Friday, May 28, 2010

1978 - O Melhor da Globo

O Globo
5/3/1978
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NO AR, OS CAMPEŐES DE AUDIĘNCIA DE 70
TE CONTEI? - Logo amanhă, segunda-feira dia 6, estréia Te Contei? a nova novela das 7, com Luiz Gustavo, Wanda Stefânia, Suzana Vieira e Denis Carvalho. O autor é Cassiano Gabus Mendes.

A emoçăo e os grandes desempenhos estăo nas novelas da Globo: Maria, Maria (6 da tarde), o Astro (8 da noite) o Pulo do Gato (10 da noite), a reprise de Loco Motivas (1:30 da tarde) e agora Te Contei?

A partir desta segunda-feira, no Globinho, duas séries muito originais, que estimulam e desenvolvem a criatividade infantil. Mio e Mao, Vermelho e Azul văo estar com a incrível Família Barbapapa, de segunda a sexta, no Globinho. O programa tem agora 15 minutos de duraçăo, e vai ao ar ŕs 11:35 da manhă e ŕs 5:15 da tarde.

As 11:50 da manhă, Globo Cor Especial com Tu-tubarăo, Scooby Doo Dinamite e Monstros Camaradas, Bam-Bam & Pedrita, Urso do Cabelo Duro, Corrida Maluca, Penélope e Jeannie é um Gęnio.

Em HB 78, seis estréias espetaculares: Úrsula, Policia Desmontada, Elefantástico, Careta & Mutreta, Treme-Treme e Trapa Leăo. De segunda a sexta, ŕs 6:45 da noite e aos sábados ŕs 7 da noite. Começa amanhă.

Autores como Luis Fernando Veríssimo, Maria Clara Machado recriam Monteiro Lobato nas novas aventuras no Sítio do Picapau Amarelo. Segundo ano de sucesso do único lugar onde se faz goiabada de marmelo. Nesta segunda, o primeiro episódio: Cupido Maluco, de Benedito Rui Barbosa. De segunda a sexta ŕs 5:30 da tarde. Pela manhă, reapresentaçăo.

A QUARTA NOBRE, 9 da noite, fica combinada assim: na primeira e na terceira semana de cada męs, As Panteras,. episódios inéditos do mais charmoso trio de detetives. Vocę vai conhecer a nova Pantera Cherry Ladd, garras afiadas contra o crime. Estréia dia 8.

Na segunda semana, Caso Especial, o melhor dos autores nacionais em produçőes especiais para a televisăo. Dia 15: Jorge, um Brasileiro, de Oswaldo França.

CIRANDA CIRANDINHA - E na quarta semana, Ciranda Cirandinha, série inspirada num Caso Especial de Paulo Mendes Campos: os caminhos e os descaminhos da juventude brasileira, os doces e loucos anos que marcaram a vida de todos nós. Estréia dia 29.

A Sexta Super, 9 da noite, năo deixa por menos: começa com Brasil 78, na primeira semana. Bibi Ferreira apresentando gente, projetos, sonhos e realizaçőes no teatro, no cinema, na música e na literatura brasileira. Estréia dia 10 de março.

Segunda semana: Saudade Năo Tem Idade, os ritmos e os intérpretes que ainda outro dia estavam fazendo titia desmaiar de emoçăo: o twist, o rock, chá-chá-chá, o tango. Dia 17 de março, o programa de estréia, em ritmo de bolero: Dois pra Lá, Dois pra Cá.

Na terceira semana de cada męs, Betty Faria, deixando cair em Brasil Pandeiro, toda a malícia da revista e a riqueza do show brasileiro. Estréia dia 24 de março.

E na quarta semana, Globo de Ouro, o som da parada, o som do lançamento, o som das discotecas.

A Sexta Super é super mesmo, e faz parte dos 76% de produçăo nacional exibida pela Rede Globo no horário nobre.

SEMANA UM - Na primeira semana de cada męs, o grande lançamento da televisăo internacional: Semana Um. Os maiores sucessos literários contemporâneos apresentados em séries de 6 capítulos, de segunda a sábado, ŕs 10:50 da noite. O melhor da TV mundial para vocę. Estréia amanhă, com Sétima Avenida, de Norman Bogner.

PREMIČRE 78: a televisăo na frente do cinema. Novos filmes especialmente criados e produzidos para a televisăo. Estréia segunda-feira, 13 de março, ŕs 10:50 da noite.

Ŕs terças-feiras, Robert Stack (lembra dele?) vem aí com os Procurados, ŕs 10:50 da noite. Uma unidade da polícia de Los Angelos ŕ caça dos fugitivos da Justiça. Estréia terça-feira, 14 de março.

Que bom que a Globo deu quinze minutinhos inteirinhos só pra nós, năo é Xuxa? Foi o que a Kika disse quando soube que de segunda a sexta-feira, ŕs 5 da tarde, vai ter um programa só delezinhos, Stęnio Garcia e Clarice Piovesan

TELECURSO 2ş GRAU - Um dos projetos educativos e culturais da Fundaçăo Roberto Marinho, o Telecurso 29 Grau já tem, em Săo Paulo, mais de 300 mil alunos. Breve

em todo o Brasil

ISTO É HOLLYWOOD - Por falar em 10:50 da noite, ŕs quartas-feiras acontece Isto é Hollywood. Vocę vai conhecer por dentro a fábrica de sonhos dourados, a incrível máquina de fazer rir e chorar. Os efeitos especiais, desde o tempo do cinema mudo até Tubarăo, Inferno na Torre, Guerra nas Estrelas, Terremoto. A realidade e o mito do cinema americano em Isto é Hollywood. Estréia dia 15.

Ŕs quintas-feiras, 10:50 da noite, Kojak 4ş ano. A série vem com mais açăo do que nunca. Pode apostar, neném. Estréia dia 16.

Baretta gostou de trabalhar aos domingos, mas descansa na primeira semana de cada męs assistindo aos Concertos Internacionais. O segundo ano da série estréia dia 12, ŕs 10 da noite.

Domingo é dia de muita alegria e das grandes produçőes nacionais e internacionais. Hoje, vocę vai ver, pela manhă, em Concertos para a Juventude, a reapresentaçăo do programa Villa-Lobos com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Em seguida, assista Esporte Espetacular. E logo depois, uma festa cheia de animaçăo com Muppet Show, Loco Motivos, Ho...Hó...limpicos, As Panterinhas e Superamigos.

E ŕs 8 da noite, o show da vida no Fantástico: jornalismo, música, humor, reportagens nacionais e internacionais no mais completo e variado programa de televisăo.

Hoje, como em todo o primeiro domingo do męs, vocę vai ver, logo depois do Fantástico, Concertos Internacionais. A música eterna e seus maiores intérpretes. No programa de estréia, Um Americano em Paris e Rapsody in Blue, com Bernstein regendo a Filarmônica de Nova York.

A partir de abril, também no primeiro domingo do męs, a história do personagem mais fascinante que o mundo já viu: a Aventura do Homem, uma criaçăo de Rosselini que estréia logo depois de Concertos Internacionais.

ESPORTE - 78 é ano de muito esporte. A Copa Brasil de segunda a sábado, ŕs 12:50, vai cobrir o Campeonato Nacional que começa este ano, agora, em março. Os preparativos para a Copa do Mundo, as partidas amistosas e a própria Copa, na Argentina, vocę assiste pela Globo. Mais de uma centena de profissionais văo dar uma cobertura completa, com flashes e transmissőes de todos os jogos. E todos os grandes eventos esportivos, assim como a Fórmula 1, estarăo na Globo.

CLASSE A - A seleçăo dos clássicos do cinema, inéditos em TV, está em Classe A. De Chaplin a Visconti. De Flaherty a Fellini e Kurosawa. De Buster Keaton a Dustin Hoffman. De Dietrich a Dominique Sanda, Classe A: sexta-feira, 10:50 da noite.

HUMOR - O humor está vivo e passam muito bem na programaçăo Globo 78. Amanhă volta O Planeta dos Homens, ŕs 9 da noite. com novos tipos e a turma que vocę já conhece.

Chico City - cidade cheia de graça - é a alegria das quintas-feiras, 9 da noite.

Aos domingos, Praça da Alegria, ŕs 6 da tarde, e Os Trapalhőes, ŕs 7 da noite.

