Wednesday, June 16, 2010

1969 - Silvio Santos Vem Aí...

Realidade
1/9/1969
Nemércio Nogueira
===============

O SUPER SÍLVIO

O que está acontecendo com a televisão comercial brasileira? Talvez ele possa dizer: é um dos seus profetas e está sentado à măo direita do IBOPE (Instituto Brasileiro de Opiniăo Pública e Estatistica); é um dos favoritos do público e super-herói da tevê, feito à sue imagem e semelhança.

Infelizmente, senhoras e senhores, năo temos imagem para que todos possam ver o que está acontecendo aqui. Mas, pelo som (e naturalmente, através da nossa transmissão), podem fazer uma idéia do espetáculo maravilhoso a que estamos assistindo. Era o que dizia a gente da rádio, vinte anos atrás. Entăo veio a televisão.

Eles se passaram para a tevę com armas (inadequadas) e bagagem (insuficiente). Hoje costumam dizer que infelizmente, senhoras e senhores, năo temos imagens a cores para que todos possam realmente ver o que está acontecendo aqui. Mas, pelo som (e, naturalmente, através da nossa imagem), podem fazer uma idéia do espetáculo maravilhoso a que estamos assistindo.

Do jeito que a coisa vai, a televisăo a cores năo demora. E a turma vai dizer que, infelizmente, senhoras e senhores, năo transmitimos ainda em tręs dimensőes - ou os cheiros, quem sabe? -, para que todos possam realmente ver e sentir o que está acontecendo.

Afinal, o que é que está acontecendo com a televisăo comercial brasileira, acusada de ser um instrumento contra a cultura do povo? Talvez ele possa responder. Senhoras e senhores, é com prazer que apresentamos Sílvio Santos, o Super-Sílvio, que é um dos profetas da tevę comercial, está tranqüilamente sentado ŕ măo direita do IBOPE, é um dos grandes favoritos do auditório e do chamado público de casa, e que (sem dúvida) foi feito e cresceu ŕ imagem e semelhança da tevę, com todas as suas qualidades e a maior parte dos seus defeitos.

No domingo, 20 de julho, quando o homem botou pela primeira vez o pé na Lua, a televisăo estava lá, transmitindo diretamente e com uma imagem perfeita, apesar dos 400 000 quilômetros de distância. O índice de audięncia foi a um bom nível: 41,4% das pessoas que tęm tevę estavam assistindo ao espetáculo, enquanto 20% dos aparelhos permaneciam apagados. Os técnicos em pesquisa e estatística calculam que 5,5 milhőes de telespectadores brasileiros assistiram ao vivo o feito inédito, só contando o público de Săo Paulo, do Rio e das cidades vizinhas.

SO A CHEGADA Ŕ LUA CONSEGUIU TER MAIS AUDIĘNCIA QUE OS PROGRAMAS DE SÍLVIO SANTOS

Na mesma semana, sem ir ŕ Lua, Sílvio Santos conseguiu em Săo Paulo uma audięncia apenas 1% menor (40,4), na sexta-feira, com o programa Cidade contra Cidade. E no domingo o IBOPE marcou 35,8 para o Programa Sílvio Santos, que ficou com o segundo e o terceiro lugares entre os programas de maior audięncia, perdendo apenas para a transmissăo da aventura da Apollo 11.

Quem é este Sílvio Santos, muito mais popular do que o Topo Gigio (que custa milhőes e marcou 33,5%). mais sensacional do que o seriado Missăo Impossível (32%), com mais magnetismo do que o Chacrinha (que só atraiu 28,4%), e mais romântico do que Nino, o Italianinho (25,8%)?

- Eu? Eu sou um homem comum, que sempre se esforçou para viver sozinho. Sempre fui ultra-independente.

Sílvio nasceu no dia 12 de dezembro de 1935, na Travessa Bem-Te-Vi. É carioca da gema. Estudou na- Escola Celestino da Silva, em seguida foi para a Escola Amaro Cavalcanti. Pouco depois precisava trabalhar, ganhar dinheiro, aos doze anos já era camelo nas ruas do Rio. Vendia de tudo, da caneta tăo mais barata e tăo melhor do que a Parker ŕs carteiras para título de eleitor, muito mais em conta do que qualquer loja do ramo. Com um olho nos fregueses e outro no "rapa", falava, falava, falava. E vendia, sempre com um largo sorriso.

- O sorriso é a melhor arma para inspirar confiança. O homem que sorri é um homem confiante, de quem toda gente gasta.

Hoje, aos 33 anos, ele tem fama de ser o homem mais rico da televisăo brasileira, sempre falando muito (seus programas duram até dez horas) e sorrindo. Ainda é um camelô - e é ele mesmo quem diz isso. Continua na defensiva, como no tempo em que os camelôs eram perseguidos, presos e levados para o Depósito de Presos da Central de Polícia.

Naquela época, Sílvio tinha um trunfo: era menor de idade, já era simpático, quando o carro da fiscalizaçăo chegava e ele năo tinha tempo de correr, tentava "enrolar o rapa". Falava manso, sorrindo sempre. Se năo dava resultado, jogava a clientela, o povo contra os fiscais, falando alto, dizendo que era honesto, precisava ganhar a vida, a polícia năo deixava, preferia que ele fosse ladrăo.. .

- Sempre fui de falar, e sempre fui louco por dinheiro.

Um dia, o chefe da repressăo aos camelôs, Renato Meira Lima, viu Sílvio Santos trabalhando. Já sabia quem era o garoto que causava tanto trabalho aos seus fiscais. Deu alguns conselhos e um cartăo de apresentaçăo para Jorge de Matos, dono do Café Globo e da Rádio Guanabara. Sílvio foi inscrito em um concurso de locutores, ganhou o primeiro pręmio, foi contratado: 1200 cruzeiros (dos velhos) por męs.

