Thursday, June 17, 2010

1971 - A TV e a Criança

Jornal do Brasil
10/10/1971
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MEIOS DE COMUNICAÇĂO AINDA NĂO SE ADAPTARAM À CRIANÇA
Na televisăo, Nacional Kid, herói japonęs, estrangula uma criatura abissal; no cinema, um adolescente assiste a cenas de perversőes sexuais; no teatro, em sessăo vesperal, a platéia quase toda de adolescentes aplaude nus nada artísticos; na revista Terror-Negro, um lobisomem bebe o sangue de suas vítimas indefesas.

Em 100 horas diante de um aparelho de televisăo, uma criança e um adolescente assistem a 12 assassinatos, 16 tiroteios, 21 ferimentos e 75 cenas diversas de violęncia, que văo desde a tortura física ao sofrimento moral. Ao lado, passivos, os pais acompanham.

Agressividade, sadismo, angústia, insônia, amadurecimento prematuro da personalidade, desritmia motora e desajustamento escolar săo os saldos negativos que uma programaçăo deficiente e deseducativa estăo levando a milhares de crianças e adolescentes. Alarmados pediatras do Brasil e de várias partes do mundo reúnem-se este męs em Belo Horizonte para discutir o assunto e traçar diretrizes comuns.

GERAÇĂO MARCADA?

Vinte anos depois do início da utilizaçăo comercial da televisăo, pode-se dizer que já existe uma geraçăo marcada desde o nascimento por esse meio de comunicaçăo. Hoje, ninguém duvida que os telespectadores mais assíduos săo as crianças. Desde o aparecimento da televisăo, muitas previsőes foram feitas a respeito de sua influęncia no desenvolvimento físico e psíquico. Previsőes sempre sombrias, quase nunca otimistas.

Mas a geraçăo-televisăo surgiu. Os hospitais estăo cheios de pequenos super-heróis com bracos quebrados e os consultórios de pais que năo conseguem mais dialogar com os filhos: há sempre uma novela entre eles. Um grupo de especialistas norte-americanos foi entăo ao fundo do problema. Passaram meses diante da televisăo, catalogando os programas, ouvindo os diálogos, analisando as cenas. Detiveram-se no horário infantil (14 ŕs 18 horas).

Suas conclusőes foram sombrias, mais do que eles esperavam. Em 100 horas de programaçăo, 70 eram dedicadas a programas nos quais a violęncia desempenhava um papel importante. Durante essas 100 horas eles anotaram 12 assassinatos, 18 tiroteios, 21 ferimentos e 75 cenas diversas de violęncia. Năo menos do que esta, as aberraçőes sexuais enchiam boa parte dessas horas. Muitos filmes tinham apenas os dois ingredientes.

A pesquisa mostrou também que muitas crianças já săo telespectadoras assíduas desses espetáculos aos dois anos de idade. Com tręs passam uma média de 45 minutos por dia vendo televisăo, com cinco ou seis anos elas começam a assistir cerca de duas horas por dia. Esse tempo aumenta gradativamente até os 12 ou 13 anos, quando elas ficam, em média, tręs horas diárias diante do vídeo.

Psicólogos, médicos, educadores e técnicos em comunicaçăo - para quem a televisăo é hoje o centro do mundo infantil e uma válvula de escape para as frustraçőes diárias - falaram ao JB năo apena, como especialistas mas como pais que vivem o problema e, paradoxalmente, năo sabem como resolvę-lo. A televisăo, com seus vícios, programas deseducativos e mal feitos entram na casa deles, roubou-lhes os filhos. Eles conhecem as soluçőes mas nem sempre podem aplicá-las. Uns porque moram em apartamentos e sabem que, bem ou mal, a TV é a única distraçăo dos filhos; outros năo agiram na época apropriada e agora confessam que a TV é um adversário para o qual a psicologia moderna ainda năo encontrou um lutador ŕ altura.

