Monday, July 5, 2010

1973 - História da TV Tupiniquim

Fatos & Fotos
10/9/1973
Artur da Távola
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A EPOPÉIA DA TV NO BRASIL


O filho de Francisco Cuoco nasceu numa segunda-feira. Só na sexta se revelou oficialmente o acontecimento nacional, no melhor estilo dos príncipes herdeiros. Um gripe de Regina Duarte fornece assunto a revistas especializadas com circulaçăo semanal de 1 milhăo e 500 mil exemplares. Em 23 anos de existęncia, a televisăo brasileira, além de criar seus mitos, conseguiu: 1) Implantar 77 emissoras em circuito aberto no país inteiro; 2) Construir 248 estaçőes transmissoras e repetidoras; 3) Dar emprego a cerca de 15 mil pessoas, das quais 2.000 no Rio e 3.500 em Săo Paulo; 4) Levar sua imagem a todos os recantos do Brasil, inclusive ŕ Amazônia, graças ao trabalho da EMBRATEL; 5) Alcançar uma platéia nacional de aproximadamente 30 milhőes de telespectadores; 6) Movimentar recursos da ordem de bilhőes de cruzeiros; 7) Transmitir, via satélite, os principais acontecimentos do mundo; 8) Manter, em seus elencos regulares, pelo menos 20 dos 25 atores e atrizes de maior cartaz; 9) Colocar em funcionamento um perfeito sistema de cores, o Pal-M, em vias de ser exportado para países de tecnologia inferior; 10) Transformar-se da máquina de fazer doidos, dos tempos iniciais, no mais poderoso e consumido meio de comunicaçăo de massa.

Antes de inaugurar oficialmente suas transmissőes regulares, a televisăo brasileira já tinha púbLico. Embora inaugurada, para alguns, a 19 de setembro de 1950, em Săo Paulo, com uma apresentaçăo de José Mojica, já antes outros fatos anunciavam o impulso que o novo engenho eletrônico teria no Brasil: as lojas tinham esgotado os poucos televisores importados "para uma experięncia de vendas" e as transmissőes de prova eram captadas pelos telespectadores pioneiros.

Tudo nasceu dos estalos e antevisőes de Assis Chateaubriand . Jantando com homens de negócios americanos, fechou, no ato, a compra dos primeiros equipamentos. Logo depois, enviou dois engenheiros aos Estados Unidos, para uma preparaçăo técnica. Os equipamentos chegaram ao Brasil em 1949, começando quase ŕs escondidas sua instalaçăo.

Săo Paulo concluiu a parte técnica antes do Rio por causa dos problemas deste, com morros dificultando a instalaçăo de transmissores. Chateaubriand chamou Dermival Costa Lima, baiano de larga experięncia, pioneiro também no rádio, para ser o primeiro diretor da TV Tupi, de Săo Paulo. A ele caberia instalar e organizar a política de programaçăo do primeiro canal brasileiro de tevę.

Cabe também a Costa Lima o primeiro acidente da nossa televisăo: um braço fantasma que apareceu na transmissăo inaugural. Segundo ele, a transmissăo oficial de inauguraçăo năo foi a de Mojica. "Essa foi uma transmissăo interna, captada por quem já tinha televisor: algumas pessoas. A oficial deu-se com um programa montado por mim e pelo Cassiano Gabus Mendes, no qual o animador era procurado por duas mulheres bonitas que queriam saber que negócio seria esse de televisăo. Aí, o apresentador, Homero Silva, figura popularíssima do rádio paulista, iria de cenário em cenário, mostrando tudo o que a tevę poderia fazer e apresentar."'

Para essa data, Chateaubriand, que vivia uma fase de euforia com os fatos, convidara pessoas ilustres da vida paulista para verem as primeiras imagens da tevę brasileira em 10 receptores instalados na sede do Jóquei Clube de Săo Paulo. Escolheu-se a madrinha: a poetisa Rosalina Coelho Lisboa. O bispo auxiliar de Săo Paulo, D. Rolim Bittencourt, batizou as câmaras. Alguns outros aparelhos foram instalados em pontos estratégicos da cidade, onde gente se apertava para ver a telinha luminosa reproduzindo o milagre da imagem em movimento. Estava tudo pronto para a entrada no ar ŕs 18 horas. Conta Costa Lima:

- Na hora H. uma câmara pifou, e nada de dar imagem. Tivemos de usar uma câmara só, improvisando tudo, do começo ao fim, o que déu, estranhamente, muito mais sabor ao programa. Justamente quando eu apontava com o local a ser focalizado para o programa começar, a câmara entrou em funçăo e pegou aquele braço grande e gordo, o meu, intruso e abusado, uma presença insólita no meio da tela, cortando parte da pompa preparada, porém marcando capacidade de improvisar superar dificuldades para progredir, que acompanhou a televisăo brasileira em toda a sua trajetória até hoje.

A DATA QUE SE DISCUTE AINDA

Começara a existir tevę no Brasil. E impossível precisar uma data para o nascimento: a transmissăo de José Mojica cantando, a inauguraçăo oficial de 19 de setembro de 1950 ou os programas de teste, meses antes, jogando no ar as imagens, em transmissőes experimentais que incluíram vários jogos de futebol.

