minha revelia, para evitar que a SBAT movesse açăo. E quem assistiu ŕ novela Fogo Sobre Terra, da Sra Janete Clair, mulher de Dias Gomes, reconheceu ali cenas, personagens, fatos e acidentes de minha peça Maria da Ponte (construçăo e derrubada de represa, construçăo e derrubada de urna estátua, e assim por diante). Infelizmente, năo me foi possível colher provas para uma açăo em juízo, pois nem mesmo a Censura guarda os textos de cada capitulo e sim unicamente resumos e sinopses, que năo fazem prova de plágio."

"Cada caso de plágio é um caso. Assim que o autor perceba, que se dirija ŕ sua sociedade arrecadadora. Acredito que a prova testemunhal valha para açăo. Agora, os órgăos oficiais de direitos autorais e a Censura - para isso é que deve existir a Censura, para proteger e năo para castigar os autores - essa comissăo que criaram aí, essa que tem até o Roberto Carlos metido no meio, deveriam exigir que os textos das novelas ficassem registrados, para que o autor ou seus advogados pudessem consultá-los e tirar cópias autenticadas, em caso de necessidade."



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