Em meio ŕs suas explicaçőes teóricas o JB constatou um mundo da indecisăo e quase desanimo. Várias vezes ouviu desabafos: "Năo sei o que fazer. Em casa os problemas causados pela televisăo superam a minha especialidade. Acho que já sou um pai desesperado." Um deles, com quatro filhos em diferentes idades, cansou das brigas pelas preferęncias dos programas. Comprou mais uma televisăo. Hoje existem tręs em sua casa. Năo consegue mais falar com os filhos. Todas as vezes que tenta ouve sempre um "cala a boca",a quatro vozes.

INFÂNCIA POUCO INFANTIL

Para o psicólogo Pedro Américo Correia, falar da televisăo e de seus prejuízos no desenvolvimento normal da criança é falar também nos apartamentos, na vida solitária daqueles cujos pais trabalham fora e na falta de outros estímulos nas escolas.

— O conteúdo da maioria dos programas infantis năo é recomendável para criança alguma. Năo há seleçăo e o nível é baixíssimo, além de pouco educativo. As programaçőes săo organizadas por pessoas que desconhecem as necessidades infantis e que estăo demasiadamente presas ao IBOPE e ŕ publicidade.

Ele mesmo um telespectador analítico da televisăo, Padre Américo divide os programas infantis em tręs partes distintas: os incrivelmente prejudiciais, os toleráveis e os recomendáveis.

Os super-heróis — condenáveis sob quase todos os aspectos. Săo filmes com uma temática comum: a violęncia e a divisăo acentuada e difusa entre o bem e o mal. Alguns săo figuras atormentadas e divididas. Năo se integram. Tęm dupla personalidade. Seres pseudo-normais que, de uma forma ou de outra, fracassaram na vida cotidiana.

— Super-Homem é o melhor exemplo. Repórter tímido, de óculos, que se deixa envolver pela mecânica em que vive e sofre uma série de frustraçőes latentes. Essas frustraçőes ele resolve transformando-se num super-homem. Deixa de ter adversários, vive uma personalidade irreal e através dela procura solucionar os seus problemas.

— Sabemos que a criança é imitativa por natureza. Ela resolve voar também. Agarra o lençol, amarra no pescoço, trepa na janela e salta. Inconscientemente procura soluçőes mágicas para os seus problemas, em vez de se adaptar ao meio em que vive.

TORMENTO CONDICIONADO

Segundo Pedro Américo, de todos os super-heróis da televisăo, Thor, o homem da idade da pedra que se transforma nesse personagem para resolver as suas dificuldades, é o mais atormentado.

— O curioso nesses filmes é que, quando o herói já năo tem mais adversários, seus inventores passam a dotar o bandido com equilíbrio de forma que mantém o programa permanentemente no ar. Esses filmes tornam a criança, em sua fantasia, cada vez mais onipotentes. Por isso é extremamente difícil para ela discriminar as capacidades que realmente possui.

O bang-bang - mal ou bem o bang-bang bem seus méritos, em comparaçăo com os outros. Bandido e mocinho săo pessoas de carne e osso. Embora idealizadas, săo figuras humanas, com os mesmos problemas de todo o mundo. Mas a criança já năo se satisfaz com esse tipo de filme. Ela tem uma tendęncia, natural, para se considerar onipotente em sua fantasia. E entre o mocinho e o super-herói ela prefere este último.

Desenhos animados — de um modo geral săo recomendáveis. Os bichinhos săo uma forma de antropomorfizaçăo. Funcionam e atuam como se fossem pessoas. Num nível de fantasia, representam muito as paisőes normais das crianças e năo enfatizam a violęncia. Quem năo gosta de Bambi, Lulusinha e dos filmes de Walt Disney?

— Quando uma criança é normal, ela se equilibra com o tempo, checando a realidade, observando suas capacidades e limitaçőes. Se possui em casa uma boa orientaçăo e vive num ambiente mais ou menos livre de muitos conflitos, ela chega ŕ idade adulta sem maiores problemas. Do contrario, e o contrario é a maioria, o resultado é tudo isso aí.

MENSAGEM NOCIVA

Mais do que um pediatra especializado em psicologia infantil, o Dr. Umberto Balariny é um avô de tręs netos. O do meio, de cinco anos, costuma, imitar o Nacional Kid e é com grande apreensăo que o médico, o psicólogo e o avo o vę trepando nas cadeiras ameaçando alçar vôo.

