Friday, July 2, 2010

1990 - Lúcia Leme e o Plano Collor

Jornal do Brasil
22/3/1990
Márcia Cezimbra
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''SEM CENSURA'' PERDE SUA APRESENTADORA


A maior estrela da TVE, a apresentadora Lúcia Leme, do programa Sem Censura, exibido diariamente de 16 às 19h e única audiência significativa da estatal carioca, sairá do ar no próximo dia 30, por determinaçăo do Plano Collor. Ela tem uma empresa que presta o serviço de apresentaçăo do Sem Censura por 2.500 BTNfs mensais (Cr$ 100.000 no valor de ontem) e o contrato termina no fim do mês de 'março. É irrenovável, de acordo com o novo governo. "Eu nem me lembrava disso e soube ontem do fim do contrato. Fui pega de surpresa. O que eu sei é que săo os prestadores de serviço e năo os funcionários que colocam a TVE no ar", disse Lúcia Leme.

O caso de Lúcia Leme é apenas o mais notório entre dezenas de prestadores de serviço sob ameaça de demissăo. O Plano Collor jogou ainda os 182 prestadores de serviço contra a maioria dos 720 funcionários da TVE, acusados de ineficiência e baixa produtividade. O roteirista Alcione Araújo e o empresário da Intervídeo, Fernando Barbosa Lima, funcionários contratados pela Consolidaçăo das Leis Trabalhistas (CLT), por exemplo, foram denunciados por sequer aparecerem na sede da emissora. "Eu lamento esta precipitaçăo juvenil, mas estou solidário com os prestadores de serviço. Eu escrevo os meus roteiros em casa e, todo sábado, no programa Sábado aberto (ŕs 21h30), faço comentários de livros que leio em casa", disse Alcione Araújo. Fernando Barbosa Lima confirmou que é funcionário da TVE há cinco anos, período em que chegou a dirigir a estaçăo por três meses e, no momento, trabalha como diretor do programa Sábado Aberto. "Eu também presto uma assessoria de criaçăo à direçăo. Acho compreensível a atitude dos prestadores de serviço, mas năo sou um fantasma", comentou.

Os burocratas-fantasmas estariam concentrados no quadro total de 3.200 funcionários da Funtevê (TVE do Rio, TVE de Brasília, Rádio Mec e a recém criada TVE do Maranhăo, com 1.200 novos funcionários contratados), agora transformada pelo presidente Collor em Fundaçăo Roquete Pinto.

O diretor da TVE, Luis Otávio de Castro, informou ontem năo ter recebido até agora nenhuma instruçăo sobre qualquer mudança na emissora, mas redigiu ontem à tarde uma "exposiçăo de motivos", prevista no Plano Collor, para a renovaçăo do contrato de Lúcia Leme e do humorista Ziraldo, outro que também deve terminar nos próximos meses. "O que sei é que a nova Fundaçăo Roquete Pinto vai se dedicar intensamente à programaçăo educacional e à erradicaçăo do analfabetismo. Estamos fazendo relatórios de pessoal e de equipamento. Năo há orientaçăo para demissőes. Quem se assusta com esta reforma năo viu a portaria 159 da reforma administrativa. O funcionário năo poderá ir ao banheiro sem pedir licença ao chefe", disse Luis Otávio.

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