Saturday, July 31, 2010

Cyro Del Nero: 28.12.1931 - 31.07.2010


Cenógrafo Cyro Del Nero morre aos 78 anos em SP


O cenógrafo foi um dos pioneiros na cenografia da televisão brasileira, com passagens pela TV Record, Tupi e Excelsior. Na TV Globo foi diretor de arte e responsável por diversas aberturas de novelas, além de criar os cenários dos famosos números musicais do "Fantástico" na década de 1970. Um dos mais célebres é "Gita", de Raul Seixas, que se tornou referência para todos os outros vídeos do programa naquela década.


http://cyrodelnero.fashionbubbles.com/






VEJA
24/9/1997
Ângela Pimenta
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USINA VISUAL
A versatilidade e o talento de Cyro del Nero, pai dos clipes e aberturas de novelas

"Sou movido a entusiasmo.

Rabisco o papel o tempo todo,

À procura de uma idéia"

Cyro del Nero

Se tivesse um cartăo de visitas, Cyro del Nero estaria em apuros para definir sua profissăo ou melhor, seus muitos ofícios. Aos 65 anos, esse paulistano do Brás cuja educaçăo formal se resume ao ginásio é um criador tăo inspirado quanto versátil. De aberturas de novelas de TV a projetos de boates, de desfiles de moda a cenários de óperas, Cyro já fez de tudo. Os maiores de 40 certamente năo se esqueceram dos concorridos desfiles da Rhodia para a Fenit, desenhados por Cyro nos anos 60. Quem está na casa dos 30 com certeza se lembra das aberturas das novelas Os Ossos do Barăo, O Espigăo e O Rebu, para resumir muito do que ele fez para a TV. Na área de shows, Cyro é nada menos do que o cenógrafo preferido de Joăo Gilberto, o músico mais perfeccionista do país. Em cartaz até o dia 30 na sede da Fundaçăo Cásper Líbero, em Săo Paulo, a mostra retrospectiva da obra de Cyro del Nero empreende uma jornada pelo mundo do desenho aplicado no país. Com cerca de 300 peças, entre vídeos, maquetes, desenhos e croquis, o artista prova que, ŕs vezes, qualidade pode rimar com quantidade. "Sou movido pelo entusiasmo, uma palavra de origem grega que quer dizer 'inspiraçăo divina' ", diz.

VINHETAS DAS ABERTURAS DE NOVELAS FEITAS PARA A GLOBO NOS ANOS 70:

- Num tempo de tecnologia rudimentar, soluçőes engenhosas para apresentar ao público o enredo daquilo que se veria a seguir

Apenas no âmbito da televisăo, ele, que foi diretor de arte da Globo nos anos 70, pode ser considerado o pai da identidade visual das emissoras brasileiras. Criou logotipos, vinhetas e até aqueles números musicais que hoje săo conhecidos como clipes. "Quando a Globo começou, năo havia nada em matéria de programaçăo visual. O Cyro foi um desbravador, abriu caminhos, criou logotipos memoráveis. E soube manter uma constância notável em seu trabalho. É um grande profissional", elogia José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, vice-presidente de coordenaçăo estratégica da Rede Globo. "O sucesso de Cyro resulta da reuniăo de uma vasta cultura da história da arte com um talento danado para o desenho", emenda Álvaro Moya, professor aposentado de televisăo da Universidade de Săo Paulo. Dono de uma carreira incomum, Cyro del Nero, que năo tem nenhum canudo universitário, aprendeu tudo o que sabe na prática.

Engenhocas Na adolescęncia, preferiu deixar a camisa-de-força da escola para gastar os dias lendo e trocando idéias com um grupo de entăo jovens amigos na Biblioteca Mário de Andrade, em Săo Paulo. Naquelas tertúlias juvenis estavam figuras que se tornariam medalhőes da cultura brasileira, como o filósofo Bento Prado Jr. e o diretor e cenógrafo Gianni Ratto. Em 1957, aos 26 anos, quando trabalhava como assistente de cenografia do Teatro Brasileiro de Comédia, acabou aceitando o convite do diretor grego Zizoz Charatsaris para ir trabalhar no país de Sófocles. De lá seguiu para a Alemanha, para aprender o bę-á-bá das montagens operísticas. Ali teve uma idéia que deixou os alemăes impressionados com a criatividade do jovem brasileiro: fazer um cenário de O Rapto do Serralho, de Mozart, ópera com referęncias orientais, utilizando tapetes persas.

MAQUETE PARA O GUARANI, NA BULGÁRIA: PALCOS GIRATÓRIOS

Foi graças a esse tipo de vivęncia que Cyro pôde vencer os mais espinhosos desafios criativos propostos por seus clientes. Na televisăo, por exemplo, onde começou criando a imagem corporativa da TV Excelsior, nos anos 60, ele inventou uma série de engenhocas a fim de superar os limites impostos pela rudimentar tecnologia da época. Herdeiro do mestre hollywoodiano Saul Bass, o desenhista preferido de Alfred Hitchcock, que transformou as aberturas de filmes em obras de arte, Cyro del Nero também pőe bastante a cabeça para funcionar antes de rabiscar seus croquis. Basta rever suas aberturas de novelas para constatar que por trás de cada seqüęncia há uma história visual em que ele telegrafa para o público o roteiro do que se verá a seguir. Tome-se, por exemplo, a novela O Semideus, de Janete Clair, exibida pela Globo em 1973. A novela contava a história do todo-poderoso industrial Hugo Leonardo (Tarcísio Meira), vítima de um plano de assassinato que estipulava também a nomeaçăo de um sósia para tomar o seu lugar.