No Rio de Janeiro, havia desde de 1950 transmissőes experimentais, mas a inauguraçăo oficial aconteceu a 20 de janeiro de 1951, dia de Săo Sebastiăo, padroeiro da cidade. Cariocas reivindicam o pioneirismo em televisăo, porque o Rio assistiu ŕ primeira transmissăo da América Latina. Receptores instalados em locais de movimento, como a Avenida Rio Branco, reproduzindo imagens televisivas muito antes da inauguraçăo dos canais paulista e carioca. Costa Lima contesta esse dado:

- Se fôssemos considerar assim, a primeira transmissăo de tevę no Brasil se deu em 1939, na Feira de Amostras, quando uma firma alemă tinha em seu stand uma câmara e um receptor de televisăo. Eu vi.

O grande problema enfrentado na Guanabara foi o da instalaçăo da torre. Havia resistęncias do clero quanto ao uso do Corcovado, por causa do Cristo Redentor. Idem da Aeronáutica quanto ao do Păo de Açúcar, por eventuais prejuízos ao pouso de aviőes no Aeroporto Santos Dumont Afinal, este ficou sendo o local provisório, um provisório que durou até 1957, quando se transferiram os transmissores para o Sumaré.

O engenheiro responsável pela instalaçăo foi o italiano Horazio Pagliari, convidado pelo Diários e Emissoras Associados para orientar a instalaçăo da TV Tupi, Canal 6, no Rio. Radicado no Brasil desde entăo, tem hoje no filho, Pier Giorgio PagIiari também engenheiro eletrônico já formado em nosso país, um continuador de sua obra no comando técnico da mesma estaçăo. É Pagliari quem depőe:

- A grande dificuldade era o transporte dos equipamento para o Păo de Açúcar. Tínhamos de esperar cada subida do bondinho, misturando válvulas, fios cabos e pedaços de torres aos turistas que năo entendiam o por quę de tanta aparelhagem. Feitos os testes, o Păo de Açúcar mesmo năo sendo o lugar ideal foi aprovado.

Por dificuldade de local adequado para os estúdios, estes foram improvisados em algumas salas do edifício da Avenida Venezuela em que funcionava a Rádio Tamoio. Em seu espaço, mínimo, havia uma célebre coluna, por causa da qual todos os cânones de cenografia e iluminaçăo tiveram de ser driblados ŕ brasileira para a realizaçăo dos programas. O estúdio ficava num quinto andar, sendo fácil perceber as dificuldades de remoçăo de painéis da cenografia e a transporte do material de iluminaçăo.

O PÚBLICO VAI ADERINDO A TV

Mesmo assim, os programas saíram e, nos quatro anos em que a Tupi permaneceu na Avenida Venezuela, até se transferir para o antigo Cassino da Urca, onde ainda está, conseguiu mobilizar o interesse da populaçăo que, nesse período, adquiriu televisores em quantidade suficiente para garantir o progresso da iniciativa.

O primeiro beijo da televisăo brasileira foi dado por Válter Forster na atriz Vida Alves. Tudo ocorreu na primeira tentativa de reproduzir na tevę os ęxitos que tinham as novelas no rádio da época. Forster, até hoje um gală maduro disputado por telenovelas e filmes, escrevia, dirigia e interpretava a série Sua Vida me Pertence, levada ao ar duas vezes por semana, em 1952, em Săo Paulo. Palavras de Forster:

- Foram 20 capítulos, ao todo. Năo tenho idéia de qual fosse a audięncia, em números, mas posso dizer que houve sucesso. Muita gente telefonava ou escrevia para a Tupi. Usávamos numerosos recursos do rádio, depois superados pelo vídeo-tape. Naquele tempo, năo havia outro jeito. O ator que estivesse sendo focalizado por uma câmara só poderia voltar ŕ cena após se encontrar uma cena de transiçăo, com outra situaçăo e outros atores, pois năo tínhamos como fazę-lo entrar em campo imediatamente. A experięncia desse seriado năo deve ser confundida com teatro por tevę. Este se fez antes, televisionando-se obras teatrais completas. Aqui, tratava-se de uma tentativa de seriado tal e qual no rádio. Nela houve o primeiro beijo. Numa cena romântica, eu beijava Vida Alves.

Era um tempo de muitas improvisaçőes. Certa vez, numa cena de Romeu e Julieta, em que as personagens tomavam sopa, um ator esqueceu sua fala. Os outros se confundiram, e houve um prolongadíssimo silęncio, só quebrado pelas colheradas de sopa. "Ai, o diretor, vendo que os atores năo se viravam, mandou que eu entrasse em cena. Mas confundiu os scrípts: meu personagem era de outra peça. Foi difícil dar um final naquilo tudo."

