Saturday, July 31, 2010

1981 - Concessões da Manchete e SBT

O Estado de S. Paulo
20/3/1981
================

AS NOVAS TEVÊS
Em decisăo do governo anunciada ontem em Brasília pelo ministro Haroldo de Mattos, das Comunicaçőes, os grupos Manchete (de Adolpho Bloch) e Sistema Brasileiro de Televisăo - SBT (ligado a Sílvio Santos) foram os ganhadores da concessăo. Em Săo Paulo, a Manchete ficou com o canal 9 e o SBT com o canal 4.

O ministro Haroldo de Mattos, das Comunicaçőes, anunciou ontem, em Brasília, o nome dos que receberam a concessăo dos canais de televisăo, aberta em conseqüęncia do vencimento das concessőes dadas ŕ Rede Tupi.

Em nota oficial, o Ministério das Comunicaçőes afirma que "os contratos de concessăo conterăo, entre outras, cláusulas especiais relativas ao aproveitamento dos empregados da Rede Tupi, em consonância com as exigęncias dos editais e compromissos assumidos pelos dois concorrentes em suas propostas".

Esses dois concorrentes - os vencedores - săo a TV Manchete (ŕ qual couberam os canais 9 (Săo Paulo), 6 (Rio de Janeiro), 5 (Belo Horizonte), 6 (Recife) e 2 (Fortaleza); e o Sistema Brasileiro de Televisăo - SBT (ligado a Sílvio Santos, mas que está em nome de Cármem Abravanel), ao qual couberam os canais 9 (Rio de Janeiro), 4 (Săo Paulo), 5 (Porto Alegre) e 2 (Belém do Pará).

Segundo a nota do governo, os vencedores năo pagarăo a dívida do grupo Associado COM o INPS e cada um terá um prazo determinado para colocar em funcionamento os novos canais de televisăo.

Ŕ tarde, no Rio de Janeiro, o ministro Haroldo de Mattos, negou comentários de que houve caráter político na atribuiçăo das concessőes, garantindo que o julgamento se baseou no retrospecto dos candidatos em serviços de radiodifusăo, avaliado entre as propostas "que melhor atendiam aos termos do edital".

- Năo tem sentido falar-se em decisăo política - afirmou o ministro, pois o resultado baseou-se nos termos do próprio edital. Os comentários săo livres, mas, infelizmente, é muito raro que sejam acertados, e esse fato é mais uma prova de que estou dizendo.

O ministro comentou ainda que a decisăo presidencial é conseqüęncia de uma prerrogativa do carga, admitindo que houve negociaçőes paralelas "que viabilizaram o resultado nos termos anunciados":

- Em toda licitaçăo desse tipo - disse Haroldo de Mattos - existem negociaçőes paralelas entre os grupos Interessados. Năo há nada de mais nisso e năo vejo por que o interesse.

Depois de muita insistęncia dos repórteres, o ministro concordou em revelar os critérios da decisăo, garantindo ainda que os funcionários da Rede Tupi serăo absorvidos pelos grupos vencedores.

Em Brasília, nos bastidores políticos, os comentários eram de que o governo se utilizou de critérios políticos para fazer a sua escolha.

Lembrava-se que a decisăo presidencial sobre a concessăo das duas redes de televisăo para os grupos Manchete e Sílvio Santos já estava tomada há mais de um męs e que, no entanto, havia interesse oficial em favorecer o grupo Paulista da Rádio Capital (dirigida pelo advogado Edvaldo Alves da Silva).

Como năo houve uma composiçăo que integrasse o grupo Capital, ministro Golbery do Couto e Silva, chefe, da Casa Civil, chamou para uma audięncia os empresários Oscar Bloch (Manchete) e o próprio Sílvio Santos, durante a qual ficou definida a atribuiçăo das concessőes.

Os critérios adotados pelo governo, comenta-se, foram políticos, como inclusive teria admitido o ministro Haroldo de Mattos, há meses atrás, uma vez que tanto o Jornal do Brasil quanto a Editora Abril apresentariam condiçőes técnicas para vencer a concorręncia.