Balariny analisa a influęncia dos programas infantis levando em conta a idade da criança. Năo chega a dizer que a televisăo é desnecessária, mas acha que a má programaçăo e o desinteresse pela criança — principalmente na idade escolar, que ele chama de terra-de-ninguém, porque é uma faixa que năo recebe a devida atençăo dos pais e dos educadores — estăo levando a televisăo a um "grau de monstruosidade."

De dois a cinco anos — "tomemos como exemplo a novela — hoje qualquer criança assiste a qualquer novela. O que mais agrada numa novela é que ela é para o adulto uma fonte de prazeres que ele gostaria de ter experimentado. A criança năo entende a mensagem desse tipo de entretenimento. Ela fica presa apenas ao estimulo visual, ao movimento da imagem. Ela entăo chega a um ponto de imobilidade tal diante do vídeo que vai ficando visualmente cansada. Esse fenômeno os pais quase nunca compreendem e ele dá origem a uma série de problemas físicos e psíquicos:

Disritmia motora — uma criança pequena vę na tela um estimulo sensorial visual muito intenso. Está, ao ficar imóvel, quebrando uma lei fisiológica que diz: "a todo estimulo corresponde uma reaçăo." A criança diante da TV acumula sensaçőes para as quais năo responde. As vezes a imobilidade é tanta que seu próprio organismo reage. Ela começa a se mexer, levanta, grita, pega nos botőes do aparelho e gira de um lado para outro. Nessa hora os pais inferem, mas de maneira errada. Batem na criança e a mandam para o quarto, como castigo.

Logo, o primeiro mal que a televisăo, levada de forma exagerada, faz ŕ criança é provocar nela um desequilíbrio entre a intensidade do estimulo sensorial e as respostas a ele. Fatalmente ela será levada ao nervosismo. O tempo que ela passa, parada, diante de um aparelho, deveria estar ao ar livre, desenvolvendo seus músculos, que precisam de movimento. Esse desenvolvimento é necessário para que ela crie uma estrutura nervosa suficiente, de forma a ajudá-la a se expressar normalmente como adolescente e como adulto. O exemplo típico de criança afetada pela TV é aquela que é inteligente, mas que tem problemas na escola.

Os olhos — O aparelho visual da criança nem sempre é olhado com a devida atençăo pelos pais. É preciso que saibam que ele năo está adaptado ŕ luminosidade da tela e pesquisas feitas no exterior já constataram que o uso indevido da TV é responsável pelo uso prematuro de óculos pelas crianças.

Complexo de rejeiçăo — quando a criança apanhou por ter reagido normalmente a uma situaçăo que seu organismo năo suportou, passou a desenvolver nela um complexo de rejeiçăo, que pode ser tanto maior e duradouro quanto maior e duradouro forem as surras que receber.

TERRA DE NINGUÉM

7 aos 14 anos — todos esses problemas ocorridos na primeira infância causam na criança um despreparo que vai afetar sua vida escolar. Essa dispersividade, esse senta-levanta a que ela se acostumou vendo televisăo năo permitirăo que tenha, quando em aula, a mobilidade necessária para receber as liçőes com atençăo.

Na escola ela já luta com a falta de espaço. Saindo do colégio volta para casa, onde mais algumas horas de imobilidade a esperam. Essa imaturidade de coordenaçăo motora é que causa os desajustes escolares.

Epilepsia — uma criança epiléptica, ou com qualquer problema cerebral, de maneira alguma deve permanecer diante do vídeo por muitas horas. A fixaçăo na tela, estimulo visual muito forte, pode agravar a doença.

NÚMEROS QUE FALAM

No ano passado o Instituto Médico-Legal registrou quatro mortes de crianças provocadas por quedas. O funcionário Cleber Amorin, por coincidęncia, foi quem recolheu os corpos. Ŕ exceçăo de uma, todas as crianças haviam morrido da mesma forma: traziam o pescoço enrolado por lençóis e colchas. Eram os nacionais kid mirins.

Mas nem todas morrem. Năo há nos hospitais da Guanabara nenhuma estatística sobre as causas dos acidentes infantis, mas médicos e enfermeiras atendem diariamnente, e cada vez mais, a um número impressionante de super-heróis, bandidos, mocinhos, nacionais kid.