GLOBO REPÓRTER - O telejornalismo está cada vez mais dinâmico: mais correspondentes estrangeiros e novos equipamentos. Bom Dia, Săo Paulo, Globo Interior, Globo Nordeste e Jornalismo Eletrônico cumprem funçőes regionais. Jornal Nacional, Hoje, Amanhă e painel dăo a visăo do Brasil e do mundo. Globo Repórter mostra, analisa e debate assuntos da atualidade. O Fantástico cobre tudo que acontece aos domingos no Brasil e apresenta, ainda, reportagens internacionais.




1968 - Festival de Vaias

VEJA
11/9/1968
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FIGAS X VAIAS
Cantores invocam todos os santos quando o público é de festival

Num canto escuro do palco, parado numa perna só, Caetano Veloso observa o movimento. Tuca chora e treme, apertando a măo de todo mundo. Márcia acendeu uma vela no camarim, mas por segurança telefona para casa: "Mamăe, acenda uma vela para mim". Nos bastidores dos teatros e estúdios de televisăo há sempre um desfile de manias, amuletos e superstiçőes. Cynara e Cybele estăo sempre remexendo na bôlsa em busca de um patuá, amuleto de couro costurado, que trouxeram da Bahia. E seguindo recomendaçăo do seu pai-de-santo elas só vestem verde em suas apresentaçőes de festival. Elis Regina também tem uma fôrmula parecida: "Repito na final o mesmo vestido com que ganhei a semifinal. Acaso ou năo, dei sorte em dois festivais". Jair Rodrigues nunca sobe no palco sem antes plantar uma das famosas "bananeiras".

Coragem em doses - "Para enfrentar a platéia da TV Record tive que tomar tręs doses de conhaque", revela Nana Caymmi. Chico Buarque de Holanda bebe seu uísque em silęncio, praguejando contra o traje: detesta o "smoking". Maysa prefere vodca, Simonal uísque estrangeiro sem gęlo. Clementina de Jesus vermute. Caymmi e Vinícius de Morais continuam bebendo no próprio palco. Quem năo acredita em amuletos e coisas do gęnero é um pai-de-santo profissional: Joăo da Baiana, sambista da velha guarda, năo usa fórmulas mágicas: "Prefiro um bonito cravo vermelho na lapela".

Vaias famosas - Na opiniăo de muitos cantores, as vaias estimulam as superstiçőes e as doses alcoólicas. Essas vaias săo assunto mesmo fora do Brasil. O compositor amerciano Johnny Mandel (autor de "The Shadow of Your Smile") fęz parte do júri no último Festival Internacional da Cançăo no Maracanănzinho e agora, evocando sua experięncia carioca, grava nos Estados Unidos "As Vaias do Rio". A cantora negra Ella Fitzgerald, convidada para o próximo Festival, escreveu a Augusto Marzagăo: "Preocupam-me as notícias que recebi sôbre artistas vaiados no Brasil".




Sunday, May 16, 2010

1984 - Manchete Segunda Tentativa

Jornal do Brasil
10/4/1984
Míriam Lage
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O SALTO MAIS ALTO NOS PLANOS DA TV MANCHETE
Dez meses depois da estréia, a 5 de junho do ano passado, a TV Manchete faz um balanço e năo tem o que reclamar dos resultados. Maurício Sherman, diretor artístico da rede, assegura que todas as dúvidas iniciais desapareceram: "está bem claro para nós, para o público e anunciantes que a TV Manchete formou uma rede para ficar no ar por muito tempo, disputando, com garra, o mercado da televisăo brasileira".

A direçăo da emissora costuma dizer que, aos estruturar sua linha de programaçăo, apostou no bom gosto e na inteligęncia do público. "Toda programaçăo segmentada corre risco. Se a disputa é por uma fatia menor de mercado - o alvo săo as classes A e B - é evidente que a audięncia será equivalente. Mas mesmo com números menores de IBOPE, estamos lidando com o que realmente importa aos anunciantes: 90% do poder de consumo do país", diz Sherman.

Năo foi fácil, no início, convencer as agęncias de publicidade que a emissora entraria na casa deste público tăo disputado. Os institutos de pesquisa trabalhavam contra a emissora. E exatamente nessas faixas que os pesquisadores encontram dificuldades, barrados por eficientes sistemas de segurança dos prédios. Por isso, em seus primeiros meses no ar, a TV Manchete teve dificuldades em atrair as verbas que lhe folgariam o orçamento. Hoje, segundo Sherman, a situaçăo é outra. "Năo há um só projeto novo que entre no ar sem patrocinador. Vencemos essas dificuldades iniciais provando que estamos fazendo um trabalho sério. A performance da emissora assegurou um bom fluxo do verbas publicitárias, que nos permitem pensar em saltos mais altos", diz Sherman.

Mas como qualquer profissional tarimbado de televisăo - completa 30 anos no ramo no próximo ano - Sherman năo esconde que sua maior ambiçăo é aumentar a audięncia, năo se contentar, jamais, com as conquistas consolidadas. Assim, a emissora imaginou uma maneira de casar o padrăo de qualidade a que se impôs ŕs preferęncias do público brasileiro. "O ęxito das novelas prova que o espectador gosta da forma dramatúrgica. Vamos começar a atuar nesse espaço com o nosso projeto Grandes Romances. Săo as minisséries que estăo sendo cuidadas com extremo carinho pela emissora e devem entrar em fase de produçăo esta semana. Pretendemos, com isso, penetrar numa faixa de público mais ampla. O fundamental, no entanto, é que năo vamos nos afastar desse crédito de lucidez e inteligęncia que demos ao espectador", explica ele.

A primeira minissérie da TV Manchete deverá estar no ar dentro de 90 dias, com a história da Marquesa de Santos, adaptada por Carlos Heitor Cony. Para o papel principal foi escolhida a atriz Maitę Proença. Mas é apenas um dos grandes nomes do senado. Já' foram acertadas as participaçőes de Sérgio Brito, Maria Padilha, Marcos Nanini e iniciadas conversas com a atriz Bibi Ferreira. A segunda minissérie é Viver A Vida, entregue a Manuel Carlos. A história se baseia num romance de Theodore Dreiser. O painel paulista é o tema da terceira história, escrita por Geraldo Vietri a partir de uma trilogia de Abílio Pereira de Almeida. Essa incursăo no mundo paulistano năo é de graça: no balanço desses dez meses no ar, a emissora detectou que o ponto de maior fragilidade da rede é Săo Paulo, onde ainda năo conseguiu a audięncia desejada.

Ao mesmo tempo em que se preocupa com o alargamento de seus índices de audięncia no horário nobre, a TV Manchete pretende ampliar a programaçăoinfantil. Atualmente a emissora oferece quatro horas diárias ŕ garotada, com Carequinha e Xuxa no comando de programas no início da tarde. Agora, o alvo da TV Manchete é a conquista da criança que assiste a televisăo aos domingos. A partir do próximo dia 22, ŕs 17 horas, estréia Essas Crianças Maravilhosas. Pepita Rodrigues foi a escolhida para animar o programa: "Pensamos num projeto instigante para a criança e divertido para o adulto. Serăo organizados jogos e brincadeiras com a participaçăo da criançada que é premiada com brinquedos. Pensamos numa espécie de divertimento instrutivo", explica Sherman.

Essa concentraçăo de esforços no horário infantil faz parte de uma estratégia a longo prazo: criar uma programaçăo atraente para um público que muda de canal com freqüęncia. "A criança é muito mais inquieta do que o adulto. Ela mexe no seletor de canais a todo instante, parando a imagem onde encontra melhor atraçăo. Elas estăo parando na TV Manchete ŕ tarde. Precisamos segurá-las aos domingos", diz Sherman.

Além das crianças, a TV Manchete está de olho na faixa jovem. Já conseguiu bons índices de audięncia para o FMTV durante a semana e vai incluí-lo na programaçăo de domingo. "A partir do dia 13 de maio prepararemos uma especial de uma hora de duraçăo para o final da tarde", adianta Sherman. Também na área de jornalismo algumas novidades estăo em gestaçăo. Até meados de maio a emissora pretende colocar no ar uma revista jornalística, ainda sem nome escolhido. Sherman pensa numa espécie de "ômnibus", um pouco de tudo para um público mais variado. Nos primeiros estudos de reformulaçăo da programaçăo, a TV Manchete pensa em colocá-la no início da noite de domingo. "No fundo o que estamos fazendo é disputar a audięncia de domingo. É claro que, para uma emissora, o importante năo é ter piques de audięncia, mas chegar a um patamar sólido em toda a programaçăo", diz ele.