- Preferi ser camelô. Eu fazia 3 000 por męs. (Cada caneta custava 20 cruzeiros velhos ao freguęs, e eram pagas a 160 a dúzia, no atacado.)

Mas chegou a hora do serviço militar. Năo dava para ser camelô com o cabelo cortado ŕ escovinha. Sílvio entrou para a escola de para-quedistas e montou a "primeira emissora marítima do Brasil". Era um serviço de alto-falantes, numa das barcas de Niterói. Transmitia músicas e anúncios. Um dia, a barca foi para o estaleiro e Sílvio para Săo Paulo.

Montou um bar, perto da Rádio Nacional. Pouco depois era locutor de rádio, ganhando 5 000, dos velhos. Com menos de um ano de casa, porém, foi mandado embora: deu uma entrevista dizendo que os diretores năo entendiam coisa alguma de rádio, só tinham audięncia por sorte. Pior ainda: confessava que năo saia de lá só porque queria fazer clientela para o bar (Nosso Cantinho) entre os colegas e amigos.

Desculpado, a pedido dos amigos, vendeu o bar por 240 000 cruzeiros e lançou uma revista de palavras cruzadas e charadas.

- No bar, eu năo podia fazer publicidade.

E começou a melhorar de vida, sem sair da Rádio Nacional, onde até hoje tem o programa de maior audięncia no Brasil (18%, enquanto o segundo colocado, uma novela, tem só 10%).

Em 1958, Sílvio tinha que fazer de tudo para sobreviver: fabricava folhinhas, aceitava qualquer ponta na televisăo, trabalhou até em circo, organizou caravanas artísticas pelo interior, fez uma campanha política em troca de um jipe, foi ajudante de animador no programa Praça da Alegria, que Manoel de Nóbrega tem até hoje.

Foi Nóbrega quem chamou Sílvio Santos para trabalhar na sua firma, o Baú da Felicidade, que funcionava no porăo de um prédio em reforma, sem arquivos, um caixote servindo de mesa. Sílvio trabalhou com entusiasmo. Em 1961, Nóbrega vendeu sua parte e deixou o sócio sozinho. Hoje, o Baú tem 600 mil clientes, 2 200 empregados, 25 lojas, centenas de representantes, 84 carros, precisa até dos serviços de um computador eletrônico.

Paralelamente ao crescimento do Baú, Sílvio montou uma agęncia de publicidade, uma construtora, uma indústria de televisores. Comprou tempo na televisăo e passou a fa‘r os seus próprios programas.

O Baú paga tudo.E o que é o Baú?

Uma firma de crédito que vende carnes. Quem compra paga 4 cruzeiros novos por męs, durante catorze meses. E concorre (se estiver em dia) a sorteios pela Loteria Federal (a última extraçăo de cada męs). Dando o número do seu carnę no primeiro pręmio, pode ganhar uma casa, um apartamento ou um automóvel. O segundo pręmio vale 1 milhăo (dos velhos) em mercadorias. O terceiro dá direito a um refrigerador ou a uma alta-fidelidade. O quarto vale a máquina de lavar ou um televisor.

Cada cliente pode comprar quantos carnęs desejar. Depois de tudo pago, mesmo sem ser sorteado, ele năo perde: ganhou a economia que fez, podendo retirar o equivalente ao dinheiro empatado em qualquer loja do Baú (tudo: de sapatos e roupas a eletrodomésticos, de cama-e-mesa a copa-cozinha, mais de trezentos artigos diferentes).

Mas, em vez de comprar um carnę, o cliente pode, se preferir, abrir um crediário para comprar seja o que for, em 36 meses, recebendo também um talăo numerado que concorre ao sorteio dos mesmos pręmios.

"DIZEM QUE O QUE EU FAÇO NA TEVĘ É RÁDIO COM IMAGENS. MAS É ISSO MESMO QUE O PÚBLICO QUER"

- Dizem que o meu programa é comercial. E que eu faço na televisăo rádio com imagem. É verdade. Mas é isso mesmo que o público quer E ninguém conhece o público como eu conheço. Eu pesquiso, gasto dinheiro procurando saber o que é que ele~ quer, o que năo quer. Năo sou eu quem está por fora, săo os que falam sem saber.

há dezenove anos, quando a televisăo brasileira nasceu, a goiabada Peixe patrocinou o programa inaugural: um musical, sem Ari Barroso, Lamartine Babo, ou Pixinguinha, sem Dorival Caymmi, sem Sílvio Caldas, sem Francisco Alves sem Elizabeth Cardoso, sem samba. Começou com a chamada atraçăo internacional, no caso Frei José Mojica, cantando uma hora de boleros.

Ninguém estava preparado para televisăo, nem ficou preocupado com a novidade. Televisăo, para a gente de rádio, era uma coisa simples, rádio com imagem. E foi assim mesmo que o esquema começou a funcionar, exatamente com a gente de rádio, os mesmos programas, as mesmas atraçőes.

Apenas uma insignificante minoria foi estudar o assunto. A maioria tinha que trabalhar no rádio e na tevę, năo sobrava tempo para mais nada. No máximo, um tempinho para ir aos Estados Unidos ter idéias, ver o que é que estavam fazendo por lá.

Mas a televisăo cresceu rápido, ficou forte, ganhou muito dinheiro, e a própria estrutura comercial desviou os esforços dos que tentaram melhorar o nível cultural da tevę.

