Friday, June 25, 2010

1977 - Jornalistas que Cobrem a TV

Opiniăo
28/1/1977
Dermeval Coutinho Netto e Delfim Afonso Jr.
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PARA LER O COLUNISMO DE TV
Inscrita no centro do chamado jornalismo de serviço que nos presta a imprensa de cada dia e cada semana, uma das séries mais emergentes e com grande rentabilidade simbólica, é aquela dedicada ao comentário e ŕ informaçăo sobre a TV.

Integrada, sob o signo do lazer e da diversăo, a outras ofertas do instigante e cotidiano cardápio de espetáculos, essa modalidade de noticiário e colunismo passou a ganhar estatuto próprio de imprensa especializada, incumbida do registro assíduo da variedade televisiva, a realimentar e administrar o fascínio do publico por este meio e seus artigos. Sua proposta manifesta é a de dar ordem ao material exibido na televisăo, oferecendo planos para sua leitura anedótica.

"O casamento de Leda Maria (Bety Faria) e Dino (Mário Gomes) é uma das surpresas que Janete Clair guarda para a metade de Duas Vidas. Mas o casamento năo dará certo e o desquite também já foi incluído nos planos de Janete." (Coluna de Ely Halfoun, Revista UH, 12/1/77).

Ocupando oficialmente o espaçodo segundo caderno dos jornais, esta imprensa tenta romper as amarras que aí a fixaram (como imprensa menor de uma arte menor ao lado de colunismos de maior status como os do teatro, do cinema e da música) para fundar seu próprio espaço, cumprindo um trajeto de emancipaçăo: a imprensa da TV passou, até certo ponto, a prescindir da companhia das outras atraçőes do trivial da cultura, na medida em que se organizou como uma imprensa particular.

Seu domínio é o do seu corpus específico, constituído pela variedade de motivos que propicia a TV, estando, por outro lado, a referir-se a todo o real que se sujeita ŕ apropriaçăo operada pela TV. O noticiário sobre a TV acaba por ser o noticiário da vida que se tornou espetáculo.

O que năo significa, de nenhum modo, a independęncia desta atividade jornalística ŕ da grande imprensa: da mesma forma que a TV é solidária ao real, ocorre uma relaçăo de solidariedade entre o jornal da TV e os outros espaços de trabalho da grande imprensa. E é a ocupaçăo da vida social, levada a efeito pela TV, que realiza um de seus momentos mais expressivos no crescimento desta imprensa a ela dedicada; e na sua interaçăo com o grande conjunto jornalístico. A TV como freqüente assunto de pauta torna-se um motivo e uma oportunidade para a garantia do sucesso junto ao leitor.

"O mais alto salário da Hollywood brasileira sai fora da área das telenovelas para cair na do humor - é o de Chico Anísio -250.000 cruzeiros, basicamente para fazer Chico City e aparecer no Fantástico. Quanto aos demais, torna-se praticamente impossível apurar. Primeiro, porque eles năo contam - ou mentem. Sabe-se no entanto que os superstars - Francisco Cuoco, Regina Duarte, Tarcísio Meira e Glória Menezes - ganham ordenados seguramente superiores a 100.000 cruzeiros." (reportagem "O futuro de um império", Revista Veja, 6/10/76).

A imprensa da TV tem por funçăo anunciar que o mundo da televisăo năo está separado do mundo do telespectador. A convivęncia com os grandes ídolos ou com as propostas que se encontram convertidas em programaçăo năo é dada apenas no momento do televisor ligado. Há toda unta estratégia de seduçăo que corre em regime de full-time, fazendo com que o público reconheça o cotidiano da TV no seu cotidiano e vice-versa. A fala da TV năo é apenas sua transmissăo eletrônica, mas também a que se transcreve, ou a que se transporta. Ela é a totalidade de sua expressăo enquanto inscrita nos outros circuitos da indústria cultural.

Nesse sentido, as páginas e suplementos dedicados a comentar a TV com suas colunas, notas e roteiros, as revistas especializadas, as colunas sociais, as reportagens e entrevistas que sistematicamente aparecem nos jornais e revistas com pessoas e aspectos da TV, as publicaçőes dirigidas ao público feminino e are ao infantil, concorrem na fabricaçăo de um mundo unificado onde a vida de uma estrela do vídeo passa a dizer respeito tanto a si mesma quanto a qualquer pessoa.

"Francisco Cuoco e Gina aguardando, para daqui há quatro meses e meio, a chegada de um novo baby. Que deverá estrear a nova casa de Săo Conrado." (Coluna de Hildegard Angel, Revista Amiga, 22/12/76).

"Regina Duarte năo tem mesmo medo de celulite. Todos os domingos, acompanhada do marido e filhos, devora uma grande variedade de massas no Terrazza Romana." (Coluna de Sílvio Di Nardo, Revista Amiga, 20/1/77).

Uma espécie de fait-divers de um mundo romanesco continuamente a representar-se entre uma vida real e uma ficçăo, onde as grandes estrelas da TV, que entretęm esta crônica de seu espetáculo, săo celebradas, em última instância, pela vida de excesso e pela virtualidade de seus gastos. Embora muitas vezes, e por inversăo, o imperativo ordene que sejam mostradas na sua simplicidade cotidiana, fazendo compras etc.,cumprem, do mesmo modo que as figuras da alta sociedade (porém de forma mais eficaz, devido ŕ contigüidade mais flagrante entre o mundo da TV e o aqui fora), a funçăo social muito precisa: a da despesa suntuária, inútil e desmedida. E é a cobertura desse prosaico que as consagra como representantes do público no país das maravilhas.

"O grande reveillon dos artistas foi no apartamento de Fábio Sabag, que promoveu uma festa em branco e prata para prestar homenagem a Iemanjá, na esperança de dias melhores (com o branco) e conquistar a tranqüilidade financeira (com o prata). A festa de Sabag durou até a. manhă do dia seguinte." (Revista Amiga, 20/1/77).

Na imprensa da TV um dos pontos mais genuínos de seu discurso é ainda reforçar a imagem do veículo como a de um bem-comum, que interessa principalmente a cada indivíduo, a cada família. A televisăo é tratada e percebida como uma instituiçăo que faz parte do patrimônio do povo.

Neste caso, é o álibi da participaçăo do homem no mundo que faz a corte da TV: o simulacro deste mundo a serviço da evasăo social de que se vale a TV e sua especializada imprensa.

"Em menos de cinco anos o Brasil tornou-se a aldeia que todos queríamos, na qual, ao mais distante de nossos irmăos, năo é furtada a informaçăo básica, a participaçăo total de que só desfrutavam os moradores das grandes cidades. Hoje, nas mais distantes fronteiras, nas fazendas remotas, a televisăo é uma janela iluminada para o mundo." (Revista Audięncia nş 1, junho de 76).

Através da aparente informaçăo descompromissada, dissimulá-se a promoçăo e a propaganda de artigos e produtos, que aparentemente năo o săo. E os valores oficiais da sociedade, já trabalhados pela TV, săo agora reelaborados de forma inclusive a confirmar a TV como o lugar pedagógico possível.

"O traço mais marcante da telencenaçăo de Duas Vidas tem sido o tratamento extremamente procurado por Daniel Filho na direçăo. Quem tem TV a cores deve estar reparando: Bety Faria e outras atrizes tęm aparecido praticamente sem maquilagem. A gente chega até a ver as adoráveis pintinhas e sardas dela e de outros artistas." (Coluna de Artur da Távola, O Globo. 7/1/77).

"Vendo, na televisăo, a presença do jovem em tantas coisas - programas, novelas, anúncios, notícias - conclui-se o jovem e a criança săo reis da vida. Ora sendo refletidos em sua beleza e ingenuidade, ora sendo usados para fins mercadológicos, eles săo a grande presença. (...) Ser jovem é andar confiante como quem salta, se possível de măos dadas com o ar. É ter coragem de nascer a cada dia e embrulhar as fossas no celofane do năo faz mal. E acreditar em frases, pessoas, mitos, forças, sons, é crer no que năo vale a pena mas ai da vida se năo fosse isso." (Coluna de Artur da Távola, Revista Amiga. 22/12/76.)

O colunista de TV, investido no papel de interpretador, e aí dissimulado, inscreve-se na linha de montagem dos produtos que recomenda. Fazendo parte do espetáculo, seu texto é também produzido em estúdio, sua voz é a mesma voz do dono.

A posiçăo que ocupa refere-se ŕ uma hierarquia no interior do mesmo sistema de produçăo e circulaçăo de bens simbólicos. O jornalista assume nesta engrenagem a condiçăo institucional de funcionária de uma unidade coletiva de produçăo, com tarefas definidas. Deve no exercício de seu poder eleger programas, artistas, regras de construçăo de espetáculos, e incorporar a funçăo de porta-voz dos interesses empresariais, referindo-se assim ŕ uma situaçăo de poder mais fundamental, que é a do capital.

"A grande verdade é que nenhum artista pode se rebelar contra a televisăo. Porque a TV promove, eleva e consagra o artista. O negócio, meus filhos, é saber viver, amar a televisăo, amar o público, e manter, numa permanente lua-de-mel, o seu relacionamento com um e outro..." ("Chacrinha comunica", Revista Amiga, 20/1/77)

"Em Săo Paulo, no bar ao lado da Tupi, vi alguns atores e técnicos reunidos, fofocando contra salários que as pessoas que vieram da Globo estariam recebendo. Que fiasco, meus amigos, coisa feia isso. Artistas preocupados com os salários dos colegas!!! Ora, meus amigos, cada um é que faz o seu salário. Preocupem-se apenas com os seus próprios salários e, se por acaso algum colega conseguiu melhorar no mercado de oferta e procura, parabéns para a nossa classe. Fiquei realmente triste quando vi a cena." (Coluna de Carlos Imperial, Revista Amiga, 20/1/77)

A obra que é construída pelo colunismo de televisăo deriva-se e alimenta-se, acima de tudo, das mesmas significaçőes disponíveis no estoque dos valores processados pela TV. Reconhece nela sua legitimidade como veículo democratizador da cultura, que é expressăo de um reconhecimento maior já emitido pela sociedade dominante. A ideologia estética e politica professada pelo colunismo de TV é a mesma que engendra a fala da TV, que é a fala dominante da sociedade.

Os colunistas, figuras de comunicaçăo conhecidas no seu exercício de coadjuvantes ao espetáculo, ministram, com a autoridade de sua opiniăo especial e com a eficięncia que todo funcionário exemplar da indústria cultural deve ter, as liçőes da crítica construtiva e bem comportada, e do bom senso ideológico. Sua voz é uma voz engajada em idéias já etiquetadas e consagradas mercado-logicamente.

"O último tombo da princesa Anne, as andanças de Kissinger, o nocaute de Muhammed Ali, a decisăo do campeonato de futebol, festas ou catástrofes acontecem no mesmo lugar: o vídeo da nossa TV(...) ...a sofisticada tecnologia dos satélites reduziu o mundo ŕ uma pequena aldeia, onde năo é possível ignorar o que acontece -onde nada permanece oculto." ("O mundo na sala de jantar", por Macksen Luiz, Revista Audięncia nş 1, junho de 76)

"A sociedade global năo mudou muito, e infelizmente ainda há muitas coisas que săo apenas para uns poucos; mas, na comunicaçăo (e em alguns outros setores), a coisa mudou bastante. A tecnologia eletrônica, sempre multiplicadora, transformou os bens culturais que elabora em produtos inevitavelmente para as maiorias. (...) ...a televisăo, um meio de comunicaçăo extremamente paradoxal: sendo a própria expressăo do sistema, ela fabrica um produto que năo serve aos detentores desse mesmo sistema." (Coluna de Artur da Távola, O Globo, 16/12/76)

"Circula, no momento, entre os atores, técnicos e todas as pessoas ligadas direta ou indiretamente ŕ produçăo da novela O Casarăo, um simpático memorando de Boni em que ele elogia o alto nível da realizaçăo e observa que o sucesso da audięncia aliado ao bom nível é um passo em direçăo ŕ qualidade." (Coluna de Hildegard Angel,. O Globo, 18/12/76).

A imprensa da TV realiza-se basicamente reconhecendo o valor de seu objeto. A ordem do mundo ali expressa lhe é suficiente, e ela năo se indaga sobre o sentido do espetáculo que comenta. Espetáculo que é o próprio way of life da sociedade burguesa, enquanto a possibilidade desta vida suceder-se e reproduzir-se, convertendo-se em imagem de si mesma.

A indústria cultural é o grande momento da nomeaçăo. Do espetáculo e de sua acumulaçăo. A imprensa da TV, como um dos momentos deste espetáculo e desta nomeaçăo, é um de seus atos. A ética do serviço que presta năo lhe patrocina outra alternativa.

Feitos um pelo outro. Feitos um para o outro.

"Ninguém pode trabalhar em Comunicaçăo se năo ama o seu trabalho, se năo respeita a sua empresa e se năo procura prestigiar o conceito do veículo a que serve." (Roberto Marinho, O Aldeăo, órgăo interno dos funcionários da Rede Globo, dezembro de 76.)

O que năo deixa a menor dúvida.




1985 - Censurando Travestis

VEJA
19/6/1985
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MORAL DAS 7
Censura tira travestis de Um Sonho a Mais

A cada ano, homens fantasiados de mulher costumam aparecer nos vídeos brasileiros numa data bem específica, o Carnaval. Nesses quatro dias, a televisăo leva aos telespectadores cenas do que acontece em bailes e desfiles, quando os travestis vivem seus momentos de gala. Há dois meses, no entanto, uma trinca de travestis aparece diariamente no vídeo, trocando beijos com a maior naturalidade, discutindo problemas sexuais e até casando. O trio é formado pelas irmăs Anabela (interpretada por Ney Latorraca), Florisbela (Marco Nanini) e Clarabela (Antônio Pedro), personagens centrais da novela Um Sonho a Mais, levada ao pela Rede Globo ŕs 7 horas, escrita por Lauro César Muniz, Mário Prata e Dagormir Marquezi. A partir desta semana, respondendo aos protestos de telespectadores e ŕ açăo da Censura Federal, os travestis serăo progressivamente varridos do vídeo.

