Saturday, July 31, 2010

1981 - Globo Revista Estreia Mal

Folha de S. Paulo
1/4/1981
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DESPREPARO PARA UMA REVISTA AO VIVO
Uma coisa ficou provada na última segunda-feira, com a estréia do "Globo Revista", o novo programa jornalístico da TV Globo: a experięncia de um setor da emissora năo passa necessariamente a outro. Por isso, o bom trabalho que a "TV Mulher" realiza há um ano no horário matinal, com tręs horas diárias de transmissăo ao vivo, năo se repetiu no horário noturno. Longe disso, o que os telespectadores puderam testemunhar foi o mais lamentável espetáculo de erros técnicos de que se tem noticia em muitos anos, na TV.



Estudantes de televisăo, mesmo do primeiro ano, năo teriam feito pior. Com exceçăo da iluminaçăo, tudo saiu errado' no programa, da apresentaçăo á operaçăo de som. O mais gritante, entretanto, foi o nítido despreparo da mais poderosa emissora da América do Sul para fazer aquilo que se aprendeu primeiro na televisăo, que é a transmissăo ao vivo. A Globo parece estar pagando agora o preço de ter optado pelo uso indiscriminado do video-teipe, que desenvolveu como pouquíssimas emissoras em todo o mundo, muito mais do que as americanas, para dar um exemplo que sensibiliza os padrőes globais.

Para criticar com honestidade, é necessário considerar que o atentado contra Ronald Reagan perturbou muito o esquema do programa, como de resto aconteceu com todos os jornais, televisőes e rádios do Brasil. O fato era explosivo, pelo conteúdo e repercussőes. Era obrigatória sua inclusăo no programa, que provavelmente entra ao vivo para garantir a maior atualidade possível. Ainda assim, custa acreditar que o atropelo de última hora tenha envolvido e descontrolado tanto os experientes profissionais da Globo, com justa razăo considerados os melhores do Brasil. A explicaçăo mais plausível é entăo, novamente, a falta da "rede de segurança" que é o videoteipe.

O programa começou com um erro de enquadramento. A câmara abriu em plano geral, com Maria Cristina Pinheiro, Ęnio Pesce e Hélio Costa em quadro. Mas fechou bruscamente para o plano médio de Ęnio, quando Maria Cristina já estava falando, sem que se pudesse vę-la. Depois, entrou em cena o diretor de TV, que errou sucessivamente o corte das câmaras cruzadas, obrigando os apresentadores a procurar a câmara certa o tempo todo. Na entrevista de Tânia Alves, novo erro, desta vez do som. Os microfones de lapela foram colocados em má posiçăo e os colares da atriz roçavam neles, fazendo ruído. Também a cenografia, que se revelou razoável para o enquadramento de tręs figuras, năo resolveu quando foi incluída uma quarta.

Mas o que mais chamou atençăo, sem dúvida, foi o nervosismo dos apresentadores. Lucas Mendes, traído no estúdio de Nova York por um microfone de retorno falho, năo ouvia o que se falava no Rio de Janeiro e acusou o defeito no ar, o que há tempos seria suficiente para um bom lote de demissőes na Globo. Falou titubeante e sem objetividade, surpreendendo os que se acostumaram a ver o repórter seguro e até dono de um estilo próprio.

No estúdio, apesar das duas perguntas iguais a Hélio Costa, só mesmo Ęnio Pesce se salvou, talvez pela experięncia de rádio, onde a improvisaçăo é tudo. Marco Antônio Rocha foi bem enquanto leu, mas ficou sem o que dizer quando foi interpelado de surpresa. Maria Teresa Rodrigues, que entrou também ao vivo de um teatro paulista, entrevistando Gilberto Gil, mostrou-se preocupada com o tempo e năo deixou o cantor falar, além de conduzir mal as perguntas. José Augusto Ribeiro convidou a falar o senador José Sarney, que năo estava no estúdio e sim em um teipe. Maria Cristina Pinheiro, também nervosíssima, năo chegou a comprometer, mas esteve longe de seus melhores momentos.

Apesar de tudo isso, o conteúdo jornalístico do "Globo Revista" foi de bom nivel. Até a participaçăo de Paulo Francis foi abaixo do que se poderia esperar, mas năo chegou a perturbar o superficialismo de Hélio Costa, que apresentou uma série de estatísticas inúteis, no bom estilo do Almanaque Capivarol. Ficou claro que suas qualidades como diretor da sucursal americana da Globo năo o recomendam para comentarista, que requer algo indispensável: ter o que dizer. Boa também a entrevista de Reginaldo Leme com Nelson Piquei, que ofereceu a Ęnio Pesce a oportunidade para uma piada ("Piquet provou que um bom piloto nem sempre é um bom meteorologista").

O que aconteceu foi certamente um acidente e năo representa o nível de produçăo da Globo. A emissora está trilhando o caminho certo, embora năo seja exatamente uma novidade o esquema do "Globo Revista", pois a TV Cultura já fazia um telejornal diário nas mesmas características, com "anchor-man" (o "piăo" do programa, Ęnio Pesce no caso) e tudo, ao tempo em que Paulo Roberto Leandro dirigia o jornalismo da emissora. Antes do programa, inclusive, a Globo fez telejornalismo de alto nível, interrompendo sua intocável programaçăo para entrar em rede com a ABC-TV dos Estados Unidos, diversas vezes. Falta amarrar as coisas e fazer uma re-estréia que apague a má impressăo. Porque se os erros se repetirem, é melhor deixar Jô Soares e Chico Anísio para outras emissoras e passar o pessoal do jornalismo, para a área de humor. É Ibope certo.

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