Sunday, August 29, 2010

1978 - Hoje, é um novo dia, de um novo tempo...

O Globo
26/11/1978
Lea Penteado
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UMA SUPERPRODUÇĂO INTERCONTINENTAL PARA A MENSAGEM DE NATAL DA REDE GLOBO
Quarenta e cinco dias de filmagens nas cidades de Săo Paulo, Rio, Nova York, Londres e Paris, mobilizando uma equipe de 17 técnicos da Blimp Filmes, 230 artistas e 800 crianças, foram necessários para a realizaçăo de quatro filmes com um minuto e 30 segundos de duraçăo cada um, que a partir do dia 1ş serăo exibidos com os votos de feliz ano novo da Rede Globo de Televisăo.

"Hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou... "



A música de Marcos e Paulo Sérgio Valle já se tornou tradiçăo nos comerciais de Natal da Rede Globo. As imagens se modificam a cada ano, mas os abraços, sorrisos, a confraternizaçăo entre os artistas permanecem como marcas registradas de alegria.

Este ano a música ganhou novo ritmo. E a época das discotecas, e assim foi feito o arranjo, para a interpretaçăo dos Canarinhos de Petrópolis.

Como nos anos anteriores, esta mensagem também foi produzida pela Blimp Filmes, responsável pela idéia. Baseada na campanha do Ano Internacional da Criança, que a emissora prepara para 1979, o roteiro foi escrito, mesclando artistas e crianças em diversas situaçőes. Para isso, durante um męs e meio uma equipe de 17 profissionais trabalhou, filmando em 18 locaçőes no Rio, oito em Săo Paulo, mais Nova York, Londres e Paris. Há ainda a filmagem reunindo todo o elenco da emissora.

Primeiro foram filmados pequenos grupos de artistas, em creches, asilos, favelas, orfanatos, parques, praças e colégios. Utilizaram-se 400 crianças contratadas da Star Produçőes e outras 400 que já pertenciam a esses locais.

Pela primeira vez os correspondentes internacionais - Sandra Passarinho, Hermano Henning, Roberto Feith, Hélio Costa e Lucas Mendes - foram inseridos neste comercial, com imagens nos locais onde estăo trabalhando e com a participaçăo de crianças de diversas nacionalidades.

Nestes novos dias as alegrias serăo de todos, é só querer... "

Sem sincronismo, as imagens foram captadas. Cabe aos Canarinhos de Petrópolis, na abertura e fechamento dos quatro comerciais, cantar. Artistas e crianças se libertaram, sem preocupaçăo, com câmaras estrategicamente colocadas. A ordem era naturalidade. Segundo o diretor de produçăo, Sérgio Bentes, "o importante era mostrar os artistas em situaçőes infantis. Com isso, năo houve obrigatoriedade de montar som em cada locaçăo, como foi feito nos anos anteriores".

Os artistas năo cantam como nos antigos comerciais, mas em contrapartida o encontro de todos numa manhă de sábado foi surpreendente. Ligados a seus núcleos de trabalho, a gravaçőes, poucas vezes há possibilidade para confraternizaçăo geral. Maria Augusta de Mattos, coordenadora de elenco da emissora, foi a responsável por reunir os 230 artistas que disseram presente ŕs nove horas de uma manhă quente.

Nos lagos do Jardim Botânico, foram realizadas algumas filmagens. Duas câmaras fixas foram instaladas - uma sob um quiosque, outra numa enorme torre de madeira construída especialmente. Esta câmara daria o plano geral do cenário. Muito verde, um lago, uma escadaria e o contraste das roupas coloridas dos artistas. As outras duas câmaras foram usadas na măo, permitindo planos mais próximos.

"Todos os nossos sonhos serăo verdade, o futuro já começou... "

Os Canarinhos de Petrópolis eram as vedetes da festa. O público que os aplaudia era selecionado - atores e atrizes de novelas, comediantes, bailarinos, locutores, apresentadores, enfim, todos os que compőem o elenco de programaçăo da emissora. Sob uma escada de pedra os meninos com gestos largos cantaram a trilha sonora, e esta imagem era intercalada com as cenas de aplausos e ainda com as cenas gravadas nas seis cidades e em diversos locais.

Cerca de 40 minutos de filme foram utilizados nesses 45 dias de trabalho da equipe dirigida por Rui Agnelli. As câmaras utilizadas foram de cinema Arriflex 35mm, para possibilitar melhor acabamento.

Durante quase tręs horas os artistas estiveram a postos embaixo do sol quente, sem texto decorado nem marcaçăo de diretor. Só lhes exigiam os aplausos e os sorrisos.