Os problemas com os travestis em Um Sonho a Mais explodiram no final do męs passado, no capítulo em que Anabela se casava com o personagem Pedro Ernesto (Carlos Kroeber), um bigodudo cinqüentăo que mal podia esperar pela noite de núpcias, que afinal năo se consumou. Nesse capítulo, a novela teve sua maior audięncia, conquistando 55% do público de Săo Paulo, segundo dados do instituto de pesquisa Audi-TV. Paralelamente, em Brasília, a Censura chamou dois dos autores, Lauro César Muniz e Mário Prata, para uma conversa. Na ocasiăo o diretor da Censura Federal, Coreolano Fagundes, argumentou junto aos autores que o horário das 7 tem um amplo público infantil, impróprio para personagens e tramas como os quę vinham sendo mostrados diariamente. Chegou-se entăo a um acordo de cavalheiros: os travestis deveriam deixar de ocupar o papel central no enredo da novela.

CARTAS DE PROTESTO - A trégua durou pouco. Os travestis năo apenas continuaram a merecer todo o destaque como ainda receberam um reforço, na forma do personagem Olga del Volga (Patrício Bisso), uma sexóloga que dá conselhos sobre sua especialidade. Olga praticamente dominou a açăo durante dois capítulos, discutindo longamente os motivos que levavam Anabela a evitar a noite de núpcias com Pedro Ernesto. A partir daí, começaram a se avolumar os telefonemas e as cartas de protesto ŕ Globo - só na semana passada, a emissora recebia cerca de vinte cartas e dez telefonemas diários de telespectadores criticando a novela.

Contrariado com o aparecimento da sexóloga-travesti, é munido de uma gorda coleçăo de pedidos do público por um maior rigor na censura, Coreolano Fagundes decidiu agir. Primeiro, determinou que algumas cenas mais absurdas, como a falsa gravidez de Anabela, fossem cortadas. Depois o diretor da Censura enviou um ofício ŕ Globo solicitando formalmente o desaparecimento dos travestis. A emissora aceitou, e já foi montado um cronograma para o sumiço dos personagens: até o fim desta semana, Florisbela e Clarabela sairăo do ar sem deixar vestígios. Em trinta dias, será a vez de Anabela deixar o vídeo, de pois de fugir de Pedro Ernesto.



Thursday, June 17, 2010

1988 - O Fenômeno Vale Tudo

Jornal do Brasil
2/6/1988
Márcia Cezimbra
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A HUMILHADINHA DO BRASIL
Raquel, personagem de Regina Duarte na novela Vale tudo, se entristece com o Brasil, mas resiste otimista.

Regina Duarte entrou no barato da Raquel, a personagem que exige uma revoluçăo ética na 18Ş novela da atriz -um folhetim eletrônico chamado, apropriadamente, de Vale tudo, ŕs 20h30min, na Globo. Regina e Raquel năo querem discutir o mandato de Sarney, e tampouco as frustraçőes da Constituinte, mas estăo indignadas com o aumento diário do preço, por exemplo, do tomate. "Năo quero fazer análises do país como a Malu (a personagem feminista que interpretou em Malu mulher). Para mim e para Raquel, basta saber que, hoje em dia, a gente tem de rebolar para comer um tomate. É uma coisa minha entrar no barato da personagem e agora sou Raquel." A perplexidade da atriz com o Brasil é tanta que se pudesse prever, por exemplo, o desastre do Plano Cruzado I, jamais teria subido em 85 no palanque do amigo Fernando Henrique Cardoso, do PMDB. "Ainda bem que năo tenho o dom da previsăo, senăo estaria trancada em casa, com a cabeça enterrada num buraco", diz.

O povo, porém, năo seria um avestruz. O brasileiro é antes de tudo "um bravo", na opiniăo de Regina Duarte, por resistir a duras penas sem entregar os pontos. Uma naçăo com a cara de Raquel. "Ela năo fica paralisada pela depressăo. A Raquel chora, grita e se entristece, mas resiste como os brasileiros. Acho horrível a impotęncia e a depressăo. A realidade é que está todo mundo triste", diz.

Nada mais impróprio, portanto, do que dar ŕ Raquel o velho titulo de namoradinha do Brasil. Um rótulo, aliás, "conquistado com muita garra e trabalho", do qual Regina Duarte se orgulha muito, embora reconheça que seu uso tenha, muitas vezes, um tom pejorativo. "A Raquel é mais complexa do que uma doce namorada. Ela é a grande humilhada nacional e, como todo ser humilhado, parece idiota. O povo brasileiro também parece idiota. É o grande bobo desta corte. O palhaço." A meiguice que desde A deusa vencida, em 65, ajuda a construir a história da televisăo cede lugar agora ŕ humilhaçăo. No ar, a humilhadinha do Brasil.

Um papel que Regina Duarte fez questăo de fazer num momento que considera "de caos total". O escritor Gilberto Braga teria lhe oferecido o papel de uma mulher rica e má, que ele recusou, para dar força ŕ multidăo, mergulhada numa guerra civil. "Eu pensei na Malu, que deu tanta força ŕs mulheres, e queria dar ŕ populaçăo tăo sofrida alguém que acreditasse na força do trabalho. Que sua ambiçăo năo atropelasse quem está ao lado", diz.

A tal guerra civil, na opiniăo da atriz, "está ai", e certamente ficará ainda pior quando se acabarem todas as Raquel, năo só pelas injustiças sociais, mas por uma decadęncia grave de valores. A atriz chegou a temer que Raquel năo resistisse ao sofrimento dos primeiros capítulos, quando perdeu o pai, foi traída pela filha Maria de Fátima (Glória Pires) e ainda foi assaltada. Agora que Raquel "já está até namorando Ivan (Antônio Fagundes)", o medo de Regina é outro, de que uma bandeira radical de honestidade pareça irreal ŕ natureza de erros e tentaçőes do ser humano. "Năo quero ser uma marciana, mas uma brasileira. Isso é só uma suspeita, porque até o capitulo 30 Raquel está sensacional", diz.

A "unanimidade nacional" Roque Santeiro, aclamado por uma suposta elite intelectual a que Regina diz năo dar "a mínima bola", foi outro temor da atriz. "Eu aprendi com Roque que as unanimidades săo perigosas, por inibirem o movimento criativo. Depois da Porcina, me perguntava o que seria de mim", diz.

Uma bobagem típica da Raquel. Afinal, depois de Porcina vale tudo. O aplauso da elite tampouco entusiasmou a veterana atriz. "A elite é perigosamente instável, porque tem o privilégio de ter muitas opçőes de alimento cultural. Entăo, se năo gosta da novela, que vá ver Baryshnikov em Nova Iorque, ou qualquer outra coisa chique, porque novela năo foi feita para a elite", diz.

Apesar do atual estilo Raquel, a atriz năo deixou de agitar movimentos políticos junto ŕ Constituinte. Regina participou das lutas do Sindicato dos Artistas do Rio pelo direito autoral e pelo fim do monopólio das redes de televisăo. "E preciso um projeto de emissoras regionais, que impeça o monopólio cultural do Rio e de Săo Paulo. Cada regiăo tem o direito de se expressar."

Um dos motivos de perplexidade, porém, seria a Lei Sarney e seus critérios de aplicaçăo que, há mais de um ano, impedem o financiamento de seu filme, O jogo do silęncio.

"Acordo todo dia me perguntando que país é este, onde o dinheiro vive rendendo juros ou viajando em malas secretas para o exterior."

O filme, calculado em US$ 500 mil, conta a história de um casal que já năo consegue conversar - "uma crise de todos os casais" - e vence a incomunicabilidade através de bilhetinhos cada vez mais provocantes e erotizados. Regina Duarte disse que năo tem "nada contra" os bancos usarem a Lei Sarney para comprar entradas do Nureyev e dar a clientes preferenciais, e tampouco que o banco Multiplic obtenha benefícios para financiar o longa As aventuras de Juba e Lula, os heróis da Armaçăo ilimitada. "Quero apenas participar da festa. Eu também quero brincar."

O jogo do silęncio tem roteiro da própria Regina (ela estreou como roteirista no seriado Joana) e direçăo de seu marido, Antônio Rangel. Apesar do casamento com um diretor de novelas (Rangel, o Déo, dirigiu O outro), a atriz năo se inibe em citar seus diretores preferidos: Walter Avancini e Daniel Filho, que lhe ensinaram "muito", Dęnis Carvalho, que diz "adorar", e Paulo Ubiratan, "contra toda a ordem atual que deseja crucificá-lo por ter batizado suas quatro safenas com nomes de atores."

Regina Duarte revela que teve várias enxaquecas que poderiam ser também batizadas. "Isso faz parte do jogo. Meu pai sempre diz: năo quer gozar representando? Entăo tem de pastar de vez em quando."

O susto do público com o realismo de Vale tudo chega até a divertir Regina Duarte. "A realidade é tăo escancarada que a gente precisa da ficçăo para poder enxergá-la. Isso é comum. Sempre ouvi que Malu provocaria desquites, quando a personagem foi o resultado de milhares de desquites." Ela gosta do oba-oba em torno das denúncias de falta de ética da novela, mas acha que a realidade dos grandes crimes, dos grandes desvios de dinheiro público e negociatas fraudulentas năo está em Vale tudo. "As pessoas jogam agora a culpa no coitado do bombeiro que leva vantagem, quando, a decadęncia vem da cúpula dirigente do Brasil", comenta. E, para quem acha forte o texto de Vale tudo, a atriz dá uma informaçăo fresquinha, "de fonte segura", sobre o presidente das Organizaçőes Globo: "O Roberto Marinho adora a novela."

1971 - A TV e a Criança

Jornal do Brasil
10/10/1971
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MEIOS DE COMUNICAÇĂO AINDA NĂO SE ADAPTARAM À CRIANÇA
Na televisăo, Nacional Kid, herói japonęs, estrangula uma criatura abissal; no cinema, um adolescente assiste a cenas de perversőes sexuais; no teatro, em sessăo vesperal, a platéia quase toda de adolescentes aplaude nus nada artísticos; na revista Terror-Negro, um lobisomem bebe o sangue de suas vítimas indefesas.

Em 100 horas diante de um aparelho de televisăo, uma criança e um adolescente assistem a 12 assassinatos, 16 tiroteios, 21 ferimentos e 75 cenas diversas de violęncia, que văo desde a tortura física ao sofrimento moral. Ao lado, passivos, os pais acompanham.

Agressividade, sadismo, angústia, insônia, amadurecimento prematuro da personalidade, desritmia motora e desajustamento escolar săo os saldos negativos que uma programaçăo deficiente e deseducativa estăo levando a milhares de crianças e adolescentes. Alarmados pediatras do Brasil e de várias partes do mundo reúnem-se este męs em Belo Horizonte para discutir o assunto e traçar diretrizes comuns.

GERAÇĂO MARCADA?

Vinte anos depois do início da utilizaçăo comercial da televisăo, pode-se dizer que já existe uma geraçăo marcada desde o nascimento por esse meio de comunicaçăo. Hoje, ninguém duvida que os telespectadores mais assíduos săo as crianças. Desde o aparecimento da televisăo, muitas previsőes foram feitas a respeito de sua influęncia no desenvolvimento físico e psíquico. Previsőes sempre sombrias, quase nunca otimistas.

Mas a geraçăo-televisăo surgiu. Os hospitais estăo cheios de pequenos super-heróis com bracos quebrados e os consultórios de pais que năo conseguem mais dialogar com os filhos: há sempre uma novela entre eles. Um grupo de especialistas norte-americanos foi entăo ao fundo do problema. Passaram meses diante da televisăo, catalogando os programas, ouvindo os diálogos, analisando as cenas. Detiveram-se no horário infantil (14 ŕs 18 horas).

Suas conclusőes foram sombrias, mais do que eles esperavam. Em 100 horas de programaçăo, 70 eram dedicadas a programas nos quais a violęncia desempenhava um papel importante. Durante essas 100 horas eles anotaram 12 assassinatos, 18 tiroteios, 21 ferimentos e 75 cenas diversas de violęncia. Năo menos do que esta, as aberraçőes sexuais enchiam boa parte dessas horas. Muitos filmes tinham apenas os dois ingredientes.

A pesquisa mostrou também que muitas crianças já săo telespectadoras assíduas desses espetáculos aos dois anos de idade. Com tręs passam uma média de 45 minutos por dia vendo televisăo, com cinco ou seis anos elas começam a assistir cerca de duas horas por dia. Esse tempo aumenta gradativamente até os 12 ou 13 anos, quando elas ficam, em média, tręs horas diárias diante do vídeo.

Psicólogos, médicos, educadores e técnicos em comunicaçăo - para quem a televisăo é hoje o centro do mundo infantil e uma válvula de escape para as frustraçőes diárias - falaram ao JB năo apena, como especialistas mas como pais que vivem o problema e, paradoxalmente, năo sabem como resolvę-lo. A televisăo, com seus vícios, programas deseducativos e mal feitos entram na casa deles, roubou-lhes os filhos. Eles conhecem as soluçőes mas nem sempre podem aplicá-las. Uns porque moram em apartamentos e sabem que, bem ou mal, a TV é a única distraçăo dos filhos; outros năo agiram na época apropriada e agora confessam que a TV é um adversário para o qual a psicologia moderna ainda năo encontrou um lutador ŕ altura.

Em meio ŕs suas explicaçőes teóricas o JB constatou um mundo da indecisăo e quase desanimo. Várias vezes ouviu desabafos: "Năo sei o que fazer. Em casa os problemas causados pela televisăo superam a minha especialidade. Acho que já sou um pai desesperado." Um deles, com quatro filhos em diferentes idades, cansou das brigas pelas preferęncias dos programas. Comprou mais uma televisăo. Hoje existem tręs em sua casa. Năo consegue mais falar com os filhos. Todas as vezes que tenta ouve sempre um "cala a boca",a quatro vozes.

INFÂNCIA POUCO INFANTIL

Para o psicólogo Pedro Américo Correia, falar da televisăo e de seus prejuízos no desenvolvimento normal da criança é falar também nos apartamentos, na vida solitária daqueles cujos pais trabalham fora e na falta de outros estímulos nas escolas.

— O conteúdo da maioria dos programas infantis năo é recomendável para criança alguma. Năo há seleçăo e o nível é baixíssimo, além de pouco educativo. As programaçőes săo organizadas por pessoas que desconhecem as necessidades infantis e que estăo demasiadamente presas ao IBOPE e ŕ publicidade.

Ele mesmo um telespectador analítico da televisăo, Padre Américo divide os programas infantis em tręs partes distintas: os incrivelmente prejudiciais, os toleráveis e os recomendáveis.

