Friday, June 25, 2010

1977 - Jornalistas que Cobrem a TV

Opiniăo
28/1/1977
Dermeval Coutinho Netto e Delfim Afonso Jr.
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PARA LER O COLUNISMO DE TV
Inscrita no centro do chamado jornalismo de serviço que nos presta a imprensa de cada dia e cada semana, uma das séries mais emergentes e com grande rentabilidade simbólica, é aquela dedicada ao comentário e ŕ informaçăo sobre a TV.

Integrada, sob o signo do lazer e da diversăo, a outras ofertas do instigante e cotidiano cardápio de espetáculos, essa modalidade de noticiário e colunismo passou a ganhar estatuto próprio de imprensa especializada, incumbida do registro assíduo da variedade televisiva, a realimentar e administrar o fascínio do publico por este meio e seus artigos. Sua proposta manifesta é a de dar ordem ao material exibido na televisăo, oferecendo planos para sua leitura anedótica.

"O casamento de Leda Maria (Bety Faria) e Dino (Mário Gomes) é uma das surpresas que Janete Clair guarda para a metade de Duas Vidas. Mas o casamento năo dará certo e o desquite também já foi incluído nos planos de Janete." (Coluna de Ely Halfoun, Revista UH, 12/1/77).

Ocupando oficialmente o espaçodo segundo caderno dos jornais, esta imprensa tenta romper as amarras que aí a fixaram (como imprensa menor de uma arte menor ao lado de colunismos de maior status como os do teatro, do cinema e da música) para fundar seu próprio espaço, cumprindo um trajeto de emancipaçăo: a imprensa da TV passou, até certo ponto, a prescindir da companhia das outras atraçőes do trivial da cultura, na medida em que se organizou como uma imprensa particular.

Seu domínio é o do seu corpus específico, constituído pela variedade de motivos que propicia a TV, estando, por outro lado, a referir-se a todo o real que se sujeita ŕ apropriaçăo operada pela TV. O noticiário sobre a TV acaba por ser o noticiário da vida que se tornou espetáculo.

O que năo significa, de nenhum modo, a independęncia desta atividade jornalística ŕ da grande imprensa: da mesma forma que a TV é solidária ao real, ocorre uma relaçăo de solidariedade entre o jornal da TV e os outros espaços de trabalho da grande imprensa. E é a ocupaçăo da vida social, levada a efeito pela TV, que realiza um de seus momentos mais expressivos no crescimento desta imprensa a ela dedicada; e na sua interaçăo com o grande conjunto jornalístico. A TV como freqüente assunto de pauta torna-se um motivo e uma oportunidade para a garantia do sucesso junto ao leitor.

"O mais alto salário da Hollywood brasileira sai fora da área das telenovelas para cair na do humor - é o de Chico Anísio -250.000 cruzeiros, basicamente para fazer Chico City e aparecer no Fantástico. Quanto aos demais, torna-se praticamente impossível apurar. Primeiro, porque eles năo contam - ou mentem. Sabe-se no entanto que os superstars - Francisco Cuoco, Regina Duarte, Tarcísio Meira e Glória Menezes - ganham ordenados seguramente superiores a 100.000 cruzeiros." (reportagem "O futuro de um império", Revista Veja, 6/10/76).

A imprensa da TV tem por funçăo anunciar que o mundo da televisăo năo está separado do mundo do telespectador. A convivęncia com os grandes ídolos ou com as propostas que se encontram convertidas em programaçăo năo é dada apenas no momento do televisor ligado. Há toda unta estratégia de seduçăo que corre em regime de full-time, fazendo com que o público reconheça o cotidiano da TV no seu cotidiano e vice-versa. A fala da TV năo é apenas sua transmissăo eletrônica, mas também a que se transcreve, ou a que se transporta. Ela é a totalidade de sua expressăo enquanto inscrita nos outros circuitos da indústria cultural.

Nesse sentido, as páginas e suplementos dedicados a comentar a TV com suas colunas, notas e roteiros, as revistas especializadas, as colunas sociais, as reportagens e entrevistas que sistematicamente aparecem nos jornais e revistas com pessoas e aspectos da TV, as publicaçőes dirigidas ao público feminino e are ao infantil, concorrem na fabricaçăo de um mundo unificado onde a vida de uma estrela do vídeo passa a dizer respeito tanto a si mesma quanto a qualquer pessoa.