— As vezes, conta Dona Ieda Jordan Neves, enfermeira há 12 anos, eles chegam no hospital ainda trajando a roupa que usavam quando caíram. Espadas, revólveres, cassetetes, capas, desfilam nos corredores. Mesmo no meio da dor eles se recusam a se separarem de seus heróis. Ninguém os convence do contrário.

— Enquanto tratamos dos ferimentos eles continuam a lutar com os adversários invisíveis. Muitas vezes somos forçados a receitar calmantes para uma criança de sete anos que trocou a bola por uma espada.

— As vezes fico observando quando văo embora. Saem pelos corretores, um braço na tipóia, o outro segurando o lençol ou o revólver, Apontam para um, para outro, dando tiros imaginários. A măe ao lado ri, todo mundo ri e o pequeno super-herói deixa o hospital cada vez mais ciente de sua onipotęncia.

UM TEATRO QUE MORRE

— O teatro infantil está morrendo.

O desabafo de uma das maiores produtoras de peças infantis, Maria Clara Machado, reflete o desanimo dos bons empresários diante do que eles mesmo chamam de "crime contra a criança." Violęncia de texto, espetáculos improvisados, atores sem categoria e direçăo, fazem hoje a tônica dos chamados teatros infantis, onde a criança mata, é morta, agride, é agredida, sofre e volta para casa deseducada, confusa, sem conscięncia de que foi utilizada por atores fracassados, que ć serviram do seu mundo para sobreviver.

O teatro infantil informa ou deforma? Comunica, participa ou provoca? As crianças estăo indo muito pouco ao teatro ou o teatro está deixando de ir ŕs crianças? O JB năo encontrou otimismo nos empresários e diretores de teatro infantil. Em alguns encontrou raiva, traduzida em lágrimas e desabafos violentos. Raiva porque eles acham que o mundo está mudando, as cri~ancas estăo mudando e o teatro infantil continua o mesmo de há 20 anos. "Há um criminoso a solta. Ele usa máscaras, pula no palco, diz palavrăo, dá tiro e entra no mundo da criança sem pedir licença."

COMUNICAÇĂO OU CRIME?

— Em nome de uma comunicaçăo teatral, de uma participaçăo da criança no espetáculo, muita gente tem cometido pequenos crimes contra o teatro e a criança. Aventureiros se lançam e se atrevem a fazer teatro para crianças, desconhecendo năo somente a própria criança, como ignorando as regras básicas de um bom espetáculo.

O desabafo é de Maria Clara Machado, para quem o teatro infantil nunca esteve tăo ruim e tăo vazio de boas produçőes. Cheio de atores procurando sobreviver economicamente, sem um maior empenho nos papéis que representam.

— Teatro de segunda classe onde nem os críticos teatrais dos principais jornais se aventuram a ir para năo morrer de tédio ou de vergonha. Preferem silenciar, calar, năo assistir a tais espetáculos oferecidos todos os fins de semana ŕs crianças. E onde estăo os pais dessas crianças? Longe, muito longe. Eles precisam ocupar os filhos, dar-lhes qualquer coisa aos sábados e domingos. Năo tiveram educaçăo para o teatro e pensam que aquilo que dăo aos filhos é o que serve. Para eles as peças infantis săo enfadonhas e desinteressantes. Muitos nem entram. Deixam os filhos na porta.

TEATRO FUTEBOLÍSTICO

Para Maria Clara Machado, o tipo de teatro que se faz atualmente para as crianças tende a desenvolver nelas a vulgaridade, o lugar comum, a tendęncia ao excitamento coletivo, ŕ dispersăo, ao fácil, ao comercial.

Quantas peças baseiam sua publicidade na distribuiçăo de balas ou balőes no fim do espetáculo? O espetáculo infantil que visa ao excitamento coletivo, ŕ gritaria, ŕ torcida desenfreada, está deseducando, está criando, talvez, um torcedor de futebol, mas nunca um público que pensa e se educa através da arte.