Os super-heróis — condenáveis sob quase todos os aspectos. Săo filmes com uma temática comum: a violęncia e a divisăo acentuada e difusa entre o bem e o mal. Alguns săo figuras atormentadas e divididas. Năo se integram. Tęm dupla personalidade. Seres pseudo-normais que, de uma forma ou de outra, fracassaram na vida cotidiana.

— Super-Homem é o melhor exemplo. Repórter tímido, de óculos, que se deixa envolver pela mecânica em que vive e sofre uma série de frustraçőes latentes. Essas frustraçőes ele resolve transformando-se num super-homem. Deixa de ter adversários, vive uma personalidade irreal e através dela procura solucionar os seus problemas.

— Sabemos que a criança é imitativa por natureza. Ela resolve voar também. Agarra o lençol, amarra no pescoço, trepa na janela e salta. Inconscientemente procura soluçőes mágicas para os seus problemas, em vez de se adaptar ao meio em que vive.

TORMENTO CONDICIONADO

Segundo Pedro Américo, de todos os super-heróis da televisăo, Thor, o homem da idade da pedra que se transforma nesse personagem para resolver as suas dificuldades, é o mais atormentado.

— O curioso nesses filmes é que, quando o herói já năo tem mais adversários, seus inventores passam a dotar o bandido com equilíbrio de forma que mantém o programa permanentemente no ar. Esses filmes tornam a criança, em sua fantasia, cada vez mais onipotentes. Por isso é extremamente difícil para ela discriminar as capacidades que realmente possui.

O bang-bang - mal ou bem o bang-bang bem seus méritos, em comparaçăo com os outros. Bandido e mocinho săo pessoas de carne e osso. Embora idealizadas, săo figuras humanas, com os mesmos problemas de todo o mundo. Mas a criança já năo se satisfaz com esse tipo de filme. Ela tem uma tendęncia, natural, para se considerar onipotente em sua fantasia. E entre o mocinho e o super-herói ela prefere este último.

Desenhos animados — de um modo geral săo recomendáveis. Os bichinhos săo uma forma de antropomorfizaçăo. Funcionam e atuam como se fossem pessoas. Num nível de fantasia, representam muito as paisőes normais das crianças e năo enfatizam a violęncia. Quem năo gosta de Bambi, Lulusinha e dos filmes de Walt Disney?

— Quando uma criança é normal, ela se equilibra com o tempo, checando a realidade, observando suas capacidades e limitaçőes. Se possui em casa uma boa orientaçăo e vive num ambiente mais ou menos livre de muitos conflitos, ela chega ŕ idade adulta sem maiores problemas. Do contrario, e o contrario é a maioria, o resultado é tudo isso aí.

MENSAGEM NOCIVA

Mais do que um pediatra especializado em psicologia infantil, o Dr. Umberto Balariny é um avô de tręs netos. O do meio, de cinco anos, costuma, imitar o Nacional Kid e é com grande apreensăo que o médico, o psicólogo e o avo o vę trepando nas cadeiras ameaçando alçar vôo.

Balariny analisa a influęncia dos programas infantis levando em conta a idade da criança. Năo chega a dizer que a televisăo é desnecessária, mas acha que a má programaçăo e o desinteresse pela criança — principalmente na idade escolar, que ele chama de terra-de-ninguém, porque é uma faixa que năo recebe a devida atençăo dos pais e dos educadores — estăo levando a televisăo a um "grau de monstruosidade."

De dois a cinco anos — "tomemos como exemplo a novela — hoje qualquer criança assiste a qualquer novela. O que mais agrada numa novela é que ela é para o adulto uma fonte de prazeres que ele gostaria de ter experimentado. A criança năo entende a mensagem desse tipo de entretenimento. Ela fica presa apenas ao estimulo visual, ao movimento da imagem. Ela entăo chega a um ponto de imobilidade tal diante do vídeo que vai ficando visualmente cansada. Esse fenômeno os pais quase nunca compreendem e ele dá origem a uma série de problemas físicos e psíquicos:

Disritmia motora — uma criança pequena vę na tela um estimulo sensorial visual muito intenso. Está, ao ficar imóvel, quebrando uma lei fisiológica que diz: "a todo estimulo corresponde uma reaçăo." A criança diante da TV acumula sensaçőes para as quais năo responde. As vezes a imobilidade é tanta que seu próprio organismo reage. Ela começa a se mexer, levanta, grita, pega nos botőes do aparelho e gira de um lado para outro. Nessa hora os pais inferem, mas de maneira errada. Batem na criança e a mandam para o quarto, como castigo.

Logo, o primeiro mal que a televisăo, levada de forma exagerada, faz ŕ criança é provocar nela um desequilíbrio entre a intensidade do estimulo sensorial e as respostas a ele. Fatalmente ela será levada ao nervosismo. O tempo que ela passa, parada, diante de um aparelho, deveria estar ao ar livre, desenvolvendo seus músculos, que precisam de movimento. Esse desenvolvimento é necessário para que ela crie uma estrutura nervosa suficiente, de forma a ajudá-la a se expressar normalmente como adolescente e como adulto. O exemplo típico de criança afetada pela TV é aquela que é inteligente, mas que tem problemas na escola.

Os olhos — O aparelho visual da criança nem sempre é olhado com a devida atençăo pelos pais. É preciso que saibam que ele năo está adaptado ŕ luminosidade da tela e pesquisas feitas no exterior já constataram que o uso indevido da TV é responsável pelo uso prematuro de óculos pelas crianças.

Complexo de rejeiçăo — quando a criança apanhou por ter reagido normalmente a uma situaçăo que seu organismo năo suportou, passou a desenvolver nela um complexo de rejeiçăo, que pode ser tanto maior e duradouro quanto maior e duradouro forem as surras que receber.

TERRA DE NINGUÉM

7 aos 14 anos — todos esses problemas ocorridos na primeira infância causam na criança um despreparo que vai afetar sua vida escolar. Essa dispersividade, esse senta-levanta a que ela se acostumou vendo televisăo năo permitirăo que tenha, quando em aula, a mobilidade necessária para receber as liçőes com atençăo.

Na escola ela já luta com a falta de espaço. Saindo do colégio volta para casa, onde mais algumas horas de imobilidade a esperam. Essa imaturidade de coordenaçăo motora é que causa os desajustes escolares.

Epilepsia — uma criança epiléptica, ou com qualquer problema cerebral, de maneira alguma deve permanecer diante do vídeo por muitas horas. A fixaçăo na tela, estimulo visual muito forte, pode agravar a doença.

NÚMEROS QUE FALAM

No ano passado o Instituto Médico-Legal registrou quatro mortes de crianças provocadas por quedas. O funcionário Cleber Amorin, por coincidęncia, foi quem recolheu os corpos. Ŕ exceçăo de uma, todas as crianças haviam morrido da mesma forma: traziam o pescoço enrolado por lençóis e colchas. Eram os nacionais kid mirins.

Mas nem todas morrem. Năo há nos hospitais da Guanabara nenhuma estatística sobre as causas dos acidentes infantis, mas médicos e enfermeiras atendem diariamnente, e cada vez mais, a um número impressionante de super-heróis, bandidos, mocinhos, nacionais kid.

— As vezes, conta Dona Ieda Jordan Neves, enfermeira há 12 anos, eles chegam no hospital ainda trajando a roupa que usavam quando caíram. Espadas, revólveres, cassetetes, capas, desfilam nos corredores. Mesmo no meio da dor eles se recusam a se separarem de seus heróis. Ninguém os convence do contrário.

— Enquanto tratamos dos ferimentos eles continuam a lutar com os adversários invisíveis. Muitas vezes somos forçados a receitar calmantes para uma criança de sete anos que trocou a bola por uma espada.

— As vezes fico observando quando văo embora. Saem pelos corretores, um braço na tipóia, o outro segurando o lençol ou o revólver, Apontam para um, para outro, dando tiros imaginários. A măe ao lado ri, todo mundo ri e o pequeno super-herói deixa o hospital cada vez mais ciente de sua onipotęncia.

UM TEATRO QUE MORRE

— O teatro infantil está morrendo.

O desabafo de uma das maiores produtoras de peças infantis, Maria Clara Machado, reflete o desanimo dos bons empresários diante do que eles mesmo chamam de "crime contra a criança." Violęncia de texto, espetáculos improvisados, atores sem categoria e direçăo, fazem hoje a tônica dos chamados teatros infantis, onde a criança mata, é morta, agride, é agredida, sofre e volta para casa deseducada, confusa, sem conscięncia de que foi utilizada por atores fracassados, que ć serviram do seu mundo para sobreviver.

O teatro infantil informa ou deforma? Comunica, participa ou provoca? As crianças estăo indo muito pouco ao teatro ou o teatro está deixando de ir ŕs crianças? O JB năo encontrou otimismo nos empresários e diretores de teatro infantil. Em alguns encontrou raiva, traduzida em lágrimas e desabafos violentos. Raiva porque eles acham que o mundo está mudando, as cri~ancas estăo mudando e o teatro infantil continua o mesmo de há 20 anos. "Há um criminoso a solta. Ele usa máscaras, pula no palco, diz palavrăo, dá tiro e entra no mundo da criança sem pedir licença."

COMUNICAÇĂO OU CRIME?

— Em nome de uma comunicaçăo teatral, de uma participaçăo da criança no espetáculo, muita gente tem cometido pequenos crimes contra o teatro e a criança. Aventureiros se lançam e se atrevem a fazer teatro para crianças, desconhecendo năo somente a própria criança, como ignorando as regras básicas de um bom espetáculo.

O desabafo é de Maria Clara Machado, para quem o teatro infantil nunca esteve tăo ruim e tăo vazio de boas produçőes. Cheio de atores procurando sobreviver economicamente, sem um maior empenho nos papéis que representam.

— Teatro de segunda classe onde nem os críticos teatrais dos principais jornais se aventuram a ir para năo morrer de tédio ou de vergonha. Preferem silenciar, calar, năo assistir a tais espetáculos oferecidos todos os fins de semana ŕs crianças. E onde estăo os pais dessas crianças? Longe, muito longe. Eles precisam ocupar os filhos, dar-lhes qualquer coisa aos sábados e domingos. Năo tiveram educaçăo para o teatro e pensam que aquilo que dăo aos filhos é o que serve. Para eles as peças infantis săo enfadonhas e desinteressantes. Muitos nem entram. Deixam os filhos na porta.

TEATRO FUTEBOLÍSTICO

Para Maria Clara Machado, o tipo de teatro que se faz atualmente para as crianças tende a desenvolver nelas a vulgaridade, o lugar comum, a tendęncia ao excitamento coletivo, ŕ dispersăo, ao fácil, ao comercial.

Quantas peças baseiam sua publicidade na distribuiçăo de balas ou balőes no fim do espetáculo? O espetáculo infantil que visa ao excitamento coletivo, ŕ gritaria, ŕ torcida desenfreada, está deseducando, está criando, talvez, um torcedor de futebol, mas nunca um público que pensa e se educa através da arte.

— Muitos autores e diretores pensam que, para se estabelecer uma comunicaçăo maior entre atores e platéias, seja necessário uma provocaçăo por parte dos personagens. Também pensava assim quando comecei a escrever para crianças. Depois vi que havia me enganado. A criança brasileira já é naturalmente muito comunicativa e excitada. Ela toma a provocaçăo como convite ao excitamento e esta participaçăo tende a continuar pelo espetáculo a fora até criar um clima de histeria, onde mais sentem, ouvem e olham. Elas torcem como os torcedores de futebol e năo como espectadores de uma arte.

JOANA CHARUTO

Pela primeira vez em 20 anos de vida dedicada ao teatro infantil, Maria Clara Machado lançou uma peça bang-bang. É uma experięncia nova, que lhe serve de pesquisa. Nessa peça há assassinatos, mortes, tiroteios, maldades generalizadas. A própria Maria Clara pergunta: "esse tipo de teatro é perigoso ou năo para a criança?"

— Num dia desses uma măe levantou no meio do espetáculo. Gritou que a peça năo era indicada para criança e saiu com o filho. Vi apenas uma criança sair sozinha, o que ocorreu quando foi disparado o primeiro tiro. A maioria fica.

— Toda criança se identifica com os personagens, geralmente com aquele que representa o lado bom da gente. Desta vez as crianças estăo se identificando com a Joana Charuto, que faz o papel de bandido. Quando, depois da peça, converso com as crianças e pergunto qual o personagem de que mais gostaram, todas citam a Joana Charuto, principalmente as meninas.

— Explica-se isso de várias formas. A menina foi educada para ser apenas boazinha, brincar com bonecas. Quando vę a Joana Charuto ela se vinga, inconscientemente ela se identifica. Isso ocorre mais com as crianças maiores. As pequeninas preferem o mocinho. Năo é dando ŕ criança uma peça ŕgua-com-açúcar que vocę fornecerá a ela noçőes reais sobre a vida. Ela hoje vive confinada em apartamentos, com os adultos, vivendo seus problemas. Sabe de tudo. A criança hoje sabe das coisas. Por isso fica angustiada. Vę na televisăo o que muitas vezes se passa em casa. Aí os pais tornam-se ficçăo e os problemas uma realidade.

— A agressividade tem que ser mostrada mas de forma válida e realmente artística. Quem nasceu primeiro foi a sociedade, logo a agressividade é uma conseqüęncia, năo a causa. A agressividade na arte é um produto dos tempos modernos. Ela já existia nos dramas gregos e nas peças de Shakespeare. Portanto, já tem uma certa idade.

VOZ DA EXPERIĘNCIA

— Eu sou completamente contra esse tipo de teatro infantil que existe por ai. Já vi o suficiente para ficar indignado. Teatro infantil está na fase indígena, selvagem, de abandono e de desrespeito. Sem vigilância.

A indignaçăo é de Fábio Sabag, que durante muitos anos se especializou em teatro infantil para televisăo.

— Existe um angulo bastante curioso em torno desse tipo de teatro. A criança, dos cinco aos sete anos, gosta profundamente dele. Dos oito aos 12 abomina. É a idade em que está se julgando adulta. Dos 12 em diante começa a gostar novamente, porque se lembra dos tempos em que era criança pequena.

— Eu vi uns espetáculos em Săo Paulo que me apavoraram. Năo só pela violęncia do texto, como pela má qualidade do que se dizia em cena. Isso dá ŕ criança uma visăo errada do que há. No Rio de Janeiro os espetáculos, com raras exceçőes, săo improvisados, com atores sem a menor categoria, sem direçăo. É tudo feito na base do tapa.

