Saturday, July 24, 2010

1979 - Antes da Net...

Jornal do Brasil
28/10/1979
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TV POR CABO CHEGA AO BRASIL (MAS QUANDO?)
O telespectador escolhendo exatamente o que quer ver - uma peça de Shakespeare por um elenco inglęs, um musical no melhor estilo de Hollywood, um filme que nada tenha em comum com os enlatados vigentes, um programa humorístico diferente dos de Jô Soares, Chico Anísio e Renato Aragăo - tudo isso sem depender das opçőes oferecidas pelas nossas emissoras comerciais. O que parecia um sonho, no Brasil, está perto de tornar-se realidade com a implantaçăo entre nós da televisăo por cabo.

O assunto, por enquanto, está no plano das hipóteses. Nem sequer existe, no pais, uma legislaçăo que defina o funcionamento desse tipo de transmissăo. Mas já há pelo menos uma firma especializada, em plena atividade, fornecendo seus serviços no campo das antenas comunitárias e do circuito fechado. Seu proprietário, Wilson Brito, explica:

- Como a legislaçăo ainda năo existe, qualquer firma, com estrutura e verba suficientes, pode candidatar-se a entrar no negócio.

A televisăo por cabo existe nos Estados Unidos há mais de 20 anos. Lá, por um pequeno pagamento mensal, que lhe dá direito a tomada própria, o telespectador já conta com um número bastante significativo de programas a que pode assistir sem depender do que os canais comerciais lhe oferecem. Esse tipo de televisăo por cabo pode atender a clientes individuais (uma só pessoa escolhendo o programa que quer ver e pagando por ele ŕ firma fornecedora) ou coletivos (para firmas, prédios, condomínios, onde um grupo de pessoas assiste a determinado programa especial).

Wilson Brito faz alguns cálculos:

- No Brasil, para a implantaçăo desse sistema, seria necessário um investimento da ordem de Cr$ 28 milhőes. E para que năo houvesse prejuízo ŕ firma responsável, o número de clientes năo poderia ser inferior a 5 mil, cada um pagando Cr$ 300 por tomada.

Wilson Brito explica que a televisăo por cabo pode ser aérea ou embutida. Esta última custa 10 vezes mais, de modo que a primeira deve ser a adotada no Brasil. Segundo ele, no Rio, o local ideal para se formar a primeira clientela seria mesmo a Barra da Tijuca.

- É sabido que os moradores daquele local enfrentam problemas-com a recepçăo dos canais comerciais, de modo que a televisăo por cabo seria uma saída. Além disso, o poder aquisitivo, ali, é alto.

O aparelho de televisăo năo precisa de qualquer modificaçăo ou adaptaçăo porque a única coisa que muda é a colocaçăo da outra tomada. A grande vantagem deste tipo de sistema é que o assinante terá uma imagem muito melhor, sem distorçőes ou fantasmas, porque para se instalar o cabo, a firma instaladora năo pode prejudicar a emissăo dos canais de televisăo normal.

Como declara o Coronel Wilson Brito, a firma instaladora é obrigada a veicular todos os canais da sua área de atuaçăo. Se for instalado um cabo na Praça da Bandeira, por exemplo, tem-se que sintonizar todos os canais. O assinante da TV por cabo, continua, receberá entăo na sua casa todos os canais, com ótima imagem, e ainda os serviços da TV por cabo gerada no seu centro de produçăo. A cabodifusăo, afirma, está para a radiodifusăo de televisăo assim como a música funcional está para uma rádio FM.

Wilson Brito diz que a idéia de se implantar o sistema no Brasil năo é nova. Na época em que era engenheiro eletrônico da TV Globo, a própria emissora estava interessada, convidando-o a fazer parte de uma firma criada com esse fim, em 1971. Mais tarde, a TV Globo desistiu, Wilson comprou a sua parte e seguiu em frente com a firma, a TVC.

Nos Estados Unidos, a televisăo por cabo surgiu em razăo de algumas limitaçőes técnicas. Os receptores instalados em certas regiőes montanhosas năo conseguiam captar as imagens das emissoras comerciais. O objetivo inicial do sistema - através da antena comunitária ou da chamada cabodifusăo - foi, portanto, possibilitar melhor recepçăo de imagem. Em pouco tempo, porém, a televisăo por cabo transformou-se em algo realmente revolucionário no terreno das telecomunicaçőes. Logo o número de canais disponíveis ao cliente tornou-se praticamente ilimitado.

No Brasil, a questăo é discutida há muito tempo. O próprio Governo se interessou por ela, encomendando uma série de estudos técnicos e legais sobre seu funcionamento. Um desses estudos, assinado por César Valente (professor da Universidade Federal de Santa Catarina); Luis Lanzetta (da mesma Universidade) e Daniel Herz (jornalista) observa:

- "O Ministério das Comunicaçőes e alguns grupos empresariais vęm se posicionando pela imediata implantaçăo do Serviço de Cabodifusăo, enquanto as Universidades, entidades e pesquisadores tęm defendido uma cautelosa introduçăo dessa tecnologia no País, o que deveria efetuar-se através de uma legislaçăo democrática e critériosamente elaborada, baseado no resultado de aprofundados estudos em diversas áreas".

Registram os tręs que, em 1974, o Ministério das Comunicaçőes chegou a negar autorizaçăo para que a Universidade Federal do Rio Grande do Sul implantasse um projeto experimental numa comunidade do interior. Depois disso, apressou-se a elaboraçăo de um projeto de lei, ao qual se fizeram algumas objeçőes (a exploraçăo do sistema por empresas multinacionais, o fato de a questăo ainda ser debatida num nível muito fechado, o lado juridicamente questionável de vários de seus pontos). O estudo conclui, porém, que as Universidades continuam liderando um movimento pela desaceleraçăo da implantaçăo da televisăo por cabos no Brasil e sugere que o Governo crie as condiçőes para que as mesmas Universidades sejam ouvidas, desenvolvendo tecnologia e estudos, levando o problema ao debate público a ŕ sua real dimensăo social.

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