Saturday, July 31, 2010

1982 - Novo Jornal da Globo

Jornal do Brasil
23/5/1982
Diana Aragăo
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JORNAL DA GLOBO IGUAL SÓ NO NOME
Investindo cada vez mais em seu telejornalismo, a Globo estréia no dia 7, ŕs 23h45min, o seu mais novo produto: o Jornal da Globo - nome de um noticiário antigo do mesmo horário que vai substituir o Jornal Nacional Segunda Ediçăo. O seu editor-chefe será o jornalista José Antônio Severo, que vai trabalhar com uma equipe de cinco jornalistas - Renato Machado, Thereza Walcacer, Carlos Castilho, José Augusto Ribeiro e Belisa Ribeiro - contando ainda com repórteres e, comentaristas em Brasília e Săo Paulo.

No Jornal da Globo năo existirá a figura do locutor tipo Cid Moreira, que apenas lę a notícia, muitas vezes sem saber nem do que se trata. A idéia, no novo telejornal, é fazer com que os apresentadores sejam também os repórteres, os editores de vídeo, os comentaristas, cuidando cada um de sua matéria desde o momento da apuraçăo até a hora em que vai ao ar.



Exibido de segunda a sexta-feira, terá 30 minutos de duraçăo: 22 em rede nacional e oito locais, com cada cidade tratando dos seus assuntos específicos. Segundo José Antônio Severo, o Jornal da Globo năo sera um "jornal de atualidades".

- É um jornal de analise pegando um grande tema do dia, que normalmente é político, econômico ou cultural, sem. esquecer os grandes acontecimentos.Se tiver um incęndio, é claro que vamos fazer este incęndio.

Em Brasília, o telejornal contará com Antônio Britto - o mediador do debate Sandra Cavalcanti x Miro Teixeira - Álvaro Pereira e Roberto Lopes, repórteres políticos, e Marilena Chiarelli, que cobrirá a área diplomática. Em Săo Paulo, o time foi organizado com os repórteres Maria Cristina Pinheiro, Antônio Carlos Ferreira, Rodolfo Gamberini, além de Ęnio Pesce (foi um dos apresentadores de Globo Revista), e o comentarista econômico Marco Antônio Rocha.

Até a sua estréia, o programa foi testado vária vezes: desde fevereiro, mais de 30 programas pilotos foram realizados fazendo-se testes do pessoal, de luz, enquadramento, problemas técnicos de maneira geral. A abertura, criada pelo pessoal da casa, como Hans Donner, ainda năo está totalmente definida "mas dará uma idéia de noite". Os jornalistas ficarăo em mesas em forma de cubos, separados, mas o restante do cenário ainda está sendo desenvolvido.


1982 - Programa Outras Palavras

Jornal do Brasil
10/2/1982
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O PROVOCANTE DIÁLOGO JOVEM COMANDADO PELA EMOÇĂO
A criaçăo de um espaço para os jovens. Foi este um dos principais objetivos de Walter Moreira Salles Júnior ao idealizar o programa Outras Palavras, que todas as quartas-feiras, às 23h, na TV Bandeirantes, apresenta entrevistas e discussőes de temas diversos da atualidade.

Produzido por Walter e Sérgio Augusto, o programa já atingiu bons níveis de audiência - 2 milhőes de telespectadores em todo o Brasil e 300 mil só no Rio - com a presença de Caetano Veloso.

- O complicado é que nosso público năo é formado só de jovens. Temos que achar o equilíbrio entre um discurso articulado e intelectualizado para a faixa dos 30 anos e uma abertura que possibilite ao jovem sua participaçăo no programa - explica Walter Moreira Salles Júnior.

Os próximos programas năo serăo mais gravados em estúdio, e sim ao ar livre, como o da escritora Marilena Chauí, que vai ao ar quarta-feira e foi feito na Reserva Biológica da Universidade de Săo Paulo. O objetivo de gravar o programa ao ar livre, diz Walter, é transformá-lo num "papo de jardim, de fundo de quintal, em que as pessoas se soltem mais".

Sérgio Augusto observa que a eliminaçăo do microfone (será usado um microfone multidirecional para os participantes), da luz e da câmara estática permitirá a todos esquecerem que estăo fazendo televisăo. Outra mudança é a diminuiçăo do número de convidados, para que todos possam ter oportunidade de falar.

- O Walter Clark quer transformar o horário das 23h num horário nobre a nível mercadológico. A Bandeirantes está muito mais comentada do que a Globo nesse horário porque, apesar de nossos índices de IBOPE continuarem acusando pontos bem abaixo, săo muito mais consistentes. Nosso público é mais importante porque mais consumidor do ponto-de-vista socioeconômico.

Liberdade para tratar de temas que no horário nobre das 20h seriam impraticáveis e a garantia de um público mais seletivo săo apontados por Walter Moreira Salles Júnior como fatores de sucesso:

- Se a TV Globo criasse um programa similar ao Outras Palavras, certamente roubaria um pouco da nossa audiência, mas, em compensaçăo, perderia seu público para a TVS.

Sérgio Augusto diz que "as pessoas curtem fazer o programa" porque ele representa uma proposta nova. A juventude classe média também năo teve acesso à TV, acrescenta, "e Outras Palavras é bem iluminista nesse sentido, como observou Caetano Veloso". A idéia é manter um programa "provocador e provocante" para a própria juventude.

- Năo adianta ir para a favela da Rocinha e ficar perguntando sobre coisas que năo fazem parte do seu cotidiano se nem os próprios universitários da PUC sabem o que é o Ato Institucional n° 5. A juventude está mais comprometida com a emoçăo do que com a sua racionalizaçăo - afirma.

Já estăo marcadas as gravaçőes com Chico Buarque, Egberto Gismonti, Sônia Braga, Marco Nanini e Artur Moreira Lima. Os temas pais e filhos, sexo e um debate entre garotos de 10 e 12 anos, que formam "o quarto extrato social", como diz Walter, "os verdadeiros pré-pivetes", já estăo na pauta dos próximos programas.

1981 - TV Silvio No Ar

Jornal do Brasil
19/8/1981
Diana Aragăo
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TVS COMEÇA TRANSMISSĂO ÀS 9H30M
Săo Paulo - Passados 13 meses desde a cassaçăo do direito de operaçăo da TV Tupi, o Canal 4 volta hoje ao ar, agora sob responsabilidade do empresário Sílvio Santos. As primeiras imagens do Canal serăo transmitidas às 9h30m, quando será assinado em Brasília o contrato entre o Ministério das Comunicaçőes e o Sistema Brasileiro de Televisăo.

Com um investimento total de 10 milhőes de dólares (cerca de Cr$ 1 bilhăo), 2 mil empregados e estúdios localizados em uma área de 11 metros quadrados na Vila Guilherme, a nova emissora de televisăo terá uma programaçăo popular. Com esse objetivo, Sílvio Santos já manteve contatos com os apresentadores Flávio Cavalcanti, Hebe Camargo e o cantor Moacyr Franco, entre outros, orientarem alguns programas da TVS.






CANAL 4 DE SĂO PAULO ENTRA NO AR HOJE
A assinatura do contrato das duas novas redes de televisăo - Sistema Brasileiro de Televisăo, liderada pe lo empresário e animador Sílvio Santos e a TV Manchete, das empresas Bloch - será hoje, às 9h30m, em Brasília, com a presença dos diretores dos dois grupos. A cerimônia será transmitida diretamente pelo novo canal 4 de Săo Paulo, uma das emissoras do grupo Sílvio Santos, que iniciará em seguida as suas transmissőes com programaçăo composta basicamente de desenhos, do programa de auditório O Povo na TV, shows e humorísticos, além de um longa-metragem, à noite.

Formada pelos canais 11, do Rio de Janeiro, 4, de Săo Paulo, 5, de Porto Alegre que entrará no ar somente no dia 26 deste mês e canal 2, de Belém, no ar somente no próximo dia 2 de setembro, o SBT ainda conta com 12 emissoras afiliadas distribuídas de Norte a Sul do país. Durante os primeiros dias de transmissăo do novo canal 4 a programaçăo será quase a mesma do Rio de Janeiro, canal 11, formada de desenhos como Pica-Pau, Popeye, Bozo, na parte da manhă.

E o grande sucesso da estaçăo no Rio, O Povo na TV, que chega muitas vezes a ganhar da Globo, na parte da tarde, será gerado durante 15 dias em Săo Paulo, transmitido também para o Rio. No programa, exibido das 14h às 18h30m, serăo escolhidos, ao vivo, os apresentadores em Săo Paulo, cópias de Wilton Franco, Wagner Montes, Cristina Rocha, José Cunha, Ana Davis e Sérgio Malandro, que voltarăo aos seus postos no Rio.

Depois do término de O Povo na Tv, às 18h30m, o canal 4 entrará com uma nova fornada de desenhos animados e seriados até 21h, quando será exibida a mais nova atraçăo: o musical Vamos Nessa, apresentado pelo cantor Dudu França, que estreou sábado passado no Rio de Janeiro. Às 22h, a Sessăo das Dez, filmes de longa metragem e, à meia-noite, o jornalista Ferreira Neto comandará um programa de variedades, encerrando a programaçăo do primeiro dia de transmissőes do novo canal. Para comemorar tudo isto, Sílvio Santos oferece um coquetel, a partir das 19h, no Oba-Oba, de Oswaldo Sargentelli, que é também apresentador de um dos programas do grupo, Maravilhosa Música Brasileira, exibido às 22h30m, nas quartas-feiras, no canal 11.

A rede da TV Manchete - canal 6 do Rio de Janeiro, canal 13 de Săo Paulo (atualmente é da Bandeirantes, que passará para o 9) e os antigos canais das Associadas em Belo Horizonte, Recife e Fortaleza - entrará no ar, em prazo mínimo, de 12 meses. Seus responsáveis pela implantaçăo jurídico-burocrática săo Alan Caruso, empresário que já foi presidente da Riotur, Geraldo Mateus, ex-diretor do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e Rubens; Furtado, da extinta TV Tupi.

Esta nova rede terá como linha filosófica "o jornalismo, a educaçăo e a cultura" e, até o momento, o único nome certo dentro da programaçăo é do jornalista Alexandre Garcia, responsável por este departamento das novas estaçőes., Alguns departamentos funcionarăo na antiga sede da Bloch, na Rua Frei Caneca, e os estúdios e central de produçăo para toda a rede serăo instalados em Água Grande, vizinho do parque gráfico de Lucas.