— A criança grava dentro de si aquela imagem. Anos depois vai equacionar sobre aquilo, mas de qualquer maneira fica uma mentalidade completamente truncada. Uma vez assisti a uma peca infantil que tinha a palavra morte e assassinato 23 vezes, isso num teatro para crianças.

Para Fábio Sabag, dependendo das coisas que a peça apresenta, o teatro pode destruir uma criança ou transformŕ-la num gęnio.

— Esse detalhe é muito importante. E é esse tipo de coisa que está sendo descuidada. Há necessidade de uma revisăo urgente dos valores e uma seleçăo das mentalidades. Do contrário, será o caos.

OMISSAO

Privilégio de uma meia dúzia de colégios, o teatro infantil já há muito tempo deixou de existir nas escolas, quer particulares, quer governamentais. As dramatizaçőes ficaram relegadas a épocas esporádicas, como os dias de grandes festas nacionais e religiosas.

Na Zona Sul o Teatro Tablado, dirigido por Maria Clara Machado mantém o recorde de assistęncia e há quase 10 anos dedica-se somente ao gęnero infantil. De vez em quando, uma ou outra escola maternal reúne grupos isolados de crianças e com ela benta uma experięncia teatral, geralmente feita com boa vontade, critério, mas sem muito interesse por falta de uma direçăo mais profissionalizada.

Na Zona Norte o teatro infantil năo existe, năo é sequer conhecido pela maioria das crianças. A própria Secretaria de Educaçăo reconhece sua falha neste aspecto. As escolas năo dispőem de salas ou equipamentos para teatro de qualquer gęnero.

Um dia um grupo de empresários, Maria Clara cita um exemplo, pensou em fazer os teatros infantis volantes. A idéia năo chegou a ser posta em prática. Năo houve verbas nem estímulo. Os empresários desistiram de fazer peças infantis. Hoje săo atores de terceiro time nas novelas de televisăo.

IMPRENSA POUCO INFANTIL

Se os jornais e as revistas que entram em sua case devem ou năo ser lidos par seus filhos é um problema que as autoridades educacionais deixam para vocę resolver. Ninguém até hoje fez, no Brasil, uma pesquisa para saber se a imprensa infantil merece esse título ou se a chamada imprensa adulta possui também alguma responsabilidade no subdesenvolvimento da criança e do adolescente.

Segundo o Sindicato dos Jornalistas, existem no Brasil cerca de 20 títulos de revistas essencialmente infantis. Apenas uma foi idealizada no Brasil e tem características bem brasileiras: Mônica.

De modo geral, as revistas infantis que circulam tęm aprovaçăo dos psicólogos e médicos que se dedicam aos problemas infantis. Embora algumas correntes faça restriçőes a Walt Disney, nenhuma nega o valor de suas histórias e de seus personagens.

Mas as bancas de jornais estăo repletas de revistas para adultos e que săo consumidas por crianças, principalmente. Terror Negro - Vampiro Ataca — Mistério e Suspense tęm a preferęncia de uma parcela do público infantil, geralmente proveniente de um meio social pobre. Quase sempre essas crianças apanharam o gosto por essas revistas através do pai. Psicólogos e médicos condenam essas publicaçőes.

Para eles existem as revistas insípidas como Manchete, O Cruzeiro, Fatos e Fotos. Săo publicaçőes que năo oferecem nenhum atrativo, mesmo o visual, para as crianças ou adolescentes. Năo chegam a causar danos morais ou psíquicos, mas também năo fazem qualquer bem.

Jornais como Luta Democrática, Dia, Notícia, Ultima Hora. Gazeta de Notícias e O Pasquim săo condenados como leituras infantis. O psicólogo Pedro Américo, por exemplo, fica diariamente impressionado com a quantidade de crianças, que as vezes aparecem em certos jornais, que rodeia um cadáver na hora da fotografia.

— Certos jornais emitem conceitos que a criança desconhece. Sem discernimento para avaliar, julgar e eliminar, ela aceita as opiniőes que lhe săo impostas e podem fazer delas um meio de orientaçăo de vida.

A exceçăo da Rádio Ministério da Educaçăo — que apresenta todos os domingos o programa Música pró-Música em cadeia com a televisăo — as demais estaçőes eliminaram o público infantil de suas programaçőes, todas elas dedicadas ŕs novelas e programas musicais. O rádio desapareceu do mundo da criança e do adolescente, pelo menos como fator educativo e informativo. Alguns psicólogos vęem nisso uma certa vantagem:

— É melhor năo apresentar nada a apresentar isso que se vę aí. De qualquer forma, pode-se dizer que tanto o rádio quanto a televisăo e a imprensa săo possíveis ecos daquilo que é geralmente aceito e confirmam o que já foi consagrado.





1977 - Porto Alegre Manda o Recado

O Globo
31/7/1977
Jomar Pereira da Silva
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A CARTA DE PORTO ALEGRE
Depois da ediçăo da Carta de Gramado, elaborada em outubro de 1976, os gaúchos voltam agora ao cenário da publicidade nacional com um novo texto redigido esta semana em Porto Alegre, durante o I Encontro de Presidentes de Sindicatos e Associaçőes de Agęncias de Propaganda. Da redaçăo desta nova carta participaram, na verdade, quatro presidentes de entidades: Joăo Moacir de Medeiros (Sindicato das Agęncias do Rio), Luiz Sales (Sindicato das Agęncias de Săo Paulo), Joăo Firme de Oliveira (ABAP-Rio Grande do Sul) Fernando Gallotti (Associaçăo das Agęncias de Brasília). Em síntese, reforçaram algumas posiçőes assumidas anteriormente e lançaram uma semente para o surgimento da Federaçăo Nacional das Agęncias de Publicidade, que englobaria todos os sindicatos estaduais. A Carta de Porto Alegre habilmente procurou também năo conflitar suas intençőes com as que já estăo em curso por iniciativa das entidades congęneres, evitando assim possíveis cisőes. Foram estes os pontos abordados:

1) Propugnar pela observaçăo e cumprimento da Lei 4.680 e de seus instrumentos complementares;

2) Conclamar os órgăos responsáveis pelo cumprimento da Lei a uma açăo enérgica visando o fim do faturamento líquido direto ao anunciante pelos veículos de divulgaçăo;

3) Reiterar integral apoio ŕ opçăo do legislador brasileiro pela Agęncia de Propaganda, sem filiaçăo direta ou indireta com o anunciante;

4) Transmitir ŕs autoridades a preocupaçăo da classe empresarial pela existęncia das chamadas "house-agencies";

5) Promover gestőes junto ao Ministério do Trabalho para que sejam expedidas instruçőes normativas dirimindo dúvidas e regularizando relaçőes que estejam em desacordo com o que disciplina a Lei;

6) Oferecer ao Poder Legislativo e ŕs autoridades do Poder Executivo, assessoria e subsídios relacionados ao setor publicitário;

7) Apoiar os esforços das entidades de classe lideradas pela ABAP para elaboraçăo e implantaçăo de um Código de Auto-Regulamentaçăo Publicitária;

8) O empenho pela constituiçăo de uma Federaçăo Nacional de Agęncias de Publicidade com o intuito de adotar uma filosofia sindical em defesa dos interesses da propaganda e da classe.





Wednesday, June 16, 2010

1980 - Bandeirantes Mal de Novela

Jornal do Brasil
6/4/1980
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Todo Poderoso, Pé de Vento...
Văo muito mal. As novelas da Bandeirantes năo estăo mesmo fornecendo opçőes. Pé de Vento tem um texto profissional de Benedito Ruy Barbosa mas está ruim de imagens, direçăo e elenco. Parece um trabalho dos anos 60. Mas vira até obra-prima, se comparada a O Todo Poderoso. Este enlouqueceu de vez com apelos a diabos, possessőes, exorcismos e cenários tremelicantes. O trio de autores, Edy Uma, Ney Marcondes e Carlos Lombardi, que substituiu a dupla original, Clovis Levy e Safiotti Filho, pensa que faz Janete Clair, mas năo chega nem aos pés de Glória Magadan. Delírios de imaginaçăo, histerias totais e multidăo de acontecimentos só chegam ao público quando o escritor tem um mínimo de carpintaria do gęnero e sabe dosar e amarrar suas implausibilidades. Os folhetinescos de sucesso, desde Alexandre Dumas, Pai, sempre acreditaram e souberam fazer seu trabalho com honestidade criativa. A trinca de agora fica no golpe pelo golpe e caí no descrédito popular. Enfim, estăo repetindo neste canal a mesma bobagem que levou sua primeira novela Como Salvar Meu Casamento, na Tupi, ao desastre do humorismo involuntário. Ser popular năo é nada disso e nem a invençăo de um Măo Branca mediúnico pode melhorar esta nada poderosa produçăo. Năo passa, pelo que apresenta, de um laboratório para o futuro Drácula que a estaçăo está anunciando. Na qual, esperamos, o terror seja pelo menos bem realizado.







1971 - Tupi Pós-Repórter Esso

Jornal do Brasil
12/1/1971
Valério Andrade
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TELEJORNAL
Até agora, o novo noticiário da Tupi năo logrou suprir a lacuna deixada pelo Repórter Esso.

Năo conhecemos os dados do IBOPE em relaçăo ao telejornal do canal 6, mas suspeitamos de que a escalada dos pontinhos ainda năo começou. Telespectadores tęm manifestado o seu descontentamento ante o trabalho coletivo que vem sendo empreendido pelos repórteres associados. E as críticas săo procedentes.

O fato é que, em termos de telejornalismo, a fórmula consagrada pelo Repórter Esso já se achava obsoleta. O progresso verificado no campo das telecomunicaçőes, com a conseqüente eliminaçăo do espaço geográfico, passou a exigir um novo enfoque jornalístico. A fórmula do telejornal narrado por um único locutor, prisioneiro do estúdio, já năo mais atendia ŕs necessidades de nossa época.

Havíamos chegado ŕ época dos jornais de integraçăo nacional.

Entre nós, o informativo da Globo salienta-se como um exemplo vitorioso. Tecnicamente perfeito, evidenciando absoluto domínio visual e sonoro em seu sistema operacional móvel, que conjuga a imagem de vários Estados, o Jornal Nacional espelha com ęxito a nova fórmula.

Por alguma razăo, talvez de ordem técnica, o fato é que o informativo associado ainda năo logrou atingir o dinamismo e a mobilidade geográfica alcançados pelo Jornal Nacional. O progresso registrou-se num único setor: a retransmissăo para outros Estados pela Embratel. Mas, basicamente, a estrutura interna do noticiário continuou a mesma. Apenas aumentou o número de locutores: a açăo permanece confinada no estúdio da Tupi, aqui no Rio.

Sob esse aspecto, convenhamos, o Repórter Esso e Gontijo Teodoro davam conta do recado. E na metade do tempo. O novo telejornal da Tupi ainda năo descobriu o ritmo certo. Mostra-se prolixo e enfadonho em sua meia hora. Por outro lado năo existe uma progressăo emocional, tal qual a existente no seu antecessor, capaz de conservar o telespectador em suspense, enquanto esperava a notícia final. E mais: falta-lhe charme.

Năo basta que se leia o noticiário com a eficięncia exigida pelo rádio. Além desse aspecto, a televisăo tem de levar em conta a imagem do locutor e a reaçăo que ele (ou ela) provoca junto ao público. Com exceçăo de Correia de Araújo, que sabe imprimir dinamismo ao texto e já criou uma imagem positiva no vídeo, o telejornal da Tupi ressente-se de uma figuraçăo atraente.


E a presença feminina, que deveria ser um trunfo, alcançou resultado oposto. É difícil resistir ŕ animosidade provocada pela ostensiva presunçăo de uma locutora que enfrenta, lá de cima de sua auto-suficięncia, o telespectador como um adversário. Ou alguém a quem ela está fazendo o favor de informar...

1975 - Plínio Marcos pelos Negros

Última Hora
27/3/1975
Eli Halfoun
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DENÚNCIA
Plínio Marcos: "O negro năo tem vez na Televisăo"

Afastado da televisăo năo porque queira, irias porque seus trabalhos quase nunca podem ser apresentados, Plínio Marcos está fazendo do colunismo diário na Ultima Hora de Săo Paulo o seu encontro com o público. Em artigo publicado na última segunda-feira com o título de "Negro năo tem vez na televisăo", Plínio Marcos faz uma grave denúncia sobre a situaçăo do ator negro no Brasil. Năo é a primeira vez que alguém protesta contra a utilizaçăo de atores brancos pintados de preto para fazer papéis escritos para negros, como foi o caso (lembram-se?) de ''A Cabana do Pai Tomás'', em que Sérgio Cardoso foi obrigado a pintar-se para viver o papel título. Da importante denúncia de Plínio, publico os principais trechos: ''O problema de mercado de trabalho do ator brasileiro é muito grave. A cultura de consumo importada cada vez estreita mais o mercado do ator brasileiro. Mas o ator negro está em pior situaçăo. Ele năo tem vez nem no teatro e tem na televisăo. Dizem que negro năo dá Ibope. É de lascar. Muitos artistas negros estavam com esperança de terem papéis na novela baseada no romance de Jorge Amado. ''Gabriela, Cravo e Canela''. Sobraram. Mas o pior ainda do que pintarem os brancos de negro nas novelas, săo os programas de humor (humor duvidoso) feitos na televisăo, onde engraçados sem muita graça se pintam de negro e avacalham com uma raça inteira fazendo a caricatura do negro. Se há leis que impedem que os engraçados da televisăo ridicularizassem certos tipos, deviam impedir que os brancos se pintassem de negros para ridicularizarem uma raça. Isso é uma questăo de polícia, já que nada se pode esperar em matéria de respeito humano dos gęnios da televisăo."

Ator negro năo tem vez no Brasil. Isso é de lascar. Mexe e vira no teatro ou na televisăo pia um horror contra o artista negro. Pintam um branco qualquer para fazer papel de negro. No teatro, os diretores e produtores com muito cinismo e sem nenhuma cerimônia dizem que pintam brancos de negro quando necessitam um ator negro, porque năo existe bons atores negros no Brasil e que na Inglaterra também se faz isso. Primeiramente nós ternos no Brasil grandes atores negros. Bené Silva, Milton Gonçalves, Dalmo Ferreira, Pitanga, Samuel săo alguns atores negros de primeiro time. Se năo săo mais populares junto ao público é por falta de oportunidade., E talento se desenvolve com trabalho.