A equipe foi dirigida por Getúlio de Oliveira, com supervisăo geral de fotografia de Walter Carvalho Correa, direçăo de fotografia de Carlos Eduardo Silva, Hermano Penna e Getúlio Alvez; técnico de som, Miguel Sagatio, assistentes de câmara, Gilson Brandini, Osmar Heleno e Walter Batista; direçăo de produçăo de Sérgio Bentes, produçăo de Rosana Laporta.

O resultado estará no ar durante o męs de dezembro, em todos os intervalos da programaçăo. Pois, para todos os que trabalharam nesse comercial, como na música, "hoje a testa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem vier, quem quiser... "





Wednesday, August 18, 2010

1977 - Ministro X TV

Jornal do Brasil
20/5/1977
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O DOSSIÊ QUANDT
A cada seis minutos alguém é violentado na tela pequena brasileira

Belo Horizonte - O Ministro das Comunicaçőes, Euclides Quandt de Oliveira, discursando quarta-feira numa reuniăo de empresários de radiodifusăo, criticou os excessos de violęncia na televisăo brasileira, principalmente em séries importadas dos Estados Unidos, e pelas quais o Brasil paga "milhőes de dólares". Ontem, o Ministério das Comunicaçőes liberou para a imprensa o texto do discurso do Ministro. É o seguinte:

''As ocasiőes em que os radiodifusores brasileiros se reúnem para discutir seus problemas, e delinear os rumos a serem seguidos, săo de grande utilidade para toda a classe, mas, além disso, săo também o momento oportuno para um diálogo mais amplo com o próprio poder concebido. Assim, é com satisfaçăo que participo de mais um desses encontros, procurando dar minha contribuiçăo para o melhor entendimento entre os homens do Governo e da radiodifusăo.

Em seguimento ao que já fiz em ocasiőes anteriores, trago-lhes hoje um assunto que, creio, deve merecer a atençăo especial de todos. Năo haveria melhor oportunidade, para mim pessoalmente ,e para a Pasta que dirijo, de trazer ŕ classe nossas preocupaçőes com um tema muito delicado, e que no momento é alvo de estudos dentro do Ministério das Comunicaçőes: a violęncia constante dos programas de televisăo.

Há pouco tempo, justificando moçăo apresentada na Comissăo de Comunicaçőes da Câmara Federal, um deputado usou dados colhidos numa pesquisa realizada em Los Angeles durante "sete dias de programaçăo de televisăo". É estarrecedor: 114 assassinatos, 128 assaltos e 49 mortes, que tal pesquisa classificou como "justificáveis", além disso, nove raptos, dois suicídios e seis torturas físicas.

Outra pesquisa realizada na mesma época, também nos Estados Unidos, revela que a cada seis minutos do tempo de programaçăo alguém é violentado fisicamente, sendo que, paradoxalmente, nos programas infantis, a situaçăo é ainda mais preocupante: em cada hora foram constatados 38 atos agressivos ou ameaças.

Em pronunciamento feito na Assembléia Legislativa gaúcha, outro deputado, também preocupado com os efeitos das cenas violentas, principalmente sobre as crianças e adultos imaturos, em especial aqueles desfavorecidos socioeconomicamente, observou que "o Brasil está pagando milhőes de dólares, a cada ano, para liquidar a nossa juventude".

Este năo é um problema apenas nosso, especifico do Brasil. É matéria de preocupaçăo nas naçőes desenvolvidas, produtoras de informaçőes, mas é, sobretudo, nos países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento que a questăo se mostra mais crítica, devido ao grande volume dos programas importados e, em conseqüęncia, com um conteúdo alheio ŕ sua realidade, e cuja produçăo está fora do alcance de qualquer tentativa de correçăo ou de ajustagem ŕs necessidades do povo.

É sabido e notório que o mercado norte-americano é o maior exportador de mensagens televisivas para o mundo.

O relatório anual de 1966, de uma das grandes cadeias da televisăo americana, concluiu que seus programas săo distribuídos por 94 países em todo o mundo. A situaçăo nas outras duas redes americanas é semelhante.

Esses programas, em quase todos os países que os recebem, constituem a maioria da programaçăo transmitida. Dentre esses, os países mais desenvolvidos muito se preocupam com essa situaçăo, e estăo buscando promover a preparaçăo de programas próprios ou restringindo o número de horas de transmissăo diária.

É urgente que passemos da condiçăo de consumidores para produtores de informaçăo.

