Sunday, May 16, 2010

1984 - Manchete Segunda Tentativa

Jornal do Brasil
10/4/1984
Míriam Lage
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O SALTO MAIS ALTO NOS PLANOS DA TV MANCHETE
Dez meses depois da estréia, a 5 de junho do ano passado, a TV Manchete faz um balanço e năo tem o que reclamar dos resultados. Maurício Sherman, diretor artístico da rede, assegura que todas as dúvidas iniciais desapareceram: "está bem claro para nós, para o público e anunciantes que a TV Manchete formou uma rede para ficar no ar por muito tempo, disputando, com garra, o mercado da televisăo brasileira".

A direçăo da emissora costuma dizer que, aos estruturar sua linha de programaçăo, apostou no bom gosto e na inteligęncia do público. "Toda programaçăo segmentada corre risco. Se a disputa é por uma fatia menor de mercado - o alvo săo as classes A e B - é evidente que a audięncia será equivalente. Mas mesmo com números menores de IBOPE, estamos lidando com o que realmente importa aos anunciantes: 90% do poder de consumo do país", diz Sherman.

Năo foi fácil, no início, convencer as agęncias de publicidade que a emissora entraria na casa deste público tăo disputado. Os institutos de pesquisa trabalhavam contra a emissora. E exatamente nessas faixas que os pesquisadores encontram dificuldades, barrados por eficientes sistemas de segurança dos prédios. Por isso, em seus primeiros meses no ar, a TV Manchete teve dificuldades em atrair as verbas que lhe folgariam o orçamento. Hoje, segundo Sherman, a situaçăo é outra. "Năo há um só projeto novo que entre no ar sem patrocinador. Vencemos essas dificuldades iniciais provando que estamos fazendo um trabalho sério. A performance da emissora assegurou um bom fluxo do verbas publicitárias, que nos permitem pensar em saltos mais altos", diz Sherman.

Mas como qualquer profissional tarimbado de televisăo - completa 30 anos no ramo no próximo ano - Sherman năo esconde que sua maior ambiçăo é aumentar a audięncia, năo se contentar, jamais, com as conquistas consolidadas. Assim, a emissora imaginou uma maneira de casar o padrăo de qualidade a que se impôs ŕs preferęncias do público brasileiro. "O ęxito das novelas prova que o espectador gosta da forma dramatúrgica. Vamos começar a atuar nesse espaço com o nosso projeto Grandes Romances. Săo as minisséries que estăo sendo cuidadas com extremo carinho pela emissora e devem entrar em fase de produçăo esta semana. Pretendemos, com isso, penetrar numa faixa de público mais ampla. O fundamental, no entanto, é que năo vamos nos afastar desse crédito de lucidez e inteligęncia que demos ao espectador", explica ele.

A primeira minissérie da TV Manchete deverá estar no ar dentro de 90 dias, com a história da Marquesa de Santos, adaptada por Carlos Heitor Cony. Para o papel principal foi escolhida a atriz Maitę Proença. Mas é apenas um dos grandes nomes do senado. Já' foram acertadas as participaçőes de Sérgio Brito, Maria Padilha, Marcos Nanini e iniciadas conversas com a atriz Bibi Ferreira. A segunda minissérie é Viver A Vida, entregue a Manuel Carlos. A história se baseia num romance de Theodore Dreiser. O painel paulista é o tema da terceira história, escrita por Geraldo Vietri a partir de uma trilogia de Abílio Pereira de Almeida. Essa incursăo no mundo paulistano năo é de graça: no balanço desses dez meses no ar, a emissora detectou que o ponto de maior fragilidade da rede é Săo Paulo, onde ainda năo conseguiu a audięncia desejada.

Ao mesmo tempo em que se preocupa com o alargamento de seus índices de audięncia no horário nobre, a TV Manchete pretende ampliar a programaçăoinfantil. Atualmente a emissora oferece quatro horas diárias ŕ garotada, com Carequinha e Xuxa no comando de programas no início da tarde. Agora, o alvo da TV Manchete é a conquista da criança que assiste a televisăo aos domingos. A partir do próximo dia 22, ŕs 17 horas, estréia Essas Crianças Maravilhosas. Pepita Rodrigues foi a escolhida para animar o programa: "Pensamos num projeto instigante para a criança e divertido para o adulto. Serăo organizados jogos e brincadeiras com a participaçăo da criançada que é premiada com brinquedos. Pensamos numa espécie de divertimento instrutivo", explica Sherman.

Essa concentraçăo de esforços no horário infantil faz parte de uma estratégia a longo prazo: criar uma programaçăo atraente para um público que muda de canal com freqüęncia. "A criança é muito mais inquieta do que o adulto. Ela mexe no seletor de canais a todo instante, parando a imagem onde encontra melhor atraçăo. Elas estăo parando na TV Manchete ŕ tarde. Precisamos segurá-las aos domingos", diz Sherman.

Além das crianças, a TV Manchete está de olho na faixa jovem. Já conseguiu bons índices de audięncia para o FMTV durante a semana e vai incluí-lo na programaçăo de domingo. "A partir do dia 13 de maio prepararemos uma especial de uma hora de duraçăo para o final da tarde", adianta Sherman. Também na área de jornalismo algumas novidades estăo em gestaçăo. Até meados de maio a emissora pretende colocar no ar uma revista jornalística, ainda sem nome escolhido. Sherman pensa numa espécie de "ômnibus", um pouco de tudo para um público mais variado. Nos primeiros estudos de reformulaçăo da programaçăo, a TV Manchete pensa em colocá-la no início da noite de domingo. "No fundo o que estamos fazendo é disputar a audięncia de domingo. É claro que, para uma emissora, o importante năo é ter piques de audięncia, mas chegar a um patamar sólido em toda a programaçăo", diz ele.

Dentro dessa estratégia a emissora está reformulando o Manchete Shopping Show - de segunda a sexta-feira, das 15 horas ŕs 17 horas redirecionando o programa para o gosto do público feminino. De acordo com pesquisas realizadas nos últimos meses, ficou provado que o público feminino desta faixa de horário prefere um programa que lhe preste serviços. Assim, foi abolido o quadro Debate e o Shopping Show mergulha, já a partir desta semana, em assuntos como economia doméstica, orientaçăo pedagógica, psicologia e toda espécie de serviço para as donas-de-casa.

Com todos esses acertos de rota a TV Manchete pretende manter - e justificar - seu slogan: a televisăo do futuro. "A televisăo brasileira atravessa uma fase muito curiosa. Basta girar o dial que sua própria história está no ar. Os primórdios estăo com a TV Record: só passa filmes velhos, da época em que nasceu a televisăo no Brasil. Logo depois vem a TVS, representante da década de 60. Ela relembra os programas de auditório, com o formato antigo e todas as improvisaçőes que isso exige. A TV Bandeirantes representa a transiçăo entre os programas de auditório e os gravados, lá pelos meados da década de 60. A programaçăo melhorada, enriquecida pelos programas gravados já do início dos anos 80, é nem exemplificada pela TV Globo. A TV Manchete é a televisăo do futuro. Mas como somos ansiosos, queremos ocupar espaço desde agora. Por isso estamos sempre alertas, acompanhando de perto o resultado de nosso trabalho e corrigindo as mínimas falhas", conclui Sherman.

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