- O que a critica năo percebe - diz Sílvio - é que a televisăo é um reflexo da realidade brasileira. Eu fabrico televisores e vendo, só em Săo Paulo, quinhentos por męs, a 30 cruzeiros novos, sem entrada, sem mais nada. Eu sei quem é que compra: o antigo público de rádio. Hoje em dia, quem năo tem televisăo năo tem coisa alguma. O aparelho de tevę substituiu a máquina de costura como elemento indispensável em um casamento. E é para este público que devemos fazer televisăo, se é que a audięncia tem importância.

A conclusăo só pode ser uma: num país em que a maioria dos aparelhos de tevę está nas măos de pessoas mal informadas, a preocupaçăo principal da tevę foi ser comercial, ganhar dinheiro, ter audięncia em termos de quantidade. A tal ponto que, sem querer, o IBOPE passou a ditar as regras do jogo, um jogo de números, onde a letra năo entra. Quem tem público continua; quem năo está com as massas fica de fora, seja quem for. O que realmente importa năo é o que se diz, como se diz, por que se diz, quando ou onde. O que importa é saber quantas pessoas estăo ali para serem oferecidas ao anunciante. Se o esquema está funcionando, para que discutir com os ouvintes? Enquanto a máquina der dinheiro, está tudo bem.

A TEVĘ É UM GIGANTE TÍMIDO, ACANHADO: UM SUPERCAMELÔ QUE SÓ SE PREOCUPA EM VENDER PRODUTOS

Sílvio também é criticado (como toda a televisăo comercial) por ser um improvisador.

- Sou - confessa ele.- Como todo brasileiro que se preza, eu me adapto a qualquer circunstância. Mas isso é fundamental para quem quer conseguir alguma coisa na televisăo e na vida.

Na televisăo contam uma anedota, que é verídica:

Jaci Campos, produtor e diretor de tevę (Câmera Um, por exemplo), chamou um amigo nos primeiros tempos da televisăo para ser seu iluminador.

- Eu? Mas eu năo entendo nada de televisăo, nem de iluminaçăo.

E Jaci, tranqüilo:

- Năo tem importância; vocę tem boa vontade, é vivo, aprende rápido. Se aparecer algum problema, vocę improvisa.

Sílvio Santos sabe muito bem que assim tem sido na história da televisăo. A frase mais comum entre os técnicos é ''ninguém nasce sabendo". E o aprendizado, ainda hoje, é a prática, o trabalho, a capacidade de improvisar" até de inventar, e o erro.

Limitada no tempo e no espaço, a televisăo comercial brasileira abriu măo da sua força como canal de comunicaçăo e hoje é um gigante tímido" acanhado" um supercamelô cujo único objetivo é vender. Com uma notável capacidade de prender, interessar, viciar e comunicar, ela prende e vicia, mas năo interessa nem comunica porque a estrutura comercial só está preocupada (salvo casos isolados e raros) com o auditório e a audięncia. Com o auditório que anima o animador e com a audięncia que dá pontos no IBOPE.

É preciso năo confundir audięncia com público de casa: a audięncia é importante, mas é sobretudo ao público de casa que se dirige a publicidade, gravada dois tons acima (porque, de outro modo, pode ser que ninguém dę ouvidos a ela, geralmente mal produzida). Esse público é freqüentemente desrespeitado com o atraso dos programas (sem que alguém apareça para se desculpar); é impedido de optar, porque os horários săo divididos em faixas sem imaginaçăo (a hora de novela em todos os canais, assim como hora de humor é hora de humor).

A propósito de humor, um leitor da revista Intervalo, especializada em televisăo, escreveu para informar que sabe uma porçăo de anedotas sujas, velhas e sem graça. Perguntando: "Será que eu poderia ser aceito como produtor humorístico numa emissora de televisăo?"

Até mesmo quem tem formaçăo profissional sofre as limitaçőes da engrenagem comercial: por que perder tempo com programas năo comerciais, que năo dăo audięncia? Entăo, o falecido cronista Antônio Maria chegou um dia com o texto de um programa de humor e o produtor reclamou imediatamente do autor:

- Está bom demais para o nosso público. É preciso descer o nível.

Antônio Maria refez. Novo pedido para refazer. Na terceira vez, ele jogou os originais na mesa do homem:

- Está aí; pior eu năo sei fazer.

Diz Sílvio Santos que ''năo é problema de pior ou melhor. É problema de atingir ou năo a massa". E explica:

- No meu programa há uma parte com perguntas e respostas. Se em dez perguntas o telespectador năo conseguir responder pelo menos seis, ele vira o botăo, vai ver outra coisa, diz que o programa está ruim. Mas, se ele responde as dez, fica bem com a mulher, com os filhos, com ele mesmo, e fica satisfeito comigo, com o programa, dá audięncia, entende?

Sílvio compreende perfeitamente que, improvisada em juiz de gosto popular, a gente da televisăo năo se preocupa em estudar os mecanismos de reaçăo do público. Năo vę que, nas novelas, o público foge do dia-a-dia, dos problemas existenciais, na certeza de que toda aquela desgraça terminará bem e que o bom (cada um de nós é sempre bom para si mesmo) será premiado no último capítulo - o único que realmente importa. Năo vę que, além disso, o público está atraído pela açăo, pelo mistério, pela matéria de interesse humano, o amor, a luta, o contraste. E que tudo isto pode ser oferecido de outra forma, sem ser preciso fazer novela ruim.

Năo será evidente que o que atrai na luta-livre - que todos sabem ser uma luta arranjada - é simplesmente a possibilidade de descarregar agressividade contra o ''vilăo", pela antecipada identificaçăo do vencedor, o "mocinho"?