Admite-se que o general Otávio de Medeiros, chefe do SNI, teve particular influęncia na decisăo final, favorecendo a tese considerada mais comum no Palácio do Planalto de que redes de televisăo, mesmo como concessăo do governo suscetível a cassaçăo, năo deveriam ser entregues a grupos interessados em Jornalismo informativo e político, com a independęncia permitida em lei (porque em vista disso poder-se-iam tomar críticas do governo). Ter-se-ia optado entăo pelo otimismo, pelo descompromisso e pela segurança dos amigos supostamente fiéis ao governo.

Tal como acontecera com as declaraçőes do ministro das Comunicaçőes, ontem pela manhă em Brasília e ŕ tarde no Rio, o porta-voz do Palácio do Planalto, Carlos Atila, horas depois do anúncio da decisăo presidencial, năo quis fazer comentários sobre especulaçőes de que teria havido um critério político na avaliaçăo do governo.

A pergunta dos repórteres sobre se teria havido uma decisăo política (Sílvio Santos foi citado como uma pessoa que "năo tem grande preocupaçăo com a cultura"), Átila respondeu: "Eu acho essa avaliaçăo totalmente subjetiva e impertinente".

Os repórteres, insistindo, perguntaram ainda se o grupo Sílvio, Santos teria contribuído de alguma forma, com os seus programas, para o bem da cultura brasileira. A resposta foi a de que o programa modelo de Sílvio Santos tem grande audięncia:

- Há pessoas interessadas de maneira que eu acho que esse tipo de avaliaçăo que vocę (o repórter) está fazendo é antipopular e elitista. Eu acho, inclusive, que é uma orientaçăo, em matéria de pensamento sobre comunicaçăo, extremamente perigosa. Vocę pressupőe que vocę julgue pelos outros; que as pessoas năo tęm capacidade de opçăo. Se vocę levar um pouco adiante esse tipo de raciocínio, vocę chega ŕ convalidaçăo da idéia de censura - afirmou o porta-voz do Palácio do Planalto.

LUTO

A manifestaçăo do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusăo e Televisăo do Estado de Săo Paulo foi de duras críticas ŕ decisăo do governo.

De uma janela do prédio do sindicato (na rua Conselheiro Ramalho) ficou estendida uma tarja negra, "em repúdio ŕ concessăo feita pelo governo". Em sua nota oficial, o sindicato diz:

"O Sindicato dos Radialistas do Estado de Săo Paulo vem a público para manifestar a sua mais profunda estranheza com a decisăo adotada pelo governo federal em relaçăo ŕs duas novas redes de televisăo. O Ministério das Comunicaçőes anunciou a entrega de uma rede para o sr. Adolpho Bloch e outra ao grupo da sra. Cármem Abravanel, do Sistema Brasileiro de Televisăo que, na realidade, é a máscara onde se esconde o sr. Sílvio Santos. Muito embora o sr. Ministro Haroldo de Mattos tenha afirmado que os dois grupos ganhadores possuem experięncia no ramo, a verdade é que o titular da pasta das Comunicaçőes năo percebeu que o vencedor da rede referente ŕ licitaçăo 35/80 foi dona Cármem Abravanel e năo Sílvio Santos e que, portanto, ela jamais esteve ligada a qualquer órgăo dessa área, enquanto o sr. Adolpho Bloch é proprietário de uma năo muito promissora editora de revistas. Foram ganhadoras as duas piores propostas. A rigor, um dos dois ganhadores nem deveria estar participando da licitaçăo, porque era impedido por lei. Mas, o sr. Sílvio Santos burlou a lei e entrou na concorręncia com testa-de-ferro. O Sindicato dos Radialistas está de luto como de luto estăo todos os trabalhadores desta área de comunicaçőes audiovisual. Um dos ganhadores, o sr. Adolpho Bloch, já fala numa rede para exibir filmes, enquanto que o outro está preocupado com o seu Baú de Felicidade para a venda de carnęs. Lamentamos profundamente a insensibidade do governo na hora de tomar essa decisăo. Mais uma vez, o trabalhador brasileiro foi marginalizado a um plano secundário; mais uma vez os interesses dos trabalhadores foram esmagados pela ganância e ambiçăo dos poderosos. O governo decidiu sem pensar no problema do mercado de trabalho. Falamos que o sr. Sílvio Santos năo vai absorver essa măo-de-obra proveniente da antiga Tupi. Por convenięncia política, ele poderá contratar inicialmente; mas, em seguida, iniciará processo de dispensa".