"Francisco Cuoco e Gina aguardando, para daqui há quatro meses e meio, a chegada de um novo baby. Que deverá estrear a nova casa de Săo Conrado." (Coluna de Hildegard Angel, Revista Amiga, 22/12/76).

"Regina Duarte năo tem mesmo medo de celulite. Todos os domingos, acompanhada do marido e filhos, devora uma grande variedade de massas no Terrazza Romana." (Coluna de Sílvio Di Nardo, Revista Amiga, 20/1/77).

Uma espécie de fait-divers de um mundo romanesco continuamente a representar-se entre uma vida real e uma ficçăo, onde as grandes estrelas da TV, que entretęm esta crônica de seu espetáculo, săo celebradas, em última instância, pela vida de excesso e pela virtualidade de seus gastos. Embora muitas vezes, e por inversăo, o imperativo ordene que sejam mostradas na sua simplicidade cotidiana, fazendo compras etc.,cumprem, do mesmo modo que as figuras da alta sociedade (porém de forma mais eficaz, devido ŕ contigüidade mais flagrante entre o mundo da TV e o aqui fora), a funçăo social muito precisa: a da despesa suntuária, inútil e desmedida. E é a cobertura desse prosaico que as consagra como representantes do público no país das maravilhas.

"O grande reveillon dos artistas foi no apartamento de Fábio Sabag, que promoveu uma festa em branco e prata para prestar homenagem a Iemanjá, na esperança de dias melhores (com o branco) e conquistar a tranqüilidade financeira (com o prata). A festa de Sabag durou até a. manhă do dia seguinte." (Revista Amiga, 20/1/77).

Na imprensa da TV um dos pontos mais genuínos de seu discurso é ainda reforçar a imagem do veículo como a de um bem-comum, que interessa principalmente a cada indivíduo, a cada família. A televisăo é tratada e percebida como uma instituiçăo que faz parte do patrimônio do povo.

Neste caso, é o álibi da participaçăo do homem no mundo que faz a corte da TV: o simulacro deste mundo a serviço da evasăo social de que se vale a TV e sua especializada imprensa.

"Em menos de cinco anos o Brasil tornou-se a aldeia que todos queríamos, na qual, ao mais distante de nossos irmăos, năo é furtada a informaçăo básica, a participaçăo total de que só desfrutavam os moradores das grandes cidades. Hoje, nas mais distantes fronteiras, nas fazendas remotas, a televisăo é uma janela iluminada para o mundo." (Revista Audięncia nş 1, junho de 76).

Através da aparente informaçăo descompromissada, dissimulá-se a promoçăo e a propaganda de artigos e produtos, que aparentemente năo o săo. E os valores oficiais da sociedade, já trabalhados pela TV, săo agora reelaborados de forma inclusive a confirmar a TV como o lugar pedagógico possível.

"O traço mais marcante da telencenaçăo de Duas Vidas tem sido o tratamento extremamente procurado por Daniel Filho na direçăo. Quem tem TV a cores deve estar reparando: Bety Faria e outras atrizes tęm aparecido praticamente sem maquilagem. A gente chega até a ver as adoráveis pintinhas e sardas dela e de outros artistas." (Coluna de Artur da Távola, O Globo. 7/1/77).

"Vendo, na televisăo, a presença do jovem em tantas coisas - programas, novelas, anúncios, notícias - conclui-se o jovem e a criança săo reis da vida. Ora sendo refletidos em sua beleza e ingenuidade, ora sendo usados para fins mercadológicos, eles săo a grande presença. (...) Ser jovem é andar confiante como quem salta, se possível de măos dadas com o ar. É ter coragem de nascer a cada dia e embrulhar as fossas no celofane do năo faz mal. E acreditar em frases, pessoas, mitos, forças, sons, é crer no que năo vale a pena mas ai da vida se năo fosse isso." (Coluna de Artur da Távola, Revista Amiga. 22/12/76.)

O colunista de TV, investido no papel de interpretador, e aí dissimulado, inscreve-se na linha de montagem dos produtos que recomenda. Fazendo parte do espetáculo, seu texto é também produzido em estúdio, sua voz é a mesma voz do dono.

A posiçăo que ocupa refere-se ŕ uma hierarquia no interior do mesmo sistema de produçăo e circulaçăo de bens simbólicos. O jornalista assume nesta engrenagem a condiçăo institucional de funcionária de uma unidade coletiva de produçăo, com tarefas definidas. Deve no exercício de seu poder eleger programas, artistas, regras de construçăo de espetáculos, e incorporar a funçăo de porta-voz dos interesses empresariais, referindo-se assim ŕ uma situaçăo de poder mais fundamental, que é a do capital.