De repente, entra na programaçăo uma novela bem brasileira. Năo é preciso o cara ser um sociólogo para saber que o povo brasileiro é branco, preto, amarelo e de todas as cores. Entăo, se a novela é bem brasileira, os atores negros começam a ter esperanças de trabalhar. De pegarem papéis onde possam 'mostrar toda a força do talento. Foi assim em relaçăo a novela que a TV Globo vai lançar ''Gabriela, Cravo e Canela''. Os atores negros estavam na ilusăo de conseguirem papéis. Todo mundo conhece a obra do grande escritor Jorge Amado. Todo mundo sabe que o que năo falta nas histórias do mestre Jorge săo personagens mulatos e negros. Porém (e sempre tem um porém) os gęnios da Globo năo tomaram conhecimento. Botaram atores negros e Mulatos pra escanteio. Văo atacar de atores brancos. Pra năo acontecer os vexames que aconteceram em novelas passadas, a Globo năo vai pintar ninguém desta vez. Mas botou todos os seus atores "amarelos-esverdeados-estúdio" na praia para pegarem cor morena.

1990 - Angélica Substitui Xuxa

O Dia
14/1/1990
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O CLUBE DA CRIANÇA ESTÁ DE CARA NOVA


O nome continua igual, a apresentadora ainda é a mesma, e as crianças permanecem ŕ sua volta. Mas o Clube da Criança que a TV Manchete exibe todo fim de tarde em sua programaçăo a partir de amanha é outro programa. Cercada de mais crianças e de um cenário mais amplo e colorido, que lembra um tabuleiro de jogos em terceira dimensăo, Angélica estréia um show diferente, com atraçőes destinadas a atingir um público mais abrangente. Entre elas, o quadro Caçadores da Fortuna, que a emissora finalmente coloca no ar.

As gravaçőes do primeiro programa foram realizadas na última segunda-feira, nos estúdios da Manchete, em Água Grande, para onde todo a produçăo foi transferida. Afinal, o novo cenário ocupa cerca de 200 metros quadrados, um espaço bem maior do que o disponível nas instalaçőes da Rua do Russel, na Glória. Trata-se de uma floresta encantada, com árvores vivas, lagos, um labirinto, cipós e muito verde artificial, entremeados por uma pista numerada, tudo com muitas cores e jogos de luzes.

NOVO UNIFORME - Os angélicos e as angeliquetes - novo nome das auxiliares da apresentadora - foram promovidos a soldados do Exército da Natureza, mas as funçőes permanecem praticamente as mesmas. A diferença fica por conta de um novo uniforme de gosto questionável. Além deles, contracenam com Angélica alguns palhaços, um coelho e uma avestruz. No primeiro programa, a lourinha da Manchete entra no cenário com um vestido branco com bolinhas cor-de-rosa, envolta em muita fumaça produzida pelo fogmaker.

O número de crianças em cena também aumentou, e seguramente mais de 200 estiveram presentes no primeiro e exaustivo dia de gravaçăo. Ansiosas pela longa espera, gritaram palavras de ordem do tipo: "Queremos Angélica" e "Olę, olę, olę, olá... Angélica", esta inspirada na música da campanha de lula ŕ Presidęncia. Elas agora se dividem entre quatro arquibancadas, duas de frente e outro tanto atrás.

Aliás, este é um dos segredos do novo Clube. A primeira porte do programo, dirigido ao público infantil, tom atraçőes musicais e as brincadeiras de salăo, acontece na frente do cenário, bem próximo ŕs câmeras. Nela săo apresentados os desenhos e as séries japonesas, alternados com cantores e artistas convidados. Para a estréia estăo previstos Michael Sullivan, Leo Jaime e Patrícia, além do conjunto Dr. Silvana.

GRANDE BRINCADEIRA - A partir das 18 horas 30m começa a grande novidade, utilizando todos os recantos do cenário. Artistas e adolescentes participam do Caçadores da Fortuna, uma grande brincadeira de aventura que as crianças colocadas na porte posterior do estúdio podem acompanhar mais de perto, compensando a distância que as separa dos números iniciais. Esta parte é assumidamente dirigida a cativar o público infanto-juvenil, geralmente preterido nos programas diários, com atraçőes como o Navio Pirata, o Cata Miquinho e a Corrida de Carlitos.

Neste primeiro dia, Angélica ficou a maior porte do tempo dentro de seu camarim, mas encontrou algum tempo para falar de sua expectativa quanto ŕs mudanças do programa. Elogiou a idéia de aproximar mais ás crianças do palco das brincadeiras e a produçăo do novo quadro. Mas destacou em particular a preocupaçăo com a ęnfase ŕ questăo ecológica.

- O programo está lindo, e estou ansiosa para ver a reaçăo dos gatinhos e gatinhas. Tudo que a gente faz é pensando neles. Gostei muito da floresta do cenário. Isto é ótimo para estimular as crianças a conhecerem desde cedo a importância da natureza - afirmou.

1977 - Betty Faria Vai à Luta

Jornal do Brasil
23/5/1977
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A LUTA PELO DIREITO À PRÓPRIA IMAGEM

A atriz Betty Faria depôs sexta-feira, perante o Juiz José Rodriguez Lemma, no processo que ela e outros artistas de televisăo e teatro movem contra a Editora Abril, acusada de ter usado fotografias suas com fins comerciais, sem a necessária autorizaçăo. O material foi publicado sob a forma de posters na revista Contigo. Os atores sustentam que, devido ŕ sua profissăo, seus direitos autorais abrangem as suas próprias imagens. Processo idęntico foi movido antes, com sucesso, contra a Editora Bloch.

Para Betty Faria, o importante seria, antes de mais nada, a regulamentaçăo da profissăo. "Mas estăo sempre falando nisso, e a coisa continua. Seria bom, também, que existisse o direito de intérprete no Brasil. Em principio, é isso. O resto é apenas detalhe sobre um desrespeito maior. Mas se, em nossa impotęncia, năo podemos brigar por isso, entăo vamos nessa".

A atriz chegou apressada ao fórum, sexta-feira, entrando pela rampa que leva ao terceiro andar. Ŕs 14h55m teve início a sessăo. De um lado, Betty e o advogado do Sindicato dos Artistas e Técnicos de Diversőes, Daniel Furtado; do outro, o advogado da Editora Abril, José Tavares Garduzin, e o diretor das revistas Contigo e Ilusăo, Paulo Sttein. A princípio, o juiz năo quis deixar que se fizessem fotos, pois observou que o problema em questăo era justamente esse. "A menos", acrescentou, "que a artista năo se oponha".

"Eu năo me oponho", disse Betty.

O juiz perguntou ao diretor das duas publicaçőes por que julgava que os artistas năo se incomodariam com a publicaçăo de suas fotos. Tavares Garduzin respondeu que outros já haviam sido fotografados antes e năo se opuseram. Disse que havia uma espécie de acordo entre o artista e a editora: ele se deixa fotografar sabendo que as fotos serăo publicadas.

"Desde quando vem esse acordo?" - perguntou o juiz.

"Desde que eu trabalho na empresa, e nunca tivemos problemas".

"Mas já publicaram fotos iguais a esta?"

"Ora, existem posters em todas as revistas Contigo". "Mas iguais a este, sem nenhuma modificaçăo?" - insistiu o juiz, sorrindo e apontando um exemplar da revista sobre a mesa.

"Sim", respondeu Paulo, meio embaraçado.

Ainda com o mesmo sorriso, o magistrado observou que só podia concluir que a ediçăo era uma homenagem ŕ artista, sem nenhuma intençăo lucrativa. O Dr Daniel Furtado perguntou entăo ao Dr Tavares Garduzin se, ao publicarem o poster, haviam feito alguma referęncia ao trabalho artístico dos fotografados. A resposta, numa voz quase inaudível, foi negativa. Diante de mais outras hesitaçőes por parte dos representantes da Abril, o juiz comentou que havia uma "certa anomalia" no caso, e explicou:

"Já que os senhores sabiam que iam ser chamados para depor, qual a razăo de estarem tăo por fora dos fatos?"

"Năo me informei sobre o problema financeiro da empresa, năo me preparei para este tipo de perguntas", respondeu Paulo Sttein. "Só o departamento comercial tem condiçőes de informar se a ediçăo deu lucro ou prejuízo".

José Rodriguez Lemma observou entăo que se estava, ali, diante de um caso em que se discutiam valores, e se os atores ganhassem, haveria execuçăo. "E execuçăo significa dinheiro", disse.

Sem saber qual era o custo real da revista, que nas bancas é vendida a dez cruzeiros, e sem sequer poder informar quem, na empresa, se encarrega desse aspecto da produçăo, o acusado calou-se. Disse o juiz: "Năo preciso mais fazer perguntas. O Sr está liberado. Boa tarde."

O advogado da Abril perguntou a Betty se sabia onde fora feita a fotografia motivo da questăo. "Claro que sei. Foi em Pedra de Guaratiba, numa externa de Roque Santeiro, em junho de 75." O advogado insistiu: queria saber se a foto fora posada ou tirada ao acaso.

"Essa fotografia é de uma cena da novela. Năo foi posada para fotógrafos. Havia muitos fotógrafos por lá, acompanhando as gravaçőes, autorizados pelo diretor da novela para fazerem reportagens. Neste caso, o fotógrafo disse que era para uma matéria sobre a novela, eu me lembro".

"E a foto veio sem a matéria", disse o juiz.

"É", respondeu Betty, acrescentando com certa ironia: "mas parece que eles perderam dinheiro. Só queriam fazer uma homenagem aos artistas".

O advogado da Abril tornou a intervir, perguntando se ela já tivera outras fotos publicadas em posters da empresa. "Antes de responder, quero deixar claro o seguinte", disse a atriz: "esta ediçăo é somente de posters. As outras tinham fotonovelas, anúncios etc. É claro que esta tinha objetivos comerciais".

"Mas essas publicaçőes năo lhe trazem promoçăo?", quis saber o advogado.

"Isso é discutível e discutido. Pode-se fazer promoçăo e desrespeitar o artista. Eu năo admito isso comigo. Qualquer coisa tem de ser autorizada. Nem que eu cobre um cruzeiro pela foto, mas quero saber o que vai ser publicado sobre mim".

O juiz fez uma última pergunta: "Alguma vez a senhora teve fotografias publicadas mediante pagamento?"

"Tive. Foi para um suplemento de Natal da Status, e o dinheiro deu para comprar um jipe. Isto porque assinei contrato, senăo năo poderia comprar".

Marcando-se a última audięncia para 3 de junho, quando deporăo as testemunhas da Abril, encerrou-se a sessăo.

"ELES EMBRULHAM A GENTE FEITO BALA, E VENDEM" - Estúdio de gravaçőes da Rede Globo, no Jardim Botânico. Quarta-feira. Artistas, técnicos, operários movimentam-se agitados. Gravam-se os últimos capítulos da novela Duas Vidas. Correndo para trocar de roupa para outra cena, Betty Faria comenta com a repórter: "Năo sou de falar muito, sabe? Mas vivo minha profissăo, atriz. Minha imagem se forma através do que eu faço profissionalmente, e isso tem de ser respeitado".

Sentado a seu lado, ŕ vontade, com as botas de verniz azul-marinho ao lado e os pés descalços sobre outra cadeira, o ator Mário Gomes, que está ŕs voltas com outro tipo de problema, identifica-se com os companheiros: "É, eles embrulham a gente feito bala, e depois vendem".

Rondando os corredores, muito pensativo, Francisco Cuoco dá a sua opiniăo: "É um abuso. Depois de tanto trabalho, trocando uma camisa atrás da outra para fazer as capas da Bloch, năo recebo nem uma revista de cortesia". E mais decisivo: "Eu vivo de vender a minha imagem e năo concordo com que a vendam e tirem lucro com isso sem o meu consentimento".

Luís Gustavo conta como for o seu depoimento: "O advogado dizia: "Pergunta se ele já fez algum poster". E eu: sem matéria, nunca, nem autorizei que se fizesse. O juiz perguntou se eu năo achava que isso era promoçăo. Veja só! Sabe o que respondi? Que năo era santinho de igreja. Minha imagem na TV é promoçăo, nas revistas năo".

Susana Vieira năo quis falar sobre o assunto. Comentou apenas que a presente açăo năo é a reivindicaçăo mais importante dos artistas. "Estávamos abandonados, agora que despertamos temos de partir de alguma coisa. Chegou a hora de acordar".

Para Otávio Augusto, presidente do Sindicato, o Brasil é único lugar no mundo onde o artista năo significa nada. "Para nós, a luta maior é pela regulamentaçăo da profissăo e o direito do intérprete. Já estamos brigando com as potęncias do país, uma das quais é a TV Globo." Ele fala da exportaçăo das novelas Gabriela, para Portugal, e O Bem-Amado para a América Latina inteira. "A gente começou a mexer no caso da TV Globo, mas năo conseguimos nada. Eles combinavam um preço para o direito de intérprete e pagavam. Só que depois vinha descontado no 13ş salário. No final, nós é que pagávamos. Isso é uma desmoralizaçăo."

Ele diz que há muitos processos correndo na Justiça, e destacou um, especificamente: "É o processo administrativo que está na Delegacia do Trabalho contra a TV Globo, há um ano e meio. Até agora năo tivemos nenhum parecer ou conclusăo do Ministério. É sobre o contrato de trabalho. Eles conseguiram fazer com que as horas extras fossem compensadas com. folgas, o que năo está direito. Todo o contrato é ilegal. O que convém ŕ Globo, ela pőe no contrato e fica."



1969 - Silvio Santos Vem Aí...

Realidade
1/9/1969
Nemércio Nogueira
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O SUPER SÍLVIO

O que está acontecendo com a televisão comercial brasileira? Talvez ele possa dizer: é um dos seus profetas e está sentado à măo direita do IBOPE (Instituto Brasileiro de Opiniăo Pública e Estatistica); é um dos favoritos do público e super-herói da tevê, feito à sue imagem e semelhança.

Infelizmente, senhoras e senhores, năo temos imagem para que todos possam ver o que está acontecendo aqui. Mas, pelo som (e naturalmente, através da nossa transmissão), podem fazer uma idéia do espetáculo maravilhoso a que estamos assistindo. Era o que dizia a gente da rádio, vinte anos atrás. Entăo veio a televisão.