A absoluta falta de interesse cultural, de estudo, a submissăo completa ao interesse comercial (também discutível) é que leva os improvisadores ŕs soluçőes mais simples: novela, luta-livre e programas humorísticos baseados em personagens fixas e situaçőes imutáveis na sua substância. Năo percebem o perigo que representa para o público esse gęnero de humor onde já se sabe, de antemăo, o que vai acontecer. É bem verdade que os viciados em tevę acompanham o programa e entendem tudo, o que Lhes dá satisfaçăo pessoal. Mas é grande risco para pequena satisfaçăo, entender onde năo há nenhum problema de entendimento.

O GRANDE PERIGO DA TEVĘ COMERCIAL É CRIAR UM HOMEM SUPERCIVILIZADO E SUBPRIMITIVO

Marshall McLuhan - um especialista em comunicaçăo de massa - chama a atençăo para o grande mal da televisăo comercial: massificar sem informar; embotar o espírito empreendedor, limitar a curiosidade e reduzir o interesse vital. Diz ele que, ao ultrapassarmos a escrita, evocamos um homem supercivilizado e subprimitivo.

Diz Sílvio Santos:

-Tentei fazer programas de nível melhor, mas năo deu certo. Programas sérios, de debates, năo fizeram público. A verdade é que a tevę é uma arena. O público hoje é quase exclusivamente composto pelos antigos ouvintes de rádio. Quem critica năo sabe, mas para nós năo há salvaçăo. A luta pela audięncia é feroz e ninguém trabalha para perder dinheiro. Se a televisăo é comercial, e só, a única preocupaçăo tem que ser mesmo ganhar dinheiro.

Isso ele faz; e bem. Este ano pagou 2,2 milhőes de cruzeiros novos de imposto de renda (2,2 bilhőes de cruzeiros velhos). Se, para tanto, chega a fazer concurso para escolher o nome mais feio do Brasil (Tropicăo de Almeida, entre os homens, e Cólica de Jesus, entre as mulheres, numa injustiça a Magnésia Bisurada do Patrocínio), isso é apenas um detalhe. Na linha de mostrar o mais gordo, o menor, o mais bigodudo, nada escapou. Depois, trazendo do interior duas cidades de cada vez, institucionalizou o que há de mais interiorano, no mau sentido: o menino que sobe no tronco de cabeça para baixo; a filha-de-năo-sei-quem que năo é a mais bonita da cidade mas que é quem tem prestígio para representá-la como miss; o treinador-de-cavalos-que-diz-morre-e-o-cavalo-deita, diz-olha-o-fotógrafo-e-o-cavalo-sorri; esse tipo de coisa que é assunto de sábado no Grande Ponto e constitui uma das fontes do orgulho municipal.

Também é verdade que ele dá casa, carro, refrigerador, alguns milhőes em utilidades domésticas, além de vinte, trinta, até mais milhőes toda semana para Santas Casas dessas cidades. Mas ele sabe que isso também é detalhe. Tanto, que prevę:

- Năo acredito que esse tipo de programa vá durar muitos anos. O Brasil năo pode ficar sempre assim e próprio público acaba cansando. Mas, enquanto a estrutura da televisăo comercial năo mudar, enquanto os índices de audięncia continuarem prevalecendo, enquanto o público năo exigir mais, a televisăo năo melhora. Porque năo precisa, năo quer nem pode.

No dia em que mudar, Sílvio năo sabe como estará, o que vai fazer. Mas, se quiser, pode fazer boa televisăo. Ele sabe como. Só năo faz porque năo compensa e, ao contrário, está provado que dá prejuízo.

A curto prazo, qual seria a soluçăo?

É difícil dizer. Mas, se as emissoras fizessem frente única e estabelecessem um nível mínimo de qualidade, recusando o ruim, mesmo pago, pode ser que desse certo. O problema é que tudo no Brasil acontece devagar. Nossa televisăo também vai mudar no mesmo ritmo, conforme o público for mudando, progredindo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, as emissoras de tevę limitam-se a transmitir programas. Năo produzem, năo tęm cast, só vendem seu tempo. Os produtores săo independentes, tęm os seus estúdios, seus técnicos, seu auditório, até seu público. O produtor faz o seu programa e leva ŕ emissora, pronto, perfeito, muito bem acabado, propondo negócio: a compra de tempo para transmiti-lo (sob patrocínio que o próprio produtor trata de arranjar). A direçăo comercial faz o negócio, submetendo-se ŕ apreciaçăo do diretor artístico que pode, inclusive, vetar o negócio se năo gostar do nível do programa. Entăo, o que acontece é que o pessoal trata de produzir o melhor possível, para comprar o melhor horário, ganhar mais dinheiro, năo se arriscar ao prejuízo de ficar com um programa ruim na măo, sem ter quem transmita. E a estrutura lá também é comercial, só que a audięncia é medida segundo a quantidade e a qualidade. Isto é: ŕs vezes, importa mais a qualidade do público, a sua capacidade intelectual e de compra, do que o número. Aqui, nós ainda estamos na fase da quantidade.

MORAL DA HISTÓRIA, SEGUNDO SÍLVIO: CADA PÚBLICO TEM A TELEVISĂO QUE MERECE

Moral da história, segundo Sílvio Santos: o dia em que o nosso público for mesmo maravilhoso, a televisăo também terá que ser maravilhosa.