Depois que o diretor Daniel Filho o chamou para encomendar o trabalho, Cyro perdeu algumas noites de sono. Primeiro pensou na imagem escultórica do David de Michelangelo Buonarroti, e viu que năo era por aí. Entăo resolveu pegar a silhueta de um boneco de papel, vagamente inspirada nos deuses da antiguidade grega, e acoplá-la a um prato giratório, desses usados por vitrines de confeitaria. Feito isso, mandou gravar, em vários ângulos, as imagens do boneco de papel girando a esmo, passando para o espectador a idéia da instabilidade do protagonista da história, cuja imagem rodopiava na abertura. Outra idéia brilhante apareceu na abertura de Fogo sobre Terra, de Janete Clair. Encomendou um cilindro de madeira para nele montar uma câmera capaz de tomar imagens de 360 graus. Era como se o mundo ficasse de cabeça para baixo a cada giro da engenhoca.

O RAPTO DO SERRALHO, na Alemanha: tapetes persas

Cyro del Nero se orgulha de jamais ter posto as măos num computador. "A escola do Saul Bass, que trabalhava sobretudo com imagens planas, oferece oportunidades infindáveis, como também é o caso do trabalho de Cyro. O risco do designer gráfico é ficar escravo dessas variaçőes tridimensionais de imagens geradas em computador. Hoje, a imagem corporativa da própria Globo já começa a dar sinais de esgotamento", observa o designer Joăo Baptista da Costa Aguiar.

Na seara dos logotipos, a prova de fogo para os artistas gráficos, Cyro também tem o que exibir. Um deles é o elegante desenho articulado em forma de T, feito para a Rede Tupi nos anos 70, para substituir o antigo símbolo da empresa, o indiozinho da década de 50. Outra criaçăo bem-sucedida é a logomarca da novela Os Ossos do Barăo, de Jorge Andrade. A trama da história versava sobre as intrigas durante a decadęncia do baronato paulista do café pela manutençăo do status e da pose social. Depois de muito procurar em antiquários e revistas velhas, Cyro elegeu o chapéu-coco, típico dos barőes do café, como símbolo do anacronismo em que viviam os seus herdeiros.

Ponte de acrílico Mesmo năo sendo arquiteto formado, Cyro del Nero também faz suas investidas no ramo da construçăo. A mais recente delas, um projeto para a casa noturna paulistana Studium, dirigida por Abelardo Figueiredo, a ser inaugurada no mesmo prédio em que funcionou no passado o Teatro Záccaro, no bairro da Bela Vista. A casa ganhou um visual no melhor estilo Broadway, com escadarias e um cenário espelhado, iluminado por luzes feéricas. Mas talvez sua criaçăo mais ousada no ramo tenha sido a discoteca Papagaio's, uma iniciativa do empresário da noite Ricardo Amaral em 1976. Para a casa, uma referęncia para o mundo da diversăo no país, Cyro criou uma ponte acrílica transparente que funcionava como um verdadeiro palco aéreo.

Incansável rabiscador de papel, Cyro del Nero é daquelas raríssimas pessoas que se podem gabar de divertir-se enquanto trabalham. Um de seus prazeres é dar aulas sobre a história da cenografia, discorrendo sobre a evoluçăo cęnica desde a Grécia antiga até os musicais da Broadway. Ŕs vezes, usa como exemplos trabalhos dele próprio. Gosta de mostrar um cenário feito para O Guarani, de Carlos Gomes, para a Ópera Nacional de Sófia, na Bulgária, no ano passado. A soluçăo cęnica encontrada por Cyro é lapidar. Ele criou dois palcos circulares concęntricos e giratórios. O efeito mais espetacular era obtido no célebre dueto Sento una Forza Indomita, quando Peri cantava num palco e Ceci, no outro. Ao final, os dois palcos giravam em direçőes contrárias e se afastavam. "O público aplaudiu de pé, tanto o dueto, uma espécie de hino nacional brasileiro, quanto o meu cenário, que enfatizava o drama", conta Cyro.

Quando năo está metido em algum projeto desse tipo, Cyro, pai de sete filhos de dois casamentos, costuma dedicar-se ŕ leitura e ŕ audiçăo de música clássica. Entre suas diversőes prediletas estăo as viagens internacionais, principalmente ŕ Grécia, para onde segue todo fim de ano. Há seis anos consecutivos, a cada 6 de janeiro, em que no calendário cristăo se comemora a festa da epifania, Cyro assiste ao coro de monjas beneditinas de um claustro numa ilha grega. Em todo esse tempo, ele tem sido o único espectador do concerto, pois mais ninguém apareceu para a cerimônia. "Chega setembro e começo a sentir uma urgęncia em estar lá. Simplesmente năo consigo imaginar a minha ausęncia nesse espetáculo", confessa.

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Cyro Del Nero criou o novo logo da Rede Bandeirantes em 1981, a partir do qual houve a evolução até o atual.





Antes, Cyro criara as vinhetas da Rede Tupi




Além da famosa primeira abertura do Fantástico

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