Saturday, July 24, 2010

1981 - TVS contra Globo

Jornal do Brasil
9/8/1981
Cleusa Maria
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IMAGINAÇĂO E PICARDIA COMEÇAM A AMEAÇAR A LIDERANÇA DA TV GLOBO

Na corrida pelo IBOPE, a TV-Studios, canal 11, vem-se aproximando ameaçadoramente dos índices de audięncia da TV Globo no Grande Rio. Junho foi um marco nessa escalada, pois, além de se ter firmado como a primeira emissora no horário de 10 ŕs 12 horas, 10.3 contra 7.2 da Globo, conquistou uma média geral de 14.2, as 12 ŕs 24 horas. Isso significa quase duas vezes a média do mesmo período no ano passado, quando o canal tinha pouco mais de 20% da audięncia da sua grande concorrente. Hoje a fatia do bolo que lhe cabe já e aproxima dos 50%.

Cada ponto dessa média representa cerca de 17 mil unidades familiares, num total de 241 mil 400 residęncias, considerando-se que haja pelo menos tręs espectadores para cada residęncia.

No rastro do IBOPE, o faturamento da emissora no Rio, de Cr$ 1 milhăo por męs no início de suas operaçőes, subiu para Cr$ 90 milhőes em junho.

- Competimos com os pés no chăo, trabalhando como desesperados, usando muita imaginaçăo e picardia. Temos de fazer a guerrilha e năo a guerra.

Assim o diretor regional da TV-S, Moysés Weltman, revela a tática adotada pela emissora na briga pela audięncia, sentado na sua sala, num dos tręs prédios do bairro de Săo Cristovăo, tendo ŕs costas um diploma que testemunha a posiçăo do Canal 11 entre as maiores empresas brasileiras em 1979.

Mas, para chegar a esse ponto, a TV-Stúdios percorreu um longo caminho que começou na sia fase experimental, em 1976, quando jogava a imagem no ar através de um transmissor velho e recuperado. Em 1977, cinco meses depois da inauguraçăo do novo transmissor, um RCA de 25 KW, Moysés Weltman assumiu a direçăo geral. A emissora funcionava num pequeno prédio da Rua General Padilha, 118, e só entrava no ar ŕs 16h30m, encerrando as transmissőes ŕs 23 horas.

- Năo tínhamos praticamente nada gerado no Rio. Toda programaçăo se baseava em filmes ou gravaçőes de Săo Paulo. A audięncia oscilava entre dois e tręs pontos - recorda o diretor regional.

Nesse mesmo ano, a TV-S superou pela primeira vez a audięncia da Globo, com a transmissăo do jogo de Pele no Cosmos. Se, de um lado, isso mostrou o potencial da emissora, de outro ensinou que esse năo era o esquema mais adequado. Năo adiantava uma grande conquista num dia para cair no dia seguinte. Era preciso uma programaçăo que sustentasse uma média equilibrada.

Weltman conta que, nessa época, o programa Sílvio Santos, transmitido pela TV Tupi e pela TV-Studios, tinha um índice de audięncia superior a 20%. Mas desse bolo o canal 11 detinha apenas 30%.

- Aí começou o longo caminho. No segundo semestre de 77 iniciamos a Sessăo das Nove, com um filme de longa-metragem. Foi a descoberta do ovo de Colombo. A novela da Globo já havia terminado e o telespectador poderia assistir a um filme, mesmo que precisasse acordar cedo no dia seguinte.

A prática já havia mostrado que uma novela, como foi o caso de O Espantalho, de Ivani Ribeiro, năo compensava as despesas. Ao mesmo tempo, os responsáveis pela programaçăo - leia-se em primeiro lugar o próprio Sílvio Santos e Luciano Calegari - se deram conta de que existia, nas distribuidoras de filmes, centenas de longa-metragens a bons preços. Alguns já haviam sido exibidos em horas mais avançadas por outras emissoras.

- Durante muito tempo - diz o diretor regional - a Sessăo das Nove sustentou a audięncia e o faturamento. E ainda hoje, dentro da emissora, a faixa de maior audięncia se situa entre 21 e 23 horas.

Mas a TV-S precisava operar na parte da tarde. A opçăo foram os desenhos animados, pois o Ibope já havia mostrado que o público infanto-juvenil era pouco atingido. Os desenhos começavam ao meio-dia e terminavam ŕs 18 horas. Esta segunda "tacada" da emissora lhe garantiu o segundo lugar também na faixa das 8 ŕs 10 horas da manhă.

- Enquanto isso - lembra Moysés Weltman - a audięncia do programa Sílvio Santos caia na TV Tupi e crescia na TV-S. Assim, chegamos em 78179 ao segundo lugar, em média, embora a quilômetros de distância da primeira em audięncia.