As estatísticas mostram que somos o nono importador mundial de filmes e seriados americanos. Essa constataçăo é alarmante e merece reflexăo, principalmente se a somarmos a outros dados, revelados por pesquisas realizadas em território norte-americano, e que se referem ŕquilo que é importado por nós.

- Quando uma criança média atinge a idade de 14 anos, já testemunhou 11 mil crimes, năo incluídos ai contrabandos, combates, estupros, assaltos, raptos e espancamento que resultem em morte.

Até os 15 anos de idade, essa mesma criança já se expôs a 14 mil horas de recepçăo de televisăo. Isso, notem os senhores, em plena época de formaçăo do seu caráter e da sua personalidade, e de maturaçăo de seus esquemas mentais.

- Em cada 100 horas de programaçăo infanto-juvenil, o expectador americano assiste a 12 assassinatos, 21 fuzilamentos, 20 acidentes com arma de fogo, 20 lutas, nove facadas, seis tentativas de suicídio, quatro quedas, nove incęndios, dois atropelamentos, seis batidas propositais, dois linchamentos, uma explosăo, nove chantagens e 32 ameaças veladas.

A preocupaçăo com o tema năo ocorre apenas nos Estados Unidos. Em 1975, Louis Leprince-Ringuet, professor da École Polytecnique du College de France, membro da Academia Francesa e da Academia de Cięncias, demonstrou, no pronunciamento de abertura dos trabalhos da exposiçăo da Telecom/75, sua preocupaçăo com os efeitos da televisăo sobre os indivíduos. Denunciou o abuso da violęncia no conteúdo dos meios de comunicaçăo de massa, ao qual chamou de "um processo de crescente formaçăo do homem".

Para ele, as informaçőes năo estăo mais sendo corretamente assimiladas pelo público, porque estăo essencialmente deformadas. Devido a só apresentarem uma parte da noticia ou do acontecimento. Esse fato pode năo decorrer de um propósito intencional, mas o resultado é o mesmo. Em comparaçăo com a amplitude e o impacto da notícia, a curto espaço de tempo dedicado aos noticiários é uma dias principais causas desta situaçăo. Finalmente, ressaltou a sistemática distorçăo dos fatos decorrentes da apresentaçăo de imagens pinçadas, ŕs vezes com malícia e irresponsabilidade. "Em 1968", diz ele, referindo-se ŕs agitaçőes ocorridas na França, "eu sabia o que estava realmente acontecendo no Quartier Latin, porque vivia lá e podia julgar os fatos, mas as imagens transmitidas pela TV davam, no final de contas, uma visăo artificial e distorcida da crise".

É evidente que a televisăo năo é a única responsável pelos males que assolam a criatura humana, nas últimas décadas. Ela também oferece uma gama de contribuiçőes positivas ŕ sua audięncia. Meu propósito, hoje, é apenas discutir um entre os muitos aspectos específicos da televisăo, dentro da mesma linha de preocupaçăo seguida pelo professor Ringuet em seu mencionado pronunciamento.

É claro que as crianças também aprendem a ser violentas com os próprios pais, através dos processos desenvolvidos no seu relacionamento familiar; da mesma forma, aprendem a ser violentas quando a violęncia é aplicada como meio de reforçar comportamento - quando ela lhes é mostrada, de forma permanente e contínua, como caminho, como maneira de solucionar problemas; também, tendem a ser violentas quando năo săo estabelecidas medidas atenuadoras de suas tendęncias de agir com violęncia em relaçăo a outras crianças ou de destruir coisas; e até mesmo quando é reprimida sua agressividade normal. Além do mais, năo é possível negar que elas tornam-se violentas quando o império da utilizaçăo da violęncia lhes é mostrado a cada momento, como soluçăo para os problemas individuais e coletivos. A violęncia passa entăo a ser para elas uma atitude normal, e năo uma exceçăo.

E vejam os senhores que esse panorama de violęncia continuada é a tônica dos programas de seus canais de televisăo, e dos canais de seus concorrentes, quase năo deixando margem de escolha ou opçăo ao telespectador.

Para as crianças ou jovens que possuam um nível médio ou superior, tanto de informaçăo como de formaçăo, é possível que a violęncia que lhes é mostrada permaneça ao nível de fantasia, podendo ser diluída ou negada por sua própria experięncia pessoal, em casa, na vizinhança ou na escola. Mas, para aqueles que vivem em um meio familiar ou cotidiano em que os padrőes de experięncia pessoal, em casa, na vizinhança ou na escola. Mas, para aqueles que vivem em um meio familiar ou cotidiano em que os padrőes de comportamento săo desprezados ou inexistentes, e para aqueles carentes de uma formaçăo humanística dentro de seu próprio lar, a liçăo de força bruta năo permanece jamais no plano de fantasia; pelo contrário, ela até vem confirmar o embrutecimento da sensibilidade. Essas criaturas passam a praticar a violęncia em uni grau superior ao que seria normal apenas pela vivęncia no seu meio.