1981 - 1 Ano de TV Mulher

Jornal do Brasil
12/4/1981
Maria Helena Dutra
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UMA DATA FELIZ

Um bom trabalho. As comemoraçőes do primeiro aniversário do TV Mulher, em 7 de abril, foram fartas e merecidas. A grande festa do programa diário e matinal da Rede Globo chegou a lembrar os tempos eufóricos e simpáticos da Tupi, Record e Excelsior, também plenos de datas felizes, pelo número de atraçőes variadas e a nenhuma modéstia dos celebrantes. Foi divertido e bastante justo pois marcou uma etapa na qual os acertos foram superiores aos equívocos, captou mais anunciantes para a estaçăo, teve audiência razoável e, principalmente, forneceu alguns serviços valiosos aos seus espectadores.

Estes, porém, năo receberam do programa "uma nova posiçăo da televisăo" conforme insistiam em afirmar as chamadas da Rede Globo lembrando o aniversário. Este tipo de revista feminina é tăo antigo como o veículo no Brasil só que está sendo agora oferecido com requintes de produçăo, disciplina profissional e acabamento esmerado, padrăo da estaçăo, que nos outros canais nunca conseguiu ser aquinhoado. A publicidade da emissora, porém, năo estaria totalmente errada se apenas se referisse a quatro astros da equipe da TV Mulher que năo Nilton Travesso, Clodovil, Marta Suplicy e Marília Gabriela.

O diretor e produtor Nilton Travesso realmente inovou, pelo menos dentro da estaçăo, por conseguir na enlatada Globo realizar quatro horas diárias de um programa quase integralmente ao vivo. Façanha que o torna merecedor de todas as honras e salamaleques principalmente por fazê-lo bem. Com requintes de concatenaçăo e fluidez que muita ediçăo aprimorada năo consegue. Outro feito, de um profissional que em 28 anos de carreira no veículo nunca se acomodou e sempre evolui, foi realmente firmar o primeiro núcleo realmente regional de urna rede estritamente carioca. É lógico que todos queriam isso, afinal Săo Paulo é o primeiro mercado publicitário do país, mas nenhuma tentativa anterior deu certo. Ao lado de Globo Rural, TV Mulher botou o sotaque na garoa, finalmente entre os campeőes de audiência do canal monopolizador dela.

E um dos responsáveis por isto, nesta produçăo, é evidentemente Clodovil. Figurinista que garoto ainda entendeu o valor da publicidade e comunicaçăo de massa para seu trabalho, mas que custou para se impor nestes meios implacáveis. Iniciou esta atividade paralela na rádio paulista e depois serviu como figura excêntrica e objeto de curiosidade em vários programas de televisăo. Serviu a eles até o 8 ou 800 quando respondeu sobre Dona Beija. Depois conseguiu ser por eles servido. Como faz exemplarmente em TV Mulher. Em lugar de ser uma atraçăo pitoresca da produçăo é ela quem fornece a alavanca para seu total brilho. Sereno, objetivo, assumido, competente, profissional e muito prático, fornece idéias para roupas acessíveis, comenta o mundo com total naturalidade e varia do humor escrachado ao irônico com a classe e elegância que, por isso, pode aconselhar aos outros. Andou uns tempos abusando das brincadeiras herméticas, mas rapidamente sentiu năo constituir este o mais adequado caminho e voltou a ser uma das mais democráticas, e por isso realmente televisivas, figuras de nosso vídeo.

Mais ainda inovador é o valioso trabalho de Marta Suplicy nos poucos minutos em que trata de Comportamento Sexual. O tema, năo propiciado pela abertura mas por uma evoluçăo natural da sociedade brasileira, começou a ser tratado de maneira adulta e sem deboches ou escândalos no fantástico rádio que sempre se fez em Săo Paulo. E o passou de maneira até surpreendentemente feliz para a televisăo, primeiro nas tentativas meio confusas mas pioneiras de Xênia Bier e agora na lúcida abordagem desta psicóloga. Sem sensacionalismos baratos ou morais rígidas, atingiu o difícil equilíbrio de ser principalmente didática e esclarecer um assunto no qual a maioria dominante da populaçăo brasileira é totalmente analfabeta. Com tato, mas em linguagem científica, chamando tudo pelos seus reais nomes e năo por apelidos bobos, faz um supletivo valioso e isento. Sua posiçăo feminista năo é estaparfúrdia ou idiota e sim natural e conseqüente. Como pode sempre verificar qualquer ser pensante, por mais masculino que seja. Marta Suplicy é hoje prova inquestionável que ninguém precisa fazer gênero, ser clichê ou ficar burro para fazer sucesso na televisăo.

Quase o mesmo pode-se afirmar da apresentadora de TV Mulher, Marília Gabriela. Ex-repórter, ela conseguiu no ano de vida do programa atingir uma linguagem ideal para conduzi-lo. Năo é măe, filha ou namoradinha de ninguém mas um ser humano que parece acreditar no que lé e que tem condiçőes intelectuais e de informaçăo para comentar, de pronto, o que acontece e até o que năo entende. Nas entrevistas sua atuaçăo năo é tăo irrepreensível, pois ainda padece do mal de insistir por demais nos rasgados elogios ao entrevistado que fica até um pouco constrangido de ser tăo "maravilhoso". Mesmo assim melhorou do que fazia há um ano atrás e já está por merecer maior abertura de seu Ponto de Encontro que continua totalmente preso a artistas e lançamentos de disco, filmes, peças e shows. Estes devem ser conservados, é lógico, mas compartilhar de seu espaço com as Maria da Conceiçăo Tavares que andam por aí falando sobre tantos outros temas igualmente fascinantes.

Bem menos é o rendimento dos outros integrantes do programa. Que tem também um ponto bem vulnerável em sua estrutura. Ele, para prestar serviços, é basicamente feito em cima de cartas mandadas pelo público. A exceçăo de Henfil, Marília Gabriela e Hildegard Angel, todos os demais têm missivas como seu principal acessório, cênico. Para quem năo escreve para lá fica muito monótono. É como aqueles programas de sorteios, se você năo concorre para que diabos está assistindo? Alguns poderiam, nem que fosse de vez em quando, abandonar os CEPs para sacudir um pouco o tédio. Henfil tentou em sua primeira incursăo na produçăo com o TV Homem, mas năo deu certo. Vamos ver se agora melhora com personagens dramatizados. Năo vai ser fácil porque o humor infantil é cruel, tipo Fradim, do autor, e que parece ser a linha que quer seguir também na televisăo, ainda năo encontrou a adequada traduçăo em linguagem de televisăo. Vide a brincadeira do mau-olhado no aniversário do programa que foi muito mal solucionada. Eu continuo acreditando mais no poder de desenho de Henfil, mesmo no veículo novo, do que nas suas tentativas teatrais.

QUEM também năo está bem é Marisa Roja Gabaglia. Ela foi competente e atrevida repórter de televisăo, mas agora voltou conselheira sentimental. E com os velhos vícios do setor pois segue as regras de ser por demais impositiva e insistir na voz impostada. Ainda năo dá para saber é se Marilu Torres conseguirá melhorar seu rendimento ao largar a cozinha, na qual apenas tratava de trutas, amêndoas e camarőes, para entrar na casa e nos atos variados femininos. Ficou mais prática, afinal samambaias e pneus de carro săo mais próximos a dessa média, mais ainda conserva uma postura muito dura e rija diante de qualquer assunto. Outra que ainda năo rendeu o que pode é Hildegard Angel. Mais uma boa repórter, dela podem dizer tudo menos que năo informa, está muito presa a entrevistas gravadas e longas com o pessoal da casa que é sempre bem prudente. Fica tudo muito gratuito ou às vezes mesmo grotesco como final de expressăo corporal que tentou fazer juntamente com Eduardo Conde, Sueli Franco e Vera Bocayuva em final de uma série de capítulos de conversa mole. Também um problema de linguagem năo solucionada atrapalha o rendimento de Ney Gonçalves Dias. A figura masculina necessária para o equilíbrio no vídeo, atrás dele a equipe técnica continua quase que totalmente constituída de homens, alterna palavras de ordem com comícios sem achar o tom coloquial adequado para proteger nossos direitos.

Mas no balanço geral, e anual, o saldo é bom. Mesmo sendo num horário em que a maioria dos seres humanos năo pode ver televisăo, o programa global oferece bastante assuntos interessantes, debates e imagens limpas. Merecendo inclusive o quase feriado nacional que os paulistas fizeram para comemorar seu primeiro e feliz aniversário. Uma boa data para a televisăo.




1981 - Globo Revista Estreia Mal

Folha de S. Paulo
1/4/1981
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DESPREPARO PARA UMA REVISTA AO VIVO
Uma coisa ficou provada na última segunda-feira, com a estréia do "Globo Revista", o novo programa jornalístico da TV Globo: a experięncia de um setor da emissora năo passa necessariamente a outro. Por isso, o bom trabalho que a "TV Mulher" realiza há um ano no horário matinal, com tręs horas diárias de transmissăo ao vivo, năo se repetiu no horário noturno. Longe disso, o que os telespectadores puderam testemunhar foi o mais lamentável espetáculo de erros técnicos de que se tem noticia em muitos anos, na TV.



Estudantes de televisăo, mesmo do primeiro ano, năo teriam feito pior. Com exceçăo da iluminaçăo, tudo saiu errado' no programa, da apresentaçăo á operaçăo de som. O mais gritante, entretanto, foi o nítido despreparo da mais poderosa emissora da América do Sul para fazer aquilo que se aprendeu primeiro na televisăo, que é a transmissăo ao vivo. A Globo parece estar pagando agora o preço de ter optado pelo uso indiscriminado do video-teipe, que desenvolveu como pouquíssimas emissoras em todo o mundo, muito mais do que as americanas, para dar um exemplo que sensibiliza os padrőes globais.

Para criticar com honestidade, é necessário considerar que o atentado contra Ronald Reagan perturbou muito o esquema do programa, como de resto aconteceu com todos os jornais, televisőes e rádios do Brasil. O fato era explosivo, pelo conteúdo e repercussőes. Era obrigatória sua inclusăo no programa, que provavelmente entra ao vivo para garantir a maior atualidade possível. Ainda assim, custa acreditar que o atropelo de última hora tenha envolvido e descontrolado tanto os experientes profissionais da Globo, com justa razăo considerados os melhores do Brasil. A explicaçăo mais plausível é entăo, novamente, a falta da "rede de segurança" que é o videoteipe.