No final, a nota faz uma enumeraçăo de itens em razăo dos quais năo acredita que Sílvio Santos observará as leis trabalhistas e o mercado de trabalho. No item d (o final), a nota declara:

"O sr. Sílvio Santos através do que nos tem demonstrado na emissora do Rio de Janeiro, ao invés de contratar trabalhadores se vale de enlatados".

No Rio Grande do Sul, existe preocupaçăo em relaçăo ŕ concessăo da TV Piratini a Sílvio Santos. Essa preocupaçăo ficou expressa ontem, em declaraçőes feitas por Ciro Machado, presidente do Sindicato dos Radialistas e por Estácio Ramos, ex-diretor-presidente do canal cassado.

Visivelmente irritado, o representante dos Diários e Emissoras Associados em Porto Alegre, Estácio Ramos, e hoje responsável somente pela rádio Farroupilha (também do grupo Associados), disse ontem que "a situaçăo financeira da TV Piratini interessa apenas ŕ direçăo da empresa e a seus credores".

Apreensivo, Ciro Machado declarou, por sua vez, que considera Sílvio Santos "um mau empresário, que năo assume responsabilidades com o trabalho e, todos sabem, só trabalha mediante prestaçăo de serviços e cachęs". O mercado de trabalho, com a concessăo a Sílvio Santos, năo deverá melhorar: "Sílvio Santos só trabalha com enlatados disse Ciro Machado - e já temos a TV Pampa que năo ocupa măo-de-obra e năo faz nenhuma programaçăo local".

Roberto Jares Martins, diretor-superintendente da TV Marajoara, garantiu que o grupo Sílvio Santos (que ficou com o esse canal de TV, o 2) poderá colocá-lo em, funcionamento "no mais curto prazo possível, porque a TV Marajoara saiu do ar funcionando e temos dado toda a manutençăo possível ao seu equipamento, ligando-o diariamente".

Para jornalistas e empresários do setor, a decisăo do governo foi essencialmente política e năo técnica. Comentava-se ontem em Belém que boa parte dos canais ganhos por Sílvio Santos e pelo grupo Manchete seriam transferidos para a Rede Capital, inclusive a TV Marajoara, atendendo-se com isso a interferęncia do governador Paulo Maluf.

Em Minas Gerais, os 239 empregados demitidos pelos Diários Associados em julho do ano passado, com o fechamento da TV Itacolomi, de Belo Horizonte, receberam com reservas a decisăo do governo quanto ŕ concessăo dos canais a Sílvio Santos e Manchete.

O secretário do Sindicato dos Radialistas em Minas, Romeu Queiroz, explicou que o sindicato já começou a mobilizar, desde ontem os demitidos, "para orientá-los quanto ŕs negociaçőes com o grupo Manchete sobre o aproveitamento de pessoal estabelecido pelo edital".

No Recife, o ex-superintendente da TV Tupi, Ricardo Pinto, disse que a confiança na decisăo do presidente Figueiredo deve ser ressaltada - comparando aqueles "que duvidaram da volta do canal 6 com aqueles que duvidaram e duvidam do projeto de abertura do mandatário máximo da naçăo brasileira".

BLOCH, EMOCIONADO. E FAZENDO PROMESSAS.

A notícia de que o grupo Manchete ganhou a concessăo, junto com o grupo ligado a Sílvio Santos, foi recebida pelo empresário Adolpho Bloch durante o almoço em que ele homenageava Regine Chokrown (discutida personalidade do jetset internacional). Bloch recebeu a notícia por intermédio de um telefonema do sobrinho Oscar Bloch, que se encontrava em Brasília.

E o próprio Adolpho Bloch se encarregou de transmitir ŕs demais pessoas presentes a informaçăo recebida de Brasília.