SUPER SÍLVIO

O que está acontecendo com a televisăo comercial brasileira? Talvez ele possa dizer: Ú um dos seus profetas e está sentado Ó măo direita do IBOPE (Instituto Brasileiro de Opiniăo Pública e Estatistica); Ú um dos favoritos do público e super-herói da tevę, feito Ó sue imagem e semelhança

Infelizmente, senhoras e senhores, năo temos imagem para que todos possam ver o que está acontecendo aqui. Mas, pelo som (e naturalmente, atravÚs da nossa transmissăo), podem fazer uma idÚia do espetáculo maravilhoso a que estamos assistindo. Era o que dizia a gente da rádio, vinte anos atrás. Entăo veio a televisăo. Eles se passaram para a tevę com armas (inadequadas) e bagagem (insuficiente). Hoje costumam dizer que infelizmente, senhoras e senhores, năo temos imagens a cores para que todos possam realmente ver o que está acontecendo aqui. Mas, pelo som (e, naturalmente, atravÚs da nossa imagem), podem fazer uma idÚia do espetáculo maravilhoso a que estamos assistindo. Do jeito que a coisa vai, a televisăo a cores năo demora. E a turma vai dizer que, infelizmente, senhoras e senhores, năo transmitimos ainda em tręs dimensőes - ou os cheiros, quem sabe? -, para que todos possam realmente ver e sentir o que está acontecendo. Afinal, o que Ú que está acontecendo com a televisăo comercial brasileira, acusada de ser um instrumento contra a cultura do povo? Talvez ele possa responder. Senhoras e senhores, Ú com prazer que apresentamos Sílvio Santos, o Super-Sílvio, que Ú um dos profetas da tevę comercial, está tranqüilamente sentado Ó măo direita do IBOPE, Ú um dos grandes favoritos do auditório e do chamado público de casa, e que (sem dúvida) foi feito e cresceu Ó imagem e semelhança da tevę, com todas as suas qualidades e a maior parte dos seus defeitos. No domingo, 20 de julho, quando o homem botou pela primeira vez o pÚ na Lua, a televisăo estava lá, transmitindo diretamente e com uma imagem perfeita, apesar dos 400 000 quilômetros de distÔncia. O índice de audięncia foi a um bom nível: 41,4% das pessoas que tęm tevę estavam assistindo ao espetáculo, enquanto 20% dos aparelhos permaneciam apagados. Os tÚcnicos em pesquisa e estatística calculam que 5,5 milhőes de telespectadores brasileiros assistiram ao vivo o feito inÚdito, só contando o público de Săo Paulo, do Rio e das cidades vizinhas.