Duas săo as características psicológicas do público que é mais afetado pelas demonstraçőes externas de violęncia: o seu grau de maturidade, que é a mais importante, e o seu nível de instruçăo e conhecimentos. Acredito que a maior incidęncia do efeito negativo da violęncia encontra-se nos indivíduos imaturos e nos que possuem nível de conhecimento inferior ao da média. Tal afirmaçăo năo deve, no entanto, ser consideraria como regra geral.

Na adolescęncia, fase evolutiva onde a personalidade do ser humano recebe seus últimos e mais decisivos contornos, as mensagens divulgadas, minuto após minuto, hora após hora, dias após dia, incorporam-se aos hábitos normais dos jovens. Já houve, no passado, controvérsias quanto a esse efeito, mas hoje săo muito poucos os que discordam dessa tese. Para a maioria dos pesquisadores é na juventude que os indivíduos săo mais suscetíveis a identificarem-se com os personagens ao alcance de sua percepçăo. Se o pai, a măe, a família, năo oferecem uma boa matriz para essa identificaçăo, a criança ou o jovem vai se projetar nos seus heróis.

Recentemente, a Escola de Jornalismo da Universidade Nacional Autônoma do México divulgou relatório, após estudar os conteúdos simbólicos, especialmente nos desenhos animados. O símbolo mais usual encontrado foi o da atitude de grupos de pessoas que delegam suas obrigaçőes a uma só, ou seja, ao super. O segundo conteúdo simbólico mais marcante é o da vingança, que chega a ter caráter funcional. Depois vem a violęncia propriamente dita. Ou vęm cenas violentas com a lei do revólver, a eterna perseguiçăo ao pica-pau, as armas que o sábio louco fabrica, a luta contra os monstros e a interminável caça ao rato pelo gato. Isso quando năo săo apresentadas corridas de automóvel, em alta velocidade, com acidentes provocados internacionalmente, colisőes e mortes.

A partir do quadro de análises simbólicas, a mesma pesquisa foi aplicada numa amostra realmente significativa, com a finalidade de obter dados estatísticos sobre a identificaçăo das crianças com esses símbolos. Esses dados revelam que 46% delas se mostraram identificadas com personagens super-humanos, que voam, săo invisíveis, possuem poderes extra-sensoriais ou força física inverossímil; 25% optaram pela exaltaçăo ŕ violęncia e ŕ capacidade de dominar bandido pela astúcia e força física; e apenas 25% destacaram qualidades como a solidariedade e o altruísmo.

Há dois anos, um colunista da imprensa brasileira escrevia em seu jornal, sob o título As Crianças Indefesas Diante da Violęncia: "Quem paga mais caro por tudo isso? A criança, espírito aberto curioso. Năo formado, despreparada para definir, separar, aparar os excessos, entender perfeitamente".

E continuava: "O problema năo é específico da televisăo americana, mas praticamente do mundo. Torna-se mais evidente num país como o Brasil, onde o nível de educaçăo, alfabetizaçăo e informaçăo de massa está muito longe do que seria desejável".

Citando o anúncio de um chocolate, afirmava: "Para mostrar que o chocolate faz crianças fortes e saudáveis, usam um desenho animado em que um menino consumidor do citado produto derruba, a ponta-pés e bofetőes, outros meninos. Um exemplo de violęncia altamente condenável, e que envergonha o produto e a agęncia que o produziu, além de envergonhar emissoras e órgăos responsáveis. Enquanto esta for a rentabilidade reinante na televisăo brasileira, coitadas das crianças", concluía o jornalista.

Em abril do ano passado, a agęncia noticiosa brasileira, ao comentar a traduçăo para o Portuguęs do livro How To Parent - Como Criar Nossos Filhos - observou que, em geral, os horários infantis săo preenchidos com as velhas perseguiçőes de gatos e ratos, a constante luta dos super-heróis, com os quais a maioria das crianças se identifica, ou por velhas comédias antigas e desbotadas que já estăo a caminho do arquivo e, antes de serem descartadas, servem para preencher o horário da tarde. Comentava também a observaçăo do autor a respeito da influęncia da TV, principalmente sobre as crianças que entram na fase da linguagem ativa, ou seja, fase em que aumentam seu vocabulário. Dodson, o autor do citado livro ,observa que a TV poderia ser usada como um professor complexo e versátil, ao invés de servir apenas como brinquedo de má qualidade, demonstrando que o grande problema năo está na imensa influęncia que exerce, mas sim na qualidade do material que transmite.