Também o nome da atriz Vida Alves está intimamente ligado aos primeiros tempos da TV no Brasil. Figura famosa do radio e da novela, convidaram-na para a grande estréia, ao lado de outros astros de entăo, como Válter Forster, Homero Silva, Lia de Aguiar, Dionísio de Azevedo, Hebe Camargo (na época, cantora), Iara Lins, José Parisi e Cassiano Gabus Mendes. Na tarde da inauguraçăo, sentiu as primeiras dores do parto e, enquanto o programa ia ao ar sem ela, substituída ŕs pressas, nascia seu filho - hoje, um dos poucos brasileiros nascidos no mesmo dia, męs e ano da televisăo brasileira.

Hebe Camargo também participaria da inauguraçăo, cantando, no gran-finale preparado, o Hino da Televisăo Brasileira, composto especialmente para a ocasiăo por Spartacus Rossi, com letra do poeta Guilherme de Almeida. E Dermival Costa Lima quem recorda:

- A Hebe adoeceu e năo pôde cantar a letra, que começava assim: "Vingou como tudo vinga / Em teu chăo, Piratininga..." Substituiu-a Lolita Rodrigues, mulher do Airton Rodrigues, que até hoje tem seu programa no ar com permanente liderança de audięncia. Lolita Rodrigues, depois dessa experięncia pioneira, realizou vários outros programas na TV dos anos iniciais como cantora e atriz.

Vencida a etapa heróica dos primeiros meses, tanto a programaçăo da Tupi paulista quanto a do Rio começaram a se regularizar, tendo por base noticiários, pequenos shows, em que se mesclavam intérpretes nacionais e estrangeiros, teatro, sketchesseus titulares, futebol, programas infantis e um gęnero que dominou por vários anos: a entrevista.

Era a entrevista o grande recurso de preenchimento dos horários, num tempo em que os canais ainda năo podiam contar com os filmes para intercalar entre os programas. Surgido qualquer problema de espera ou troca, apelava-se para a entrevista. O gęnero imperou durante muito tempo, tornando famosos seus

titulares. Na Guanabara, um dos pioneiros da TV Tupi, Arnaldo Nogueira, conseguiu a popularidade, sendo ainda hoje eleito parlamentar graças tanto a seu trabalho na Câmara Federal quanto ŕ notoriedade alcançada por ele na época.

Outro campo logo conquistado foi o teatro, por suas afinidades naturais com a televisăo. Em Săo Paulo, a TV de Vanguarda. No Rio, o Grande Teatro. Luís Gustavo, o Beto Rockfeller de agora, começou, nesse tempo da TV de Vanguarda, primeiro como assistente de câmara e, logo depois, como câmera-man. Lima Duarte, o hoje nacionalmente famoso Zeca Diabo vindo da novela radiofônica, ali também atual desde o seu terceiro dia de funcionamento. Com ele: J. Silvestre, Válter Forster, Lia Borges e Sônia Maria. Informa Dermival Costa Lima que também Cacilda Becker atuou nos primeiro tempos, embora sua fama tenha crescido depois, graças ŕ carreira teatral.

No Rio, a primeira obra teatral televisada teve a direçăo de Chianca de Garcia. Chamava-se A Bela Madame Vargas. Era ao vivo, ŕs 8 da noite, e ia ao ar no mini-estúdio da TV Tupi, com coluna e tudo. Muito material de cenografia e decoraçăo, o próprio Chianca de Garcia ia buscá-lo em sua casa ou na da principal atriz, Heloisa Helena, hoje no elenco regular da Globo, onde interpreta importante papel na novela Uma Rosa com Amor, após ter conseguido grande ęxito com sua irrequieta e boa Fanny, a dona da Pensăo Palácio da novela Selva de Pedra. Um testemunho de Heloisa Helena:

- A gente ensaiava das 13 ŕs 17 horas para ir ao ar ŕs 20h. Era uma mistura de teatro com cinema, para nós. Todos trabalhavam com muito entusiasmo. Uma beleza! Levávamos peças nacionais e estrangeiras. Nesse meio tempo, entrou no ar o Teatro Gebara, no qual se apresentavam peças de 20 minutos. Pois, nesse Teatro Gebara, o que muito pouca gente sabe, foram apresentadas numerosas obras de uma mulher atualmente famosa em todo o Brasil: a minha amiga Janete Clair.

A PUBLICIDADE NĂO VEIO LOGO

A publicidade penetrou muito lentamente na televisăo. Dermival Costa Lima lembra o primeiro comercial. "Năo veio por nenhuma agęncia. Foi corretagem da gente mesmo. Era a oferta do dia de uma loja paulista chamada A Tentaçăo . Uma bonita morena, a Rosa Maria, apresentava a oferta do dia seguinte na loja e concluía, entre lânguida e sedutora: Năo é uma tentaçăo?"

Pouco a pouco, a publicidade descobriu a televisăo, preparando para ela tanto anúncios como programas ao vivo. No primeiro ano, porém, seja pela pequena quantidade de televisores , pela canalizaçăo de verbas para rádio e jornal, ou pela expectativa em relaçăo ao meio novo, a tevę năo contou com propaganda vinda de agęncias. Por essa razăo, o pessoal da Tupi de Săo Paulo - com exceçăo dos técnicos - trabalhava sem ganhar, o que levou um cronista célebre da época, Edmur Costa, a chamar seus pioneiros de televisinários.





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