SO A CHEGADA Ŕ LUA CONSEGUIU TER MAIS AUDIĘNCIA QUE OS PROGRAMAS DE SÍLVIO SANTOS

Na mesma semana, sem ir Ó Lua, Sílvio Santos conseguiu em Săo Paulo uma audięncia apenas 1% menor (40,4), na sexta-feira, com o programa Cidade contra Cidade. E no domingo o IBOPE marcou 35,8 para o Programa Sílvio Santos, que ficou com o segundo e o terceiro lugares entre os programas de maior audięncia, perdendo apenas para a transmissăo da aventura da Apollo 11. Quem Ú este Sílvio Santos, muito mais popular do que o Topo Gigio (que custa milhőes e marcou 33,5%). mais sensacional do que o seriado Missăo Impossível (32%), com mais magnetismo do que o Chacrinha (que só atraiu 28,4%), e mais romÔntico do que Nino, o Italianinho (25,8%)? - Eu? Eu sou um homem comum, que sempre se esforçou para viver sozinho. Sempre fui ultra-independente. Sílvio nasceu no dia 12 de dezembro de 1935, na Travessa Bem-Te-Vi. É carioca da gema. Estudou na- Escola Celestino da Silva, em seguida foi para a Escola Amaro Cavalcanti. Pouco depois precisava trabalhar, ganhar dinheiro, aos doze anos já era camelo nas ruas do Rio. Vendia de tudo, da caneta tăo mais barata e tăo melhor do que a Parker Ós carteiras para título de eleitor, muito mais em conta do que qualquer loja do ramo. Com um olho nos fregueses e outro no "rapa", falava, falava, falava. E vendia, sempre com um largo sorriso. - O sorriso Ú a melhor arma para inspirar confiança. O homem que sorri Ú um homem confiante, de quem toda gente gasta. Hoje, aos 33 anos, ele tem fama de ser o homem mais rico da televisăo brasileira, sempre falando muito (seus programas duram atÚ dez horas) e sorrindo. Ainda Ú um camelô - e Ú ele mesmo quem diz isso. Continua na defensiva, como no tempo em que os camelôs eram perseguidos, presos e levados para o Depósito de Presos da Central de Polícia. Naquela Úpoca, Sílvio tinha um trunfo: era menor de idade, já era simpático, quando o carro da fiscalizaçăo chegava e ele năo tinha tempo de correr, tentava "enrolar o rapa". Falava manso, sorrindo sempre. Se năo dava resultado, jogava a clientela, o povo contra os fiscais, falando alto, dizendo que era honesto, precisava ganhar a vida, a polícia năo deixava, preferia que ele fosse ladrăo.. . - Sempre fui de falar, e sempre fui louco por dinheiro. Um dia, o chefe da repressăo aos camelôs, Renato Meira Lima, viu Sílvio Santos trabalhando. Já sabia quem era o garoto que causava tanto trabalho aos seus fiscais. Deu alguns conselhos e um cartăo de apresentaçăo para Jorge de Matos, dono do CafÚ Globo e da Rádio Guanabara. Sílvio foi inscrito em um concurso de locutores, ganhou o primeiro pręmio, foi contratado: 1200 cruzeiros (dos velhos) por męs. - Preferi ser camelô. Eu fazia 3 000 por męs. (Cada caneta custava 20 cruzeiros velhos ao freguęs, e eram pagas a 160 a dúzia, no atacado.) Mas chegou a hora do serviço militar. Năo dava para ser camelô com o cabelo cortado Ó escovinha. Sílvio entrou para a escola de para-quedistas e montou a "primeira emissora marítima do Brasil". Era um serviço de alto-falantes, numa das barcas de Niterói. Transmitia músicas e anúncios. Um dia, a barca foi para o estaleiro e Sílvio para Săo Paulo. Montou um bar, perto da Rádio Nacional. Pouco depois era locutor de rádio, ganhando 5 000, dos velhos. Com menos de um ano de casa, porÚm, foi mandado embora: deu uma entrevista dizendo que os diretores năo entendiam coisa alguma de rádio, só tinham audięncia por sorte. Pior ainda: confessava que năo saia de lá só porque queria fazer clientela para o bar (Nosso Cantinho) entre os colegas e amigos. Desculpado, a pedido dos amigos, vendeu o bar por 240 000 cruzeiros e lançou uma revista de palavras cruzadas e charadas. - No bar, eu năo podia fazer publicidade. E começou a melhorar de vida, sem sair da Rádio Nacional, onde atÚ hoje tem o programa de maior audięncia no Brasil (18%, enquanto o segundo colocado, uma novela, tem só 10%). Em 1958, Sílvio tinha que fazer de tudo para sobreviver: fabricava folhinhas, aceitava qualquer ponta na televisăo, trabalhou atÚ em circo, organizou caravanas artísticas pelo interior, fez uma campanha política em troca de um jipe, foi ajudante de animador no programa Praça da Alegria, que Manoel de Nóbrega tem atÚ hoje. Foi Nóbrega quem chamou Sílvio Santos para trabalhar na sua firma, o Baú da Felicidade, que funcionava no porăo de um prÚdio em reforma, sem arquivos, um caixote servindo de mesa. Sílvio trabalhou com entusiasmo. Em 1961, Nóbrega vendeu sua parte e deixou o sócio sozinho. Hoje, o Baú tem 600 mil clientes, 2 200 empregados, 25 lojas, centenas de representantes, 84 carros, precisa atÚ dos serviços de um computador eletrônico. Paralelamente ao crescimento do Baú, Sílvio montou uma agęncia de publicidade, uma construtora, uma indústria de televisores. Comprou tempo na televisăo e passou a faćr os seus próprios programas. O Baú paga tudo.E o que Ú o Baú? Uma firma de crÚdito que vende carnes. Quem compra paga 4 cruzeiros novos por męs, durante catorze meses. E concorre (se estiver em dia) a sorteios pela Loteria Federal (a última extraçăo de cada męs). Dando o número do seu carnę no primeiro pręmio, pode ganhar uma casa, um apartamento ou um automóvel. O segundo pręmio vale 1 milhăo (dos velhos) em mercadorias. O terceiro dá direito a um refrigerador ou a uma alta-fidelidade. O quarto vale a máquina de lavar ou um televisor. Cada cliente pode comprar quantos carnęs desejar. Depois de tudo pago, mesmo sem ser sorteado, ele năo perde: ganhou a economia que fez, podendo retirar o equivalente ao dinheiro empatado em qualquer loja do Baú (tudo: de sapatos e roupas a eletrodomÚsticos, de cama-e-mesa a copa-cozinha, mais de trezentos artigos diferentes). Mas, em vez de comprar um carnę, o cliente pode, se preferir, abrir um crediário para comprar seja o que for, em 36 meses, recebendo tambÚm um talăo numerado que concorre ao sorteio dos mesmos pręmios. "DIZEM QUE O QUE EU FAĂO NA TEVĘ É RÁDIO COM IMAGENS. MAS É ISSO MESMO QUE O PÚBLICO QUER" - Dizem que o meu programa Ú comercial. E que eu faço na televisăo rádio com imagem. É verdade. Mas Ú isso mesmo que o público quer E ninguÚm conhece o público como eu conheço. Eu pesquiso, gasto dinheiro procurando saber o que Ú que ele~ quer, o que năo