A essas observaçőes, acrescento a de que a televisăo năo pode, de forma alguma, ser tratada da mesma forma que os espetáculos de cinema e teatro, assistidos por um público imensamente menor, raramente com repetiçăo diária, e que se desloca de seu lar, por sua vontade, para assisti-los.

Quero deixar bem claro minha conscięncia de que a violęncia sempre esteve presente na história da humanidade. Os indivíduos sempre viveram as guerras e as lutas, seja pessoalmente, seja através dos livros, dos jornais e das telas de cinema. Sei, ainda, que ela existe independente da televisăo.

Năo estou querendo mascarar a realidade, subtraindo do vídeo essa afirmaçăo que, infelizmente, corresponde ŕ verdade. "Eliminá-la de nosso processo de informaçăo seria o mesmo que desfigurar a realidade", como anotou há pouco tempo o Vice-Reitor da Universidade de Brasília, numa entrevista concedida a um semanário. Mas, lembra ele que "a repetiçăo que é uma das regras da propaganda, somada ŕ passividade do telespectador, pode fazer com que seus efeitos sejam bastante nocivos".

A questăo reside na maneira de se tratar a violęncia, e esse é um problema a ser solucionado pelos senhores, concessionários de radiodifusăo responsáveis pela produçăo e veiculaçăo das mensagens de seus canais; em outras palavras, responsáveis pelos efeitos, transitórios ou mais permanentes, de sua programaçăo sobre os que a assistem.

Compreendo, também, as constantes reclamaçőes dos programadores de suas estaçőes, quanto ŕ dificuldade de adquirirem filmes sem violęncia, tendo em vista as poucas opçőes do mercado exportador que alimenta nossas emissoras. Mas, perguntamos: já năo é hora de questionar essa caręncia, haja visto o aperfeiçoamento da nossa măo-de-obra especializada no setor? Temos um mercado de trabalho que já se mostra adulto em suas realizaçőes, ainda que até hoje seja subutilizado.

Nos Estados Unidos, associaçőes de pais e mestres vęm-se preocupando com os efeitos mais permanentes da programaçăo de TV sobre o público. Eles pressionaram as empresas comerciais que faziam publicidade em programas considerados muito violentos. Houve sucesso na providęncia e foram retirados os patrocínios de muitos desses programas, que em conseqüęncia foram retirados do ar pelas emissoras. Mas continuam a ser exportados e a serem adquiridos para exibiçăo no Brasil.

Cabe também acrescentar que, em conversa com os dirigentes de uma sociedade importadora de filmes rara televisăo, afirmou-me ele categoricamente que os homens de TV no Brasil dăo preferęncia aos filmes mais violentos. Declarou-me, ainda, que a escolha é dos programadores brasileiros, que inclusive optam pelas séries que tenham sido retiradas dos vídeos americanos por excesso de violęncia.

Essa é uma acusaçăo feita, desculpem, aos senhores.

Creio que se os programadores das emissoras reclamam e o mercado produtor ainda é subutilizado, isto se deve em grande parte ao fato de que é mais rentável comprar enlatados estrangeiros, cujo custo já está coberto no país produtor, do que investir na produçăo nacional.

Mas devemos evidenciar que existem enlatados com muito material de alta qualidade e pouca ou nenhuma violęncia.

Cabe também lembrar que a atividade dos senhores está definida por lei como educativa e cultural, e, portanto, năo se restringe meramente ao aspecto comercial. A sua responsabilidade é grande junto: ao público e, em especial, junto ŕ Pátria, ŕ Naçăo brasileira.

Há tempos, quando lancei um apelo e um alerta aos senhores aqui presentes, sobre a preocupaçăo do Governo com a programaçăo alienígena, com o nivelamento dos programas pela média de gosto, houve receptividade para minhas palavras e obtive resposta. Embora năo fosse a ideal, pude sentir um interesse da maioria em atender a esse apelo.

Agora, mais uma vez, dirijo-me aos senhores e solicito-lhes sua máxima atençăo para os dados que foram colhidos em Brasília por uma equipe do Ministério das Comunicaçőes, no decorrer de um męs de observaçăo da programaçăo transmitida naquela cidade por dois canais de televisăo. Por questăo ética, năo cito o nome da rede a que pertence cada canal de TV observado:

- A violęncia no Canal "A" năo corresponde quantitativamente ŕ detectada no ''B''.