O programa começou com um erro de enquadramento. A câmara abriu em plano geral, com Maria Cristina Pinheiro, Ęnio Pesce e Hélio Costa em quadro. Mas fechou bruscamente para o plano médio de Ęnio, quando Maria Cristina já estava falando, sem que se pudesse vę-la. Depois, entrou em cena o diretor de TV, que errou sucessivamente o corte das câmaras cruzadas, obrigando os apresentadores a procurar a câmara certa o tempo todo. Na entrevista de Tânia Alves, novo erro, desta vez do som. Os microfones de lapela foram colocados em má posiçăo e os colares da atriz roçavam neles, fazendo ruído. Também a cenografia, que se revelou razoável para o enquadramento de tręs figuras, năo resolveu quando foi incluída uma quarta.

Mas o que mais chamou atençăo, sem dúvida, foi o nervosismo dos apresentadores. Lucas Mendes, traído no estúdio de Nova York por um microfone de retorno falho, năo ouvia o que se falava no Rio de Janeiro e acusou o defeito no ar, o que há tempos seria suficiente para um bom lote de demissőes na Globo. Falou titubeante e sem objetividade, surpreendendo os que se acostumaram a ver o repórter seguro e até dono de um estilo próprio.

No estúdio, apesar das duas perguntas iguais a Hélio Costa, só mesmo Ęnio Pesce se salvou, talvez pela experięncia de rádio, onde a improvisaçăo é tudo. Marco Antônio Rocha foi bem enquanto leu, mas ficou sem o que dizer quando foi interpelado de surpresa. Maria Teresa Rodrigues, que entrou também ao vivo de um teatro paulista, entrevistando Gilberto Gil, mostrou-se preocupada com o tempo e năo deixou o cantor falar, além de conduzir mal as perguntas. José Augusto Ribeiro convidou a falar o senador José Sarney, que năo estava no estúdio e sim em um teipe. Maria Cristina Pinheiro, também nervosíssima, năo chegou a comprometer, mas esteve longe de seus melhores momentos.

Apesar de tudo isso, o conteúdo jornalístico do "Globo Revista" foi de bom nivel. Até a participaçăo de Paulo Francis foi abaixo do que se poderia esperar, mas năo chegou a perturbar o superficialismo de Hélio Costa, que apresentou uma série de estatísticas inúteis, no bom estilo do Almanaque Capivarol. Ficou claro que suas qualidades como diretor da sucursal americana da Globo năo o recomendam para comentarista, que requer algo indispensável: ter o que dizer. Boa também a entrevista de Reginaldo Leme com Nelson Piquei, que ofereceu a Ęnio Pesce a oportunidade para uma piada ("Piquet provou que um bom piloto nem sempre é um bom meteorologista").

O que aconteceu foi certamente um acidente e năo representa o nível de produçăo da Globo. A emissora está trilhando o caminho certo, embora năo seja exatamente uma novidade o esquema do "Globo Revista", pois a TV Cultura já fazia um telejornal diário nas mesmas características, com "anchor-man" (o "piăo" do programa, Ęnio Pesce no caso) e tudo, ao tempo em que Paulo Roberto Leandro dirigia o jornalismo da emissora. Antes do programa, inclusive, a Globo fez telejornalismo de alto nível, interrompendo sua intocável programaçăo para entrar em rede com a ABC-TV dos Estados Unidos, diversas vezes. Falta amarrar as coisas e fazer uma re-estréia que apague a má impressăo. Porque se os erros se repetirem, é melhor deixar Jô Soares e Chico Anísio para outras emissoras e passar o pessoal do jornalismo, para a área de humor. É Ibope certo.

1981 - Walter Clark na Bandeirantes

AS ARMAS DA BANDEIRANTES

José Nêumanne Pinto

SĂO PAULO - Uma hora e meia de telejornalismo, três horas ao vivo com serviço comunitário (em măo dupla), duas horas e meia de programaçăo infantil (foi comprado o pacote completo de Hanna Barbera), uma hora de telenovela, meia hora de teleteatro (năo se sabe ainda se em série) e duas horas de uma mistura de entretenimento, informaçăo e humorismo (com prioridade para as comédias de situaçăo).

Na sala do diretor da Rede de Televisăo Bandeirantes, José Roberto Maluf, o novo diretor-geral, Walter Clark Bueno, vai traçando os planos para uma programaçăo que deverá assumir seus primeiros contornos apenas no segundo semestre deste ano e da qual se sabe ao certo por enquanto apenas que terá de 12 a 14 horas por dia. Entusiasmado com o verdadeiro mundo novo que é Săo Paulo, "cidade onde vou morar" debaixo de uma saraivada de críticas por haver demitido Walter Avancini do núcleo de novelas e Cláudio Petraglia da superintendência de programaçăo, Walter Clark está tranqüilo e diz que se preocupa mais em trabalhar do que em falar.

De 28 de janeiro até hoje tirou Hebe Camargo, Moacyr Franco e As Mais Mais (cuja saída já estava programada) do ar. Já enfrentou duas crises de alguma seriedade, mas continua dizendo que "ninguém deve esperar de mim milagres ou lances de gênio. Meu trabalho aqui é de montagem de uma infra-estrutura mínima de programaçăo, no Departamento Comercial e na administraçăo".

Na programaçăo, Clark está pensando em "decompor" as faixas horárias padronizadas, ao estilo Rede Globo. "Em suma, quero um antídoto para meu próprio veneno. Essa fórmula de uma programaçăo só, de segunda a sábado, e outra programaçăo para o domingo, foi criada por mim na TV Rio e adotada depois na Globo. Mas sinto que essa fórmula está tolhendo a criatividade do profissional brasileiro de televisăo e que é preciso voltar ao esquema adotado no fim dos anos 50 e começo dos 80, principalmente com a revoluçăo de programaçăo da TV Excelsior - Canal 9 - de Săo Paulo. Năo é por acaso que, depois da transmissăo do Queen, que por sinal pareceu-me muito superior à de Frank Sinatra, por exemplo, estávamos comemorando e percebi que só havia, à exceçăo de Serginho Mattar, prata da casa, profissionais antigos de televisăo, de uma época que eu considero a mais criativa de todas, entre 1957 e 1963" - resume.

Walter Clark năo consegue deixar de falar sempre na Globo. Quando comenta seus planos para a programaçăo, tem consciência de que eles representam o antipadrăo Globo, padrăo, aliás, que ele ajudou a construir. Profissional experiente sabe, por exemplo, que a televisăo brasileira vive, há bastante tempo, uma crise de contexto, embora tenha resolvido, parcialmente, seus problemas de forma. Por isso, ele pretende colocar no ar "programas de substância", como um telejornal com as notícias analisadas, das 19h30m às 20h, sob o comando do jornalista Joelmir Betting, que funcionará como anchorman. Também por isso, lembra com saudade uma série feita na Globo, A Grande Família, certamente o melhor exemplo de uma boa comédia de situaçőes na televisăo brasileira, quando pensa numa soluçăo para o impasse do humorismo, certamente năo resolvido por Viva o Gordo, Chico Total e a nova ediçăo do Planeta dos Homens.

Clark é contra claque. Por isso, está sendo reformado o auditório da rede. - Quero o público integrado na programaçăo. Minha intençăo é bilateralizar a coisa, promover a măo dupla. Estou pensando na compra de pacotes de enlatados da Europa, principalmente da França e da Inglaterra. Por que só pensar em termos de importaçăo de programas da TV norte-americana? A tendência é fazer um programa só com Chacrinha, possivelmente mais longo, de quatro horas. Por que dar ao Velho Guerreiro a responsabilidade de sustentar a programaçăo de dois dias? É preciso também sair do círculo vicioso em que está a televisăo em termos de profissionais. Quero morar em Săo Paulo para isso, para poder sair às ruas descobrir os bons atores nos muitos grupos de teatro profissional existentes por aí. A inteligência vibra nesta cidade. Por que năo procurá-la? Por que se limitar às mesmas pessoas e às mesmas situaçőes?

A recorrência é mais uma vez à Globo. Walter Clark acha pobre de criatividade a soluçăo de dar título à novela adotando a marca de um sucesso musical. Na sua opiniăo, fica girando em tomo apenas do já criado, do já garantido como sucesso. Isso vem cansando o público e, por causa de tal cansaço, Clark quer sacudir a programaçăo com gente vinda de fora do ambiente da televisăo. Além disso, quer fazer um veículo de comunicaçăo de massas a partir de Săo Paulo. Pensa também num veículo para os jovens. Daí a idéia de um programa que pode vir a se chamar Mocidade Independente ou Mocidade Alegre, idealizado, produzido e apresentado por Nelson Motta.

- Passei 10 anos na TV Rio e 12 anos na Globo. Assumi a Globo em 1965 e só se começou a rodar o taxímetro em 1969. A "Vênus Platinada" passou a existir mesmo a partir de 1974. O trabalho de televisăo năo pode ser feito numa seqüência de passes de mágica, mas deve funcionar a partir de uma infra-estrutura sólida. Corremos o risco e ganhamos ao transmitir o Queen, mas é preciso ter a consciência de que năo teremos 365 Queen por ano. As pessoas que esperam de mim soluçőes miraculosas podem decepcionar-se. Estou aqui ainda na pré-história desse processo."

Na semana passada, Walter Clark demitiu Walter Avancini, e Cláudio Petráglia pediu demissăo. Petráglia acusou-o, pelos jornais locais, de adotar métodos pouco democráticos, disse que ele interveio em sua superintendência sem o consultar e definiu sua política como "de patota". Walter năo se abala. E diz que primeiro teve de pensar numa estrutura definida de programaçăo. "Antes năo havia. A Meridional produzia o programa de Hebe, o patrocinador do Moacyr Franco era responsável pela produçăo de seu programa. E por aí afora. Por isso, trouxe Clemente Neto, um dos três da patota denunciada. Os outros dois săo Eduardo Catinari, que trabalha na criaçăo, e José Ulisses Arce, no Departamento Comercial. Sou um líder e costumo trabalhar em equipe, mas vim só para a Bandeirantes."