Eles se passaram para a tevę com armas (inadequadas) e bagagem (insuficiente). Hoje costumam dizer que infelizmente, senhoras e senhores, năo temos imagens a cores para que todos possam realmente ver o que está acontecendo aqui. Mas, pelo som (e, naturalmente, através da nossa imagem), podem fazer uma idéia do espetáculo maravilhoso a que estamos assistindo.

Do jeito que a coisa vai, a televisăo a cores năo demora. E a turma vai dizer que, infelizmente, senhoras e senhores, năo transmitimos ainda em tręs dimensőes - ou os cheiros, quem sabe? -, para que todos possam realmente ver e sentir o que está acontecendo.

Afinal, o que é que está acontecendo com a televisăo comercial brasileira, acusada de ser um instrumento contra a cultura do povo? Talvez ele possa responder. Senhoras e senhores, é com prazer que apresentamos Sílvio Santos, o Super-Sílvio, que é um dos profetas da tevę comercial, está tranqüilamente sentado ŕ măo direita do IBOPE, é um dos grandes favoritos do auditório e do chamado público de casa, e que (sem dúvida) foi feito e cresceu ŕ imagem e semelhança da tevę, com todas as suas qualidades e a maior parte dos seus defeitos.

No domingo, 20 de julho, quando o homem botou pela primeira vez o pé na Lua, a televisăo estava lá, transmitindo diretamente e com uma imagem perfeita, apesar dos 400 000 quilômetros de distância. O índice de audięncia foi a um bom nível: 41,4% das pessoas que tęm tevę estavam assistindo ao espetáculo, enquanto 20% dos aparelhos permaneciam apagados. Os técnicos em pesquisa e estatística calculam que 5,5 milhőes de telespectadores brasileiros assistiram ao vivo o feito inédito, só contando o público de Săo Paulo, do Rio e das cidades vizinhas.

SO A CHEGADA Ŕ LUA CONSEGUIU TER MAIS AUDIĘNCIA QUE OS PROGRAMAS DE SÍLVIO SANTOS

Na mesma semana, sem ir ŕ Lua, Sílvio Santos conseguiu em Săo Paulo uma audięncia apenas 1% menor (40,4), na sexta-feira, com o programa Cidade contra Cidade. E no domingo o IBOPE marcou 35,8 para o Programa Sílvio Santos, que ficou com o segundo e o terceiro lugares entre os programas de maior audięncia, perdendo apenas para a transmissăo da aventura da Apollo 11.

Quem é este Sílvio Santos, muito mais popular do que o Topo Gigio (que custa milhőes e marcou 33,5%). mais sensacional do que o seriado Missăo Impossível (32%), com mais magnetismo do que o Chacrinha (que só atraiu 28,4%), e mais romântico do que Nino, o Italianinho (25,8%)?

- Eu? Eu sou um homem comum, que sempre se esforçou para viver sozinho. Sempre fui ultra-independente.

Sílvio nasceu no dia 12 de dezembro de 1935, na Travessa Bem-Te-Vi. É carioca da gema. Estudou na- Escola Celestino da Silva, em seguida foi para a Escola Amaro Cavalcanti. Pouco depois precisava trabalhar, ganhar dinheiro, aos doze anos já era camelo nas ruas do Rio. Vendia de tudo, da caneta tăo mais barata e tăo melhor do que a Parker ŕs carteiras para título de eleitor, muito mais em conta do que qualquer loja do ramo. Com um olho nos fregueses e outro no "rapa", falava, falava, falava. E vendia, sempre com um largo sorriso.

- O sorriso é a melhor arma para inspirar confiança. O homem que sorri é um homem confiante, de quem toda gente gasta.

Hoje, aos 33 anos, ele tem fama de ser o homem mais rico da televisăo brasileira, sempre falando muito (seus programas duram até dez horas) e sorrindo. Ainda é um camelô - e é ele mesmo quem diz isso. Continua na defensiva, como no tempo em que os camelôs eram perseguidos, presos e levados para o Depósito de Presos da Central de Polícia.

Naquela época, Sílvio tinha um trunfo: era menor de idade, já era simpático, quando o carro da fiscalizaçăo chegava e ele năo tinha tempo de correr, tentava "enrolar o rapa". Falava manso, sorrindo sempre. Se năo dava resultado, jogava a clientela, o povo contra os fiscais, falando alto, dizendo que era honesto, precisava ganhar a vida, a polícia năo deixava, preferia que ele fosse ladrăo.. .

- Sempre fui de falar, e sempre fui louco por dinheiro.

Um dia, o chefe da repressăo aos camelôs, Renato Meira Lima, viu Sílvio Santos trabalhando. Já sabia quem era o garoto que causava tanto trabalho aos seus fiscais. Deu alguns conselhos e um cartăo de apresentaçăo para Jorge de Matos, dono do Café Globo e da Rádio Guanabara. Sílvio foi inscrito em um concurso de locutores, ganhou o primeiro pręmio, foi contratado: 1200 cruzeiros (dos velhos) por męs.

- Preferi ser camelô. Eu fazia 3 000 por męs. (Cada caneta custava 20 cruzeiros velhos ao freguęs, e eram pagas a 160 a dúzia, no atacado.)

Mas chegou a hora do serviço militar. Năo dava para ser camelô com o cabelo cortado ŕ escovinha. Sílvio entrou para a escola de para-quedistas e montou a "primeira emissora marítima do Brasil". Era um serviço de alto-falantes, numa das barcas de Niterói. Transmitia músicas e anúncios. Um dia, a barca foi para o estaleiro e Sílvio para Săo Paulo.

Montou um bar, perto da Rádio Nacional. Pouco depois era locutor de rádio, ganhando 5 000, dos velhos. Com menos de um ano de casa, porém, foi mandado embora: deu uma entrevista dizendo que os diretores năo entendiam coisa alguma de rádio, só tinham audięncia por sorte. Pior ainda: confessava que năo saia de lá só porque queria fazer clientela para o bar (Nosso Cantinho) entre os colegas e amigos.

Desculpado, a pedido dos amigos, vendeu o bar por 240 000 cruzeiros e lançou uma revista de palavras cruzadas e charadas.

- No bar, eu năo podia fazer publicidade.

E começou a melhorar de vida, sem sair da Rádio Nacional, onde até hoje tem o programa de maior audięncia no Brasil (18%, enquanto o segundo colocado, uma novela, tem só 10%).

Em 1958, Sílvio tinha que fazer de tudo para sobreviver: fabricava folhinhas, aceitava qualquer ponta na televisăo, trabalhou até em circo, organizou caravanas artísticas pelo interior, fez uma campanha política em troca de um jipe, foi ajudante de animador no programa Praça da Alegria, que Manoel de Nóbrega tem até hoje.

Foi Nóbrega quem chamou Sílvio Santos para trabalhar na sua firma, o Baú da Felicidade, que funcionava no porăo de um prédio em reforma, sem arquivos, um caixote servindo de mesa. Sílvio trabalhou com entusiasmo. Em 1961, Nóbrega vendeu sua parte e deixou o sócio sozinho. Hoje, o Baú tem 600 mil clientes, 2 200 empregados, 25 lojas, centenas de representantes, 84 carros, precisa até dos serviços de um computador eletrônico.

Paralelamente ao crescimento do Baú, Sílvio montou uma agęncia de publicidade, uma construtora, uma indústria de televisores. Comprou tempo na televisăo e passou a fa‘r os seus próprios programas.

O Baú paga tudo.E o que é o Baú?

Uma firma de crédito que vende carnes. Quem compra paga 4 cruzeiros novos por męs, durante catorze meses. E concorre (se estiver em dia) a sorteios pela Loteria Federal (a última extraçăo de cada męs). Dando o número do seu carnę no primeiro pręmio, pode ganhar uma casa, um apartamento ou um automóvel. O segundo pręmio vale 1 milhăo (dos velhos) em mercadorias. O terceiro dá direito a um refrigerador ou a uma alta-fidelidade. O quarto vale a máquina de lavar ou um televisor.

Cada cliente pode comprar quantos carnęs desejar. Depois de tudo pago, mesmo sem ser sorteado, ele năo perde: ganhou a economia que fez, podendo retirar o equivalente ao dinheiro empatado em qualquer loja do Baú (tudo: de sapatos e roupas a eletrodomésticos, de cama-e-mesa a copa-cozinha, mais de trezentos artigos diferentes).

Mas, em vez de comprar um carnę, o cliente pode, se preferir, abrir um crediário para comprar seja o que for, em 36 meses, recebendo também um talăo numerado que concorre ao sorteio dos mesmos pręmios.

"DIZEM QUE O QUE EU FAÇO NA TEVĘ É RÁDIO COM IMAGENS. MAS É ISSO MESMO QUE O PÚBLICO QUER"

- Dizem que o meu programa é comercial. E que eu faço na televisăo rádio com imagem. É verdade. Mas é isso mesmo que o público quer E ninguém conhece o público como eu conheço. Eu pesquiso, gasto dinheiro procurando saber o que é que ele~ quer, o que năo quer. Năo sou eu quem está por fora, săo os que falam sem saber.

há dezenove anos, quando a televisăo brasileira nasceu, a goiabada Peixe patrocinou o programa inaugural: um musical, sem Ari Barroso, Lamartine Babo, ou Pixinguinha, sem Dorival Caymmi, sem Sílvio Caldas, sem Francisco Alves sem Elizabeth Cardoso, sem samba. Começou com a chamada atraçăo internacional, no caso Frei José Mojica, cantando uma hora de boleros.

Ninguém estava preparado para televisăo, nem ficou preocupado com a novidade. Televisăo, para a gente de rádio, era uma coisa simples, rádio com imagem. E foi assim mesmo que o esquema começou a funcionar, exatamente com a gente de rádio, os mesmos programas, as mesmas atraçőes.

Apenas uma insignificante minoria foi estudar o assunto. A maioria tinha que trabalhar no rádio e na tevę, năo sobrava tempo para mais nada. No máximo, um tempinho para ir aos Estados Unidos ter idéias, ver o que é que estavam fazendo por lá.

Mas a televisăo cresceu rápido, ficou forte, ganhou muito dinheiro, e a própria estrutura comercial desviou os esforços dos que tentaram melhorar o nível cultural da tevę.

- O que a critica năo percebe - diz Sílvio - é que a televisăo é um reflexo da realidade brasileira. Eu fabrico televisores e vendo, só em Săo Paulo, quinhentos por męs, a 30 cruzeiros novos, sem entrada, sem mais nada. Eu sei quem é que compra: o antigo público de rádio. Hoje em dia, quem năo tem televisăo năo tem coisa alguma. O aparelho de tevę substituiu a máquina de costura como elemento indispensável em um casamento. E é para este público que devemos fazer televisăo, se é que a audięncia tem importância.

A conclusăo só pode ser uma: num país em que a maioria dos aparelhos de tevę está nas măos de pessoas mal informadas, a preocupaçăo principal da tevę foi ser comercial, ganhar dinheiro, ter audięncia em termos de quantidade. A tal ponto que, sem querer, o IBOPE passou a ditar as regras do jogo, um jogo de números, onde a letra năo entra. Quem tem público continua; quem năo está com as massas fica de fora, seja quem for. O que realmente importa năo é o que se diz, como se diz, por que se diz, quando ou onde. O que importa é saber quantas pessoas estăo ali para serem oferecidas ao anunciante. Se o esquema está funcionando, para que discutir com os ouvintes? Enquanto a máquina der dinheiro, está tudo bem.

A TEVĘ É UM GIGANTE TÍMIDO, ACANHADO: UM SUPERCAMELÔ QUE SÓ SE PREOCUPA EM VENDER PRODUTOS

Sílvio também é criticado (como toda a televisăo comercial) por ser um improvisador.

- Sou - confessa ele.- Como todo brasileiro que se preza, eu me adapto a qualquer circunstância. Mas isso é fundamental para quem quer conseguir alguma coisa na televisăo e na vida.

Na televisăo contam uma anedota, que é verídica:

Jaci Campos, produtor e diretor de tevę (Câmera Um, por exemplo), chamou um amigo nos primeiros tempos da televisăo para ser seu iluminador.

- Eu? Mas eu năo entendo nada de televisăo, nem de iluminaçăo.

E Jaci, tranqüilo:

- Năo tem importância; vocę tem boa vontade, é vivo, aprende rápido. Se aparecer algum problema, vocę improvisa.

Sílvio Santos sabe muito bem que assim tem sido na história da televisăo. A frase mais comum entre os técnicos é ''ninguém nasce sabendo". E o aprendizado, ainda hoje, é a prática, o trabalho, a capacidade de improvisar" até de inventar, e o erro.

Limitada no tempo e no espaço, a televisăo comercial brasileira abriu măo da sua força como canal de comunicaçăo e hoje é um gigante tímido" acanhado" um supercamelô cujo único objetivo é vender. Com uma notável capacidade de prender, interessar, viciar e comunicar, ela prende e vicia, mas năo interessa nem comunica porque a estrutura comercial só está preocupada (salvo casos isolados e raros) com o auditório e a audięncia. Com o auditório que anima o animador e com a audięncia que dá pontos no IBOPE.

É preciso năo confundir audięncia com público de casa: a audięncia é importante, mas é sobretudo ao público de casa que se dirige a publicidade, gravada dois tons acima (porque, de outro modo, pode ser que ninguém dę ouvidos a ela, geralmente mal produzida). Esse público é freqüentemente desrespeitado com o atraso dos programas (sem que alguém apareça para se desculpar); é impedido de optar, porque os horários săo divididos em faixas sem imaginaçăo (a hora de novela em todos os canais, assim como hora de humor é hora de humor).

A propósito de humor, um leitor da revista Intervalo, especializada em televisăo, escreveu para informar que sabe uma porçăo de anedotas sujas, velhas e sem graça. Perguntando: "Será que eu poderia ser aceito como produtor humorístico numa emissora de televisăo?"

Até mesmo quem tem formaçăo profissional sofre as limitaçőes da engrenagem comercial: por que perder tempo com programas năo comerciais, que năo dăo audięncia? Entăo, o falecido cronista Antônio Maria chegou um dia com o texto de um programa de humor e o produtor reclamou imediatamente do autor:

- Está bom demais para o nosso público. É preciso descer o nível.

Antônio Maria refez. Novo pedido para refazer. Na terceira vez, ele jogou os originais na mesa do homem:

- Está aí; pior eu năo sei fazer.

