Saturday, July 31, 2010

1981 - 1 Ano de TV Mulher

Jornal do Brasil
12/4/1981
Maria Helena Dutra
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UMA DATA FELIZ

Um bom trabalho. As comemoraçőes do primeiro aniversário do TV Mulher, em 7 de abril, foram fartas e merecidas. A grande festa do programa diário e matinal da Rede Globo chegou a lembrar os tempos eufóricos e simpáticos da Tupi, Record e Excelsior, também plenos de datas felizes, pelo número de atraçőes variadas e a nenhuma modéstia dos celebrantes. Foi divertido e bastante justo pois marcou uma etapa na qual os acertos foram superiores aos equívocos, captou mais anunciantes para a estaçăo, teve audiência razoável e, principalmente, forneceu alguns serviços valiosos aos seus espectadores.

Estes, porém, năo receberam do programa "uma nova posiçăo da televisăo" conforme insistiam em afirmar as chamadas da Rede Globo lembrando o aniversário. Este tipo de revista feminina é tăo antigo como o veículo no Brasil só que está sendo agora oferecido com requintes de produçăo, disciplina profissional e acabamento esmerado, padrăo da estaçăo, que nos outros canais nunca conseguiu ser aquinhoado. A publicidade da emissora, porém, năo estaria totalmente errada se apenas se referisse a quatro astros da equipe da TV Mulher que năo Nilton Travesso, Clodovil, Marta Suplicy e Marília Gabriela.

O diretor e produtor Nilton Travesso realmente inovou, pelo menos dentro da estaçăo, por conseguir na enlatada Globo realizar quatro horas diárias de um programa quase integralmente ao vivo. Façanha que o torna merecedor de todas as honras e salamaleques principalmente por fazê-lo bem. Com requintes de concatenaçăo e fluidez que muita ediçăo aprimorada năo consegue. Outro feito, de um profissional que em 28 anos de carreira no veículo nunca se acomodou e sempre evolui, foi realmente firmar o primeiro núcleo realmente regional de urna rede estritamente carioca. É lógico que todos queriam isso, afinal Săo Paulo é o primeiro mercado publicitário do país, mas nenhuma tentativa anterior deu certo. Ao lado de Globo Rural, TV Mulher botou o sotaque na garoa, finalmente entre os campeőes de audiência do canal monopolizador dela.

E um dos responsáveis por isto, nesta produçăo, é evidentemente Clodovil. Figurinista que garoto ainda entendeu o valor da publicidade e comunicaçăo de massa para seu trabalho, mas que custou para se impor nestes meios implacáveis. Iniciou esta atividade paralela na rádio paulista e depois serviu como figura excêntrica e objeto de curiosidade em vários programas de televisăo. Serviu a eles até o 8 ou 800 quando respondeu sobre Dona Beija. Depois conseguiu ser por eles servido. Como faz exemplarmente em TV Mulher. Em lugar de ser uma atraçăo pitoresca da produçăo é ela quem fornece a alavanca para seu total brilho. Sereno, objetivo, assumido, competente, profissional e muito prático, fornece idéias para roupas acessíveis, comenta o mundo com total naturalidade e varia do humor escrachado ao irônico com a classe e elegância que, por isso, pode aconselhar aos outros. Andou uns tempos abusando das brincadeiras herméticas, mas rapidamente sentiu năo constituir este o mais adequado caminho e voltou a ser uma das mais democráticas, e por isso realmente televisivas, figuras de nosso vídeo.

Mais ainda inovador é o valioso trabalho de Marta Suplicy nos poucos minutos em que trata de Comportamento Sexual. O tema, năo propiciado pela abertura mas por uma evoluçăo natural da sociedade brasileira, começou a ser tratado de maneira adulta e sem deboches ou escândalos no fantástico rádio que sempre se fez em Săo Paulo. E o passou de maneira até surpreendentemente feliz para a televisăo, primeiro nas tentativas meio confusas mas pioneiras de Xênia Bier e agora na lúcida abordagem desta psicóloga. Sem sensacionalismos baratos ou morais rígidas, atingiu o difícil equilíbrio de ser principalmente didática e esclarecer um assunto no qual a maioria dominante da populaçăo brasileira é totalmente analfabeta. Com tato, mas em linguagem científica, chamando tudo pelos seus reais nomes e năo por apelidos bobos, faz um supletivo valioso e isento. Sua posiçăo feminista năo é estaparfúrdia ou idiota e sim natural e conseqüente. Como pode sempre verificar qualquer ser pensante, por mais masculino que seja. Marta Suplicy é hoje prova inquestionável que ninguém precisa fazer gênero, ser clichê ou ficar burro para fazer sucesso na televisăo.