quer. Năo sou eu quem está por fora, săo os que falam sem saber. há dezenove anos, quando a televisăo brasileira nasceu, a goiabada Peixe patrocinou o programa inaugural: um musical, sem Ari Barroso, Lamartine Babo, ou Pixinguinha, sem Dorival Caymmi, sem Sílvio Caldas, sem Francisco Alves sem Elizabeth Cardoso, sem samba. Começou com a chamada atraçăo internacional, no caso Frei JosÚ Mojica, cantando uma hora de boleros. NinguÚm estava preparado para televisăo, nem ficou preocupado com a novidade. Televisăo, para a gente de rádio, era uma coisa simples, rádio com imagem. E foi assim mesmo que o esquema começou a funcionar, exatamente com a gente de rádio, os mesmos programas, as mesmas atraçőes. Apenas uma insignificante minoria foi estudar o assunto. A maioria tinha que trabalhar no rádio e na tevę, năo sobrava tempo para mais nada. No máximo, um tempinho para ir aos Estados Unidos ter idÚias, ver o que Ú que estavam fazendo por lá. Mas a televisăo cresceu rápido, ficou forte, ganhou muito dinheiro, e a própria estrutura comercial desviou os esforços dos que tentaram melhorar o nível cultural da tevę. - O que a critica năo percebe - diz Sílvio - Ú que a televisăo Ú um reflexo da realidade brasileira. Eu fabrico televisores e vendo, só em Săo Paulo, quinhentos por męs, a 30 cruzeiros novos, sem entrada, sem mais nada. Eu sei quem Ú que compra: o antigo público de rádio. Hoje em dia, quem năo tem televisăo năo tem coisa alguma. O aparelho de tevę substituiu a máquina de costura como elemento indispensável em um casamento. E Ú para este público que devemos fazer televisăo, se Ú que a audięncia tem importÔncia. A conclusăo só pode ser uma: num país em que a maioria dos aparelhos de tevę está nas măos de pessoas mal informadas, a preocupaçăo principal da tevę foi ser comercial, ganhar dinheiro, ter audięncia em termos de quantidade. A tal ponto que, sem querer, o IBOPE passou a ditar as regras do jogo, um jogo de números, onde a letra năo entra. Quem tem público continua; quem năo está com as massas fica de fora, seja quem for. O que realmente importa năo Ú o que se diz, como se diz, por que se diz, quando ou onde. O que importa Ú saber quantas pessoas estăo ali para serem oferecidas ao anunciante. Se o esquema está funcionando, para que discutir com os ouvintes? Enquanto a máquina der dinheiro, está tudo bem. A TEVĘ É UM GIGANTE TÍMIDO, ACANHADO: UM SUPERCAMELÔ QUE SÓ SE PREOCUPA EM VENDER PRODUTOS Sílvio tambÚm Ú criticado (como toda a televisăo comercial) por ser um improvisador. - Sou - confessa ele.- Como todo brasileiro que se preza, eu me adapto a qualquer circunstÔncia. Mas isso Ú fundamental para quem quer conseguir alguma coisa na televisăo e na vida. Na televisăo contam uma anedota, que Ú verídica: Jaci Campos, produtor e diretor de tevę (CÔmera Um, por exemplo), chamou um amigo nos primeiros tempos da televisăo para ser seu iluminador. - Eu? Mas eu năo entendo nada de televisăo, nem de iluminaçăo. E Jaci, tranqüilo: - Năo tem importÔncia; vocę tem boa vontade, Ú vivo, aprende rápido. Se aparecer algum problema, vocę improvisa. Sílvio Santos sabe muito bem que assim tem sido na história da televisăo. A frase mais comum entre os tÚcnicos Ú ''ninguÚm nasce sabendo". E o aprendizado, ainda hoje, Ú a prática, o trabalho, a capacidade de improvisar" atÚ de inventar, e o erro. Limitada no tempo e no espaço, a televisăo comercial brasileira abriu măo da sua força como canal de comunicaçăo e hoje Ú um gigante tímido" acanhado" um supercamelô cujo único objetivo Ú vender. Com uma notável capacidade de prender, interessar, viciar e comunicar, ela prende e vicia, mas năo interessa nem comunica porque a estrutura comercial só está preocupada (salvo casos isolados e raros) com o auditório e a audięncia. Com o auditório que anima o animador e com a audięncia que dá pontos no IBOPE. É preciso năo confundir audięncia com público de casa: a audięncia Ú importante, mas Ú sobretudo ao público de casa que se dirige a publicidade, gravada dois tons acima (porque, de outro modo, pode ser que ninguÚm dę ouvidos a ela, geralmente mal produzida). Esse público Ú freqüentemente desrespeitado com o atraso dos programas (sem que alguÚm apareça para se desculpar); Ú impedido de optar, porque os horários săo divididos em faixas sem imaginaçăo (a hora de novela em todos os canais, assim como hora de humor Ú hora de humor). A propósito de humor, um leitor da revista Intervalo, especializada em televisăo, escreveu para informar que sabe uma porçăo de anedotas sujas, velhas e sem graça. Perguntando: "Será que eu poderia ser aceito como produtor humorístico numa emissora de televisăo?" AtÚ mesmo quem tem formaçăo profissional sofre as limitaçőes da engrenagem comercial: por que perder tempo com programas năo comerciais, que năo dăo audięncia? Entăo, o falecido cronista Antônio Maria chegou um dia com o texto de um programa de humor e o produtor reclamou imediatamente do autor: - Está bom demais para o nosso público. É preciso descer o nível. Antônio Maria refez. Novo pedido para refazer. Na terceira vez, ele jogou os originais na mesa do homem: - Está aí; pior eu năo sei fazer. Diz Sílvio Santos que ''năo Ú problema de pior ou melhor. É problema de atingir ou năo a massa". E explica: - No meu programa há uma parte com perguntas e respostas. Se em dez perguntas o telespectador năo conseguir responder pelo menos seis, ele vira o botăo, vai ver outra coisa, diz que o programa está ruim. Mas, se ele responde as dez, fica bem com a mulher, com os filhos, com ele mesmo, e fica satisfeito comigo, com o programa, dá audięncia, entende? Sílvio compreende perfeitamente que, improvisada em juiz de gosto popular, a gente da televisăo năo se preocupa em estudar os mecanismos de reaçăo do público. Năo vę que, nas novelas, o público foge do dia-a-dia, dos problemas existenciais, na certeza de que toda aquela desgraça terminará bem e que o bom (cada um de nós Ú sempre bom para si mesmo) será premiado no último capítulo - o único que realmente importa. Năo vę que, alÚm disso, o público está atraído pela açăo, pelo mistÚrio, pela matÚria de interesse humano, o amor, a luta, o contraste. E que tudo isto pode ser oferecido de outra forma, sem ser preciso fazer novela ruim.