Diz Sílvio Santos que ''năo é problema de pior ou melhor. É problema de atingir ou năo a massa". E explica:

- No meu programa há uma parte com perguntas e respostas. Se em dez perguntas o telespectador năo conseguir responder pelo menos seis, ele vira o botăo, vai ver outra coisa, diz que o programa está ruim. Mas, se ele responde as dez, fica bem com a mulher, com os filhos, com ele mesmo, e fica satisfeito comigo, com o programa, dá audięncia, entende?

Sílvio compreende perfeitamente que, improvisada em juiz de gosto popular, a gente da televisăo năo se preocupa em estudar os mecanismos de reaçăo do público. Năo vę que, nas novelas, o público foge do dia-a-dia, dos problemas existenciais, na certeza de que toda aquela desgraça terminará bem e que o bom (cada um de nós é sempre bom para si mesmo) será premiado no último capítulo - o único que realmente importa. Năo vę que, além disso, o público está atraído pela açăo, pelo mistério, pela matéria de interesse humano, o amor, a luta, o contraste. E que tudo isto pode ser oferecido de outra forma, sem ser preciso fazer novela ruim.

Năo será evidente que o que atrai na luta-livre - que todos sabem ser uma luta arranjada - é simplesmente a possibilidade de descarregar agressividade contra o ''vilăo", pela antecipada identificaçăo do vencedor, o "mocinho"?

A absoluta falta de interesse cultural, de estudo, a submissăo completa ao interesse comercial (também discutível) é que leva os improvisadores ŕs soluçőes mais simples: novela, luta-livre e programas humorísticos baseados em personagens fixas e situaçőes imutáveis na sua substância. Năo percebem o perigo que representa para o público esse gęnero de humor onde já se sabe, de antemăo, o que vai acontecer. É bem verdade que os viciados em tevę acompanham o programa e entendem tudo, o que Lhes dá satisfaçăo pessoal. Mas é grande risco para pequena satisfaçăo, entender onde năo há nenhum problema de entendimento.

O GRANDE PERIGO DA TEVĘ COMERCIAL É CRIAR UM HOMEM SUPERCIVILIZADO E SUBPRIMITIVO

Marshall McLuhan - um especialista em comunicaçăo de massa - chama a atençăo para o grande mal da televisăo comercial: massificar sem informar; embotar o espírito empreendedor, limitar a curiosidade e reduzir o interesse vital. Diz ele que, ao ultrapassarmos a escrita, evocamos um homem supercivilizado e subprimitivo.

Diz Sílvio Santos:

-Tentei fazer programas de nível melhor, mas năo deu certo. Programas sérios, de debates, năo fizeram público. A verdade é que a tevę é uma arena. O público hoje é quase exclusivamente composto pelos antigos ouvintes de rádio. Quem critica năo sabe, mas para nós năo há salvaçăo. A luta pela audięncia é feroz e ninguém trabalha para perder dinheiro. Se a televisăo é comercial, e só, a única preocupaçăo tem que ser mesmo ganhar dinheiro.

Isso ele faz; e bem. Este ano pagou 2,2 milhőes de cruzeiros novos de imposto de renda (2,2 bilhőes de cruzeiros velhos). Se, para tanto, chega a fazer concurso para escolher o nome mais feio do Brasil (Tropicăo de Almeida, entre os homens, e Cólica de Jesus, entre as mulheres, numa injustiça a Magnésia Bisurada do Patrocínio), isso é apenas um detalhe. Na linha de mostrar o mais gordo, o menor, o mais bigodudo, nada escapou. Depois, trazendo do interior duas cidades de cada vez, institucionalizou o que há de mais interiorano, no mau sentido: o menino que sobe no tronco de cabeça para baixo; a filha-de-năo-sei-quem que năo é a mais bonita da cidade mas que é quem tem prestígio para representá-la como miss; o treinador-de-cavalos-que-diz-morre-e-o-cavalo-deita, diz-olha-o-fotógrafo-e-o-cavalo-sorri; esse tipo de coisa que é assunto de sábado no Grande Ponto e constitui uma das fontes do orgulho municipal.

Também é verdade que ele dá casa, carro, refrigerador, alguns milhőes em utilidades domésticas, além de vinte, trinta, até mais milhőes toda semana para Santas Casas dessas cidades. Mas ele sabe que isso também é detalhe. Tanto, que prevę:

- Năo acredito que esse tipo de programa vá durar muitos anos. O Brasil năo pode ficar sempre assim e próprio público acaba cansando. Mas, enquanto a estrutura da televisăo comercial năo mudar, enquanto os índices de audięncia continuarem prevalecendo, enquanto o público năo exigir mais, a televisăo năo melhora. Porque năo precisa, năo quer nem pode.

No dia em que mudar, Sílvio năo sabe como estará, o que vai fazer. Mas, se quiser, pode fazer boa televisăo. Ele sabe como. Só năo faz porque năo compensa e, ao contrário, está provado que dá prejuízo.

A curto prazo, qual seria a soluçăo?

É difícil dizer. Mas, se as emissoras fizessem frente única e estabelecessem um nível mínimo de qualidade, recusando o ruim, mesmo pago, pode ser que desse certo. O problema é que tudo no Brasil acontece devagar. Nossa televisăo também vai mudar no mesmo ritmo, conforme o público for mudando, progredindo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, as emissoras de tevę limitam-se a transmitir programas. Năo produzem, năo tęm cast, só vendem seu tempo. Os produtores săo independentes, tęm os seus estúdios, seus técnicos, seu auditório, até seu público. O produtor faz o seu programa e leva ŕ emissora, pronto, perfeito, muito bem acabado, propondo negócio: a compra de tempo para transmiti-lo (sob patrocínio que o próprio produtor trata de arranjar). A direçăo comercial faz o negócio, submetendo-se ŕ apreciaçăo do diretor artístico que pode, inclusive, vetar o negócio se năo gostar do nível do programa. Entăo, o que acontece é que o pessoal trata de produzir o melhor possível, para comprar o melhor horário, ganhar mais dinheiro, năo se arriscar ao prejuízo de ficar com um programa ruim na măo, sem ter quem transmita. E a estrutura lá também é comercial, só que a audięncia é medida segundo a quantidade e a qualidade. Isto é: ŕs vezes, importa mais a qualidade do público, a sua capacidade intelectual e de compra, do que o número. Aqui, nós ainda estamos na fase da quantidade.

MORAL DA HISTÓRIA, SEGUNDO SÍLVIO: CADA PÚBLICO TEM A TELEVISĂO QUE MERECE

Moral da história, segundo Sílvio Santos: o dia em que o nosso público for mesmo maravilhoso, a televisăo também terá que ser maravilhosa.

SUPER SÍLVIO

O que está acontecendo com a televisăo comercial brasileira? Talvez ele possa dizer: Ú um dos seus profetas e está sentado Ó măo direita do IBOPE (Instituto Brasileiro de Opiniăo Pública e Estatistica); Ú um dos favoritos do público e super-herói da tevę, feito Ó sue imagem e semelhança

Infelizmente, senhoras e senhores, năo temos imagem para que todos possam ver o que está acontecendo aqui. Mas, pelo som (e naturalmente, atravÚs da nossa transmissăo), podem fazer uma idÚia do espetáculo maravilhoso a que estamos assistindo. Era o que dizia a gente da rádio, vinte anos atrás. Entăo veio a televisăo. Eles se passaram para a tevę com armas (inadequadas) e bagagem (insuficiente). Hoje costumam dizer que infelizmente, senhoras e senhores, năo temos imagens a cores para que todos possam realmente ver o que está acontecendo aqui. Mas, pelo som (e, naturalmente, atravÚs da nossa imagem), podem fazer uma idÚia do espetáculo maravilhoso a que estamos assistindo. Do jeito que a coisa vai, a televisăo a cores năo demora. E a turma vai dizer que, infelizmente, senhoras e senhores, năo transmitimos ainda em tręs dimensőes - ou os cheiros, quem sabe? -, para que todos possam realmente ver e sentir o que está acontecendo. Afinal, o que Ú que está acontecendo com a televisăo comercial brasileira, acusada de ser um instrumento contra a cultura do povo? Talvez ele possa responder. Senhoras e senhores, Ú com prazer que apresentamos Sílvio Santos, o Super-Sílvio, que Ú um dos profetas da tevę comercial, está tranqüilamente sentado Ó măo direita do IBOPE, Ú um dos grandes favoritos do auditório e do chamado público de casa, e que (sem dúvida) foi feito e cresceu Ó imagem e semelhança da tevę, com todas as suas qualidades e a maior parte dos seus defeitos. No domingo, 20 de julho, quando o homem botou pela primeira vez o pÚ na Lua, a televisăo estava lá, transmitindo diretamente e com uma imagem perfeita, apesar dos 400 000 quilômetros de distÔncia. O índice de audięncia foi a um bom nível: 41,4% das pessoas que tęm tevę estavam assistindo ao espetáculo, enquanto 20% dos aparelhos permaneciam apagados. Os tÚcnicos em pesquisa e estatística calculam que 5,5 milhőes de telespectadores brasileiros assistiram ao vivo o feito inÚdito, só contando o público de Săo Paulo, do Rio e das cidades vizinhas.

