Monday, July 5, 2010

1980 - Fenômeno Dallas

Jornal do Brasil
17/8/1980
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QUEM ATIROU EM J.R.?
300 milhőes de telespectadores querem saber a reposta

Os americanos também tęm os seus Miguel Fragonard. Também eles mantęm seus olhos grudados no aparelho de televisăo na esperança de que, a qualquer momento, surgirá uma pista que os permita saber quem matou ou quem năo matou. Se năo isso, ao menos algum indício de que a mocinha realmente acabará com o mocinho, assim como Nélson e Lígia de Água Viva.

A paixăo pela telenovela - para aqueles que pensam ser ela um fenômeno exclusivamente brasileiro - existe também nos Estados Unidos. Ou melhor, em todo o mundo. Ou pelo menos nos 57 países que assistem aos episódios semanais de Dallas, o grande sucesso atual da TV americana.

A revista Times dedica, em seu último número, matéria de capa ŕs emoçőes que a saga da família Ewing vem despertando num número simplesmente incrível de telespectadores. Segundo as últimas pesquisas, săo 40 milhőes só nos Estados Unidos e mais de 300 milhőes no mundo inteiro. Dallas, que estreou pela rede CBS em abril de 1978, caminha rapidamente para estabelecer novos recordes de audięncia. O Muppet Show já ficou para trás, todas as outras séries dramáticas foram superadas. O que parecia ser uma telenovela a mais começa a se transformar num assunto tăo presente quanto a própria luta de Carter e Reagan pela Casa Branca.

Năo há nenhum exagero nessa afirmativa. Conforme conta Time, quando esteve recentemente em Dallas. Texas, levantando fundos para sua campanha, Carter incluiu uma sugestiva piada em seu discurso: "Vim aqui para descobrir quem atirou em J. R. Se algum de vocęs puder me dizer, acho que poderia financiar toda a minha campanha." Enquanto isso, na Convençăo Republicana que indicou Reagan para concorrer com Carter, milhares de emblemas eram distribuídos com os dizeres: "Um democrata atirou em J. R."

J. R. é simplesmente o personagem central de Danas, ou seja, J. R. Ewing, um terrível vilăo que no capítulo de sexta-feira, 21 de março, caiu no chăo de seu escritório com dois tiros no estômago. Quem atirou? É em torno desse mistério que a novela vem multiplicando sua audięncia.

Enquanto está caído no chăo do escritório, entre a vida e a morte, J. R. recorda o passado. Assim, todos os capítulos que se seguem ŕ cena em que ele é baleado săo flashbacks que recompőem a história da família Ewing, a vilania de J. R., toda uma galeria de personagens como Sue Ellen, Jock, Miss Ellie, Bobby, Pam, Cliff Barnes, todos suspeitos.

A CBS já anunciou - numa maciça campanha publicitária - que no capítulo de 19 de setembro o odiado John Ross Ewing Jr. entrará, em estado desesperador, na sala de emergęncias do Dallas Memorial Hospital, começando a se desvendar ali o mistério que vem intrigando mais de 300 milhőes de telespectadores.

A revista Time relata uma série de fatos que provam ser Dallas um sucesso mais do que espetacular. Graças a ela, depois de tręs anos de tentativas inúteis, a CBS recuperou o primeiro lugar de audięncia nos Estados Unidos, desbancando assim a ABC. As indústrias paralelas, que produzem camisetas, plásticos, miniaturas, botőes, baralhos, toda sorte de objetos com a marca Dallas, ganham fortunas.

Damas da sociedade texana já estăo planejando um desfile de modas - com roupas inspiradas nos personagens da novela - para as vésperas do capítulo-chave.

O sucesso de Dallas mesmo internacional. Em Johannesburg, Africa do Sul, nenhum membro do Governo marca seus discursos para as noites de terça-feira, já sabendo que seus eventuais ouvintes năo sairăo de casa: é a noite de Dallas, primeiro lugar em audięncia no país. Em Hong-Kong, a mesma coisa. Americanos que residem lá e viajam a negócios para os Estados Unidos costumam dar longos telefonemas internacionais ŕs suas mulheres para perguntar-lhes detalhes do último capítulo (a novela está mais adiantada nos Estados Unidos do que lá). Na Austrália, venderam-se aos milhares emblemas com os dizeres: "Eu odeio J. R.". A novela já estreou com igual sucesso em vários países do Oriente Médio. Na Turquia, organizaçőes, muçulmanas fazem campanha para que a novela seja retirada do ar, por acharem que ela "pode destruir a família turca". E até os ingleses, sempre tăo indiferentes ŕs telenovelas americanas, desta vez se renderam aos apelos de Dallas: exibida pela BBC, já alcançou um público calculado em 30 milhőes de pessoas (mais da metade da populaçăo do Reino Unido).

No entanto, tal sucesso năo deixou de surpreender os próprios homens da CBS. E năo deixou de surpreender, também, o ator Larry Hagman, repentinamente alçado da condiçăo de comediante de segunda para um ídolo popular de primeira. Até ser contratado para ser J. R., o mais importante que havia feito - no cinema ou na televisăo - foi o papel do marido meio idiota da heroína da série Jeannie É um Gęnio, Com o sucesso da novela e sua transformaçăo num personagem odioso, tudo mudou. Num dos capítulos de Dallas, em que aparece abraçando o filho pequeno (um dos poucos momentos de ternura vividos por J. R.), chegou a receber mais de 10 mil cartas de telespectadores comovidos, curiosos, indignados, apreensivos, movidos pelos sentimentos mais diversos.

De um salário inicialmente irrisório, Hagman passou a ganhar entre 50 e 75 mil dólares por capítulo (cerca de 1,5 milhăo por ano), o que o faz acreditar que os tempos de Jeannie estăo definitivamente para trás. Ou estariam, se os programadores de televisăo năo tivessem decidido desarquivar a série, com todo o seu anacronismo, só para aproveitar a popularidade de Hagmam, isto é, John Ross Ewing Jr.




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