Foi nesse período que a emissora começou a ser aparelhada. Passou a funcionar em mais dois prédios e ganhou um pequeno estúdio de 80 metros quadrados para jornais e entrevistas.

- Lançamos a Sessăo Premiada, dentro da faixa das nove da noite, e foi um sucesso.

Mas a faixa da tarde começou a ser ameaçada pelo Aqui e Agora, dirigido por Wilton Franco, que a Tupi acabara de lançar, apesar da fase de decadęncia em que já se encontrava. Por coincidęncia, como revela o diretor regional, Sílvio Santos já tinha a idéia de que a sua emissora fosse uma televisăo integrada ŕ vida da comunidade.

- Surgiu a possibilidade de trazermos o Wilton e quase toda a sua equipe. Em 37 dias, construímos um novo estúdio com 160 metros quadrados e um pequeno auditório para 200 pessoas e começamos a transmitir o Povo na TV, ao vivo, com quatro horas e meia de duraçăo.

Com isso, os desenhos animados passaram para a, parte da manhă, que inclui hoje, também, um programa de ginástica e, a seguir, um de culinária.

- Mergulhamos nos desenhos animados e, atualmente, a TV-S é a primeira colocada no Rio, no horário. Encaçapamos regularmente o TV-Mulher, que é um programa que já se fazia desde que eu era criança. Pagam Cr$ 400 mil para o Clodovil, que perde para Maguila, o Gorila e para o Popeye.

Além disso, diz Moysés Weltman sem esconder o orgulho, todas as tardes o canal 11 ganha de quatro a cinco meias-horas da sua concorrente. Conta que nos dias 3 e 5 de junho, pela primeira vez em mais de 10 anos, a Globo perdeu duas tardes para outra emissora de TV: a de Sílvio Santos.

É, a persistir a tendęncia dos gráficos, por volta de setembro, O Povo na TV vai disparar para o primeiro lugar. A TV Globo, hoje, é um tamborete de quatro pernas. Tręs delas estăo equilibradas com a TV-S. Numa quarta e comprida perna ela sustenta toda sua liderança. No dia em que batermos nessa perna será a hora da verdade da líder em audięncia.

E Weltman fala de mais um sucesso da TV-Studios, rondando a quarta perna da TV Globo. Săo os desenhos animados; da faixa de 18 ŕs 21 horas: Mickey, Tom e Jerry e o imbatível Pica-Pau que, segundo ele, só perde mesmo para as novelas do canal 4. Diz ainda o diretor regional que a emissora năo pretende viver de filmes estrangeiros, apesar de sempre ter sido acusada de "a estaçăo dos enlatados".

Muitos desconhecem que esta era nossa única opçăo. Năo queríamos ser a emissora dos enlatados, mas estávamos coagidos por uma situaçăo de realidade. No domingo, dia 12, estreou o Cinema Nacional. E a primeira descoberta que fizemos foi que 80% da produçăo nacional săo pornochanchadas. Além de ter-se invertido nossa posiçăo - as companhias estrangeiras nos procuravam e hoje nós é que procuramos o produtor brasileiro - o primeiro problema que temos é com o Certificado de Censura.

Diz Moysés Weltman que a maioria dos filmes brasileiros năo consegue certificado para horário nenhum. Poucos conseguem para as 23 horas. Pouquíssimos para 21 horas e raros tęm censura livre.

- Nós năo determinamos a realidade do cinema nacional. Mas, em funçăo dela, lançamos o programa Sala Especial, ŕs sextas, 23 horas, com índices de audięncia impensáveis para o horário. Nossa idéia é continuar abrindo espaço para o cinema brasileiro.

É também idéia da emissora dar emprego ao artista da terra. Com o fechamento da TV Tupi, contratou toda a equipe do humorístico Apertura e colocou no ar, ŕs quartas, nove da noite, o seu Reapertura. Contratou todos os humoristas em disponibilidade no Canal 6 e outros, e produziu o Alegria 81, que vai ao ar ŕs quintas-feiras.

- Acabamos de contratar o Moacir Franco, que estreou com muito bons índices, e já estăo contratados para entrar no ar a qualquer momento Flávio Cavalcanti, Dudu França e o jornalista Ferreira Neto.

Moysés Weltman contesta a ''lenda" de que o público da TV-S é diferente das demais emissoras. Para ele, o corte é igual, a classe oscila de acordo com o programa.

- É claro que năo pode ter predominância da classe A, porque ela é ínfima. O padrăo TV-S é o padrăo Brasil. É a realidade brasileira.



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