SO A CHEGADA Ŕ LUA CONSEGUIU TER MAIS AUDIĘNCIA QUE OS PROGRAMAS DE SÍLVIO SANTOS

Na mesma semana, sem ir Ó Lua, Sílvio Santos conseguiu em Săo Paulo uma audięncia apenas 1% menor (40,4), na sexta-feira, com o programa Cidade contra Cidade. E no domingo o IBOPE marcou 35,8 para o Programa Sílvio Santos, que ficou com o segundo e o terceiro lugares entre os programas de maior audięncia, perdendo apenas para a transmissăo da aventura da Apollo 11. Quem Ú este Sílvio Santos, muito mais popular do que o Topo Gigio (que custa milhőes e marcou 33,5%). mais sensacional do que o seriado Missăo Impossível (32%), com mais magnetismo do que o Chacrinha (que só atraiu 28,4%), e mais romÔntico do que Nino, o Italianinho (25,8%)? - Eu? Eu sou um homem comum, que sempre se esforçou para viver sozinho. Sempre fui ultra-independente. Sílvio nasceu no dia 12 de dezembro de 1935, na Travessa Bem-Te-Vi. É carioca da gema. Estudou na- Escola Celestino da Silva, em seguida foi para a Escola Amaro Cavalcanti. Pouco depois precisava trabalhar, ganhar dinheiro, aos doze anos já era camelo nas ruas do Rio. Vendia de tudo, da caneta tăo mais barata e tăo melhor do que a Parker Ós carteiras para título de eleitor, muito mais em conta do que qualquer loja do ramo. Com um olho nos fregueses e outro no "rapa", falava, falava, falava. E vendia, sempre com um largo sorriso. - O sorriso Ú a melhor arma para inspirar confiança. O homem que sorri Ú um homem confiante, de quem toda gente gasta. Hoje, aos 33 anos, ele tem fama de ser o homem mais rico da televisăo brasileira, sempre falando muito (seus programas duram atÚ dez horas) e sorrindo. Ainda Ú um camelô - e Ú ele mesmo quem diz isso. Continua na defensiva, como no tempo em que os camelôs eram perseguidos, presos e levados para o Depósito de Presos da Central de Polícia. Naquela Úpoca, Sílvio tinha um trunfo: era menor de idade, já era simpático, quando o carro da fiscalizaçăo chegava e ele năo tinha tempo de correr, tentava "enrolar o rapa". Falava manso, sorrindo sempre. Se năo dava resultado, jogava a clientela, o povo contra os fiscais, falando alto, dizendo que era honesto, precisava ganhar a vida, a polícia năo deixava, preferia que ele fosse ladrăo.. . - Sempre fui de falar, e sempre fui louco por dinheiro. Um dia, o chefe da repressăo aos camelôs, Renato Meira Lima, viu Sílvio Santos trabalhando. Já sabia quem era o garoto que causava tanto trabalho aos seus fiscais. Deu alguns conselhos e um cartăo de apresentaçăo para Jorge de Matos, dono do CafÚ Globo e da Rádio Guanabara. Sílvio foi inscrito em um concurso de locutores, ganhou o primeiro pręmio, foi contratado: 1200 cruzeiros (dos velhos) por męs. - Preferi ser camelô. Eu fazia 3 000 por męs. (Cada caneta custava 20 cruzeiros velhos ao freguęs, e eram pagas a 160 a dúzia, no atacado.) Mas chegou a hora do serviço militar. Năo dava para ser camelô com o cabelo cortado Ó escovinha. Sílvio entrou para a escola de para-quedistas e montou a "primeira emissora marítima do Brasil". Era um serviço de alto-falantes, numa das barcas de Niterói. Transmitia músicas e anúncios. Um dia, a barca foi para o estaleiro e Sílvio para Săo Paulo. Montou um bar, perto da Rádio Nacional. Pouco depois era locutor de rádio, ganhando 5 000, dos velhos. Com menos de um ano de casa, porÚm, foi mandado embora: deu uma entrevista dizendo que os diretores năo entendiam coisa alguma de rádio, só tinham audięncia por sorte. Pior ainda: confessava que năo saia de lá só porque queria fazer clientela para o bar (Nosso Cantinho) entre os colegas e amigos. Desculpado, a pedido dos amigos, vendeu o bar por 240 000 cruzeiros e lançou uma revista de palavras cruzadas e charadas. - No bar, eu năo podia fazer publicidade. E começou a melhorar de vida, sem sair da Rádio Nacional, onde atÚ hoje tem o programa de maior audięncia no Brasil (18%, enquanto o segundo colocado, uma novela, tem só 10%). Em 1958, Sílvio tinha que fazer de tudo para sobreviver: fabricava folhinhas, aceitava qualquer ponta na televisăo, trabalhou atÚ em circo, organizou caravanas artísticas pelo interior, fez uma campanha política em troca de um jipe, foi ajudante de animador no programa Praça da Alegria, que Manoel de Nóbrega tem atÚ hoje. Foi Nóbrega quem chamou Sílvio Santos para trabalhar na sua firma, o Baú da Felicidade, que funcionava no porăo de um prÚdio em reforma, sem arquivos, um caixote servindo de mesa. Sílvio trabalhou com entusiasmo. Em 1961, Nóbrega vendeu sua parte e deixou o sócio sozinho. Hoje, o Baú tem 600 mil clientes, 2 200 empregados, 25 lojas, centenas de representantes, 84 carros, precisa atÚ dos serviços de um computador eletrônico. Paralelamente ao crescimento do Baú, Sílvio montou uma agęncia de publicidade, uma construtora, uma indústria de televisores. Comprou tempo na televisăo e passou a faćr os seus próprios programas. O Baú paga tudo.E o que Ú o Baú? Uma firma de crÚdito que vende carnes. Quem compra paga 4 cruzeiros novos por męs, durante catorze meses. E concorre (se estiver em dia) a sorteios pela Loteria Federal (a última extraçăo de cada męs). Dando o número do seu carnę no primeiro pręmio, pode ganhar uma casa, um apartamento ou um automóvel. O segundo pręmio vale 1 milhăo (dos velhos) em mercadorias. O terceiro dá direito a um refrigerador ou a uma alta-fidelidade. O quarto vale a máquina de lavar ou um televisor. Cada cliente pode comprar quantos carnęs desejar. Depois de tudo pago, mesmo sem ser sorteado, ele năo perde: ganhou a economia que fez, podendo retirar o equivalente ao dinheiro empatado em qualquer loja do Baú (tudo: de sapatos e roupas a eletrodomÚsticos, de cama-e-mesa a copa-cozinha, mais de trezentos artigos diferentes). Mas, em vez de comprar um carnę, o cliente pode, se preferir, abrir um crediário para comprar seja o que for, em 36 meses, recebendo tambÚm um talăo numerado que concorre ao sorteio dos mesmos pręmios. "DIZEM QUE O QUE EU FAĂO NA TEVĘ É RÁDIO COM IMAGENS. MAS É ISSO MESMO QUE O PÚBLICO QUER" - Dizem que o meu programa Ú comercial. E que eu faço na televisăo rádio com imagem. É verdade. Mas Ú isso mesmo que o público quer E ninguÚm conhece o público como eu conheço. Eu pesquiso, gasto dinheiro procurando saber o que Ú que ele~ quer, o que năo quer. Năo sou eu quem está por fora, săo os que falam sem saber. há dezenove anos, quando a televisăo brasileira nasceu, a goiabada Peixe patrocinou o programa inaugural: um musical, sem Ari Barroso, Lamartine Babo, ou Pixinguinha, sem Dorival Caymmi, sem Sílvio Caldas, sem Francisco Alves sem Elizabeth Cardoso, sem samba. Começou com a chamada atraçăo internacional, no caso Frei JosÚ Mojica, cantando uma hora de boleros. NinguÚm estava preparado para televisăo, nem ficou preocupado com a novidade. Televisăo, para a gente de rádio, era uma coisa simples, rádio com imagem. E foi assim mesmo que o esquema começou a funcionar, exatamente com a gente de rádio, os mesmos programas, as mesmas atraçőes. Apenas uma insignificante minoria foi estudar o assunto. A maioria tinha que trabalhar no rádio e na tevę, năo sobrava tempo para mais nada. No máximo, um tempinho para ir aos Estados Unidos ter idÚias, ver o que Ú que estavam fazendo por lá. Mas a televisăo cresceu rápido, ficou forte, ganhou muito dinheiro, e a própria estrutura comercial desviou os esforços dos que tentaram melhorar o nível cultural da tevę. - O que a critica năo percebe - diz Sílvio - Ú que a televisăo Ú um reflexo da realidade brasileira. Eu fabrico televisores e vendo, só em Săo Paulo, quinhentos por męs, a 30 cruzeiros novos, sem entrada, sem mais nada. Eu sei quem Ú que compra: o antigo público de rádio. Hoje em dia, quem năo tem televisăo năo tem coisa alguma. O aparelho de tevę substituiu a máquina de costura como elemento indispensável em um casamento. E Ú para este público que devemos fazer televisăo, se Ú que a audięncia tem importÔncia. A conclusăo só pode ser uma: num país em que a maioria dos aparelhos de tevę está nas măos de pessoas mal informadas, a preocupaçăo principal da tevę foi ser comercial, ganhar dinheiro, ter audięncia em termos de quantidade. A tal ponto que, sem querer, o IBOPE passou a ditar as regras do jogo, um jogo de números, onde a letra năo entra. Quem tem público continua; quem năo está com as massas fica de fora, seja quem for. O que realmente importa năo Ú o que se diz, como se diz, por que se diz, quando ou onde. O que importa Ú saber quantas pessoas estăo ali para serem oferecidas ao anunciante. Se o esquema está funcionando, para que discutir com os ouvintes? Enquanto a máquina der dinheiro, está tudo bem. A TEVĘ É UM GIGANTE TÍMIDO, ACANHADO: UM SUPERCAMELÔ QUE SÓ SE PREOCUPA EM VENDER PRODUTOS Sílvio tambÚm Ú criticado (como toda a televisăo comercial) por ser um improvisador. - Sou - confessa ele.- Como todo brasileiro que se preza, eu me adapto a qualquer circunstÔncia. Mas isso Ú fundamental para quem quer conseguir alguma coisa na televisăo e na vida. Na televisăo contam uma anedota, que Ú verídica: Jaci Campos, produtor e diretor de tevę (CÔmera Um, por exemplo), chamou um amigo nos primeiros tempos da televisăo para ser seu iluminador. - Eu? Mas eu năo entendo nada de televisăo, nem de iluminaçăo. E Jaci, tranqüilo: - Năo tem importÔncia; vocę tem boa vontade, Ú vivo, aprende rápido. Se aparecer algum problema, vocę improvisa. Sílvio Santos sabe muito bem que assim tem sido na história da televisăo. A frase mais comum entre os tÚcnicos Ú ''ninguÚm nasce sabendo". E o aprendizado, ainda hoje, Ú a prática, o trabalho, a capacidade de improvisar" atÚ de inventar, e o erro. Limitada no tempo e no espaço, a televisăo comercial brasileira abriu măo da sua força como canal de comunicaçăo e hoje Ú um gigante tímido" acanhado" um supercamelô cujo único objetivo Ú vender. Com uma notável capacidade de prender, interessar, viciar e comunicar, ela prende e vicia, mas năo interessa nem comunica porque a estrutura comercial só está preocupada (salvo casos isolados e raros) com o auditório e a audięncia. Com o auditório que anima o animador e com a audięncia que dá pontos no IBOPE. É preciso năo confundir audięncia com público de casa: a audięncia Ú importante, mas Ú sobretudo ao público de casa que se dirige a publicidade, gravada dois tons acima (porque, de outro modo, pode ser que ninguÚm dę ouvidos a ela, geralmente mal produzida). Esse público Ú freqüentemente desrespeitado com o atraso dos programas (sem que alguÚm apareça para se desculpar); Ú impedido de optar, porque os horários săo divididos em faixas sem imaginaçăo (a hora de novela em todos os canais, assim como hora de humor Ú hora de humor). A propósito de humor, um leitor da revista Intervalo, especializada em televisăo, escreveu para informar que sabe uma porçăo de anedotas sujas, velhas e sem graça. Perguntando: "Será que eu poderia ser aceito como produtor humorístico numa emissora de televisăo?" AtÚ mesmo quem tem formaçăo profissional sofre as limitaçőes da engrenagem comercial: por que perder tempo com programas năo comerciais, que năo dăo audięncia? Entăo, o falecido cronista Antônio Maria chegou um dia com o texto de um programa de humor e o produtor reclamou imediatamente do autor: - Está bom demais para o nosso público. É preciso descer o nível. Antônio Maria refez. Novo pedido para refazer. Na terceira vez, ele jogou os originais na mesa do homem: - Está aí; pior eu năo sei fazer. Diz Sílvio Santos que ''năo Ú problema de pior ou melhor. É problema de atingir ou năo a massa". E explica: - No meu programa há uma parte com perguntas e respostas. Se em dez perguntas o telespectador năo conseguir responder pelo menos seis, ele vira o botăo, vai ver outra coisa, diz que o programa está ruim. Mas, se ele responde as dez, fica bem com a mulher, com os filhos, com ele mesmo, e fica satisfeito comigo, com o programa, dá audięncia, entende? Sílvio compreende perfeitamente que, improvisada em juiz de gosto popular, a gente da televisăo năo se preocupa em estudar os mecanismos de reaçăo do público. Năo vę que, nas novelas, o público foge do dia-a-dia, dos problemas existenciais, na certeza de que toda aquela desgraça terminará bem e que o bom (cada um de nós Ú sempre bom para si mesmo) será premiado no último capítulo - o único que realmente importa. Năo vę que, alÚm disso, o público está atraído pela açăo, pelo mistÚrio, pela matÚria de interesse humano, o amor, a luta, o contraste. E que tudo isto pode ser oferecido de outra forma, sem ser preciso fazer novela ruim.

Năo será evidente que o que atrai na luta-livre - que todos sabem ser uma luta arranjada - Ú simplesmente a possibilidade de descarregar agressividade contra o ''vilăo", pela antecipada identificaçăo do vencedor, o "mocinho"? A absoluta falta de interesse cultural, de estudo, a submissăo completa ao interesse comercial (tambÚm discutível) Ú que leva os improvisadores Ós soluçőes mais simples: novela, luta-livre e programas humorísticos baseados em personagens fixas e situaçőes imutáveis na sua substÔncia. Năo percebem o perigo que representa para o público esse gęnero de humor onde já se sabe, de antemăo, o que vai acontecer. É bem verdade que os viciados em tevę acompanham o programa e entendem tudo, o que Lhes dá satisfaçăo pessoal. Mas Ú grande risco para pequena satisfaçăo, entender onde năo há nenhum problema de entendimento. O GRANDE PERIGO DA TEVĘ COMERCIAL É CRIAR UM HOMEM SUPERCIVILIZADO E SUBPRIMITIVO Marshall McLuhan - um especialista em comunicaçăo de massa - chama a atençăo para o grande mal da televisăo comercial: massificar sem informar; embotar o espírito empreendedor, limitar a curiosidade e reduzir o interesse vital. Diz ele que, ao ultrapassarmos a escrita, evocamos um homem supercivilizado e subprimitivo. Diz Sílvio Santos: -Tentei fazer programas de nível melhor, mas năo deu certo. Programas sÚrios, de debates, năo fizeram público. A verdade Ú que a tevę Ú uma arena. O público hoje Ú quase exclusivamente composto pelos antigos ouvintes de rádio. Quem critica năo sabe, mas para nós năo há salvaçăo. A luta pela audięncia Ú feroz e ninguÚm trabalha para perder dinheiro. Se a televisăo Ú comercial, e só, a única preocupaçăo tem que ser mesmo ganhar dinheiro. Isso ele faz; e bem. Este ano pagou 2,2 milhőes de cruzeiros novos de imposto de renda (2,2 bilhőes de cruzeiros velhos). Se, para tanto, chega a fazer concurso para escolher o nome mais feio do Brasil (Tropicăo de Almeida, entre os homens, e Cólica de Jesus, entre as mulheres, numa injustiça a MagnÚsia Bisurada do Patrocínio), isso Ú apenas um detalhe. Na linha de mostrar o mais gordo, o menor, o mais bigodudo, nada escapou. Depois, trazendo do interior duas cidades de cada vez, institucionalizou o que há de mais interiorano, no mau sentido: o menino que sobe no tronco de cabeça para baixo; a filha-de-năo-sei-quem que năo Ú a mais bonita da cidade mas que Ú quem tem prestígio para representá-la como miss; o treinador-de-cavalos-que-diz-morre-e-o-cavalo-deita, diz-olha-o-fotógrafo-e-o-cavalo-sorri; esse tipo de coisa que Ú assunto de sábado no Grande Ponto e constitui uma das fontes do orgulho municipal. TambÚm Ú verdade que ele dá casa, carro, refrigerador, alguns milhőes em utilidades domÚsticas, alÚm de vinte, trinta, atÚ mais milhőes toda semana para Santas Casas dessas cidades. Mas ele sabe que isso tambÚm Ú detalhe. Tanto, que prevę: - Năo acredito que esse tipo de programa vá durar muitos anos. O Brasil năo pode ficar sempre assim e próprio público acaba cansando. Mas, enquanto a estrutura da televisăo comercial năo mudar, enquanto os índices de audięncia continuarem prevalecendo, enquanto o público năo exigir mais, a televisăo năo melhora. Porque năo precisa, năo quer nem pode. No dia em que mudar, Sílvio năo sabe como estará, o que vai fazer. Mas, se quiser, pode fazer boa televisăo. Ele sabe como. Só năo faz porque năo compensa e, ao contrário, está provado que dá prejuízo. A curto prazo, qual seria a soluçăo? É difícil dizer. Mas, se as emissoras fizessem frente única e estabelecessem um nível mínimo de qualidade, recusando o ruim, mesmo pago, pode ser que desse certo. O problema Ú que tudo no Brasil acontece devagar. Nossa televisăo tambÚm vai mudar no mesmo ritmo, conforme o público for mudando, progredindo. Nos Estados Unidos, por exemplo, as emissoras de tevę limitam-se a transmitir programas. Năo produzem, năo tęm cast, só vendem seu tempo. Os produtores săo independentes, tęm os seus estúdios, seus tÚcnicos, seu auditório, atÚ seu público. O produtor faz o seu programa e leva Ó emissora, pronto, perfeito, muito bem acabado, propondo negócio: a compra de tempo para transmiti-lo (sob patrocínio que o próprio produtor trata de arranjar). A direçăo comercial faz o negócio, submetendo-se Ó apreciaçăo do diretor artístico que pode, inclusive, vetar o negócio se năo gostar do nível do programa. Entăo, o que acontece Ú que o pessoal trata de produzir o melhor possível, para comprar o melhor horário, ganhar mais dinheiro, năo se arriscar ao prejuízo de ficar com um programa ruim na măo, sem ter quem transmita. E a estrutura lá tambÚm Ú comercial, só que a audięncia Ú medida segundo a quantidade e a qualidade. Isto Ú: Ós vezes, importa mais a qualidade do público, a sua capacidade intelectual e de compra, do que o número. Aqui, nós ainda estamos na fase da quantidade. MORAL DA HISTÓRIA, SEGUNDO SÍLVIO: CADA PÚBLICO TEM A TELEVISĂO QUE MERECE Moral da história, segundo Sílvio Santos: o dia em que o nosso público for mesmo maravilhoso, a televisăo tambÚm terá que ser maravilhosa.




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