- A Globo tem uma produçăo que sai muito cara, seu estilo, seu padrăo, mas năo condiz com a realidade brasileira. Năo dá para adotar o padrăo de produçăo custoso da Globo, aqui. A Bandeirantes năo pode ter mordomias. Por isso, năo considerei aceitável que Avancini ficasse em Săo Paulo, enquanto a Rede gravava uma novela em Salvador, Bahia, e outra em Amparo, no interior de Săo Paulo - explica.

Mas a Globo tem também disponibilidade de recursos para contrataçăo de que năo dispőe Clark em seu novo emprego. E ele já sentiu na pele que essa disponibilidade de recursos é uma arma importante na guerra que começou a ser travada:

1 - No ano passado, com Emerson Fittipaldi em fim de carreira, a Globo năo se interessou pela transmissăo exclusiva das corridas da Fórmula-1. Foi um erro. A Bandeirantes acertou quando conseguiu contratar as transmissőes, pois surgiu o fenômeno Nelson Piquet e o público brasileiro acompanhou a temporada com interesse. Este ano, a Bandeirantes diz ter feito um acordo com a Foca para a transmissăo exclusiva das corridas, por 16 mil dólares cada. Negócio fechado, satélite reservado, transmitida a corrida da Africa do Sul, a Globo entra no circuito, oferece 80 mil dólares e ganha a parada. Mas o Grande Prêmio dos Estados Unidos/Oeste năo foi transmitido ao vivo, mas apenas em flashes, para que a programaçăo normal năo fosse interrompida. Houve irritaçăo por parte dos aficcionados do esporte. A Globo culpou a Bandeirantes pelo bloqueio do satélite. A Bandeirantes garante que ainda detém a reserva do satélite, feita em dezembro, para as próximas corridas, mas diz também que, por decisăo de Walter Clark Bueno, José Roberto Maluf liberou o satélite para a transmissăo de Long Beach. E que também haverá liberaçăo para as próximos corridas.

2 - Em Săo Paulo, a Bandeirantes tem transmitido as partidas mais importantes do basquete. A Globo tentou comprar a transmissăo do Campeonato Mundial de Clubes, patrocinado pelo Sírio. Ofereceu 50% mais do que o oferecido pela Bandeirantes. "Mas eu convenci os diretores do Sírio de que o projeto da Bandeirantes é de apoio ao basquete. E eles fecharam conosco, apesar de a proposta da Globo ser maior" - diz Walter Clark.

3 - Ao assumir a direçăo-geral da Rede Bandeirantes de Televisăo, Walter Clark Bueno anunciou, numa concorrida entrevista coletiva, que as prioridades de sua programaçăo seriam jornalismo e esporte. "O jornalismo de TV está frio e substantivo. Precisamos de análise" -diz ainda hoje. A Globo promete lançar o Globo Revista, com Ênio Pesce e Marco Antônio Rocha como anchormen. "O esporte é uma tradiçăo na Bandeirantes" - garante Clark. A Globo anuncia que "81 é o ano do esporte" e transmite os jogos de futebol com um novo comentarista, o ex-jogador Gerson de Oliveira Nunes.

- A Globo năo pode comprar todas as idéias que eu tiver, porque o mundo é vasto demais. Năo posso jamais concorrer com ela em termos de contrataçăo de profissionais. Mas todo mundo vai se cansar se a Globo preocupar-se demais com essa corrida de gato e rato. Mesmo que eu năo tenha fôlego para acompanhar tal maratona, posso, pelo menos, dizer que sou, em parte, responsável pela melhoria de meu concorrente - diz, sorrindo, o monitor da sala mostrando o jogo Inglaterra x Espanha, enquanto a Globo transmite França x Holanda.

Para Clark, a Bandeirantes é uma rede grande com uma geradora bem-equipada, mas desarticulada. Seu trabalho é o de compor o quebra-cabeças, juntando todas as pedrinhas, entre as quais os equipamentos adquiridos recentemente na França por Joăo Saad, seu diretor-presidente, no valor de 17 milhőes de dólares. "O estúdio está terminando, a emissora da Bahia vai ao ar em abril. Acredito no projeto Os Imigrantes. Estou incentivando Ivani Ribeiro a fazer urna série, possivelmente sobre os problemas da adolescência" - planeja.

- Acredito na televisăo brasileira, na nacionalizaçăo do produto. Quero dar emprego nos mais variados setores e também quero que ela seja uma colcha expressiva da cultura brasileira. Logicamente estou comprometido com o entretenimento, pois estou aqui para conduzir a Bandeirantes ao primeiro lugar, apesar de estar consciente das dificuldades. Sinto-me, aliás, como se estivesse correndo na esteira rolante na contramăo. Ou como se tentasse escalar o muro em cima do qual está o concorrente sempre disposto a pisar em minha măo toda a vez que eu a coloque em cima - diz.

A mesma barbicha bem-cuidada, os cabelos de um preto-vivo, o blazer azul bem-passado, Walter Clark Bueno quer fazer surgir o inesperado no vídeo: "A soluçăo é tirar a rede debaixo do trapezista. O padrăo da Globo é respeitável. Mas às vezes tudo está tăo certinho que o telespectador fica na situaçăo daquela freirinha da piada que implora: "Fala um palavrăo, pelo amor de Deus". Por isso, quero mudar o padrăo da programaçăo horizontal, implantado por mim na TV Rio e estratificado depois na Globo."

"Tirar a rede" năo significa assumir loucuras, garante. Por isso, năo aprovou o pagamento de 10 mil dólares para que o filho de Vittorio de Sicca viesse da Itália para fazer um teste para a novela Os Imigrantes, de cuja produçăo está cuidando Álvaro Moya. "Em Săo Paulo, năo existe nenhum filho de italianos que fale português e seja bonito e bom ator o suficiente para fazer o papel?" - pergunta a um Walter Avancini imaginário.

Ele tem informaçőes de que Avancini foi contratado pela Globo e que possivelmente vai ser responsável por algum grande projeto, apenas para que fique provado que Walter Clark estava errado. "Mas eu estou careca de saber que Avancini é um bom profissional. Afinal, ele fez Gabriela para mim e fez muito bem" - completa o homem que diz ter tirado Hebe Camargo do ar, apesar de simpatizar com ela, porque o programa aos domingos atendia ao interesse do patrocinador, mas năo ao da emissora. "Tentei mudar de dia. O patrocinador estava certo em năo aceitar, pensando em seu interesse. Mas eu năo posso pensar no interesse dele e sim no da Bandeirantes", conclui.

E completa, para encerrar o assunto:

- Năo se faz omelete sem quebrar os ovos.









1981 - Protesto Contra Concessões

Movimento
23/3/1981
Antônio Carlos Ferreira
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O FESTIVAL INFELIZ DA NOVELA DA DISTRIBUIÇĂO DOS NOVOS CANAIS DE TV


Quase ao mesmo tempo em que chegava ao fim a novela "Coraçăo Alado", da Rede Globo, terminara também, na última quinta-feira, a novela da entrega pelo governo federal das duas novas redes de televisăo aos grupos Sílvio Santos e Bloch. Corno nos intrincados enredos de Janete Clair, somente no último capítulo os assassinos foram desvendados o os amores consumados: a Rádio Capital - um novo e suspeito grupo empresarial paulista na área das comunicaçőes e do ensino superior, muito ligado a Pauto Maluf - acabou năo recebendo nenhum canal. Dias antes, ainda corria em Brasília a informaçăo de que a Capital se comporia com Sílvio Santos e Bloch para dividir as redes formadas por sete canais do espólio da Rede Tupi e mais dois outros que estavam desativados.

Os grandes perdedores no episódio săo os grupos Abril e Jornal do Brasil, tidos como francos favoritos no páreo logo após o anúncio da concorręncia, aberta pelo governo em meados do ano passado. Mas, depois de inúmeras composiçőes políticas que movimentaram todos os poderosos ocupantes do Palácio do Planalto - segundo informantes bem, situados na capital federal - eles teriam se dividido no patrocínio de uns e outros grupos - parece ter prevalecido o critério de que esta partilha servirá melhor aos interesses eleitorais do governo, em 82.

Năo que os grupos Abril e Jornal do Brasil pensem, em batalhar pelas cores da oposiçăo nas próximas eleiçőes, Longo disso. O raciocínio do governo é um pouco mais complexo, embora o nível năo seja dos mais altos. Com a entrega dos canais aos grupos Sílvio Santos e Bloch, o governo alinhado seu lado, com mais força ainda, o poderosíssimo grupo Globo - a maior audięncia na televisăo e um dos maiores no campo das comunicaçőes em geral.

O grupo Globo decididamente lutou pela exclusăo da Abril da concorręncia, pois somente ela poderia abalar a sua segura posiçăo atual. A Abril declarava-se disposta a lutar năo pelo segundo lugar entre as redes de televisăo, mas sim pelo primeiro, entrando em choque direto com a Rede Globo. Para isso, a Abri! se propunha a investir até um bilhăo de cruzeiros pr ano (em valores do final do ano passado) na rede que viesse a ganhar.

Por outro lado, a soluçăo Sílvio Santos/BIoch, alem de pequenas rusgas de curta duraçăo, năo afetará o apoio da Abril e do Jornal do

Brasil aos pontos-de-vista do governo, pois săo dois grandes grupos

econômicos que, nos condiçőes peculiares do capitalismo brasileiro, năo sobrevivem sem relaçőes íntimas com o Planalto. E há sempre pręmios de consolaçăo. O Jornal do Brasil, por exemplo, acaba de receber, juntamente com o grupo O Estado de S. Paulo, um enorme e generoso financiamento do governo para a implantaçăo de uma grande fábrica de papel de imprensa.

Ou seja, sabendo que nas suas transaçőes năo corria o risco de perder o apoio de qualquer dos grandes grupos na área das comunicaçőes, o governo resolveu năo criar qualquer dificuldade para o mais forte no ramo da televisăo - o grupo Globo - e, ao mesmo tempo, engrossar o número de órgăos a serviço de seus interesses, através do fortalecimento de empresas médias do setor: o grupo Sílvio Santos, o Grupo Record (associado a Sílvio Santos com quem poderá dividir alguns canais recebidos) e ainda o grupo Capital, que, mesmo após o anúncio da soluçăo governamental năo descartava a possibilidade de uma composiçăo com os ganhadores da concorrência.








