Wednesday, August 18, 2010

1986 - Balanço do Ano na TV

Jornal do Brasil
28/12/1986
Cora Rónai
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O BRILHO DA JUVENTUDE
O ano de 1986 foi, sob todos os aspectos, um dos mais extraordinários e ilusórios - e a imagem que a televisăo nos mostrou de seus altos e baixos foi, coerentemente, tăo real quanto um camaleăo visto através de um caleidoscópio. Fomos fiscais do Sarney, anônimos heróis de um breve surto de patriotismo ufanista, mostrados à exaustăo em todos os telejornais, fechando supermercados e conferindo, atentos, caixinhas e latarias, lista de preços na măo. Fomos eleitores recadastrados e paparicados, vítimas de uma sucessăo tediosa e incompetente de candidatos que se digladiaram sem quartel durante os meses do TRE. Fomos os perdulários irresponsáveis que quase levaram o pais à bancarrota por, uma vez na vida, termos com que comprar o que havia para vender - vilőes de uma história cheia de som e fúria, significando nada.

Ainda em março, contudo, ternamente embalados pelo Cruzado I, tivemos a visăo do impossível, acontecimento que ficará para sempre registrado na vida de nossas retinas tăo fatigadas: no histórico dia 16, o ministro Dilson Funaro era aclamado, ao vivo e em cor, no auditório de Sílvio Santos. Ficamos embasbacados: entăo era verdade mesmo, o Brasil, agora uma Naçăo de civis, estava inteiramente mudado!... Mas o tempo e a televisăo se encarregaram de mostrar que năo, que foi tudo ilusăo passageira. O país continua caótico, o ministro Funaro se encastelou em seu gabinete e se, para bem de todos e felicidade geral, o general Newton Cruz foi definitivamente afastado da vida pública, o senhor Antônio Carlos Magalhăes tratou de substituí-lo à altura em cenas de truculência frente às câmeras, agredindo um jornalista que teve o desplante de lhe fazer uma pergunta. A diferença é que, como ele é ministro das Telecomunicaçőes e o general năo era, as suas demonstraçőes de amabilidade năo foram ao ar - embora circulem, à vontade, como certos filmes pornô, em fitas de vídeo clandestinas. Quanto ao Sílvio Santos, continua rigorosamente igual ao que sempre foi.

Enquanto isso, a Rede Globo, em plena reprise de Selva de Pedra, na doce ilusăo de que o tempo năo passa, apavorava-se com o Ibope sempre crescente da Manchete-, onde Maitê Proença exibia seus encantos na pele (e como houve pele!) da tręfega Dona Beija. Rolaram cabeças na Lopes Quintas, pelos corredores ouvia-se a confusăo de choro e de muito ranger de dentes - mas, mais uma vez, foi tudo ilusăo, dessa vez da Manchete. Encerrada a fulgurante carreira da senhora de Araxá, tudo ficou como dantes, mesmo porque Tudo ou nada, com que os Blochs pretendiam repetir os estonteantes índices de audiência anteriores, sempre esteve mais para nada do que para tudo.

Nadar nas águas de ilusőes já conhecidas, no entanto, parece ser uma característica nacional. Nós somos assim mesmo, tremendos sonhadores, eternos românticos de Cuba - única desculpa, aliás, para termos aturado com tanta boa vontade a invasăo musical da rapaziada de Havana, mimada numa profusăo de shows, clips e especiais jamais vista. Sorte dos muchachos; tivessem nascido no Grajaú...

OS DEZ MELHORES

Armaçăo Ilimitada (Globo) - O melhor dos melhores. Nas aventuras de Lula, Juba e Zelda Scott firmou-se, afinal, a formulaçăo de uma nova linguagem de tevê, ágil mistura de besteirol e vídeoclip com raízes nos clichês das histórias em quadrinhos. Destaque para Andréa Beltrăo, charmosa e engraçada, sempre uma Zel irresistível.

Anos Dourados (Globo) - Pela primeira vez em muitos anos, o pais voltou a achar farda um negócio bonito. As normalistas e cadetes da minissérie de Gilberto Braga trouxeram de volta a nostalgia de uma época em que as pessoas ainda acreditavam firmemente que tempos melhores viriam.

Memórias de um Gigolô (Globo) - Mais uma minissérie, mais uma dose de nostalgia. Um grande texto de Marcos Rey, primorosamente dirigido por Walter Avancini; nos papéis principais, Bruna Lombardi, Ney Latorraca e Lauro Corona formaram um trio inesquecível.

Cambalacho (Globo) - A novela de Sílvio de Abreu năo chegou a ser lá aquelas maravilhas, mas deu ao grande público a chance de conhecer o trabalho de Regina Casé, uma atriz especialíssima.

Dona Beija (Manchete) -Deixando a desejar como dramaturgia, Dona Beija conseguiu, entretanto, duas façanhas dignas de nota: assustou a Globo e levou o nu explícito ao horário nobre. Foi o primeiro passo acertado da Manchete na conquista de um território que, ainda assim, continua fora de seu alcance.

Japăo, uma viagem no tempo (Manchete) - Muitíssimo bem realizada, apoiada num trabalho de pesquisa sério e em imagens da melhor qualidade, a série apresentou ao público brasileiro as várias facetas de um país até entăo desconhecido por aqui. De quebra, revelou um novo talento: o diretor Walter Salles Jr.

Os caminhos da sobrevivęncia (Manchete) - Uma outra série - e aqui, a confirmaçăo do trabalho de um diretor já amadurecido e seguro, o jornalista Washington Novaes. O ponto alto esteve nos dois programas sobre o Pantanal, um casamento perfeito (e carinhoso) de sons, texto e imagem. Com menos badalaçăo - e muito menos recursos - ele conseguiu superar, em impacto, A Amazônia de Jacques Cousteau, desta vez reapresentada na íntegra pela Globo.

O choque do novo (TVE) - De todo o material importado que chegou à tevê este ano, a série da BBC-Time Life foi, de longe, o melhor. Inteligente, bem elaborada, apresentou uma visăo abrangente e rigorosa da arte moderna - condenando, entre outras coisas, as noçőes utópicas de uma arquitetura que esqueceu o homem e que tem, em Brasília, seu principal exemplo.

Sexta independente (TVE) -Uma mistura eclética (e desigual) de produçőes das várias tevês estaduais, que teve, ao longo do ano, momentos muito bons (como os especiais com o violeiro Elomar, e o ex-Beatle John Lennon), a Sexta Independente foi uma boa prova do que a TVE poderia estar fazendo e/ou apresentando em horário integral.

As lágrimas amargas de Maria da Conceiçăo Tavares ou As Economistas Também Choram (Globo) - Disparado um dos momentos mais marcantes da televisăo em 1986, o arroubo emocional da professora foi, em contraposiçăo aos ataques do engenheiro Brizola, a reaçăo mais extremada ao Plano Cruzado. Foi também, para quem ainda tinha dúvidas, a prova de que todo mundo tem o seu ponto fraco; nos coraçőes mais empedernidos há sempre um Topo Gigio à espreita.

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