Quase o mesmo pode-se afirmar da apresentadora de TV Mulher, Marília Gabriela. Ex-repórter, ela conseguiu no ano de vida do programa atingir uma linguagem ideal para conduzi-lo. Năo é măe, filha ou namoradinha de ninguém mas um ser humano que parece acreditar no que lé e que tem condiçőes intelectuais e de informaçăo para comentar, de pronto, o que acontece e até o que năo entende. Nas entrevistas sua atuaçăo năo é tăo irrepreensível, pois ainda padece do mal de insistir por demais nos rasgados elogios ao entrevistado que fica até um pouco constrangido de ser tăo "maravilhoso". Mesmo assim melhorou do que fazia há um ano atrás e já está por merecer maior abertura de seu Ponto de Encontro que continua totalmente preso a artistas e lançamentos de disco, filmes, peças e shows. Estes devem ser conservados, é lógico, mas compartilhar de seu espaço com as Maria da Conceiçăo Tavares que andam por aí falando sobre tantos outros temas igualmente fascinantes.

Bem menos é o rendimento dos outros integrantes do programa. Que tem também um ponto bem vulnerável em sua estrutura. Ele, para prestar serviços, é basicamente feito em cima de cartas mandadas pelo público. A exceçăo de Henfil, Marília Gabriela e Hildegard Angel, todos os demais têm missivas como seu principal acessório, cênico. Para quem năo escreve para lá fica muito monótono. É como aqueles programas de sorteios, se você năo concorre para que diabos está assistindo? Alguns poderiam, nem que fosse de vez em quando, abandonar os CEPs para sacudir um pouco o tédio. Henfil tentou em sua primeira incursăo na produçăo com o TV Homem, mas năo deu certo. Vamos ver se agora melhora com personagens dramatizados. Năo vai ser fácil porque o humor infantil é cruel, tipo Fradim, do autor, e que parece ser a linha que quer seguir também na televisăo, ainda năo encontrou a adequada traduçăo em linguagem de televisăo. Vide a brincadeira do mau-olhado no aniversário do programa que foi muito mal solucionada. Eu continuo acreditando mais no poder de desenho de Henfil, mesmo no veículo novo, do que nas suas tentativas teatrais.

QUEM também năo está bem é Marisa Roja Gabaglia. Ela foi competente e atrevida repórter de televisăo, mas agora voltou conselheira sentimental. E com os velhos vícios do setor pois segue as regras de ser por demais impositiva e insistir na voz impostada. Ainda năo dá para saber é se Marilu Torres conseguirá melhorar seu rendimento ao largar a cozinha, na qual apenas tratava de trutas, amêndoas e camarőes, para entrar na casa e nos atos variados femininos. Ficou mais prática, afinal samambaias e pneus de carro săo mais próximos a dessa média, mais ainda conserva uma postura muito dura e rija diante de qualquer assunto. Outra que ainda năo rendeu o que pode é Hildegard Angel. Mais uma boa repórter, dela podem dizer tudo menos que năo informa, está muito presa a entrevistas gravadas e longas com o pessoal da casa que é sempre bem prudente. Fica tudo muito gratuito ou às vezes mesmo grotesco como final de expressăo corporal que tentou fazer juntamente com Eduardo Conde, Sueli Franco e Vera Bocayuva em final de uma série de capítulos de conversa mole. Também um problema de linguagem năo solucionada atrapalha o rendimento de Ney Gonçalves Dias. A figura masculina necessária para o equilíbrio no vídeo, atrás dele a equipe técnica continua quase que totalmente constituída de homens, alterna palavras de ordem com comícios sem achar o tom coloquial adequado para proteger nossos direitos.

Mas no balanço geral, e anual, o saldo é bom. Mesmo sendo num horário em que a maioria dos seres humanos năo pode ver televisăo, o programa global oferece bastante assuntos interessantes, debates e imagens limpas. Merecendo inclusive o quase feriado nacional que os paulistas fizeram para comemorar seu primeiro e feliz aniversário. Uma boa data para a televisăo.




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