1981 - TVs deixadas pela Tupi para Bloch e SS

Jornal do Brasil
20/3/1981
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GOVERNO CONCEDE TVS AOS GRUPOS BLOCH E SÍLVIO SANTOS
Brasília - A TV Manchete (Grupo Bloch) e o Sistema Brasileiro de Televisăo Ltda, (Grupo Sílvio Santos) foram declarados vencedores pelo Governo da concorręncia pública para a exploraçăo de duas novas redes de televisăo. A TV Manchete receberá as concessőes dos canais 6 (Rio), 4 (Belo Horizonte), 6 (Recife), 2 (Fortaleza) e 13 (Săo Paulo), pleiteadas pelo JORNAL DO BRASIL), e o grupo Sílvio Santos com os canais 4 (Săo Paulo), 5 (Porto Alegre), 2 (Belém) e 9 (Rio).

O Ministro das Comunicaçőes, Haroldo Correa de Mattos, após divulgar nota oficial do seu Ministério, explicando a decisăo do Governo, disse que a escolha dos vencedores foi baseada nas condiçőes especiais exigidas nos editais, aceitas por eles, e na experięncia dos proponentes para a exploraçăo de televisăo. O Ministro afastou qualquer cunho político na decisăo.

SEM PRIORIDADE - Reafirmando que a escolha dos vencedores năo foi uma opçăo política, "mas sim uma opçăo fundamentada na experięncia que eles ofereciam", o Ministro Haroldo Correa de Mattos disse que năo sabia de nenhuma preferęncia no relatório elaborado pela Comissăo Especial do Ministério das Comunicaçőes pelos grupos Abril, JORNAL DO BRASIL e Maksoud (Visăo).

- O relatório năo apresentou nenhuma prioridade para um determinado grupo concorrente, pois năo nos cabia fazer isso, e sim analisar as propostas de acordo com as exigęncias e condiçőes especiais contidas nos editais de licitaçăo.

Com relaçăo aos prazos de instalaçăo das duas novas redes de televisăo, o Ministro das Comunicaçőes informou que a partir da assinatura dos contratos esses prazos serăo variáveis, situando entre 15 e 60 dias, e de acordo com a disponibilidade dos equipamentos das emissoras que se encontram bloqueados (penhorados) por decisăo da Justiça, a pedido dos credores (INPS, Receita Federal e FGTS).

O Ministro das Comunicaçőes negou que a empresa Sistema Brasileiro de Televisăo LTDA., um dos vencedores da licitaçăo, e cuja propriedade é atribuída ao empresário Sílvio Santos, possua um canal de televisăo e, por isso mesmo, estivesse impedido de participar da concorręncia. Da mesma forma, Informou que o nome de Sílvio Santos năo consta na relaçăo de acionistas dessa empresa, apresentada na proposta ao Ministério das Comunicaçőes.

SEM RECURSOS - O secretário-geral do Ministério das Comunicaçőes, Rômulo Vilar Furtado, disse que da decisăo do Governo năo caberá recurso, pois a outorga de concessăo para a exploraçăo do serviço de radiodifusăo é da competęncia exclusiva do Presidente da República, e afirmou que a escolha dos vencedores foi baseada exclusivamente nos critérios e nas condiçőes das propostas.

Acrescentou que os novos concessionários deverăo manter negociaçőes com os órgăos governamentais responsáveis pela penhora dos equipamentos das emissoras e informou que as dividas acumuladas com o INPS, Receita Federal e FGTS săo de responsabilidade dos Diários Associados. Os novos concessionários văo assumir apenas as dividas com a Caixa Econômica Federal, relativas aos empréstimos feitos aos ex-funcionários da antiga Rede Tupi de Televisăo, em tomo de Cr$ 500 milhőes.

NOTA OFICIAL - É a seguinte, na íntegra, a nota oficial divulgada pelo Ministro das Comunicaçőes:

"O Governo Federal decidiu adjudicar ŕ Empresa TV Manchete Ltda. a concessăo correspondente ao edital 34/80, e A Empresa Sistema Brasileiro de Televisăo Ltda. - SBT - a correspondente ao edital 35/80, referentes ŕs duas novas redes nacionais de TV, que se achavam em licitaçăo em decorręncia da perempçăo das concessőes da antiga Rede Tupi de Televisăo.

Os decretos de outorga serăo imediatamente assinados, cabendo ao Ministro das Comunicaçőes a prática subseqüente dos atos complementares.

Os contratos de concessăo conterăo, dentre outras, cláusulas especiais relativas ao aproveitamento dos empregados da antiga Rede Tupi, em consonância com as exigęncias dos editais e compromissos assumidos pelos dois concorrentes em suas propostas.

O Governo registra com satisfaçăo que todos os licitantes habilitados apresentaram propostas de elevada qualidade, o que tomou a decisăo tanto mais complexa e revela, por outro lado, confiança de expressivos grupos empresariais no futuro da radiodifusăo brasileira.

COMPROMISSO - Embora o Governo federal tenha decidido, oficialmente, "adjudicar ŕ empresa TV Manchete Ltda a concessăo correspondente ao edital 34180, e ŕ empresa Sistema Brasileiro de Televisăo Ltda - SBT, (Sílvio Santos), a correspondente ao edital 35/80", estabelecendo as duas novas redes nacionais de TV, na verdade há um compromisso verbal de os vencedores da licitaçăo cederem canais, a fim de atenderem a Interesses do Governo.

Ao mesmo tempo, prosseguem em Brasília, Săo Paulo e Rio negociaçőes entre as empresas que obtiveram as concessőes e os grupos liderados pelos Srs Edevaldo Alves (Rede Capital) e Paulo Machado de Carvalho (Record), que procuram conciliar seus próprios interesses com os do Governo.

ESQUEMA - O grupo Bloch (TV Manchete), segundo o esquema em negociaçăo, ficaria, na rede de cinco canais, com os canais 6 do Rio de Janeiro, 13 de Săo Paulo (atual Bandeirantes, que passará ser o canal 9) e 4 de Belo Horizonte (TV Itacolomi), cedendo os canais de Fortaleza (2) e de Recife (6) ŕ Rede Capital. O canal de Săo Paulo terá de ser montado e o de Belo Horizonte encontra-se desativado.

O Sistema Brasileiro de Televisăo Ltda (Sílvio Santos), vencedor da licitaçăo que engloba quatro canais - o 4 de Săo Paulo, o 5 de Porto Alegre, o 2 de Belém e o 9 do Rio de Janeiro - ficaria com o canal de Săo Paulo; venderia o que atualmente tem no Rio de Janeiro ŕ Rede Capital; e a metade dos interesses que detém na TV Record (Paulo Machado de Carvalho) de Săo Paulo, também, ao grupo liderado pelo Sr Edevaldo Alves.

Porto Alegre e Belém seriam divididas pelo Grupo Sílvio Santos com o grupo Paulo Machado de Carvalho. Há, no entanto, a possibilidade de desativaçăo do canal de Porto Alegre, tendo em vista que lá já operam cinco canais.

Havendo acordo entre as partes Interessadas, haveria uma sociedade pró-forma, com prazo de dois anos.

CARTA DE DESISTĘNCIA - No dia da apresentaçăo das propostas aos dois editais de licitaçăo para as duas novas redes de televisăo, o empresário Sílvio Santos encaminhou também, Junto ŕ proposta do seu grupo Sistema Brasileiro de Televisăo Ltda (SBT) uma carta ao Ministro das Comunicaçőes propondo que, se recebesse a concessăo de uma das redes, ele se desfazia (negociava) do canal que tem no Rio de Janeiro (TVS) e abriria măo também da participaçăo dos canais em Săo Paulo, em favor do Sr Paulo Machado de Carvalho, proprietário da TV Record.

Cópia dessa carta, informou-se naquela ocasiăo, teria sido entregue ao Ministro-Chefe do Gabinete Civil da Presidęncia da República, General Golbery do Couto e Silva. Ontem, o secretário-geral do Ministério das Comunicaçőes, Rômulo Villar Furtado, confirmou a carta, afirmando, porém, que ela năo foi considerada, pois năo fazia parte dos documentos exigidos nos editais e năo constava na proposta.

IMPERTINĘNCIA - O porta-voz do Palácio do Planalto, Carlos Átila, considerou "impertinente" a idéia de que os grupos Sílvio Santos e Manchete ganharam as concessőes das duas redes de televisăo, formadas a partir da antiga Tupi por serem mais confiáveis ao Governo.

"Houve uma longa e madura avaliaçăo, A decisăo está dentro da lei", explicou o porta-voz. Segundo ele, "o Governo apenas considerou que estes dois grupos estăo aptos a operarem as duas redes." Ele classificou de "elitistas" as opiniőes. de que estes dois grupos năo estăo Interessados em usar a televisăo em favor da cultura nacional.

HAROLDO EXPLICA ESCOLHA

Sem demonstrar surpresa com as perguntas e com as respostas secas, o Ministro das Comunicaçőes Haroldo Correia de Matos falou ontem sobre a concessăo dos canais de televisăo:

- Nós distribuímos uma nota oficial informando que o edital 34 foi concedido ŕ TV Manchete Ltda. e o edital 35 ao Sistema Brasileiro de Telecomunicaçőes.

- E elas tęm prazo para começar a operar?

- Os prazos que elas apresentaram em suas propostas. Quais săo?

- Ah! minha filha, realmente...

- Incorporaçăo dos ex-funcionários da TV Tupi ... ? (o Ministro năo dava tempo aos repórteres de terminarem suas perguntas).

- Também isso é uma condiçăo do edital.

- A decisăo foi do Presidente da República?

- É uma prerrogativa presidencial. A lei estipula que cabe ao Presidente da República.

- E essa Lei prevę algum critério?

- Os critérios estăo expostos nas condiçőes especiais do edital.

- Dentro dessa problemática das televisőes, houve outras negociaçőes paralelas, ou seja, o grupo do Sistema Brasileiro de ...

- Sempre há negociaçőes paralelas, sempre há. Em qualquer tipo de licitaçăo, em qualquer tipo de negociaçăo, sempre há negociaçőes paralelas. Uma vez que se decida que alguns grupos sejam preferencialmente, ou escolhidos numa primeira fase, sempre há negociaçőes. Isso é absolutamente normal em qualquer tipo de licitaçăo.

- Ministro, fala-se em uma decisăo política, visando as eleiçőes de 1982.

- Năo tem o menor sentido.

- Qual foi o critério, entăo.

