Saturday, July 17, 2010

1985 - O Altas Horas do Faustão

Jornal do Brasil
22/9/1985
Marília Martins
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PERDIDOS NA NOITE


No difícil horário de fim de noite, Perdidos na Noite faz da paródia sua marca registrada. A princípio se pensa em mais um programa de variedades, na tradicional linha de animaçăo de auditório, com făs que exibem cartazes e torcem por seus ídolos. Só que, em meio ŕs desajeitadas entrevistas do apresentador Fausto Silva, pode acontecer, por exemplo, que Sérgio Chapeleta, com sua voz grave, anuncie a última manchete do Fanático: "O transatlântico Titanic finalmente foi encontrado. Todos morreram." Ou ainda que, entre números musicais tăo diferentes, do sofisticado som ao vivo do Premeditando o Breque aos requebros em playback de Gretchen, Sílio Cantos revele em primeira măo sua mais nova arma para enfrentar uma poderosa concorrente: a série Periquitos Machucados.

É via paródia que Perdidos na Noite faz comentários mais afiados ao repertório televisivo. Fica engraçado ver signos muito familiares, como a vinheta do plim-plim, num programa onde năo existe a mania de limpeza, de eficięncia e acabamento impecável. Ao contrário, Fausto Silva denuncia qualquer dublagem, dá broncas na equipe e, sem o terno e o ar liberal de outros apresentadores, tem um charme meio "grosso"; usa muitos palavrőes (que a ediçăo se encarrega de cortar) e năo se constrange nas piadinhas machistas, volta e meia infames. O resultado tem um ar gauche, que desafina o habitual dos programas de auditório.

Mas se estes truques funcionam muito bem na sonoplastia, o mesmo năo se passa no jogo de imagens. Talvez pela falta de equipamentos (săo apenas tręs câmeras), talvez pela falta de agilidade da equipe. O ritmo é lento, os planos năo variam (nem os movimentos), a câmera de măo raramente explora detalhes. Parece um programa de rádio. Em termos de imagem, a única novidade fica por conta dos flashes de bastidores. Mesmo assim, pelo recurso esperto da paródia que desafina a rotina dos programas de auditório, e pela enorme variedade de convidados que costuma ter, Perdidos na Noite permite ao espectador um riso mais irônico, e mais crítico, sábado ŕ noite, diante da tv.

1 comment:

  1. Parabéns pelo blog. Gosto de relembrar o passado... Não é a toa que tenho um blog sobre a memória da teledramaturgia brasileira. Coloquei o link do TV Baú nos meus parceiros:

    http://telememoria.blogspot.com/

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