Dentro dessa estratégia a emissora está reformulando o Manchete Shopping Show - de segunda a sexta-feira, das 15 horas ŕs 17 horas redirecionando o programa para o gosto do público feminino. De acordo com pesquisas realizadas nos últimos meses, ficou provado que o público feminino desta faixa de horário prefere um programa que lhe preste serviços. Assim, foi abolido o quadro Debate e o Shopping Show mergulha, já a partir desta semana, em assuntos como economia doméstica, orientaçăo pedagógica, psicologia e toda espécie de serviço para as donas-de-casa.

Com todos esses acertos de rota a TV Manchete pretende manter - e justificar - seu slogan: a televisăo do futuro. "A televisăo brasileira atravessa uma fase muito curiosa. Basta girar o dial que sua própria história está no ar. Os primórdios estăo com a TV Record: só passa filmes velhos, da época em que nasceu a televisăo no Brasil. Logo depois vem a TVS, representante da década de 60. Ela relembra os programas de auditório, com o formato antigo e todas as improvisaçőes que isso exige. A TV Bandeirantes representa a transiçăo entre os programas de auditório e os gravados, lá pelos meados da década de 60. A programaçăo melhorada, enriquecida pelos programas gravados já do início dos anos 80, é nem exemplificada pela TV Globo. A TV Manchete é a televisăo do futuro. Mas como somos ansiosos, queremos ocupar espaço desde agora. Por isso estamos sempre alertas, acompanhando de perto o resultado de nosso trabalho e corrigindo as mínimas falhas", conclui Sherman.

Thursday, May 13, 2010

1983 - Jota Silvestre X Silvio Santos

Folha de S. Paulo
24/4/1983
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AS ACUSAÇŐES DE J.SILVESTRE


O apresentador J.Silvestre reuniu a imprensa esta semana para explicar porque rescindiu seu contrato com a emissora de Sílvio Santos, apontando como razăo principal o fato de o SBT ter registrado em nome dele o título de seu programa "O Show É o Limite". J.Silvestre argumenta que "moralmente esse título me pertence", embora năo estivesse devidamente registrado, anteriormente, como seu, pois as primeiras apresentaçőes datam da década de 50, em outra emissora, no Rio.

- Isso, em linguagem mais clara, é um roubo - diz ele. Mas continuarei apresentando o mesmo programa a partir da próxima terça-feira, ŕs 21 horas, na TV Bandeirantes, só que com outro nome, "Programa J.Silvestre". Sei que o SBT continuará com "O Show É o Limite". Caberá, entăo, ao espectador escolher entre uma cópia e o original.

Entre as outras razőes de sua saída da TVS, o apresentador também cita problemas com premiaçăo:

- Recentemente, um menino de Brasília que respondia perguntas sobre capitais mundiais fez jus ao pręmio de um piano. Só que a emissora queria lhe dar um piano usado.Tive que brigar por um piano novo, conseguido com muito custo. Em outra oportunidade, meu programa prometeu uma perna mecânica a uma mulher que desfilou em cadeira de rodas no carnaval. A emissora se recusou a pagar. Tive, entăo, que dar o pręmio com dinheiro do meu próprio bolso.

Outra questăo apontada por J. Silvestre foi a constante recusa da emissora em pagar melhor os membros de sua equipe, quase todos vindos da ex-TV Tupi.

J. Silvestre diz ainda que seu programa era considerado caro demais na emissora e sofria cada vez mais cortes, embora tivesse vários anunciantes: "Meus convidados do quadro "Esta É Sua Vida", por exemplo, recebiam apenas o pagamento das passagens e do hotel em Săo Paulo, năo se incluindo refeiçőes, o que, sem dúvida, é um absurdo."

Todos esses problemas aborreceram o apresentador, que começou a pensar em se retirar da TVS. Segundo ele, confiando nos dirigentes da emissora ("Sempre me dei muito bem com Sílvio Santos, desde a década de 50, quando ele era o simples locutor que anunciava meus programas na TV Rio") assinou um novo contrato em novembro passado, ŕs pressas, momentos antes de viajar para os Estados Unidos. No documento ainda faltavam, assegura o apresentador, algumas cláusulas referentes ŕ produçăo de novos programas de pręmios em que a renda seria dividida meio-a-meio entre ele e a emissora. Na volta, porém, a promessa da inclusăo destas cláusulas năo foi cumprida.

- Diante disso, mandei, através de cartório, uma carta rescindindo meu contrato. A emissora, também por cartório, enviou-me outra dizendo que vai entrar na Justiça. Quero que ela faça isso: aí, terei oportunidade de contar tudo que sei e de abrir, por inteiro, o meu baú.

A multa pela rescisăo do contrato é, ainda segundo J. Silvestre, de Cr$ 150 milhőes.

1969 - O Funeral de Costa e Silva

Jornal do Brasil
21/12/1969
Valério Andrade
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DE OLHO NA HISTÓRIA
A cobertura do funeral do Presidente Costa e Silva representa um esforço de reportagem que merece ser registrado.

A transmissăo direta foi realizada pela Globo e a Tupi. As demais estaçőes se limitaram a registrar o fato em seus respectivos telejornais.

No conjunto da cobertura, do ponto-de-vista jornalístico, o Canal 4 ofereceu um trabalho mais amplo e completo. Foi o último a suspender as transmissőes do cemitério Săo Joăo Batista, enquanto, simultaneamente, a sua narrativa era valorizada pelo som direto, de boa qualidade.

O ponto mais fraco, tanto da Globo como da Tupi, está no relato verbal dos acontecimentos .

Nas transmissőes diretas, năo importa la televisăo ou o assunto, esse tipo de falha vem-se repetindo sistematicamente; até mesmo um repórter tarimbado como Hílto Gomes, 100% integrado no mecanismo do telejornalismo, ainda incorre no velho erro: dizer (e repetir, várias vezes) o óbvio - o que a câmara está mostrando.

Até hoje, nossa televisăo ainda năo conseguiu livrar-se do vírus verbal, herdado do rádio, e difundido pelos locutores esportivos .

Todo mundo que lida com cinema conhece e respeita o poder da imagem. A turma da TV, entretanto, mostra-se insegura a esse respeito, preferindo apelar para o rádio, esquecendo que o seu meio de comunicaçăo é um filhote precoce do cinema.

No caso da transmissăo do funeral do Presidente, salvo as informaçőes de praxe, e uma ou outra observaçăo adicional, o próprio assunto pedia silęncio, suportava pausas verbais. A música, pouco usada pela 4, complementaria a imagem, criando uma atmosfera adequada, emocionalmente envolvente.

No setor do telejornal, coube ainda, ao Canal 4, em seu informativo da noite (19h40m), o mérito de ter feito a melhor cobertura sobre a morte de Costa e Silva, dedicando-o inteiramente ao assunto: em seleçăo criteriosa apresentou os flagrantes mais expressivos da cobertura ao vivo, suprimindo, inclusive, as partes supérfluas do relato.

Enquanto, no Canal 6, o Repórter Esso optou por outra linha. Năo mudou a estrutura habitual do programa, mas, em compensaçăo, focalizou aspectos (cenas da cidade, bancos fechados, etc.) correlacionados e decorrentes da morte do Presidente. A última noticia, porém, foi dedicada ao funeral: teve a duraçăo de cinco minutos. E o texto, como de hábito, foi informativo, conciso, jornalístico.

Portanto, graças ao trabalho dos Canais 4 e 6, o carioca teve um painel completo sobre a morte do Presidente Costa e Silva, enquanto a televisăo, mais uma vez, foi notícia ao registrar a História.




1973 - Surge Sandra Bréa

Cartaz
25/1/1973
Mariza Cardoso
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AS CONFISSŐES DE SANDRA BRÉA




Quando a TV Globo começou a dar chamadas para a novela "O bem-amado", de Dias Gomes, todos queriam saber quem era a moça morena que contracenava com o conhecido Paulo Gracindo. Quando souberam que a moça morena era Sandra Bréa, poucos acreditaram.

Aos 20 anos, com os cabelos especialmente pintados para o papel, Sandra tem sua grande oportunidade na TV. É o primeiro nome feminino da novela que estreou esta semana e atua ao lado de nomes consagrados, como Paulo Gracindo e Jardel Filho. Muito confiante em seu trabalho, ela pretende aproveitar a oportunidade que lhe deram.

Năo é a primeira novela que faço. Estreei em "Assim na terra como no céu", onde fazia Babi. Em seguida fiquei na linha de shows da Globo, até pegar um pequeno papel em "Bicho do mato".