- Os critérios foram aqueles especificados das condiçőes especiais e considerados as propostas que melhor atendiam tais condiçőes, além daqueles que dentro desses critérios ofereciam um passado, alguma tradiçăo na área de exploraçăo dos serviços de radiodifusăo.

- O grupo Sílvio Santos tem há algum tempo uma propaganda intitulada o Dia do Presidente. Havia comentários de que aquilo já seria uma tendęncia a... (o Ministro antecipou-se de novo).

- O comentário é livre, senhorita. Cada um pode dizer o que muito bem entender. Ŕs vezes até com alguma Inteligęncia, mas infelizmente Isso năo é muito freqüente,

SEMINÁRIO - O Ministro das Comunicaçőes chegou ontem ŕ tarde ao Rio com meia hora de atraso para fazer uma palestra sobre as Comunicaçőes e a Educaçăo - As Possibilidades de Utilizaçăo dos Meios de Comunicaçőes no Processo Educacional - no seminário promovido pela Fundaçăo Cesgranrio sobre Educaçăo e Desenvolvimento, na Escola de Guerra Naval. Cerca de 70 pessoas ouviram sua palestra no auditório, com capacidade para 500.

Sobre a adoçăo do sistema de multimediçăo pela Telerj - cobrar năo apenas as ligaçőes, mas o tempo de duraçăo de cada uma o Ministro Haroldo Correa de Matos justificou como sendo um objetivo de racionalizar a utilizaçăo dos serviços. "Como se cobra, como se paga a luz pelo consumo, transporte pelas distâncias, as telecomunicaçőes também devem ser cobradas pela sua utilizaçăo", disse.

HONRA E GRATIDĂO AO GOVERNO

"Estamos honrados e gratos ao Governo, nas pessoas do Presidente Joăo Figueiredo e do Ministro Haroldo Correa de Mattos, pela concessăo para operarmos uma nova rede de televisăo.

A nossa razăo de ser e filosofia empresarial e editorial sempre foram o otimismo e a confiança no Brasil. Levamos para a televisăo a mesma mensagem e, como sempre fizemos em nossa empresa, abrigaremos artistas, técnicos e profissionais da comunicaçăo brasileira.

Prestamos homenagens ŕs demais emissoras de TV e ŕ Imprensa do país. Trabalharemos para a cultura, a Informaçăo e o lazer do povo.

Empregaremos todos os nossos esforços e recursos para correspondermos a confiança com que fomos distinguidos. E produziremos uma televisăo que será motivo de orgulho e alegria para todos os brasileiros".

A nota é assinada por Adolpho Bloch, Oscar Bloch Sigelmann e Pedro Jack Kapeller.

OS VENCEDORES

BLOCH - A MÁQUINA DO IMPÉRIO

A Bloch Editores, 390Ş empresa brasileira e líder de um grupo que inclui uma gráfica, uma fábrica de tintas, uma editora de livros didáticos, uma rádio FM e um teatro, começou há 50 anos com uma máquina impressora manual, numa pequena oficina na Rua Vieira Fazenda, 24, em Jacarezinho. Seu principal executivo, Adolfo Bloch, 72 anos, vivia no bairro desde que chegou ao Brasil.

Nascido na Bielo Rússia, em Jitomir, que significa "mundo do trigo" em russo, Adolfo, como é chamado pelos quase 1 mil 500 funcionários de sua principal empresa, migrou com os pais, dois irmăos, seis irmăs e uma prima para o Brasil logo após a vitória da Revoluçăo russa. Em Kiev, na Ucrânia, onde vivia, o pai já se dedicava ŕ indústria gráfica e o dinheiro do Governo Kerenski foi impresso por ele.

Em 1979, com uma receita operacional de Cr$ 1 bilhăo 179 milhőes, a Bloch Editores apresentava um balanço com um crescimento de vendas de 7,4% (acima da média do setor, 6,3%). Segunda do setor gráfico e editorial, com um patrimônio líquido superior a Cr$ 500 milhőes, a empresa é a sexta maior das que operam na indústria da Comunicaçăo Social (jornais, revistas, editoras, rádios e televisăo).

No 100 andar do edifício Manchete, na Praia do Russel, Adolfo Bloch controla todas as atividades, até o preparo - de preferęncia com óleo de milho - das refeiçőes servidas a funcionários e visitantes no restaurante. E é responsável pela ediçăo de mais de 20 revistas, desde as de informaçăo semanal até as especializadas, como Agricultura Hoje, dedicada exclusivamente ŕ economia e técnicas; do setor primário.

O crescimento da empresa começou há 30 anos com a revista: Manchete (tiragem atual 205 mil exemplares). Colorida, com reportagens fotográficas e textos curtos e variadas sessőes sobre gente e espetáculos e sociedade, a revista foi a primeira de uma série - Fatos & Fotos, Ele & Ela, Amiga, Desfile - vários títulos dedicadas a foto novelas e ficçőes femininas, enciclopédias e de informaçőes científicas, com a ediçăo brasileira de Geografia Ilustrada.

SÍLVIO SANTOS - O EMPRESÁRIO DE TV

Săo Paulo - O carioca e filho de gregos Senor Abravanel, 51 anos de idade, casado, é o primeiro empresário da história da televisăo brasileira que saiu da frente das câmeras para gerir uma rede de emissoras de alcance nacional. Proprietário de metade da TV Record, canal 7, de Săo Paulo, e de toda a TV Stúdios, canal 11, do Rio de Janeiro, năo pode, contudo, ser confundido com um empresário jejuno no ramo.

Desde 1968 a marca Sílvio Santos está presente na televisăo brasileira com um programa próprio, iniciado na Rede Globo de Televisăo, transferido para a Rede Tupi e finalmente instalado na TV Record e em sua rede, que se autodenomina de Emissoras Independentes.

O empresário Senor Abravanel também começou cedo: desde que adquiriu do comediante Manoel da Nóbrega a marca Baú da Felicidade, ele só tem prosperado. Do Baú saíram a BF-Utilidades Domésticas e Lojas Tamakavi. Mas a árvore tem muitos galhos e um tronco, a Sílvio Santos Administraçăo e Participaçőes Ltda. holding fundada em 1972 para coordenar as operaçőes do Grupo Sílvio Santos, que detém o controle da TV Studios; do Rio e da TV Nova Friburgo, além de dividir com o grupo liderado por Paulo Machado de Carvalho a propriedade da Rio Record AM, emissora de programaçăo popular e fundada em 1928 em Săo Paulo; FM Record e TV Record, canal 7, emissora que foi recordista de audięncia em Săo Paulo nos últimos anos da década de 60. A TV Imperador. de França, no, interior de Săo Paulo, integra o sistema operacional da Rede Record de Televisăo e Sílvio Santos também é sócio de Paulo Machado de Carvalho na TV Record de Jaú e na Rádio, Jornal e Televisăo Rio Preto Ltda.

Os galhos da árvore Sílvio Santos săo a Baú Financeira S/A. - Crédito, Financiamento e Investimentos, a Baú Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S/A, a Panamericana de Seguros, a Perícia - Administraçăo e Corretagem de Seguros, a Vimave - Vila Maria Veículos, - Liderança Capitalizaçăo e a BF-Parque Florestal. Mas Senor Abravanel. também foi o primeiro empresário brasileiro a ser autorizado pelo Governo federal a vender planos de previdęncia privada e hoje tem cerca de 200 mil previdenciários.

CAPITAL - O COMEÇO COM A RÁDIO

Săo Paulo - Há quatro anos, quando comprou a desconhecida Rádio Novo Mundo, pertencente a empresários ligados a grupos políticos de extrema direita, o advogado Edevaldo Alves da Silva, 51 anos, paulista, de Carmópolis, era completamente desconhecido no mundo da comunicaçăo de massas.

A marca da emissora foi mudada para Rádio Capital, foi feito um Investimento maciço em publicidade, apelando para o fato de a emissora ser localizada nos primeiros números do dial e, rapidamente, formada uma rede de emissoras de rádio que atinge sete cidades do país e ainda controla a TV Brasília, na Capital Federal.

A Rede Capital de Rádio está presente em Porto Alegre, Curitiba, Juiz de Fora, Brasília, Rio Branco e Rio de Janeiro, além de Săo Paulo.

Ligado ao grupo político liderado pelo Governador de Săo Paulo, Paulo Maluf, o advogado Etevaldo Alves da Silva sempre foi conhecido em Săo Paulo por ser proprietário das Faculdades Metropolitanas Unidas - FMU - uma rede de estabelecimentos de ensino de nível superior que cresceu muito mais vertiginosamente ainda do que sua rede de emissoras de rádio.

Atualmente, a FMU tem 16 unidades e pode ser considerado um verdadeiro Império educacional, apesar de um ex-membro do Conselho Federal de Educaçăo, professor Zeferino Vaz, definir seus cursos como "cięncia da ensalivaçăo", uma vez quę năo exigem a instalaçăo de laboratórios sofisticados, mas apenas aulas dadas ao vivo diante de um quadro negro por professores. Economia, Direito e Administraçăo de Empresas săo os cursos mais, procurados da organizaçăo, acusada por seus detratores de ser uma "fábrica de diplomas".

Essas acusaçőes năo impediram contudo que seu proprietário, que se orgulha até hoje de ter sido engraxate e balconista de farmácia, haver aplicado, em 1977, quando deu a partida para sua rede de comunicaçăo electrônica de massa, Cr$ 300 milhőes para a instalaçăo de um novo conglomerado, as Faculdades Integradas Alcântara Machado, especializadas em Comunicaçăo Social, cujas salas abrigam alunos de Jornalismo e o piano do virtuose Joăo Carlos Martins.

PRINCÍPIO E FIM DE UMA TELEVISĂO

Brasília - A eclosăo da greve dos funcionários da TV Tupi de Săo Paulo, em maio do ano passado, por falta de pagamento de salários, e depois a vinda desses funcionários ŕ Brasília, se instalando no Congresso Nacional e estendendo o movimento para uma "greve de fome" até que o Governo resolvesse a situaçăo, foram os fatos que levaram o Governo a decidir pela extinçăo da Rede Tupi de Televisăo, pertencente ao Condomínio dos Diários Associados.

Dois meses depois, no dia 17 de julho, por recomendaçăo do Ministério das Comunicaçőes, o Presidente Joăo Figueiredo assinou os decretos declarando peremptas, isto é, năo renovando as concessőes, de sete estaçőes da Rede Tupi de Televisăo: TV Tupi de Săo Paulo, canal 4; TV Tupi do Rio de Janeiro, canal 6; TV Itacolomi de Belo Horizonte, canal 4; TV Rádio Clube de Recife, canal 6; TV Marajoara de Belém, canal 2; TV Piratini de Porto Alegre, canal 5; e TV Rádio Clube de Fortaleza, canal 2.