— Muitos autores e diretores pensam que, para se estabelecer uma comunicaçăo maior entre atores e platéias, seja necessário uma provocaçăo por parte dos personagens. Também pensava assim quando comecei a escrever para crianças. Depois vi que havia me enganado. A criança brasileira já é naturalmente muito comunicativa e excitada. Ela toma a provocaçăo como convite ao excitamento e esta participaçăo tende a continuar pelo espetáculo a fora até criar um clima de histeria, onde mais sentem, ouvem e olham. Elas torcem como os torcedores de futebol e năo como espectadores de uma arte.

JOANA CHARUTO

Pela primeira vez em 20 anos de vida dedicada ao teatro infantil, Maria Clara Machado lançou uma peça bang-bang. É uma experięncia nova, que lhe serve de pesquisa. Nessa peça há assassinatos, mortes, tiroteios, maldades generalizadas. A própria Maria Clara pergunta: "esse tipo de teatro é perigoso ou năo para a criança?"

— Num dia desses uma măe levantou no meio do espetáculo. Gritou que a peça năo era indicada para criança e saiu com o filho. Vi apenas uma criança sair sozinha, o que ocorreu quando foi disparado o primeiro tiro. A maioria fica.

— Toda criança se identifica com os personagens, geralmente com aquele que representa o lado bom da gente. Desta vez as crianças estăo se identificando com a Joana Charuto, que faz o papel de bandido. Quando, depois da peça, converso com as crianças e pergunto qual o personagem de que mais gostaram, todas citam a Joana Charuto, principalmente as meninas.

— Explica-se isso de várias formas. A menina foi educada para ser apenas boazinha, brincar com bonecas. Quando vę a Joana Charuto ela se vinga, inconscientemente ela se identifica. Isso ocorre mais com as crianças maiores. As pequeninas preferem o mocinho. Năo é dando ŕ criança uma peça ŕgua-com-açúcar que vocę fornecerá a ela noçőes reais sobre a vida. Ela hoje vive confinada em apartamentos, com os adultos, vivendo seus problemas. Sabe de tudo. A criança hoje sabe das coisas. Por isso fica angustiada. Vę na televisăo o que muitas vezes se passa em casa. Aí os pais tornam-se ficçăo e os problemas uma realidade.

— A agressividade tem que ser mostrada mas de forma válida e realmente artística. Quem nasceu primeiro foi a sociedade, logo a agressividade é uma conseqüęncia, năo a causa. A agressividade na arte é um produto dos tempos modernos. Ela já existia nos dramas gregos e nas peças de Shakespeare. Portanto, já tem uma certa idade.

VOZ DA EXPERIĘNCIA

— Eu sou completamente contra esse tipo de teatro infantil que existe por ai. Já vi o suficiente para ficar indignado. Teatro infantil está na fase indígena, selvagem, de abandono e de desrespeito. Sem vigilância.

A indignaçăo é de Fábio Sabag, que durante muitos anos se especializou em teatro infantil para televisăo.

— Existe um angulo bastante curioso em torno desse tipo de teatro. A criança, dos cinco aos sete anos, gosta profundamente dele. Dos oito aos 12 abomina. É a idade em que está se julgando adulta. Dos 12 em diante começa a gostar novamente, porque se lembra dos tempos em que era criança pequena.

— Eu vi uns espetáculos em Săo Paulo que me apavoraram. Năo só pela violęncia do texto, como pela má qualidade do que se dizia em cena. Isso dá ŕ criança uma visăo errada do que há. No Rio de Janeiro os espetáculos, com raras exceçőes, săo improvisados, com atores sem a menor categoria, sem direçăo. É tudo feito na base do tapa.

— A criança grava dentro de si aquela imagem. Anos depois vai equacionar sobre aquilo, mas de qualquer maneira fica uma mentalidade completamente truncada. Uma vez assisti a uma peca infantil que tinha a palavra morte e assassinato 23 vezes, isso num teatro para crianças.

Para Fábio Sabag, dependendo das coisas que a peça apresenta, o teatro pode destruir uma criança ou transformŕ-la num gęnio.

— Esse detalhe é muito importante. E é esse tipo de coisa que está sendo descuidada. Há necessidade de uma revisăo urgente dos valores e uma seleçăo das mentalidades. Do contrário, será o caos.