- A programaçăo vespertina de cada canal observado, durante o período de um męs, e que perfaz um total médio de 200 horas apresentou:

Canal A:

. Mortes - 19

. Lutas - 660

. Uso de armas - 484

. Acidentes - 2 mil 640 (um acidente para cada quatro minutos)

. Roubos - 23

. Raptos ou seqüestros - 41

. Desafios - 528

. Trapaças - 218

. Chantagens - 61

. Aparecimento de monstros e animais ferozes - 197

CANAL B:

. Mortes - 11

. Lutas - 358

. Uso de armas - 132

. Acidentes - 952 (um acidente para cada 11 minutos)

. Roubos - 9

. Raptos ou seqüestros - 16

. Desafios - 291

. Trapaças - 192

. Chantagens - 25

. Aparecimento de monstros e animais ferozes - 124

Se, durante a programaçăo vespertina, a violęncia é manifestada - mostrada de maneira clara, física e crua, quase sempre (90% das vezes) através dos enlatados norte-americanos - durante a programaçăo no horário nobre, revelaram as pesquisas que a violęncia se transforma, dentro de sua própria linguagem, para entăo se mostrar presente no campo das idéias.

Aqui năo é mais possível - ou melhor, quase impossível - a quantificaçăo de atos agressivos externados. As agressőes săo veladas, latentes; trazem nova embalagem que necessita estudo mais acurado, a fim de detectarmos o grau de correspondęncia entre violęncia e realidade.

Depois das 23 horas, a pesquisa revela o retorno ŕ mesma tônica da programaçăo vespertina, com uma única diferença: a emissora B, que até as 19 horas năo alcançara os índices de violęncia da emissora A, iguala-se agora ŕ sua concorrente.

A política de radiodifusăo vigente no Brasil segue o mesmo modelo da adotada pelos Estados Unidos. Naquele país, no entanto, existe uma grande conscięncia popular de acompanhamento e aferiçăo da qualidade dos programas transmitidos e de sua compatibilidade com as necessidades do público. Nos Estados Unidos, as associaçőes comunitárias e de defesa do interesse popular săo numerosas, e há participaçăo ativa de grande porcentagem da comunidade em conscientizar o público quanto ŕs agressőes a seus interesses e comunidades.

No Brasil, năo existe esse tipo de atividade. Por isso, pretende-se que o seu papel seja desempenhado pelo Conselho Nacional de Comunicaçőes, onde os senhores também tęm participaçăo, palavra e voto.

Como é do conhecimento dos senhores, o Conselho Nacional de Comunicaçőes, agora reformulado e com suas atribuiçőes ampliadas, dedicará grande parte de sua atençăo aos conteúdos veiculados pelo rádio e televisăo brasileiras, visando ao estabelecimento de diretrizes e orientaçőes relativas ao assunto. Năo se pretende intervir na livre escolha dos programas pelos homens de televisăo, mas serăo discutidos os problemas levantados, pelo próprio Conselho ou por qualquer interessado.

Os dados aqui citados, que podemos taxar como alarmantes, serăo encaminhados ao Conselho Nacional de Comunicaçőes, para que nele sejam aprofundados os estudos a seu respeito.

No próximo dia 25, com suas novas atribuiçőes e constituiçăo, o CNC reiniciará suas atividades. Tenho grande esperança na sua atuaçăo, através de discussőes francas e objetivas, buscando o melhor para o grande público. Ele é o fórum adequado para os debates dessa natureza. Meu desejo é que os senhores, concessionários de radiodifusăo, participem ao máximo e encaminhem propostas de soluçőes adequadas ao problema - este ou outro qualquer - no âmbito de suas empresas, no sentido de lutarmos juntos pelo aperfeiçoamento desse poderoso instrumento de comunicaçăo, que é a televisăo.

Confio nos senhores e em uma televisăo menos violenta, mais adequada aos nossos compatriotas. Confio em uma televisăo que năo venha a interferir negativamente na formaçăo dos nossos adolescentes, filhos e netos: a televisăo que o Brasil necessita e anseia.

Muito obrigado.''