CARTA DE FARHAT - Simultaneamente ŕ divulgaçăo dos decretos tomando peremptas as concessőes das sete emissoras de TV da Rede Tupi, o entăo Ministro da Comunicaçăo Social, Said Farhat, em carta pessoal ao Presidente dos Radialistas de Săo Paulo, Alberto de Freitas, e ao representante dos grevistas, Humberto Mesquita, explicava os motivos da decisăo do Presidente da República. E afirmava que "o ato era apenas a conseqüęncia, já tardia, da situaçăo em que se encontravam as empresas do Grupo Associados, descumprindo a lei e faltando aos mais elementares deveres de justiça social com seus empregados".

Acrescentava o Sr Said Farhat que, ao declarar peremptas as concessőes, a preocupaçăo do Governo em de encontrar rapidamente novos cessionários que pudessem manter aberto o mercado de trabalho, assegurando a possibilidade de realizaçăo profissional dos técnicos, dos artistas e dos demais empregados das emissoras.

Para garantir a sobrevivęncia dos empregados das emissoras, da Rede Tupi de Televisăo até a volta do seu funcionamento com os novos concessionários, o Governo, por sugestăo do Ministério do Trabalho, autorizou a Caixa Econômica Federal a conceder empréstimos a todos os funcionários através do seus sindicatos correspondentes. Incluiu, Porem, em uma das cláusulas dos editais que esses recursos, concedidos a título de empréstimos aos funcionários desempregados, seriam ressarcidos pelos futuros concessionários das emissoras de TV.

FECHAMENTO DAS ESTAÇŐES - Um dia após a divulgaçăo dos decretos de perempçăo, no dia 18 de julho, o diretor-geral do Departamento Nacional de Telecomunicaçőes - Dentel Coronel Antônio Fernandes Neiva, determinou o fechamento de todas as emissoras constantes nos atos presidenciais, interrompendo as transmissőes e lacrando os transmissores.

Essa ordem foi transmitida via telex, tăo logo o diretor-geral do Dentel tomou conhecimento da divulgaçăo dos decretos no Diário Oficial da Uniăo. A imprensa divulgou na época cenas de emoçăo e constrangimento dos funcionários das emissoras punidas, quando os fiscais do Dentel interrompiam as programaçőes e lacravam os transmissores.

Sete dias depois dessa decisăo, o Ministro das Comunicaçőes, Haroldo Correa de Mattos, autorizou a abertura de editais de licitaçăo para os canais de televisăo fechados e mais dois que estavam em disponibilidade, um no Rio de Janeiro (canal 9) e um canal em Săo Paulo (canal 9), ambos devolvidos pelo JORNAL DO BRASIL ao Ministério das Comunicaçőes.

Nesse mesmo dia, também, o Ministro Haroldo Correa de Mattos assinou portaria criando uma comissăo especial, presidida pelo secretário-geral do Ministério, Rômulo Villar Furtado, com a responsabilidade específica de analisar as propostas apresentadas e indicar, em parecer, as entidades concorrentes que cumpriram todas as exigęncias dos editais de licitaçăo.

AS PROPOSTAS - No dia 29 de setembro do ano passado foi encerrado o prazo oficial para a apresentaçăo das propostas. Apresentaram-se as seguintes empresas para a concorręncia dos editais: edital 34/80, Rádio JORNAL Do BRASIL LTDA., Visăo Rádio e TV-Sociedade Civil Ltda., TV Manchete Ltda., Rede Rondon de Comunicaçőes Ltda., Televisăo Abril Ltda., Rádio e TV Universitária Metropolitana Ltda. (Grupo Capital), Rede Pirapitinga de Rádio e TV Ltda., Sistema Brasileiro de Comunicaçőes, Sistema Brasileiro de Televisăo Ltda. (grupo Sílvio Untos); edital 35/80, Visăo Rádio e TV, Sociedade Civil Ltda., TV-Manchete Ltda., Televisăo Abril Ltda. e Sistema Brasileiro de Comunicaçőes Ltda.

Em novembro desse mesmo ano a comissăo entregou seu parecer ao Ministro das Comunicaçőes, considerando desclassificadas as seguintes concorrentes: Rede Rondon de Comunicaçőes Ltda., Rede Piratininga de Rádio e TV Ltda. e Sistema Brasileiro de Comunicaçőes Ltda. Após aprovar o parecer da comissăo, dez dias depois, o Ministro das Comunicaçőes, em exposiçăo de motivos o encaminhou para aprovaçăo do Presidente da República.

1981 - Concessões da Manchete e SBT

O Estado de S. Paulo
20/3/1981
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AS NOVAS TEVÊS
Em decisăo do governo anunciada ontem em Brasília pelo ministro Haroldo de Mattos, das Comunicaçőes, os grupos Manchete (de Adolpho Bloch) e Sistema Brasileiro de Televisăo - SBT (ligado a Sílvio Santos) foram os ganhadores da concessăo. Em Săo Paulo, a Manchete ficou com o canal 9 e o SBT com o canal 4.

O ministro Haroldo de Mattos, das Comunicaçőes, anunciou ontem, em Brasília, o nome dos que receberam a concessăo dos canais de televisăo, aberta em conseqüęncia do vencimento das concessőes dadas ŕ Rede Tupi.

Em nota oficial, o Ministério das Comunicaçőes afirma que "os contratos de concessăo conterăo, entre outras, cláusulas especiais relativas ao aproveitamento dos empregados da Rede Tupi, em consonância com as exigęncias dos editais e compromissos assumidos pelos dois concorrentes em suas propostas".

Esses dois concorrentes - os vencedores - săo a TV Manchete (ŕ qual couberam os canais 9 (Săo Paulo), 6 (Rio de Janeiro), 5 (Belo Horizonte), 6 (Recife) e 2 (Fortaleza); e o Sistema Brasileiro de Televisăo - SBT (ligado a Sílvio Santos, mas que está em nome de Cármem Abravanel), ao qual couberam os canais 9 (Rio de Janeiro), 4 (Săo Paulo), 5 (Porto Alegre) e 2 (Belém do Pará).

Segundo a nota do governo, os vencedores năo pagarăo a dívida do grupo Associado COM o INPS e cada um terá um prazo determinado para colocar em funcionamento os novos canais de televisăo.

Ŕ tarde, no Rio de Janeiro, o ministro Haroldo de Mattos, negou comentários de que houve caráter político na atribuiçăo das concessőes, garantindo que o julgamento se baseou no retrospecto dos candidatos em serviços de radiodifusăo, avaliado entre as propostas "que melhor atendiam aos termos do edital".

- Năo tem sentido falar-se em decisăo política - afirmou o ministro, pois o resultado baseou-se nos termos do próprio edital. Os comentários săo livres, mas, infelizmente, é muito raro que sejam acertados, e esse fato é mais uma prova de que estou dizendo.

O ministro comentou ainda que a decisăo presidencial é conseqüęncia de uma prerrogativa do carga, admitindo que houve negociaçőes paralelas "que viabilizaram o resultado nos termos anunciados":

- Em toda licitaçăo desse tipo - disse Haroldo de Mattos - existem negociaçőes paralelas entre os grupos Interessados. Năo há nada de mais nisso e năo vejo por que o interesse.

Depois de muita insistęncia dos repórteres, o ministro concordou em revelar os critérios da decisăo, garantindo ainda que os funcionários da Rede Tupi serăo absorvidos pelos grupos vencedores.

Em Brasília, nos bastidores políticos, os comentários eram de que o governo se utilizou de critérios políticos para fazer a sua escolha.

Lembrava-se que a decisăo presidencial sobre a concessăo das duas redes de televisăo para os grupos Manchete e Sílvio Santos já estava tomada há mais de um męs e que, no entanto, havia interesse oficial em favorecer o grupo Paulista da Rádio Capital (dirigida pelo advogado Edvaldo Alves da Silva).

Como năo houve uma composiçăo que integrasse o grupo Capital, ministro Golbery do Couto e Silva, chefe, da Casa Civil, chamou para uma audięncia os empresários Oscar Bloch (Manchete) e o próprio Sílvio Santos, durante a qual ficou definida a atribuiçăo das concessőes.

Os critérios adotados pelo governo, comenta-se, foram políticos, como inclusive teria admitido o ministro Haroldo de Mattos, há meses atrás, uma vez que tanto o Jornal do Brasil quanto a Editora Abril apresentariam condiçőes técnicas para vencer a concorręncia.

Admite-se que o general Otávio de Medeiros, chefe do SNI, teve particular influęncia na decisăo final, favorecendo a tese considerada mais comum no Palácio do Planalto de que redes de televisăo, mesmo como concessăo do governo suscetível a cassaçăo, năo deveriam ser entregues a grupos interessados em Jornalismo informativo e político, com a independęncia permitida em lei (porque em vista disso poder-se-iam tomar críticas do governo). Ter-se-ia optado entăo pelo otimismo, pelo descompromisso e pela segurança dos amigos supostamente fiéis ao governo.

Tal como acontecera com as declaraçőes do ministro das Comunicaçőes, ontem pela manhă em Brasília e ŕ tarde no Rio, o porta-voz do Palácio do Planalto, Carlos Atila, horas depois do anúncio da decisăo presidencial, năo quis fazer comentários sobre especulaçőes de que teria havido um critério político na avaliaçăo do governo.

A pergunta dos repórteres sobre se teria havido uma decisăo política (Sílvio Santos foi citado como uma pessoa que "năo tem grande preocupaçăo com a cultura"), Átila respondeu: "Eu acho essa avaliaçăo totalmente subjetiva e impertinente".

Os repórteres, insistindo, perguntaram ainda se o grupo Sílvio, Santos teria contribuído de alguma forma, com os seus programas, para o bem da cultura brasileira. A resposta foi a de que o programa modelo de Sílvio Santos tem grande audięncia:

- Há pessoas interessadas de maneira que eu acho que esse tipo de avaliaçăo que vocę (o repórter) está fazendo é antipopular e elitista. Eu acho, inclusive, que é uma orientaçăo, em matéria de pensamento sobre comunicaçăo, extremamente perigosa. Vocę pressupőe que vocę julgue pelos outros; que as pessoas năo tęm capacidade de opçăo. Se vocę levar um pouco adiante esse tipo de raciocínio, vocę chega ŕ convalidaçăo da idéia de censura - afirmou o porta-voz do Palácio do Planalto.