Cinema e teatro - Se ela năo ficou conhecida por seus trabalhos anteriores na TV, o mesmo năo pode ser dito em relaçăo ao teatro e cinema.

- Já participei de tręs filmes: "Um uísque antes, um cigarro depois", de Flávio Tambellini, foi minha primeira experięncia cinematográfica. Meu primeiro papel de importância, contudo, foi em "Cassy Jones, o magnífico sedutor", que está passando no Roxy (Rio) atualmente.

Nele, trabalho ao lado de Paulo José.

Seu outro filme foi com Pedro Rovai, "Os mansos", onde faz o principal papel num dos episódios.

Em teatro estreei profissionalmente em "Plaza Suite", dirigida por Joăo Betencourt, trabalhando ao lado de Fernanda Montenegro e Jorge Dória. Em seguida participei de "Aqui, oh!". Até que Vitor Berbara me chamou para fazer o primeiro papel de "Liberdade para as borboletas", com o Gracindo Jr.

A revelaçăo - Mas o maior sucesso até agora foi na participaçăo pequena que faço em "Regina, mon amour", no Canecăo.

Nesse espetáculo, onde as maiores atraçőes seriam Regina Duarte e Wanderlei Cardoso, a crítica năo se cansou de elogiar o trabalho de Sandra Bréa.

Faço um quadro com Miéli, o "Money, money", onde apresentamos uma caracterizaçăo de Liza Minelli e Joel Grey, no filme "Cabaret".

Modesta ao extremo, ela afirma que as pessoas só văo ao Canecăo por causa de Regina. Atualmente ela está de licença no show, recuperando-se de uma enfermidade.

Apesar de estar na Globo há tręs anos, Sandra esperava sua grande chance:

- "O bem-amado" foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para mim. O papel (Telma) é ótimo e acho que estou amadurecida artisticamente para fazę-lo, pois do contrário eu teria recuado, como já fiz algumas vezes.

No início, a América - Com apenas dois anos de idade, Sandra Bréa foi morar nos Estados Unidos com seus pais. Aos cinco voltou e aprendeu a falar portuguęs.

Começou sua carreira amadoristicamente aos treze anos, e com 17 estreava profissionalmente. Além de atriz, Sandra taquigrafa em tręs línguas: portuguęs, inglęs e francęs.

Estudei muito, sabe? Fiz nove anos de piano clássico, dois de canto lírico e tręs de violăo. Sou uma pessoa muito simples e tento fazer tudo da maneira mais correta e normal, evitando complicaçőes. Acho que a vida é constituída de fatores que se apresentam e que se criam.

Casada há apenas quatro meses, com o engenheiro Eduardo Espínola, sua vida năo mudou em nada.

Nosso casamento foi feito em casa com a família reunida. Sou filha única de pais divorciados e minha măe, que era inspetora de bordo da Varig, nunca teve os padrőes burgueses da sociedade brasileira.

Obrigada a fazer constantes viagens, a măe de Sandra acabou internando-a num colégio de freiras.

- Mas nas horas em que realmente precisava de alguém, minha măe năo falhava. Tive muitas paixőes, mas depus que conheci meu marido, entendi que os outros năo passaram de um erro de cálculo. Meu marido é o responsável pelo meu equilíbrio e aprimoramento profissional. Ele é genial.

"Adoro ser dona de casa" - A vida de Sandra é dedicada ŕ TV e ao show do Canecăo. Mas, quando năo está presa a nenhuma dessas atividades, é uma perfeita dona de casa. Ela conta:

- Sou a dona de casa mais megera que existe. Minha casa é limpinha, das oito da manhă até meia-noite. Adoro cozinha pregar botăo na camisa do meu marido e fazer entalhe em madeira. Mas também gosto de ir ŕ praia, dar uma saidinha para ir ao teatro ou ao cinema. Só que ainda prefiro ficar em casa ao lado de Eduardo. Conversamos muito, vemos TV, jogamos batalha naval e namoramos.

Mas a organizaçăo de Sandra Bréa vem desde a época em que morava sozinha.

- Minha casa sempre foi organizada. Antes de casar, quem chegasse pensaria que a mesa estava sempre posta, ŕ espera de alguém. Penso que a casa da pessoa é um reflexo dela mesma. Por pior que seja a situaçăo, emocional ou financeira, nossa casa tem que estar em ordem, com tudo no lugar certo.

Há dias Sandra teve um problema com sua gravidez, perdendo a criança, e que ainda a faz ficar em casa, para recuperar-se. Isso obrigou-a a pedir licença no Canecăo e dar uma pausa nas gravaçőes de "O bem-amado". Mas ela sabe que tudo vai melhorar e que 73 pode ser seu grande ano.

DOCE E AGRESSIVA, ELA É TELMA, FILHA DO BEM-AMADO - Com seus primeiros capítulos gravados em Salvador (BA), "O Bem-Amado", novela de Dias Gomes, já começa a despontar como um campeăo de audięncia, seguindo o exemplo de "Bandeira 2", última novela do famoso autor. Em "O Bem-Amado", Sandra Bréa vai viver Telma, uma mulher de 22 anos, filha do personagem mais importante da cidade, Odorico Paraguassu (Paulo Gracindo). Sandra explica Telma:

- A açăo se passa numa cidadezinha do interior baiano, com todas as suas superstiçőes e tabus. Acontece que Telma, filha de Odorico, năo foi criada pelo pai, e nunca morou na cidadezinha. Ela viveu em Salvador e lá obteve todas as experięncias que uma mulher pode ter na vida. Sua vida livre na capital começa a entrar em choque com o ritmo que encontra em Sucupira, a cidadezinha imaginada pelo autor. Sandra diz que, a partir desse instante, seu personagem começa a se perder psicologicamente:

- Telma tem uma necessidade incrível de viver, mas no interior, fica encucada, quase que perdida em seus ideais. O personagem é, ao mesmo tempo terno agressivo. Esse tipo de atitude é Lima defesa para se salvar de uma série de coisas.

O conflito - A ligaçăo de Telma com o pai, Odorico, é a mais agressiva possível. Candidato a prefeito de sua cidade, Odorico ficou viúvo cedo e a filha é a razăo de sua vida.

- O pai é o grande trauma da vida de meu personagem. Ela năo o odeia, mas năo consegue se identificar com ele, por várias razőes. Criada longe do pai. Telma é muito mais inteligente e culta que ele.

A única pessoa com quem Telma se identifica em Sucupira é médico, Juarez Leăo (Jardel Filho). Animada com seu novo trabalho, Sandra, que se considera uma mulher bem vivida, diz que se identifica com Telma. E justifica:

- Como ela, acho importante a pessoa ter toda experięncia de vida possível, para saber enfrentá-la. Eu, pessoalmente, consegui me encontrar. Adoro minha profissăo, amo meu marido e penso em ter uma família super feliz.

1986 - Primeira Derrota da Globo para a Manchete

Jornal do Brasil
20/5/1986
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DONA BEIJA
Pela primeira vez na história da televisăo brasileira a TV Globo perdeu uma batalha no terreno que era praticamente imbatível no Brasil e no exterior. Na sexta-feira, dia 16, o Ibope foi testemunha que a novela Dona Beija da Manchete alcançou, no horário das 21h30m, 36 por cento de audięncia. Neste mesmo horário o programa Chico Buarque/Caetano Veloso, na TV Globo, pegava 31 por cento de Ibope.



Monday, May 10, 2010

1967 - 17 Anos de TV no Brasil

Realidade
1/7/1967
Lúcio Nunes
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NOSSA TELEVISĂO ESTÁ COM DEFEITO
Em 17 anos de vida, a TV brasileira ainda năo aprendeu a fazer nada direito. Agora vive a maior crise de sua história, com dívidas a pagar, programas ruins e um caminho e encontrar

DE VEZ EM QUANDO UM PROGRAMA ENTRE OS ANÚNCIOS

Sentados no chăo da sala, os dois meninos assistem ao filme de mocinho. Săo seis e meia da tarde. Eles chegaram há pouco da escola e ainda vestem uniforme. As lancheiras e os cadernos descansam sobre uma poltrona. Na cozinha, preparando o jantar, a măe está atenta aos sons que vęm da sala, dentro de alguns minutos começa a primeira novela.