A direçăo da empresa negou que Adolpho Bloch houvesse viajado logo em seguida para Brasília, em um táxi aéreo a fim de agradecer pessoalmente ao presidente Figueiredo.

Os jornalistas que foram ao prédio da Bloch Editora em busca de informaçőes do como fora recebida a notícia da concessăo, năo puderam entrar no prédio da Manchete, localizado na praia do Russel, no Rio. Barrados pela segurança, os repórteres receberam ao mesmo tempo, de uma recepcionista, a informaçăo de que a empresa divulgaria mais tarde uma nota oficial pelo telex, diretamente para a redaçăo de cada jornal.

Ŕ tarde, ontem, funcionários da revista Manchete revelaram que a direçăo do jornalismo da TV Manchete seria entregue a Roberto Paulino e a direçăo geral a Alexandre Garcia, ex-porta-voz do Palácio do Planalto (demitido pelo ex-ministro Said Faraht, depois de ter dado uma entrevista ŕ revista Ele e Ela, da Bloch).

Apesar da emoçăo revelada por Adolpho Bloch, durante o almoço oferecido a Regine Chokroum, funcionários do grupo Manchete afirmaram que a decisăo do governo já era esperada e tida como certa a concessăo só ontem oficialmente confirmada. Citaram como exemplo a presença quase diária, no prédio da praia do Russel, de vários técnicos especializados que a Rede Globo colocou ŕ disposiçăo da Manchete.

Entre esses profissionais encontra-se o coronel Herbert Piuza, considerado um dos técnicos mais qualificados da área de engenharia da TV Globo, no Rio de Janeiro.

Na nota oficial divulgada ontem ŕ noite, o grupo Manchete se diz honrado e grato ao governo, nas pessoas do presidente Figueiredo e do ministro Haroldo de Matos, das Comunicaçőes. A nota, assinada por Adolpho Bloch, Oscar Bloch e Pedro Jack Kapeller, afirma que a Manchete, através das suas emissoras de TV, "trabalhará para a cultura, informaçăo e o lazer do povo", e termina assegurando: "Produziremos uma televisăo que será motivo de orgulho para todos os brasileiros".

A REDE CAPITAL, AINDA DENTRO DAS NEGOCIAÇŐES

Embora tenha sido eliminada da concorręncia oficial, a Rede Capital, que participou de várias negociaçőes no Palácio do Planalto, poderá negociar diretamente com as novas concessionárias. Por algum tempo, a Rede Capital foi considerada como uma das escolhidas e, somente nas últimas negociaçőes, acabou eliminada. O presidente do grupo, Edvaldo Alves da Silva, considerou a concorręncia "limpa", afirmando que o "governo é sábio e sabe o que faz", acrescentando: "As negociaçőes foram paralisadas, nós fizemos uma proposta e agora o governo decidiu".

Agora, a expectativa de negociaçăo é entre os próprios participantes do Sistema Brasileiro de Televisăo, o empresário da Paulo Machado de Carvalho (da TV Record) e o empresário Sílvio Santos.

Os dois participam da SBT, através de representantes, já que săo concessionários de canais no Rio e em Săo Paulo e que, por lei, năo teriam direito a um segundo canal em uma só, localidade.

Conforme explicou ontem Paulo Machado de Carvalho (que divide com Sílvio Santos a TV Record), o seu interesse era ganhar um canal no Rio de Janeiro e, o de Sílvio Santos, o canal em Săo Paulo.

Sílvio Santos ficará com o canal 4 de Săo Paulo (que tem uma dívida a ser assumida com a Caixa Econômica, em tomo de 400 milhőes de cruzeiros, segundo Machado de Carvalho) e sairá da sociedade que mantém com a Record.

- Isso já estava previsto quando entramos na licitaçăo - explicou Machado de Carvalho - e provavelmente Sílvio Santos terá preferęncia na escolha de dois outros canais da rede que conseguiu em Porto Alegre e Belém, porque ele ficou com o "osso" (o canal endividado e os funcionários antigos) e eu com um canal novinho e sem problemas no Rio de Janeiro.



No comments:

Post a Comment

Followers