LUTO

A manifestaçăo do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusăo e Televisăo do Estado de Săo Paulo foi de duras críticas ŕ decisăo do governo.

De uma janela do prédio do sindicato (na rua Conselheiro Ramalho) ficou estendida uma tarja negra, "em repúdio ŕ concessăo feita pelo governo". Em sua nota oficial, o sindicato diz:

"O Sindicato dos Radialistas do Estado de Săo Paulo vem a público para manifestar a sua mais profunda estranheza com a decisăo adotada pelo governo federal em relaçăo ŕs duas novas redes de televisăo. O Ministério das Comunicaçőes anunciou a entrega de uma rede para o sr. Adolpho Bloch e outra ao grupo da sra. Cármem Abravanel, do Sistema Brasileiro de Televisăo que, na realidade, é a máscara onde se esconde o sr. Sílvio Santos. Muito embora o sr. Ministro Haroldo de Mattos tenha afirmado que os dois grupos ganhadores possuem experięncia no ramo, a verdade é que o titular da pasta das Comunicaçőes năo percebeu que o vencedor da rede referente ŕ licitaçăo 35/80 foi dona Cármem Abravanel e năo Sílvio Santos e que, portanto, ela jamais esteve ligada a qualquer órgăo dessa área, enquanto o sr. Adolpho Bloch é proprietário de uma năo muito promissora editora de revistas. Foram ganhadoras as duas piores propostas. A rigor, um dos dois ganhadores nem deveria estar participando da licitaçăo, porque era impedido por lei. Mas, o sr. Sílvio Santos burlou a lei e entrou na concorręncia com testa-de-ferro. O Sindicato dos Radialistas está de luto como de luto estăo todos os trabalhadores desta área de comunicaçőes audiovisual. Um dos ganhadores, o sr. Adolpho Bloch, já fala numa rede para exibir filmes, enquanto que o outro está preocupado com o seu Baú de Felicidade para a venda de carnęs. Lamentamos profundamente a insensibidade do governo na hora de tomar essa decisăo. Mais uma vez, o trabalhador brasileiro foi marginalizado a um plano secundário; mais uma vez os interesses dos trabalhadores foram esmagados pela ganância e ambiçăo dos poderosos. O governo decidiu sem pensar no problema do mercado de trabalho. Falamos que o sr. Sílvio Santos năo vai absorver essa măo-de-obra proveniente da antiga Tupi. Por convenięncia política, ele poderá contratar inicialmente; mas, em seguida, iniciará processo de dispensa".

No final, a nota faz uma enumeraçăo de itens em razăo dos quais năo acredita que Sílvio Santos observará as leis trabalhistas e o mercado de trabalho. No item d (o final), a nota declara:

"O sr. Sílvio Santos através do que nos tem demonstrado na emissora do Rio de Janeiro, ao invés de contratar trabalhadores se vale de enlatados".

No Rio Grande do Sul, existe preocupaçăo em relaçăo ŕ concessăo da TV Piratini a Sílvio Santos. Essa preocupaçăo ficou expressa ontem, em declaraçőes feitas por Ciro Machado, presidente do Sindicato dos Radialistas e por Estácio Ramos, ex-diretor-presidente do canal cassado.

Visivelmente irritado, o representante dos Diários e Emissoras Associados em Porto Alegre, Estácio Ramos, e hoje responsável somente pela rádio Farroupilha (também do grupo Associados), disse ontem que "a situaçăo financeira da TV Piratini interessa apenas ŕ direçăo da empresa e a seus credores".

Apreensivo, Ciro Machado declarou, por sua vez, que considera Sílvio Santos "um mau empresário, que năo assume responsabilidades com o trabalho e, todos sabem, só trabalha mediante prestaçăo de serviços e cachęs". O mercado de trabalho, com a concessăo a Sílvio Santos, năo deverá melhorar: "Sílvio Santos só trabalha com enlatados disse Ciro Machado - e já temos a TV Pampa que năo ocupa măo-de-obra e năo faz nenhuma programaçăo local".

Roberto Jares Martins, diretor-superintendente da TV Marajoara, garantiu que o grupo Sílvio Santos (que ficou com o esse canal de TV, o 2) poderá colocá-lo em, funcionamento "no mais curto prazo possível, porque a TV Marajoara saiu do ar funcionando e temos dado toda a manutençăo possível ao seu equipamento, ligando-o diariamente".

Para jornalistas e empresários do setor, a decisăo do governo foi essencialmente política e năo técnica. Comentava-se ontem em Belém que boa parte dos canais ganhos por Sílvio Santos e pelo grupo Manchete seriam transferidos para a Rede Capital, inclusive a TV Marajoara, atendendo-se com isso a interferęncia do governador Paulo Maluf.

Em Minas Gerais, os 239 empregados demitidos pelos Diários Associados em julho do ano passado, com o fechamento da TV Itacolomi, de Belo Horizonte, receberam com reservas a decisăo do governo quanto ŕ concessăo dos canais a Sílvio Santos e Manchete.

O secretário do Sindicato dos Radialistas em Minas, Romeu Queiroz, explicou que o sindicato já começou a mobilizar, desde ontem os demitidos, "para orientá-los quanto ŕs negociaçőes com o grupo Manchete sobre o aproveitamento de pessoal estabelecido pelo edital".

No Recife, o ex-superintendente da TV Tupi, Ricardo Pinto, disse que a confiança na decisăo do presidente Figueiredo deve ser ressaltada - comparando aqueles "que duvidaram da volta do canal 6 com aqueles que duvidaram e duvidam do projeto de abertura do mandatário máximo da naçăo brasileira".

BLOCH, EMOCIONADO. E FAZENDO PROMESSAS.

A notícia de que o grupo Manchete ganhou a concessăo, junto com o grupo ligado a Sílvio Santos, foi recebida pelo empresário Adolpho Bloch durante o almoço em que ele homenageava Regine Chokrown (discutida personalidade do jetset internacional). Bloch recebeu a notícia por intermédio de um telefonema do sobrinho Oscar Bloch, que se encontrava em Brasília.

E o próprio Adolpho Bloch se encarregou de transmitir ŕs demais pessoas presentes a informaçăo recebida de Brasília.

A direçăo da empresa negou que Adolpho Bloch houvesse viajado logo em seguida para Brasília, em um táxi aéreo a fim de agradecer pessoalmente ao presidente Figueiredo.

Os jornalistas que foram ao prédio da Bloch Editora em busca de informaçőes do como fora recebida a notícia da concessăo, năo puderam entrar no prédio da Manchete, localizado na praia do Russel, no Rio. Barrados pela segurança, os repórteres receberam ao mesmo tempo, de uma recepcionista, a informaçăo de que a empresa divulgaria mais tarde uma nota oficial pelo telex, diretamente para a redaçăo de cada jornal.

Ŕ tarde, ontem, funcionários da revista Manchete revelaram que a direçăo do jornalismo da TV Manchete seria entregue a Roberto Paulino e a direçăo geral a Alexandre Garcia, ex-porta-voz do Palácio do Planalto (demitido pelo ex-ministro Said Faraht, depois de ter dado uma entrevista ŕ revista Ele e Ela, da Bloch).

Apesar da emoçăo revelada por Adolpho Bloch, durante o almoço oferecido a Regine Chokroum, funcionários do grupo Manchete afirmaram que a decisăo do governo já era esperada e tida como certa a concessăo só ontem oficialmente confirmada. Citaram como exemplo a presença quase diária, no prédio da praia do Russel, de vários técnicos especializados que a Rede Globo colocou ŕ disposiçăo da Manchete.

Entre esses profissionais encontra-se o coronel Herbert Piuza, considerado um dos técnicos mais qualificados da área de engenharia da TV Globo, no Rio de Janeiro.

Na nota oficial divulgada ontem ŕ noite, o grupo Manchete se diz honrado e grato ao governo, nas pessoas do presidente Figueiredo e do ministro Haroldo de Matos, das Comunicaçőes. A nota, assinada por Adolpho Bloch, Oscar Bloch e Pedro Jack Kapeller, afirma que a Manchete, através das suas emissoras de TV, "trabalhará para a cultura, informaçăo e o lazer do povo", e termina assegurando: "Produziremos uma televisăo que será motivo de orgulho para todos os brasileiros".

A REDE CAPITAL, AINDA DENTRO DAS NEGOCIAÇŐES

Embora tenha sido eliminada da concorręncia oficial, a Rede Capital, que participou de várias negociaçőes no Palácio do Planalto, poderá negociar diretamente com as novas concessionárias. Por algum tempo, a Rede Capital foi considerada como uma das escolhidas e, somente nas últimas negociaçőes, acabou eliminada. O presidente do grupo, Edvaldo Alves da Silva, considerou a concorręncia "limpa", afirmando que o "governo é sábio e sabe o que faz", acrescentando: "As negociaçőes foram paralisadas, nós fizemos uma proposta e agora o governo decidiu".

Agora, a expectativa de negociaçăo é entre os próprios participantes do Sistema Brasileiro de Televisăo, o empresário da Paulo Machado de Carvalho (da TV Record) e o empresário Sílvio Santos.

Os dois participam da SBT, através de representantes, já que săo concessionários de canais no Rio e em Săo Paulo e que, por lei, năo teriam direito a um segundo canal em uma só, localidade.

Conforme explicou ontem Paulo Machado de Carvalho (que divide com Sílvio Santos a TV Record), o seu interesse era ganhar um canal no Rio de Janeiro e, o de Sílvio Santos, o canal em Săo Paulo.

Sílvio Santos ficará com o canal 4 de Săo Paulo (que tem uma dívida a ser assumida com a Caixa Econômica, em tomo de 400 milhőes de cruzeiros, segundo Machado de Carvalho) e sairá da sociedade que mantém com a Record.

- Isso já estava previsto quando entramos na licitaçăo - explicou Machado de Carvalho - e provavelmente Sílvio Santos terá preferęncia na escolha de dois outros canais da rede que conseguiu em Porto Alegre e Belém, porque ele ficou com o "osso" (o canal endividado e os funcionários antigos) e eu com um canal novinho e sem problemas no Rio de Janeiro.



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