O pai também chegou, faz cinco minutos. Está tomando banho e se demorar muito é possível que jante sozinho, com o que já se acostumou, assim como se acostumou com outras coisas: as crianças param mais em casa, a mulher năo faz muita questăo de visitar as amigas, e ele precisa ter sempre alguma coisinha para fazer depois do jantar, pois em dia de semana o chamado horário nobre da televisăo dedica metade do tempo ŕs novelas e aos anúncios. Até dois anos atrás, antes de comprar o televisor, eles costumavam jantar juntos, sem pressa, conversando - a mulher sobre os filhos, os filhos sobre a escola. Algumas vezes iam visitar os parentes, outras vezes iam ao cinema. Hoje isto acontece raramente, aos sábados ou domingos. A televisăo mudou os hábitos da família brasileira.

A televisăo - o maior instrumento de comunicaçăo entre os homens. Há apenas 45 anos, atravessar o Atlântico por ar, ligando Portugal ao Brasil, foi uma aventura que dois portugueses - Sacadura Cabral e Gago Coutinho - realizaram em mais de dois meses e sem testemunhas dos riscos que passaram, num hidroaviăo e fazendo amerissagens forçadas no mar.

Documentário velho no lugar da notícia

Hoje, sentadas em suas salas de visita, milhőes de pessoas vęem os astronautas saindo de suas cápsulas em pleno espaço. Depois de ligar os continentes, por intermédio de satélites a televisăo pőe o cosmo diante do homem. E, acompanhando os avanços da tecnologia, da se prepara para novos aperfeiçoamentos. Nos Estados Unidos e a Europa a transmissăo de espetáculos em cor já existe em escala comercial. Mais um pouco, e o homem năo dependerá mais de horário para assistir ao seu programa preterido. Um aparelho, recém-inventado e pronto para ser produzido a baixo custo, poderá ser ligado ao televisor e gravar numa fita magnética os programas desejados, enquanto se recebe visitas ou se vai ŕs compras.

No Brasil, porém, estamos longe de bem usar a televisăo. No Texas, em fins de 1963, as câmeras estavam presentes quando Lee Oswald era transportado de uma prisăo para outra e, assim, milhőes de americanos viram-no morrer assassinado por Jack. Ruby com um tiro no estômago. No Japăo, um líder socialista é esfaqueado por um fanático religioso durante uma convençăo politica e todo o pais assiste ao crime: a TV estava transmitindo. No Brasil, no instante em que o governador deposto de Săo Paulo regressava ao pais, a TV transmitia receitas de bolo e documentários de 20 anos. Margot Fonteyn, uma das maiores bailarinas do mundo, esteve no Brasil, e a tevę recusou-se a pagar 15 mil cruzeiros novos para mostrar sua arte ao público. Chico Buarque e Nara Leăo emocionaram o pais inteiro com "A Banda", batendo recordes de venda de discos, e tudo quanto a televisăo tirou desse sucesso, que ela mesma favorecera, foi um programa que se esvaziou a curto prazo.

Nossa televisăo informa mal, diverte menos ainda e é insensível ŕ cultura. Produçőes inteligentes e boas coberturas săo raras. Hoje, a TV passa pela pior crise de seus 17 anos de vida. Um levantamento do sindicato dos artistas estimava em cerca de 700 milhőes de cruzeiros velhos o total de salários atrasados em Săo Paulo, no męs de abril passado. Só a Record estava em dia. No Rio, os cálculos para o mesmo męs iam a um bilhăo em atrasados.

- No Brasil, tudo está errado desde o começo - diz Walter Clark, diretor-geral da TV-Globo, da Guanabara.

E como começou? A televisăo transmite as imagens por faixas de ondas-canais - que existem em número limitado. Por isso, estas faixas "pertencem" ao Estado. Na Europa quase toda e nos países do bloco socialista, é o próprio Estado que as utiliza. No resto do mundo, elas săo entregues a empresas que as queiram explorar. No Brasil, o govęrno distribui os canais de graça. Apenas exige, de quem os recebe, o compromisso de explorá-los no interesse público. O Conselho Nacional de Telecomunicaçőes (Contel) encarrega-se de fiscalizar. Com um detalhe: segundo o mesmo Walter Clark, muitos deles foram concedidos "apenas para atender a interesses políticos". Resultado: há televisăo demais no Brasil.

A área metropolitana de Nova Iorque por exemplo, tem um canal para cada 2 milhőes e 200 mil habitantes, enquanto a grande Săo Paulo tem dois canais para o mesmo número de pessoas; e Belo Horizonte, com um milhăo de habitantes, já ganhou quatro canais.

Esta distribuiçăo de concessőes sem muito critério trouxe problemas. O principal deles é econômico. Nos países em que o Estado explora a TV, os recursos vęm de uma taxa cobrada dos proprietários de aparelhos televisores. Na Itália, onde há cerca de sete milhőes de aparelhos, cada um contribui para o Estado com 36 cruzeiros novos por ano; na Bélgica, essa taxa é de 34 cruzeiros novos; na Inglaterra, de 26.

No Brasil, porém, quem sustenta a televisăo é o indiozinho camarada que faz biscoito ou o esquimó que vende geladeiras: săo as milhares de mensagens comerciais que aparecem no vídeo o dia inteiro. Nos Estados Unidos, em 1965, foram empregados mais de 5 trilhőes de cruzeiros velhos (2,5 bilhőes de dólares) em publicidade na TV. No Brasil, no mesmo ano, as 38 emissoras existentes năo faturaram mais que cem bilhőes de cruzeiros. Os canais, portanto, săo muitos para as verbas de publicidade existentes.

Assim, as emissoras precisam brigar com todas as armas por esse "pouco" dinheiro. Como aos anunciantes interessa atingir o maior número de pessoas, a grande batalha é a da audięncia. Ao lado, disso, o preço do tempo vendido aos anunciantes é mantido baixo por uma concorręncia feroz. Em Săo Paulo, uma organizaçăo de corretagem chegou a vender o tempo das emissoras a crédito, com descontos de até 50% sobre os preços de tabela, dando ainda de presente a produçăo dos comerciais necessários. Ainda hoje, um grande anunciante pode comprar tempo na TV por até um quarto do preço de tabela. E o patrocínio exclusivo de programas praticamente năo existe mais.

- Oitenta por cento de nossa receita de publicidade, hoje, vem dos anúncios por intervalo - diz Fernando Severino, diretor-comercial da TV-Tupi, de Săo Paulo.

O anunciante năo se arrisca a empregar toda a verba num programa que ele năo sabe se alcançará boa audięncia. Por isso anuncia nos intervalos. E já que os preços sso baixos, as emissoras precisam do maior número possível de anúncios. Cada vez que um artista canta uma música, é necessário um comercial para pagar o tempo gasto. Assim, um programa, para ir ao ar, precisa encontrar no mínimo 14 anunciantes. O canal-7, Săo Paulo, já chegou até a 19 anunciantes por programa.

VALE ATÉ CONCURSO DE MISÉRIA PARA GANHAR AUDIĘNCIA

Esta emissora paulista, durante uma semana de abril último, colocou no ar 2.482 mensagens comerciais, média de uma mensagem cada dois minutos.

No Rio, acontece a mesma coisa. Apenas a TV Globo mantém algum respeito pela tabela de preços, enquanto as outras vendem o seu tempo com grandes descontos. Os anunciantes perdem com isso. A Frigidaire, há algum tempo, fez um filme de 45 segundos que custou 10 milhőes de cruzeiros e agora arrisca-se a vę-lo empurrado no vídeo junto com outras 14 mensagens, a maior parte das vezes de baixo nível técnico, cansativas.

- O que se faz nessa área é um crime contra o anunciante e contra o público - diz o gerente-comercial de uma grande agęncia de publicidade.

Recentemente, uma portaria do Contel limitou a 15 minutos por hora o máximo de propaganda comercial pela TV. A fiscalizaçăo, porém, cabe ao Departamento de Correios e Telégrafos, que no início tentou aqui com algum rigor. Pouco tempo depois, o diretor de uma emissora paulista dizia que năo poderia obedecer ŕ determinaçăo do Contel, porque as concorrentes năo o faziam, e o DCIT năo fiscaliza "porque năo tem verbas para comprar os televisores de que necessita".

Daí, a avalanche de comerciais, tăo grande que os publicitários gostam de contar a história do telespectador que chegou ao fim da noite certo de que "para a limpeza dos dentes, o melhor é Alka-Seltzer, que contém o aditivo ICA, com açăo detergente e gostinho de uva gelada".