"A grande verdade é que nenhum artista pode se rebelar contra a televisăo. Porque a TV promove, eleva e consagra o artista. O negócio, meus filhos, é saber viver, amar a televisăo, amar o público, e manter, numa permanente lua-de-mel, o seu relacionamento com um e outro..." ("Chacrinha comunica", Revista Amiga, 20/1/77)

"Em Săo Paulo, no bar ao lado da Tupi, vi alguns atores e técnicos reunidos, fofocando contra salários que as pessoas que vieram da Globo estariam recebendo. Que fiasco, meus amigos, coisa feia isso. Artistas preocupados com os salários dos colegas!!! Ora, meus amigos, cada um é que faz o seu salário. Preocupem-se apenas com os seus próprios salários e, se por acaso algum colega conseguiu melhorar no mercado de oferta e procura, parabéns para a nossa classe. Fiquei realmente triste quando vi a cena." (Coluna de Carlos Imperial, Revista Amiga, 20/1/77)

A obra que é construída pelo colunismo de televisăo deriva-se e alimenta-se, acima de tudo, das mesmas significaçőes disponíveis no estoque dos valores processados pela TV. Reconhece nela sua legitimidade como veículo democratizador da cultura, que é expressăo de um reconhecimento maior já emitido pela sociedade dominante. A ideologia estética e politica professada pelo colunismo de TV é a mesma que engendra a fala da TV, que é a fala dominante da sociedade.

Os colunistas, figuras de comunicaçăo conhecidas no seu exercício de coadjuvantes ao espetáculo, ministram, com a autoridade de sua opiniăo especial e com a eficięncia que todo funcionário exemplar da indústria cultural deve ter, as liçőes da crítica construtiva e bem comportada, e do bom senso ideológico. Sua voz é uma voz engajada em idéias já etiquetadas e consagradas mercado-logicamente.

"O último tombo da princesa Anne, as andanças de Kissinger, o nocaute de Muhammed Ali, a decisăo do campeonato de futebol, festas ou catástrofes acontecem no mesmo lugar: o vídeo da nossa TV(...) ...a sofisticada tecnologia dos satélites reduziu o mundo ŕ uma pequena aldeia, onde năo é possível ignorar o que acontece -onde nada permanece oculto." ("O mundo na sala de jantar", por Macksen Luiz, Revista Audięncia nş 1, junho de 76)

"A sociedade global năo mudou muito, e infelizmente ainda há muitas coisas que săo apenas para uns poucos; mas, na comunicaçăo (e em alguns outros setores), a coisa mudou bastante. A tecnologia eletrônica, sempre multiplicadora, transformou os bens culturais que elabora em produtos inevitavelmente para as maiorias. (...) ...a televisăo, um meio de comunicaçăo extremamente paradoxal: sendo a própria expressăo do sistema, ela fabrica um produto que năo serve aos detentores desse mesmo sistema." (Coluna de Artur da Távola, O Globo, 16/12/76)

"Circula, no momento, entre os atores, técnicos e todas as pessoas ligadas direta ou indiretamente ŕ produçăo da novela O Casarăo, um simpático memorando de Boni em que ele elogia o alto nível da realizaçăo e observa que o sucesso da audięncia aliado ao bom nível é um passo em direçăo ŕ qualidade." (Coluna de Hildegard Angel,. O Globo, 18/12/76).

A imprensa da TV realiza-se basicamente reconhecendo o valor de seu objeto. A ordem do mundo ali expressa lhe é suficiente, e ela năo se indaga sobre o sentido do espetáculo que comenta. Espetáculo que é o próprio way of life da sociedade burguesa, enquanto a possibilidade desta vida suceder-se e reproduzir-se, convertendo-se em imagem de si mesma.

A indústria cultural é o grande momento da nomeaçăo. Do espetáculo e de sua acumulaçăo. A imprensa da TV, como um dos momentos deste espetáculo e desta nomeaçăo, é um de seus atos. A ética do serviço que presta năo lhe patrocina outra alternativa.

Feitos um pelo outro. Feitos um para o outro.

"Ninguém pode trabalhar em Comunicaçăo se năo ama o seu trabalho, se năo respeita a sua empresa e se năo procura prestigiar o conceito do veículo a que serve." (Roberto Marinho, O Aldeăo, órgăo interno dos funcionários da Rede Globo, dezembro de 76.)

O que năo deixa a menor dúvida.




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