Năo será evidente que o que atrai na luta-livre - que todos sabem ser uma luta arranjada - Ú simplesmente a possibilidade de descarregar agressividade contra o ''vilăo", pela antecipada identificaçăo do vencedor, o "mocinho"? A absoluta falta de interesse cultural, de estudo, a submissăo completa ao interesse comercial (tambÚm discutível) Ú que leva os improvisadores Ós soluçőes mais simples: novela, luta-livre e programas humorísticos baseados em personagens fixas e situaçőes imutáveis na sua substÔncia. Năo percebem o perigo que representa para o público esse gęnero de humor onde já se sabe, de antemăo, o que vai acontecer. É bem verdade que os viciados em tevę acompanham o programa e entendem tudo, o que Lhes dá satisfaçăo pessoal. Mas Ú grande risco para pequena satisfaçăo, entender onde năo há nenhum problema de entendimento. O GRANDE PERIGO DA TEVĘ COMERCIAL É CRIAR UM HOMEM SUPERCIVILIZADO E SUBPRIMITIVO Marshall McLuhan - um especialista em comunicaçăo de massa - chama a atençăo para o grande mal da televisăo comercial: massificar sem informar; embotar o espírito empreendedor, limitar a curiosidade e reduzir o interesse vital. Diz ele que, ao ultrapassarmos a escrita, evocamos um homem supercivilizado e subprimitivo. Diz Sílvio Santos: -Tentei fazer programas de nível melhor, mas năo deu certo. Programas sÚrios, de debates, năo fizeram público. A verdade Ú que a tevę Ú uma arena. O público hoje Ú quase exclusivamente composto pelos antigos ouvintes de rádio. Quem critica năo sabe, mas para nós năo há salvaçăo. A luta pela audięncia Ú feroz e ninguÚm trabalha para perder dinheiro. Se a televisăo Ú comercial, e só, a única preocupaçăo tem que ser mesmo ganhar dinheiro. Isso ele faz; e bem. Este ano pagou 2,2 milhőes de cruzeiros novos de imposto de renda (2,2 bilhőes de cruzeiros velhos). Se, para tanto, chega a fazer concurso para escolher o nome mais feio do Brasil (Tropicăo de Almeida, entre os homens, e Cólica de Jesus, entre as mulheres, numa injustiça a MagnÚsia Bisurada do Patrocínio), isso Ú apenas um detalhe. Na linha de mostrar o mais gordo, o menor, o mais bigodudo, nada escapou. Depois, trazendo do interior duas cidades de cada vez, institucionalizou o que há de mais interiorano, no mau sentido: o menino que sobe no tronco de cabeça para baixo; a filha-de-năo-sei-quem que năo Ú a mais bonita da cidade mas que Ú quem tem prestígio para representá-la como miss; o treinador-de-cavalos-que-diz-morre-e-o-cavalo-deita, diz-olha-o-fotógrafo-e-o-cavalo-sorri; esse tipo de coisa que Ú assunto de sábado no Grande Ponto e constitui uma das fontes do orgulho municipal. TambÚm Ú verdade que ele dá casa, carro, refrigerador, alguns milhőes em utilidades domÚsticas, alÚm de vinte, trinta, atÚ mais milhőes toda semana para Santas Casas dessas cidades. Mas ele sabe que isso tambÚm Ú detalhe. Tanto, que prevę: - Năo acredito que esse tipo de programa vá durar muitos anos. O Brasil năo pode ficar sempre assim e próprio público acaba cansando. Mas, enquanto a estrutura da televisăo comercial năo mudar, enquanto os índices de audięncia continuarem prevalecendo, enquanto o público năo exigir mais, a televisăo năo melhora. Porque năo precisa, năo quer nem pode. No dia em que mudar, Sílvio năo sabe como estará, o que vai fazer. Mas, se quiser, pode fazer boa televisăo. Ele sabe como. Só năo faz porque năo compensa e, ao contrário, está provado que dá prejuízo. A curto prazo, qual seria a soluçăo? É difícil dizer. Mas, se as emissoras fizessem frente única e estabelecessem um nível mínimo de qualidade, recusando o ruim, mesmo pago, pode ser que desse certo. O problema Ú que tudo no Brasil acontece devagar. Nossa televisăo tambÚm vai mudar no mesmo ritmo, conforme o público for mudando, progredindo. Nos Estados Unidos, por exemplo, as emissoras de tevę limitam-se a transmitir programas. Năo produzem, năo tęm cast, só vendem seu tempo. Os produtores săo independentes, tęm os seus estúdios, seus tÚcnicos, seu auditório, atÚ seu público. O produtor faz o seu programa e leva Ó emissora, pronto, perfeito, muito bem acabado, propondo negócio: a compra de tempo para transmiti-lo (sob patrocínio que o próprio produtor trata de arranjar). A direçăo comercial faz o negócio, submetendo-se Ó apreciaçăo do diretor artístico que pode, inclusive, vetar o negócio se năo gostar do nível do programa. Entăo, o que acontece Ú que o pessoal trata de produzir o melhor possível, para comprar o melhor horário, ganhar mais dinheiro, năo se arriscar ao prejuízo de ficar com um programa ruim na măo, sem ter quem transmita. E a estrutura lá tambÚm Ú comercial, só que a audięncia Ú medida segundo a quantidade e a qualidade. Isto Ú: Ós vezes, importa mais a qualidade do público, a sua capacidade intelectual e de compra, do que o número. Aqui, nós ainda estamos na fase da quantidade. MORAL DA HISTÓRIA, SEGUNDO SÍLVIO: CADA PÚBLICO TEM A TELEVISĂO QUE MERECE Moral da história, segundo Sílvio Santos: o dia em que o nosso público for mesmo maravilhoso, a televisăo tambÚm terá que ser maravilhosa.




No comments:

Post a Comment

Followers