"Năo faço programa para a classe A"

Sem dinheiro e com o tempo tomado pelos comerciais a programaçăo raramente super o nível da mediocridade. É verdade que a televisăo se dirige ao grande público, mas esta necessidade raramente é acompanhada por um esforço de melhorar as produçőes.

- Năo faço televisăo para a classe A - diz Alberto Saad, diretor da Rede Excelsior - Faço para os que ficam em casa, por năo poderem ir a lugar nenhum.

A audięncia no Rio e municípios vizinhos pesquisada polo IBOPE, aponta 60% de pessoas que năo passaram do curso primário. Contudo, os livros de bolso também se dirigem ao grande público e năo deixam de lançar os clássicos da literatura nacional e universal. Mas a televisăo continua apresentando novelas de má qualidade. Em seus 17 anos de vida, ela năo acumulou recursos nem formou bons profissionais. As exceçőes săo poucas.

Na Itália, o romance Os Noivos, de Manzoni, um dos clássicos da literatura mundial, foi apresentado em oito capítulos e custou um bilhăo de cruzeiros. Aqui, 25 capítulos mensais de uma novela custam entre 50 a 60 milhőes. E, quando os gastos com a montagem e direitos autorais ficam muito caros, as emissoras esticam a história para diluir o custo inicial em centenas de capítulos. A novela Redençăo é um exemplo: exigiu a reproduçăo de uma cidadezinha de interior nos estúdios da Vera Cruz, em Săo Bernardo do Campo, Săo Paulo. Ficou caro. Entăo, a emissora -Exelsior - fez a história render mais alguns meses, incluindo novos personagens que apareciam năo se sabe de onde, mudando todo o enredo.

Assim, as novelas saem mais baratas, e por isso ocupam 32% da programaçăo no melhor horário de segunda a sexta em Săo Paulo; 29% em Belo Horizonte; 22% em Curitiba; 24% no Rio. O maior salário de ator é de Sérgio Cardoso, em Săo Paulo: 8 milhőes; Carlos Zara, da Excelsior, onde exerce outras funçőes, ganha 5 milhőes; Francisco Cuoco, da mesma emissora, recebe 3,5 milhőes; Hélio Souto, 2,5 milhőes; Rosamaria Murtinho, 2 milhőes; Eva Wilma, 1,5 milhăo.

Os musicais também săo baratos: cenários pobres estrutura de programas de rádio que se faziam 20 anos atrás. Praticamente, a única novidade é a câmera, que leva ao espectador o que antes ele só veria se estivesse no auditório. Para garantir a audięncia, dois ou tręs cantores de maior popularidade puxam um elenco barato. Chico e Nara sustentavam "Pra Ver a Banda Passar"; Roberto Carlos, Vanderléa e Erasmo Carlos suportam o "Jovem Guarda"; Elis e Jair carregam "O Fino"; Gilberto Gil, Cláudia e Maria Betânia garantiam "Ensaio Geral".

A monotonia acabou matando os musicais. No primeiro trimestre deste ano eles começaram a perder público. E as emissoras, sem espírito empresarial, nunca tiraram deles rendimento nenhum, a năo ser índices de audięncia. Roberto Carlos tem oito carros de luxo, imóveis e participaçăo numa série de outros empreendimentos; Jair Rodrigues comprou imóveis em um bairro valorizado de Săo Paulo; Ronnie Von e Luís Vieira tęm aviăo. Nada disso foi conseguido apenas com os salários pagos pelas emissoras, mas sim com o que lhes renderam os discos e shows no pais inteiro. Durante meses, as próprias emissoras fabricam os ídolos, abrem-lhes o mercado em todos os Estados e depois deixam que a promoçăo de shows fique com o empresário e a venda de discos com as gravadoras.

No fim do ano passado, o Canal 7 de Săo Paulo fundou uma empresa de gravaçăo - AU, Artistas Unidos - mas os grandes cantores, que podiam trazer lucros, já estavam todos presos a contratos com outras gravadoras.

O mundo căo dá nossa TV

No vale-tudo pela audięncia, alguns produtores exploram as feridas da sociedade. Sílvio Santos foi condenado publicamente pelo O | Săo Paulo, jornal da Arquidiocese paulistana, por ter levado ao seu programa alguns suicidas frustrados, que receberam pręmios para contar com detalhes as experięncias que tinham vivido. O mesmo Sílvio Santos promovia um programa, Rainha por um Dia, que mostrava mulheres miseráveis contando seus sofrimentos. Depois, o auditório escolha, batendo palmas, a história mais triste. E a mulher que a tinha contado se transformava em Rainha por um Dia: vestia um manto, punha uma coroa na cabeça e sentava-se no trono, além de ganhar o pręmio maior. As outras ganhavam pręmios de consolaçăo.

Abelardo Barbosa, Chacrinha, até hoje mantém audięncia elevada no Rio, explorando a irreveręncia e o protesto de um tipo com o qual acabou por confundir-se. Mas năo deixa de explorar coisas como o maior nariz, ou a mulher mais gorda, provocando um desfile de deformidades físicas diante das câmeras

Jacinto Figueiras Júnior, que apresentou no Rio e Săo Paulo O Homem do sapato branco, levou prostitutas, ladrőes e homossexuais ŕ televisăo, para fazer sensacionalismo. Recentemente, recolheu nas sarjetas de Săo Paulo alguns marginais, colocou-os diante das câmeras e realizou uma Mesa Redonda dos Mendigos.

Até pouco mais de dois anos, os chamados enlatados batiam recordes de público. Foi o tempo de Richard Chamberlain - o dr. Kildare - e de Vincent Edwards - Ben Casey - que recebiam centenas de cartas por dia, endereçadas as TVs e revistas especializadas.

PARA ONDE VAI ESSA TV EM CRISE?

Outros filmes disputavam com os dois médicos românticos os índices de audięncia: Os Intocáveis, 77 Sunset Strip (policiais), Bonanza e O Fugitivo (aventuras). Estes dois últimos ainda continuam no ar, mas os episódios sso constantemente repetidos e já năo agradam tanto.

Hoje, para a maioria dos homens, o futebol é tudo quanto a TV pode oferecer. Mesmo assim, com a proibiçăo das transmissőes diretas, o interesse năo é muito grande. Os vídeo-tapes exibidos depois dos espetáculos e muitas vezes entram pela madrugada.

Soluçăo: a rede nacional

Assim ‘ arrasta a televisăo no Brasil, hoje. Para tirá-la da crise em que se afunda, seus dirigentes sonham com uma soluçăo: organizá-la em redes de cobertura nacional. "É o caminho natural para vencer nossas dificuldades", diz Fernando Severino, da TV-Tupi de Săo Paulo.

- A Excelsior caminha para a formaçăo de uma rede racionalmente estruturada - diz Alberto Saad.

Walter Clark também sustenta a necessidade das redes nacionais, mesmo considerando que a TV-Globo só tem tręs emissoras - Rio, Săo Paulo e Bauru. Nos escritórios de comando das outras emissoras, porém, já se informa com segurança que a TV-Globo assumiu o controle financeiro da TV-Guajajaras, de Belém, e prepara-se para funcionar também em Belo Horizonte, Recife, Pôrto Alegre e Salvador.

Primeiros passos concretos para a formaçăo das redes nacionais: a criaçăo do Telecentro nas Associadas, com roteiro de custos por toda a cadeia, instalaçăo da Teleproduçőes Globo; e a Central de Produçőes Excelsior. Ŕ TV-Record de Săo Paulo, que ainda se mantém equilibrada, abre-se o caminho dos convęnios com outras emissoras. E as demais, se estiverem em má situaçăo, serăo absorvidas. Ou morrerăo.

O funcionamento em rede criará um mercado obrigatório para as centrais de produçăo.

- O Telecentro das Associadas, no Rio, tem uma verba de 600 milhőes e produz 30 shows mensais - diz Fernando Severino.

Apesar disso, em quase todos os Estados, as Associadas ainda continuam comprando programas de outras emissoras, gastando entre 100 e 150 milhőes de cruzeiros por męs. Em Belo Horizonte, o canal 4 apresentou a novela "O Sheik de Agadir", comprada ŕ TV Globo do Rio; além de "o Fino" e o "Côrte-Rayol Show", da Record de Săo Paulo. Mas já se sabe que as Associadas văo parar de comprar programas dos outros.