1986 - Balanço do Ano na TV

Jornal do Brasil
28/12/1986
Cora Rónai
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O BRILHO DA JUVENTUDE
O ano de 1986 foi, sob todos os aspectos, um dos mais extraordinários e ilusórios - e a imagem que a televisăo nos mostrou de seus altos e baixos foi, coerentemente, tăo real quanto um camaleăo visto através de um caleidoscópio. Fomos fiscais do Sarney, anônimos heróis de um breve surto de patriotismo ufanista, mostrados à exaustăo em todos os telejornais, fechando supermercados e conferindo, atentos, caixinhas e latarias, lista de preços na măo. Fomos eleitores recadastrados e paparicados, vítimas de uma sucessăo tediosa e incompetente de candidatos que se digladiaram sem quartel durante os meses do TRE. Fomos os perdulários irresponsáveis que quase levaram o pais à bancarrota por, uma vez na vida, termos com que comprar o que havia para vender - vilőes de uma história cheia de som e fúria, significando nada.

Ainda em março, contudo, ternamente embalados pelo Cruzado I, tivemos a visăo do impossível, acontecimento que ficará para sempre registrado na vida de nossas retinas tăo fatigadas: no histórico dia 16, o ministro Dilson Funaro era aclamado, ao vivo e em cor, no auditório de Sílvio Santos. Ficamos embasbacados: entăo era verdade mesmo, o Brasil, agora uma Naçăo de civis, estava inteiramente mudado!... Mas o tempo e a televisăo se encarregaram de mostrar que năo, que foi tudo ilusăo passageira. O país continua caótico, o ministro Funaro se encastelou em seu gabinete e se, para bem de todos e felicidade geral, o general Newton Cruz foi definitivamente afastado da vida pública, o senhor Antônio Carlos Magalhăes tratou de substituí-lo à altura em cenas de truculência frente às câmeras, agredindo um jornalista que teve o desplante de lhe fazer uma pergunta. A diferença é que, como ele é ministro das Telecomunicaçőes e o general năo era, as suas demonstraçőes de amabilidade năo foram ao ar - embora circulem, à vontade, como certos filmes pornô, em fitas de vídeo clandestinas. Quanto ao Sílvio Santos, continua rigorosamente igual ao que sempre foi.

Enquanto isso, a Rede Globo, em plena reprise de Selva de Pedra, na doce ilusăo de que o tempo năo passa, apavorava-se com o Ibope sempre crescente da Manchete-, onde Maitê Proença exibia seus encantos na pele (e como houve pele!) da tręfega Dona Beija. Rolaram cabeças na Lopes Quintas, pelos corredores ouvia-se a confusăo de choro e de muito ranger de dentes - mas, mais uma vez, foi tudo ilusăo, dessa vez da Manchete. Encerrada a fulgurante carreira da senhora de Araxá, tudo ficou como dantes, mesmo porque Tudo ou nada, com que os Blochs pretendiam repetir os estonteantes índices de audiência anteriores, sempre esteve mais para nada do que para tudo.

Nadar nas águas de ilusőes já conhecidas, no entanto, parece ser uma característica nacional. Nós somos assim mesmo, tremendos sonhadores, eternos românticos de Cuba - única desculpa, aliás, para termos aturado com tanta boa vontade a invasăo musical da rapaziada de Havana, mimada numa profusăo de shows, clips e especiais jamais vista. Sorte dos muchachos; tivessem nascido no Grajaú...

OS DEZ MELHORES

Armaçăo Ilimitada (Globo) - O melhor dos melhores. Nas aventuras de Lula, Juba e Zelda Scott firmou-se, afinal, a formulaçăo de uma nova linguagem de tevê, ágil mistura de besteirol e vídeoclip com raízes nos clichês das histórias em quadrinhos. Destaque para Andréa Beltrăo, charmosa e engraçada, sempre uma Zel irresistível.

Anos Dourados (Globo) - Pela primeira vez em muitos anos, o pais voltou a achar farda um negócio bonito. As normalistas e cadetes da minissérie de Gilberto Braga trouxeram de volta a nostalgia de uma época em que as pessoas ainda acreditavam firmemente que tempos melhores viriam.

Memórias de um Gigolô (Globo) - Mais uma minissérie, mais uma dose de nostalgia. Um grande texto de Marcos Rey, primorosamente dirigido por Walter Avancini; nos papéis principais, Bruna Lombardi, Ney Latorraca e Lauro Corona formaram um trio inesquecível.

Cambalacho (Globo) - A novela de Sílvio de Abreu năo chegou a ser lá aquelas maravilhas, mas deu ao grande público a chance de conhecer o trabalho de Regina Casé, uma atriz especialíssima.

Dona Beija (Manchete) -Deixando a desejar como dramaturgia, Dona Beija conseguiu, entretanto, duas façanhas dignas de nota: assustou a Globo e levou o nu explícito ao horário nobre. Foi o primeiro passo acertado da Manchete na conquista de um território que, ainda assim, continua fora de seu alcance.

