Saturday, July 31, 2010

1981 - Protesto Contra Concessões

Movimento
23/3/1981
Antônio Carlos Ferreira
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O FESTIVAL INFELIZ DA NOVELA DA DISTRIBUIÇĂO DOS NOVOS CANAIS DE TV


Quase ao mesmo tempo em que chegava ao fim a novela "Coraçăo Alado", da Rede Globo, terminara também, na última quinta-feira, a novela da entrega pelo governo federal das duas novas redes de televisăo aos grupos Sílvio Santos e Bloch. Corno nos intrincados enredos de Janete Clair, somente no último capítulo os assassinos foram desvendados o os amores consumados: a Rádio Capital - um novo e suspeito grupo empresarial paulista na área das comunicaçőes e do ensino superior, muito ligado a Pauto Maluf - acabou năo recebendo nenhum canal. Dias antes, ainda corria em Brasília a informaçăo de que a Capital se comporia com Sílvio Santos e Bloch para dividir as redes formadas por sete canais do espólio da Rede Tupi e mais dois outros que estavam desativados.

Os grandes perdedores no episódio săo os grupos Abril e Jornal do Brasil, tidos como francos favoritos no páreo logo após o anúncio da concorręncia, aberta pelo governo em meados do ano passado. Mas, depois de inúmeras composiçőes políticas que movimentaram todos os poderosos ocupantes do Palácio do Planalto - segundo informantes bem, situados na capital federal - eles teriam se dividido no patrocínio de uns e outros grupos - parece ter prevalecido o critério de que esta partilha servirá melhor aos interesses eleitorais do governo, em 82.

Năo que os grupos Abril e Jornal do Brasil pensem, em batalhar pelas cores da oposiçăo nas próximas eleiçőes, Longo disso. O raciocínio do governo é um pouco mais complexo, embora o nível năo seja dos mais altos. Com a entrega dos canais aos grupos Sílvio Santos e Bloch, o governo alinhado seu lado, com mais força ainda, o poderosíssimo grupo Globo - a maior audięncia na televisăo e um dos maiores no campo das comunicaçőes em geral.

O grupo Globo decididamente lutou pela exclusăo da Abril da concorręncia, pois somente ela poderia abalar a sua segura posiçăo atual. A Abril declarava-se disposta a lutar năo pelo segundo lugar entre as redes de televisăo, mas sim pelo primeiro, entrando em choque direto com a Rede Globo. Para isso, a Abri! se propunha a investir até um bilhăo de cruzeiros pr ano (em valores do final do ano passado) na rede que viesse a ganhar.

Por outro lado, a soluçăo Sílvio Santos/BIoch, alem de pequenas rusgas de curta duraçăo, năo afetará o apoio da Abril e do Jornal do

Brasil aos pontos-de-vista do governo, pois săo dois grandes grupos

econômicos que, nos condiçőes peculiares do capitalismo brasileiro, năo sobrevivem sem relaçőes íntimas com o Planalto. E há sempre pręmios de consolaçăo. O Jornal do Brasil, por exemplo, acaba de receber, juntamente com o grupo O Estado de S. Paulo, um enorme e generoso financiamento do governo para a implantaçăo de uma grande fábrica de papel de imprensa.

Ou seja, sabendo que nas suas transaçőes năo corria o risco de perder o apoio de qualquer dos grandes grupos na área das comunicaçőes, o governo resolveu năo criar qualquer dificuldade para o mais forte no ramo da televisăo - o grupo Globo - e, ao mesmo tempo, engrossar o número de órgăos a serviço de seus interesses, através do fortalecimento de empresas médias do setor: o grupo Sílvio Santos, o Grupo Record (associado a Sílvio Santos com quem poderá dividir alguns canais recebidos) e ainda o grupo Capital, que, mesmo após o anúncio da soluçăo governamental năo descartava a possibilidade de uma composiçăo com os ganhadores da concorrência.








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