Friday, July 2, 2010

1982 - Morre Márcia de Windsor

Jornal do Brasil
5/8/1982
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INFARTO MATA EM SĂO PAULO MÁRCIA DE WINDSOR, 46 ANOS

Săo Paulo - A atriz e apresentadora de televisăo Márcia de Windsor (Márcia Couto Barreto) que complementaria 47 anos no dia 3 de outubro, morreu ontem de infarto agudo do miocárdio, presumivelmente ŕ 1h da madrugada, segundo o médico que atestou a causa mortis, Inácio Nusbaum. Foi encontrada ŕs 8h20min pela camareira do Hotel San Raphael, - onde morava, na suíte número 1608 - que tentou chamá-la para a um telefonema.

A camareira Alaíde Alves Meneses utilizou, entăo, uma outra chave para abrir o apartamento, trancado por dentro. Segundo ela, encontrou o corpo de Márcia despido, deitado na cama, com os braços e pernas esticados e olhos boca abertos. Chamou sua colega da TV Bandeirantes Carmen Silva, no apartamento ao lado (ambas trabalhavam na novela Ninho da Serpente, de Jorge Andrade), que a enrolou num lençol e telefonou para a emissora.

Sem o remédio - Năo foi encontrado no quarto ou nos pertences pessoais da atriz nenhum comprimido de Isordil Intralingual, que ela sempre levava consigo para conter eventuais crises cardíacas. Márcia nunca comentava que tinha problemas cardíacos e sempre levava o medicamento. Ontem, segundo seu filho, o também ator Arlindo Barreto, ela teria esquecido de comprar mais Isordil. O médico Inácio Nusbaurn explicou que, se no instante do ataque Márcia tivesse utilizado o Isordil, ''talvez'' conseguisse evitar a morte.

Cerca de 70 pessoas concentraram-se de manhă na porta do Hotel San Raphael para ver o corpo da atriz, transportado num caixăo para o Teatro Bandeirantes, onde foi velado até as 16h por aproximadamente 130 pessoas, entre elas artistas como Othon Bastos, Selma Egrei, o animador Flávio Cavalcanti (que năo quis falar, alegando estar emocionado) e o dramaturgo Jorge Andrade. Seguiu para o Aeroporto de Congonhas, onde foi embarcado no vôo da ponte aérea das 17h para ser velado, no Rio, na capela do Cemitério Săo Joăo Batista. Márcia deverá ser enterrada hoje ŕs 17 horas.

No San Raphael, seu filho Arlindo (o outro é o músico Gilberto Mareio) disse que Márcia há tempos enfrentava problemas cardíacos sem os revelar.

Mesmo alertada pelos médicos, nunca deixou, segundo Arlindo, de fumar tręs maços de cigarro por dia, sempre levou vida sedentária e năo cuidou de diminuir o sal nas refeiçőes. Quando tinha crises, dizia tratar-se de "pressăo alta".

Emoçăo - o último trabalho de Márcia de Windsor foi no programa Boa Noite Brasil, de Flávio Cavalcanti, na TV Bandeirantes, quando apresentou seu quadro, criado há dois meses, Seu neto é uma graça. Sua última apresentaçăo, segundo o produtor do programa, Roberto Jorge, foi para ela particularmente emocionante pelo fato de ter lido uma carta de um negro em que este reclamava do "racismo" do programa, por năo apresentar netos pretos.

O quadro tinha, além disso, um envolvimento pessoal forte para Márcia de Windsor, pois foi estreado pelo seu próprio neto, Diogo, de 10 meses, filho de Arlindo Barreto. Este acrescentou também que ambos, pela primeira vez, iriam subir ao palco juntos nas próximas semanas, com a peça Se Chovesse Vocęs Estragavam Todos.

Sua última gravaçăo da novela Ninho da Serpente ocorreu sem qualquer anormalidade, disse ontem Selma Egrei. A novela năo sofrerá interrupçăo porque estava no final. Jorge Andrade já havia entregue os últimos dos 119 capítulos, faltavam apenas algumas cenas e a gravaçăo de cinco capítulos. O impasse será solucionado com algum recurso de ediçăo, informou a Bandeirantes.

UM ÍDOLO, A JURADA NOTA 10

Autor/Repórter: Maria Helena Dutra

Chegou ao povo. Márcia Barreto, que virou Windsor numa brincadeira de Sérgio Porto - que a considerava com mais classe do que um grupo escolar e por isso poderia ostentar sobrenome de duquesa - foi realmente uma pessoa querida pelo público telespectador. E, acredito, jamais quis outro título na vida. Ex-maquiladora, iniciou sua carreira na telinha da falecida TV-Rio. Como cantora. Era fraca. Depois foi apresentadora, com maior sucesso, mas realmente atingiu a categoria de ídolo quando, paradoxalmente, virou jurada.

Era um tempo de muitos julgamentos o final da década de 60 e início dos sombrios 70. E justiça era palavra banida. Mas, aproveitando o clima, talvez até inconscientemente, os programas de auditório ou variedades acrescentaram aos seus variados números o corpo de jurados. Primeiro para calouros, depois para qualquer fato ou pessoa em evidęncia. Mas como televisăo, para quase todos, é espetáculo e năo trabalho como outro qualquer, estes jurados começaram a representar. Tinha o ruim, o antigo, o novo e a boa e caritativa. No programa de Flávio Cavalcanti, foi o papel de Márcia. Para todos, indistintamente, dava nota 10. Só que, ao contrário de muitos colegas deste tipo de atuaçăo, năo era imagem cultivada, forçaçăo de barra ou personagem, mas a total verdade do estilo, jeito e maneira de ser de Márcia. Por isso, foi sucesso e cativou público. Pois era capaz de caridades silenciosas, daquelas que năo văo para o ar e só podem ser publicada depois da morte por vontade da própria pessoa, como a de doar suas roupas, dinheiro e muito visitar um leprosário carioca.

Uma pessoa assim năo é muito capaz de representar outras personagens que năo a sua. Por isso sua participaçăo em novelas, na Excelsior, Tupi e agora Bandeirantes - onde deixa pelo meio o papel de Jerusa em Ninho da Serpente - nunca foi muito brilhante. Foi mais bem aproveitada em comédias teatrais, geralmente fazendo mulheres supostamente frívolas. Por isto será mais lembrada como apresentadora, jurada nota 10 e pela simpatia que sempre recebeu do público e do povo. Uma senhora façanha em 24 anos de carreira e em tempo de tăo poucas gentilezas.




1 comment:

  1. Ela será sempre Maria Luísa da novela O Profeta da tv Tupi, onde aparece fazendo em minha opinião, seu melhor papel, onde talvez encontremos um pouco do que ela mesma era: simpática, bonita e boa mãe.

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