OMISSAO

Privilégio de uma meia dúzia de colégios, o teatro infantil já há muito tempo deixou de existir nas escolas, quer particulares, quer governamentais. As dramatizaçőes ficaram relegadas a épocas esporádicas, como os dias de grandes festas nacionais e religiosas.

Na Zona Sul o Teatro Tablado, dirigido por Maria Clara Machado mantém o recorde de assistęncia e há quase 10 anos dedica-se somente ao gęnero infantil. De vez em quando, uma ou outra escola maternal reúne grupos isolados de crianças e com ela benta uma experięncia teatral, geralmente feita com boa vontade, critério, mas sem muito interesse por falta de uma direçăo mais profissionalizada.

Na Zona Norte o teatro infantil năo existe, năo é sequer conhecido pela maioria das crianças. A própria Secretaria de Educaçăo reconhece sua falha neste aspecto. As escolas năo dispőem de salas ou equipamentos para teatro de qualquer gęnero.

Um dia um grupo de empresários, Maria Clara cita um exemplo, pensou em fazer os teatros infantis volantes. A idéia năo chegou a ser posta em prática. Năo houve verbas nem estímulo. Os empresários desistiram de fazer peças infantis. Hoje săo atores de terceiro time nas novelas de televisăo.

IMPRENSA POUCO INFANTIL

Se os jornais e as revistas que entram em sua case devem ou năo ser lidos par seus filhos é um problema que as autoridades educacionais deixam para vocę resolver. Ninguém até hoje fez, no Brasil, uma pesquisa para saber se a imprensa infantil merece esse título ou se a chamada imprensa adulta possui também alguma responsabilidade no subdesenvolvimento da criança e do adolescente.

Segundo o Sindicato dos Jornalistas, existem no Brasil cerca de 20 títulos de revistas essencialmente infantis. Apenas uma foi idealizada no Brasil e tem características bem brasileiras: Mônica.

De modo geral, as revistas infantis que circulam tęm aprovaçăo dos psicólogos e médicos que se dedicam aos problemas infantis. Embora algumas correntes faça restriçőes a Walt Disney, nenhuma nega o valor de suas histórias e de seus personagens.

Mas as bancas de jornais estăo repletas de revistas para adultos e que săo consumidas por crianças, principalmente. Terror Negro - Vampiro Ataca — Mistério e Suspense tęm a preferęncia de uma parcela do público infantil, geralmente proveniente de um meio social pobre. Quase sempre essas crianças apanharam o gosto por essas revistas através do pai. Psicólogos e médicos condenam essas publicaçőes.

Para eles existem as revistas insípidas como Manchete, O Cruzeiro, Fatos e Fotos. Săo publicaçőes que năo oferecem nenhum atrativo, mesmo o visual, para as crianças ou adolescentes. Năo chegam a causar danos morais ou psíquicos, mas também năo fazem qualquer bem.

Jornais como Luta Democrática, Dia, Notícia, Ultima Hora. Gazeta de Notícias e O Pasquim săo condenados como leituras infantis. O psicólogo Pedro Américo, por exemplo, fica diariamente impressionado com a quantidade de crianças, que as vezes aparecem em certos jornais, que rodeia um cadáver na hora da fotografia.

— Certos jornais emitem conceitos que a criança desconhece. Sem discernimento para avaliar, julgar e eliminar, ela aceita as opiniőes que lhe săo impostas e podem fazer delas um meio de orientaçăo de vida.

A exceçăo da Rádio Ministério da Educaçăo — que apresenta todos os domingos o programa Música pró-Música em cadeia com a televisăo — as demais estaçőes eliminaram o público infantil de suas programaçőes, todas elas dedicadas ŕs novelas e programas musicais. O rádio desapareceu do mundo da criança e do adolescente, pelo menos como fator educativo e informativo. Alguns psicólogos vęem nisso uma certa vantagem:

— É melhor năo apresentar nada a apresentar isso que se vę aí. De qualquer forma, pode-se dizer que tanto o rádio quanto a televisăo e a imprensa săo possíveis ecos daquilo que é geralmente aceito e confirmam o que já foi consagrado.





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