Muitas dificuldades pela frente

As dificuldades sso muitas para se chegar ŕ organizaçăo em redes. Para começar, nem sequer se sabe com segurança quantos televisores há. Recentemente o IBOPE informava ao Contel que o Brasil tinha quatro milho~es de aparelhos. Mas, pouco antes disso, uma revista especializada em economia dizia que havia apenas dois milhőes e 200 mil. Agora, o Contel pediu ao IBGE um levantamento geral.

As pesquisas de audięncia também falham. Só o IBOPE se encarrega disso regularmente, assim mesmo limitando-se ao Rio e Săo Paulo. Em outras cidades, as pesquisas sso feitas apenas a pedido de anunciantes, agęncias de publicidade ou emissoras. Na Guanabara, o IBOPE extrai os índices de audięncia computando os municípios vizinhos de Nilópolis, Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita e Niterói - com cerca de 900 mil residęncias, em que há aparelhos de televisăo. Mas em Săo Paulo a pesquisa ficou só no perímetro urbano, sem os municípios vizinhos que formam a Grande Săo Paulo, acusando apenas 700 mil aparelhos. Deste modo, os índices năo podem ser uniforma: Chacrinha, por exemplo, que tem maior público nas camadas populares, sempre comandou a audięncia no Rio, mas em Săo Paulo, onde certamente também é bem recebido, nunca chegou a posiçőes destacadas nas pesquisas.

As redes precisarăo vencer ainda dificuldades legais. Por determinaçăo do governo, uma só organizaçăo năo pode ter mais de cinco emissoras em todo o pais. O prazo da lei para se regularizarem é curto, as dívidas precisam ser pagas, os programas caem cada vez mais. Os homens de televisăo conhecem todos estes obstáculos. Sabem que anúncios bem mais caros - e, portanto, em menor quantidade - aumentariam o faturamento das estaçőes, possibilitando melhorar o nível geral da programaçăo. Para isso, entretanto é imprescindível que se reduza o número de canais pois a verba dos anunciantes é fixa. Com mais dinheiro, nossa TV poderá ate enfrentar a responsabilidade que tem com o país, criando programas verdadeiramente educacionais. Săo esses os problemas. Resta ver, agora, se os homens da televisăo văo saber enfrentá-los.

1975 - Globo 10 Anos

Amiga TV
21/5/1975
Artur da Távola
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OS DEZ ANOS DA REDE GLOBO
No fim do męs de abril que passou, exatamente no dia 26, a Rede Globo completou dez anos de existęncia. Ao longo deste tempo, ela se categorizou, năo só empresarialmente, como, de uns cinco anos a esta data obtendo um sistema de televisăo de padrăo internacional em vários de seus programas. Poucas atividades industriais săo tăo complexas como a televisăo. Fábrica de bens de natureza subjetiva (os programas) ela se distingue das demais atividades exatamente sempre destinado a avaliaçőes de natureza pessoal. Uma fábrica de carros, de guardanapos ou de talheres, elabora um produto concreto, palpável, aferível segundo o material utilizado. Uma fábrica de programas, por maiores e melhores que sejam os insumos utilizados, sempre depende de resultados aleatórios em funçăo de reaçőes tanto objetivas como subjetivas do público. Nela, o produto é a cada dia diferente. Nada vale fazę-lo sempre igual, pois o consumidor (o público) se cansa com as fórmulas e está em permanente exigęncia de novidade. Este caráter subjetivo do bem produzido dificulta enormemente a organizaçăo interna da fábrica, onde além das máquinas, o material humano é fundamental. Numa fábrica de tecidos se o operário que opera uma determinada máquina năo serve, fica fácil substituí-lo. Mas se for uma empresa que trabalhe com computadores a coisa já dificulta, pois a operaçăo carece de inúmeros requisitos prévios. Em televisăo, cada passo, cada funçăo, cada uma das técnicas que se fundem num programa precisa de gente altamente especializada e competente. Uma peça que falhe e lá se vai o programa para o beleléu por causa do menor e menos aparente dos detalhes. Mas além desses técnicos, a organizaçăo interna de seus movimentos, as grandes linhas econômicas do empreendimento, o contato com a clientela, o conhecimento do mercado, a politica salarial, a assistencial, a técnica, as relaçőes internacionais, tudo enfim, que se movimenta para acionar uma máquina tăo complexa, necessita de altos conhecimentos técnicos. E, repito, para produzir bens que no fim das contas ainda receberăo o veredicto sempre subjetivo do consumidor o público, público este de infinitas variaçőes de gostos e atitudes segundo peculiaridades psicológicas, nível cultural, intelectual, estado emocional etc.

Ter chegado, portanto, aos dez anos, năo só com o ęxito, mas e sobretudo, com uma equipe formada que reúne grande parte do que há de mais competente na especialidade no Brasil, hoje fazendo escola, é um mérito dos maiores, uma glória que esta geraçăo de dirigentes e profissionais da Rede Globo, vai levar para suas biografias e para a história da televisăo brasileira nesta década. Outro ponto a destacar, a meu ver importantíssimo, é o de terem seus dirigentes, de uns cinco anos para cá, demonstrado a capacidade de năo se bastar com o ęxito e sabendo dosar a renovaçăo, exercitando duro critério critico sobre o já realizado. Ainda em entrevista recente Walter Clark conclama as pessoas interessadas, para este tipo de reflexăo. Só assim o ęxito năo marca o fim de uma etapa, mas o começo de outra, tăo difícil quanto a anterior. Nessa linha, ao saudar o excepcional resultado obtido por esta equipe competente e séria, eu gostaria de colocar o nível de exigęncia mais ŕ frente, lembrar os desafios adiante, aqueles a enfrentar na próxima década que, auguro e desejo, seja tăo grata e realizadora como a que ora termina. Basicamente eles săo dois: obter os mesmos padrőes já conseguidos, também na programaçăo infantil e juvenil e gradativamente dotar a Rede de um instrumental humano e cultural para transformar-se, pouco a pouco, naquilo que vai ser a televisăo do futuro: um centro gerador de estudos; de pesquisas; um centro formador de pessoas a nível universitário nas complexas tarefas da comunicaçăo, esta, a cada dia que passa, matéria de pedagogia, sociologia e psicologia, uma verdadeira universidade. Năo é um belo desafio, ŕ altura da equipe dirigente? Se é, măos ŕ obra, pois é só isso o que está faltando, após uma década de acertos.

1982 - Discriminando Gays

Jornal do Brasil
10/3/1982
- carta de leitor -
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HOMOSSEXUALISMO
( ... ) Năo poderia deixar de escrever esta depois de ler a seçăo de cartas do Caderno B do JB.

1) Propagar o homossexualismo na TV, a exemplo do que fazem os gays assumidos Aguinaldo Silva e Gilberto Braga, na novela das oito, deveria ser considerado como crime contra a formaçăo moral do país. Năo há sociedade que se preze que năo tenha código moral mínimo. Será que é preciso explicar ŕqueles autores que năo é muito saudável o incesto, o estupro, a prostituiçăo, o roubo, o assassinato, nem para o indivíduo e nem para a sociedade? Deve haver um código mínimo de respeito ao próximo. Se é para legalizar e considerar normal o homossexualismo (nenhuma tese científica justifica a sua normalidade), por que motivo também năo devem ser normais o incesto, o estupro e toda sorte de crises e taras? O que fundamenta a năo normalidade desses crimes e taras? ,

2) Năo confundir o que falei com o que falam os beatos e moralistas que já desfraldam bandeiras contra o argumento do filme de Martin Scorsese, A Tentaçăo de Cristo. Quem foi Cristo? Nada mais que um grande homem. Assim como o foi Leonardo da Vinci em sua área, ou Moisés também na religiăo, ou Buda ou Gandhi ou Marx, ou Krishna. Foi um iluminado, um homem acima dos outros. Mas năo deixou de ser um homem enquanto viveu. Por qual motivo entăo, deus meu, năo poderia ter tentaçőes? ( ... )

Em resumo: proibir A tentaçăo de Cristo é tăo crime quanto institucionalizar o homossexualismo na novela das oito. É onde os extremos se encontram, mais uma vez. - [ass.] - Brasília.



Saturday, May 8, 2010

1979 - Os Jornalistas da Globo no Rio

O Globo
16/12/1979
Artur da Távola
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A TURMA DO TELEJORNALISMO
PEDRO ROGÉRIO - O tipo do repórter que a gente gosta de ver. Ágil, perguntador, falando simples, direto, um ar popular e de imediata comunicaçăo. Brilhou em Búzios quando do julgamento de Doca Street, mas, o ano todo, com grande mobilidade, em vários estados, foi marcante presença.

