Saturday, July 24, 2010

1971 - Bagunça na Tupi

Jornal do Brasil
25/3/1971
Valério Andrade
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E A ONDA NĂO VEIO


Durante dias, a Tupi anunciou um novo e original programa, algo revolucionário em matéria de música popular: A Onda.

Finalmente, chegou o dia D (segunda-feira), a hora H (20h). Estava tudo pronto para registrar o advento da Onda encomendada e promovida pelo canal 6. Ela arrebentaria aqui no Rio, ali na Urca, tendo como palco as areias da praia e o ruído do mar como música de fundo.

Acontece que A Onda năo chegou até o vídeo. Săo Pedro resolveu cortar a onda do conjunto 1822, antes de ela começar. A chuva impediu a transmissăo ao vivo, aumentando, consideravelmente, a improvisaçăo do show levado a cabo dentro dos estúdios da Tupi. A bagunça reinou absoluta. Houve de tudo: desde as tradicionais falhas sonoras até a interrupçăo de imagens.

Se o esquema armado pela produçăo de A Onda tinha alguma chance de funcionar na praia, só saberemos na próxima semana, caso o programa tenha resistido a esta inacreditável estréia. O estúdio, evidentemente, é que năo comportava tal tipo de apelaçăo. Cantores de short, descalços e descamisados, exibindo-se com displicęncia e descaso profissional.

E quem teve a idéia de recrutar os serviços do Capităo Aza? Já năo bastou aquele vexame do grito carnavalesco? Fantasiado de herói, sem saber o que dizer ou o que fazer, Capităo Aza permaneceu cerca de 30 minutos frente ŕs câmaras, enquanto se preparava a remoçăo do espetáculo praiano para o auditório. Durante esse período, em que o Capităo Aza resolveu dar uma de Chacrinha, a Tupi deve ter perdido 50% de audięncia - os outros 50% A Onda encarregou-se de levá-los rumo ao canal 4.

ASSIM E DEMAIS

A programaçăo de filmes de longe metragem figura entre as principais atracőes da televisăo americana. Aqui no Brasil, por mera displicęncia administrativa e falta de visăo profissional, a artilharia do arsenal cinematográfico continua sendo desperdiçada. Na semana passada, quando a Tupi anunciava o seu novo lote de filmes, aproveitamos a oportunidade para apontar as falhas do esquema atualmente em vigor. Pois bem, domingo passado a Tupi resolveu alterar a situaçăo, em benefício da sua programaçăo.

Antes da exibiçăo de Jane Eyre, através da atriz Marisa Urban, a Tupi prestou algumas informaçőes superficiais sobre a composiçăo do elenco e o diretor do filme. Até aí nada demais. O diabo é que a Tupi resolveu atribuir a autoria de Jane Eyre a George Stevens, que, conforme salientou Marisa, é o diretor de Os Brutos Também Amam e um dos cineastas que garantem a integridade artística de qualquer obra. O que ela disse sobre Stevens é exato, menos, naturalmente, a sua suposta ligaçăo com Jane Eyre.

O diretor de Jane Eyre chama-se Robert (e năo George) Stevenson (e năo Stevens). Artesăo apenas competente, integrante do terceiro escalăo hollywoodiano, Robert Stevenson vem nos últimos anos trabalhando nos estúdios de Walt Disney, pois há muito desistiu de fazer algo sério. Em 1944, ano de Jane Eyre, Stevenson pensava diferente. Sob a sombra do mestre William Wyler, secundado por uma equipe de primeira categoria, tanto na frente como atrás das câmaras, alcançou com Jane Eyre um trunfo válido até hoje.

Na próxima vez, a fim de evitar equívocos dessa ordem, a Tupi deve, pelo menos, informar-se direito sobre quem é quem no mundo do cinema. Do contrário, é melhor ficar em silęncio, para năo dizer tolices, informando errado.

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