Thursday, June 17, 2010

1988 - O Fenômeno Vale Tudo

Jornal do Brasil
2/6/1988
Márcia Cezimbra
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A HUMILHADINHA DO BRASIL
Raquel, personagem de Regina Duarte na novela Vale tudo, se entristece com o Brasil, mas resiste otimista.

Regina Duarte entrou no barato da Raquel, a personagem que exige uma revoluçăo ética na 18Ş novela da atriz -um folhetim eletrônico chamado, apropriadamente, de Vale tudo, ŕs 20h30min, na Globo. Regina e Raquel năo querem discutir o mandato de Sarney, e tampouco as frustraçőes da Constituinte, mas estăo indignadas com o aumento diário do preço, por exemplo, do tomate. "Năo quero fazer análises do país como a Malu (a personagem feminista que interpretou em Malu mulher). Para mim e para Raquel, basta saber que, hoje em dia, a gente tem de rebolar para comer um tomate. É uma coisa minha entrar no barato da personagem e agora sou Raquel." A perplexidade da atriz com o Brasil é tanta que se pudesse prever, por exemplo, o desastre do Plano Cruzado I, jamais teria subido em 85 no palanque do amigo Fernando Henrique Cardoso, do PMDB. "Ainda bem que năo tenho o dom da previsăo, senăo estaria trancada em casa, com a cabeça enterrada num buraco", diz.

O povo, porém, năo seria um avestruz. O brasileiro é antes de tudo "um bravo", na opiniăo de Regina Duarte, por resistir a duras penas sem entregar os pontos. Uma naçăo com a cara de Raquel. "Ela năo fica paralisada pela depressăo. A Raquel chora, grita e se entristece, mas resiste como os brasileiros. Acho horrível a impotęncia e a depressăo. A realidade é que está todo mundo triste", diz.

Nada mais impróprio, portanto, do que dar ŕ Raquel o velho titulo de namoradinha do Brasil. Um rótulo, aliás, "conquistado com muita garra e trabalho", do qual Regina Duarte se orgulha muito, embora reconheça que seu uso tenha, muitas vezes, um tom pejorativo. "A Raquel é mais complexa do que uma doce namorada. Ela é a grande humilhada nacional e, como todo ser humilhado, parece idiota. O povo brasileiro também parece idiota. É o grande bobo desta corte. O palhaço." A meiguice que desde A deusa vencida, em 65, ajuda a construir a história da televisăo cede lugar agora ŕ humilhaçăo. No ar, a humilhadinha do Brasil.

Um papel que Regina Duarte fez questăo de fazer num momento que considera "de caos total". O escritor Gilberto Braga teria lhe oferecido o papel de uma mulher rica e má, que ele recusou, para dar força ŕ multidăo, mergulhada numa guerra civil. "Eu pensei na Malu, que deu tanta força ŕs mulheres, e queria dar ŕ populaçăo tăo sofrida alguém que acreditasse na força do trabalho. Que sua ambiçăo năo atropelasse quem está ao lado", diz.

A tal guerra civil, na opiniăo da atriz, "está ai", e certamente ficará ainda pior quando se acabarem todas as Raquel, năo só pelas injustiças sociais, mas por uma decadęncia grave de valores. A atriz chegou a temer que Raquel năo resistisse ao sofrimento dos primeiros capítulos, quando perdeu o pai, foi traída pela filha Maria de Fátima (Glória Pires) e ainda foi assaltada. Agora que Raquel "já está até namorando Ivan (Antônio Fagundes)", o medo de Regina é outro, de que uma bandeira radical de honestidade pareça irreal ŕ natureza de erros e tentaçőes do ser humano. "Năo quero ser uma marciana, mas uma brasileira. Isso é só uma suspeita, porque até o capitulo 30 Raquel está sensacional", diz.

A "unanimidade nacional" Roque Santeiro, aclamado por uma suposta elite intelectual a que Regina diz năo dar "a mínima bola", foi outro temor da atriz. "Eu aprendi com Roque que as unanimidades săo perigosas, por inibirem o movimento criativo. Depois da Porcina, me perguntava o que seria de mim", diz.

Uma bobagem típica da Raquel. Afinal, depois de Porcina vale tudo. O aplauso da elite tampouco entusiasmou a veterana atriz. "A elite é perigosamente instável, porque tem o privilégio de ter muitas opçőes de alimento cultural. Entăo, se năo gosta da novela, que vá ver Baryshnikov em Nova Iorque, ou qualquer outra coisa chique, porque novela năo foi feita para a elite", diz.

Apesar do atual estilo Raquel, a atriz năo deixou de agitar movimentos políticos junto ŕ Constituinte. Regina participou das lutas do Sindicato dos Artistas do Rio pelo direito autoral e pelo fim do monopólio das redes de televisăo. "E preciso um projeto de emissoras regionais, que impeça o monopólio cultural do Rio e de Săo Paulo. Cada regiăo tem o direito de se expressar."

Um dos motivos de perplexidade, porém, seria a Lei Sarney e seus critérios de aplicaçăo que, há mais de um ano, impedem o financiamento de seu filme, O jogo do silęncio.

"Acordo todo dia me perguntando que país é este, onde o dinheiro vive rendendo juros ou viajando em malas secretas para o exterior."

O filme, calculado em US$ 500 mil, conta a história de um casal que já năo consegue conversar - "uma crise de todos os casais" - e vence a incomunicabilidade através de bilhetinhos cada vez mais provocantes e erotizados. Regina Duarte disse que năo tem "nada contra" os bancos usarem a Lei Sarney para comprar entradas do Nureyev e dar a clientes preferenciais, e tampouco que o banco Multiplic obtenha benefícios para financiar o longa As aventuras de Juba e Lula, os heróis da Armaçăo ilimitada. "Quero apenas participar da festa. Eu também quero brincar."

O jogo do silęncio tem roteiro da própria Regina (ela estreou como roteirista no seriado Joana) e direçăo de seu marido, Antônio Rangel. Apesar do casamento com um diretor de novelas (Rangel, o Déo, dirigiu O outro), a atriz năo se inibe em citar seus diretores preferidos: Walter Avancini e Daniel Filho, que lhe ensinaram "muito", Dęnis Carvalho, que diz "adorar", e Paulo Ubiratan, "contra toda a ordem atual que deseja crucificá-lo por ter batizado suas quatro safenas com nomes de atores."

Regina Duarte revela que teve várias enxaquecas que poderiam ser também batizadas. "Isso faz parte do jogo. Meu pai sempre diz: năo quer gozar representando? Entăo tem de pastar de vez em quando."

O susto do público com o realismo de Vale tudo chega até a divertir Regina Duarte. "A realidade é tăo escancarada que a gente precisa da ficçăo para poder enxergá-la. Isso é comum. Sempre ouvi que Malu provocaria desquites, quando a personagem foi o resultado de milhares de desquites." Ela gosta do oba-oba em torno das denúncias de falta de ética da novela, mas acha que a realidade dos grandes crimes, dos grandes desvios de dinheiro público e negociatas fraudulentas năo está em Vale tudo. "As pessoas jogam agora a culpa no coitado do bombeiro que leva vantagem, quando, a decadęncia vem da cúpula dirigente do Brasil", comenta. E, para quem acha forte o texto de Vale tudo, a atriz dá uma informaçăo fresquinha, "de fonte segura", sobre o presidente das Organizaçőes Globo: "O Roberto Marinho adora a novela."

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