Japăo, uma viagem no tempo (Manchete) - Muitíssimo bem realizada, apoiada num trabalho de pesquisa sério e em imagens da melhor qualidade, a série apresentou ao público brasileiro as várias facetas de um país até entăo desconhecido por aqui. De quebra, revelou um novo talento: o diretor Walter Salles Jr.

Os caminhos da sobrevivęncia (Manchete) - Uma outra série - e aqui, a confirmaçăo do trabalho de um diretor já amadurecido e seguro, o jornalista Washington Novaes. O ponto alto esteve nos dois programas sobre o Pantanal, um casamento perfeito (e carinhoso) de sons, texto e imagem. Com menos badalaçăo - e muito menos recursos - ele conseguiu superar, em impacto, A Amazônia de Jacques Cousteau, desta vez reapresentada na íntegra pela Globo.

O choque do novo (TVE) - De todo o material importado que chegou à tevê este ano, a série da BBC-Time Life foi, de longe, o melhor. Inteligente, bem elaborada, apresentou uma visăo abrangente e rigorosa da arte moderna - condenando, entre outras coisas, as noçőes utópicas de uma arquitetura que esqueceu o homem e que tem, em Brasília, seu principal exemplo.

Sexta independente (TVE) -Uma mistura eclética (e desigual) de produçőes das várias tevês estaduais, que teve, ao longo do ano, momentos muito bons (como os especiais com o violeiro Elomar, e o ex-Beatle John Lennon), a Sexta Independente foi uma boa prova do que a TVE poderia estar fazendo e/ou apresentando em horário integral.

As lágrimas amargas de Maria da Conceiçăo Tavares ou As Economistas Também Choram (Globo) - Disparado um dos momentos mais marcantes da televisăo em 1986, o arroubo emocional da professora foi, em contraposiçăo aos ataques do engenheiro Brizola, a reaçăo mais extremada ao Plano Cruzado. Foi também, para quem ainda tinha dúvidas, a prova de que todo mundo tem o seu ponto fraco; nos coraçőes mais empedernidos há sempre um Topo Gigio à espreita.

Friday, August 6, 2010

Especial Amaciante Comfort

Ma-ci-eeez é... Comfort!


A evolução dos comerciais do amaciante Comfort entre seu lançamento, em 1975, até 1993. Poucas mudanças no conceito e no texto:


1975



1976




1978




1980




1981




1984



1993

Anos 70 - Ei, ei! Vocês se lembram da minha voz?

Shampoo Colorama

Provavelmente o comercial mais lembrado dos anos 70. Bobinho e ordinário...




Mas os meus cabelos...





1976 - Uri Geller Brasileiro...

Amiga TV
11/8/1976
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A FORÇA DA MENTE PARA A FORÇA DE AUDIÊNCIA
A briga de Sílvio Santos com a Globo pela audięncia de domingo poderia começar com as mesmas armas: enquanto a Globo terá uma nova apresentaçăo de Uri Geller, noticiou-se que Sílvio Santos levaria a seu programa o brasileiro Oseso Monteiro, anunciado como ''tăo ou mais sensacional que Uri Geller''.

Mas Sílvio já decidiu que năo apresentará Oseso Monteiro domingo; o Uri Geller brasileiro estará no entanto nesta sexta-feira (dia 30) no Canal 11, no programa Sílvio Santos Diferente, e promete um grande show: "Farei tudo o que Uri Geller fez, e muito mais: vou transmitir (mentalmente) desenho para os telespectadores e estes escreverăo para os Estúdios Sílvio Santos, reproduzindo este desenho. Vou fazer todos os números que o Geller fez, só que com os olhos vendados e sem a presença de assessores junto de mim."

1982 - Bastidores da TV Guaíba

Mendelsky de bermudas...

Este vídeo dos bastidores do programa Guaíba Ao Vivo, em fevereiro de 1982, mostra Rogério Mendelsky - famoso e controverso comunicador do Rio Grande do Sul - deixando a bancada de onde acabara de apresentar seu comentário. Como havia recém chegado do apartamento da cidade balneária de Capão da Canoa, onde passava férias no apartamento de seu cunhado, Paulo, Rogério apenas vestira um paletó com gravata, que apareceriam no vídeo, mas continuou de bermuda...



Imagem mostrada no antigo programa "Comunicação", apresentado por Clóvis Duarte, quando se transferiu da TV Portovisão/Bandeirantes-RS para a TV2 Guaíba, veiculado domingos às 10 da noite.











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