LEDA NAGLE - Estreou no vídeo como apresentadora-entrevistadora do "Hoje". Rosto belo de mulher árabe, voz morna e forte, conhecimento e domínio da técnica da entrevista, sempre envolvendo o entrevistado em aceitaçăo e afeto, mas perguntando tudo. Um charme aquele seus dois dentinhos de baixo algo separados. Ótima presença.

MARCOS HUMMEL - Foi um locutor que apareceu ano passado, mas, pode-se dizer, revelou-se neste ano. Sóbrio, muito seguro; boa voz, nada de caretas. Sempre firme no Jornal das Sete, revelou-se um bom apresentador.

MARCO ANTÔNIO ROCHA - Foi o comentarista de assuntos econômicos dos telejornais da Rede Globo. Começou algo sobre o "economęs". Em pouco tempo foi ganhando segurança, presença, clareza e vídeo e terminou um ano trabalhoso na área da interpretaçăo econômica, como uma presença que a gente fica esperando para ouvir o que vai dizer. Muito bom. Uma grata revelaçăo.

HELENA DE GRAMONT - Com seu nome de heroína de novela, uma repórter furona, batalhadora da notícia, intensa. Ficou célebre uma reportagem dela, na qual enfrentou uma turma da pesada lá de Săo Paulo que fazia umas mutretas com o Fundo de Garantia dos incautos. Uma revelaçăo.

MARIA CRISTINA PINHEIRO - Além de ser uma beleza de mulher, o que năo é essencial para a profissăo, mas năo posso deixar de anotar como peralvilho, revelou-se uma repórter presente, firme, muito segura, direta nas perguntas e versátil. Típica revelaçăo. Vai longe. Seu ar de brasinha, resulta doce.

LANNING EWIS - Com seu ar de repórter da NBC, seus óculos e seu cabelo ainda na linha do chuca-chuca, este repórter apareceu na metade do ano e desde logo se caracterizou como dos melhores. Dominando muito bem o inglęs, é rápido nas perguntas, muito

direto e sempre traduz detalhes que cercam o fato, de maneira a ilustrá-lo e năo o fazer tăo frio. Grata surpresa.

ALCINO SOEIRO - Quem acompanha a TVE do Rio já deve ter visto o trabalho de Alcino Soeiro. Era conhecido como homem de jornal. Novo em televisăo, soube aquecer várias matérias da TVE. Certa vez, vi o agüentar com o Souza Dantas uma transmissăo direta e ao vivo do encerramento do Congresso do Pen Club que entrava no ar cinqüenta minutos antes do começo oficial e foi totalmente coberta por ele, salvando a tragédia. Uma revelaçăo em televisăo. Destaco, ainda outra entrevista dele com Miguel Arraes logo de chegado, com grande senso de oportunidade.

1972 - TV Colorida

Jornal do Brasil
22/2/1972
Valério Andrade
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A VITÓRIA DO TESTE
Muitos problemas tiveram de ser contornados e muita gente duvidava de que o prazo-limite estipulado pelo Governo fosse cumprido. Mas foi. Já ingressamos oficialmente na era da televisăo colorida, assinalando novo marco no campo das telecomunicaçőes, enquanto, para efeito externo, vencemos a disputa com os demais países da América do Sul.

A transmissăo (ao vivo) da Festa da Uva, levada de Caxias do Sul para todo o Brasil pela Embratel, assinalou o primeiro de uma série de testes a que o novo processo será submetido até o próximo dia 31 de março.

Tanto para o Ministério das Comunicaçőes quanto para as emissoras, as transmissőes desse período tęm um caráter experimental, em que o equipamento e os aparelhos de TV serăo submetidos ao julgamento público. Até agora, como se sabe, os testes levados a cabo pela Embratel vinham sendo realizados em circuito fechado, tal qual ocorreu durante os jogos da Copa do Mundo e o penúltimo Festival da Cançăo.

A estréia de sábado representa uma vitória global e a coroaçăo do esforço e da eficięncia tecnológica em mais esse capítulo da corrida pela unificaçăo nacional. O impacto causado pelo advento da cor foi positivo e merecedor do entusiasmo popular, a julgar pelas mensagens de felicitaçőes que chegaram ŕ Embratel e pela opiniăo dos telespectadores plantados diante dos aparelhos das lojas comerciais do Rio.

Salvo pequeno número de privilegiados, formado pelos donos dos 200 aparelhos vendidos na Guanabara e pelos seus convidados, a maior parte dos cariocas viram as cores da Festa da Uva através do lugar arduamente conquistado nas calcadas ou dentro das lojas de eletrodomésticos. A curiosidade era imensa e estimulava o discreto empurra-empurra por um lugarzinho melhor na platéia formada ao ar livre, sábado a tarde, em Copacabana, com gente esticando o pescoço e fazendo a constataçăo visual inevitável: "Parece cinema."

É simplesmente absurdo, em termos de propaganda, o que algumas lojas fizeram na transmissăo do jogo de domingo. Esquecendo da complexidade da TV colorida, em que a simples mudança do aparelho afeta a imagem, TVs ficaram expostas na vitrina sem qualquer tipo de assistęncia técnica, entregues ŕ sua própria sorte. E, por culpa exclusiva dos vendedores, que no domingo já lidavam com o aparelho colorido como se ele fosse idęntico ao preto e branco, a qualidade da imagem futebolística (em certas ocasiőes) chegou a conflitar seriamente com a visualizaçăo da Festa da Uva.

Tal fato, porém, deve ter. sido mais obra da inadvertęncia do que produto de uma irresponsabilidade comercial coletiva. Pois, de um modo geral, a transmissăo da Festa da Uva, como promoçăo (ao vivo) feita diretamente em cima do consumidor, prestou excelente serviço aos fabricantes, aos vendedores e ŕ própria divulgaçăo da era colorida recém-inaugurada.

1988 - Os Primeiros Donos de TV Evangélicos

Visăo
20/4/1988
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UMA EMISSORA A SERVIÇO DA FÉ




A nova missăo profissional de Walter Clark é muito especial. Na direçăo da nova TV Rio, comprada pelo pastor Nilson Fanini, ele deve atrair, principalmente, a atençăo dos milhares de evangélicos do Rio. Mas Clark vai além: "Nós vamos conquistar os cariocas".

O homem que fez da Globo um império e que estava prestes a trocar o Brasil pela Espanha, onde dirigiria a emissora de TV cedida pelo primeiro-ministro Felipe Gonzalez ao jornal El País, decidiu enfrentar um novo desafio aqui mesmo. Especificamente, no Rio de Janeiro. Em maio começa a funcionar a nova TV Rio, dirigida por Walter Clark, 51 anos de idade, quarenta de trabalho. E ele năo faz por menos: "Vamos conquistar os cariocas. Atualmente năo há alternativas porque faltam talento e coragem das pessoas em busca do novo. Queremos fazer uma televisăo diferente das que estăo aí", explica.

Se levarmos em conta as outras emissoras pelas quais Clark passou - Globo e Bandeirantes -, a TV Rio năo apresenta condiçőes das mais favoráveis. Comprada recentemente por 20 milhőes de dólares pelo pastor evangélico Nilson do Amaral Fanini (a antiga TV Rio funcionou até a década de 60, quando faliu e foi fechada), seu alcance năo vai além do Estado do Rio, suas possibilidades de investimento săo limitadas e suas instalaçőes de 5 mil m2 ficam na Cidade Nova, junto ŕ zona de baixo meretrício. A Globo, no Rio, fica no tranqüilo e elegante Jardim Botânico e năo enfrenta qualquer problema financeiro. A Bandeirantes, se năo tem tanta estabilidade quanto aos recursos, ao menos está bem instalada no chique bairro do Morumbi, vizinho ao Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo paulista. "Vou seguir o padrăo antiGlobo" , diz Clark. "Năo quero imitá-la. O que a Globo pagou pelo filme Os caçadores da arca perdida [especula-se que tenha sido em torno de 200 mil dólares], eu gastarei por męs na TV Rio."

Televisăo comunitária - "A TV Rio é uma empresa comercial desvinculada da igreja", afirma o pastor Nilson Fanini, diretor-presidente da emissora, segundo homem da Congregaçăo Batista do Rio, e responsável pela obra social Reencontro, com trabalhos de assistęncia em vinte favelas, abrangendo cerca de 27 clínicas médicas. Ele venceu as dezoito empresas que se candidataram ŕ concessăo do canal. "Năo quero que pensem e afirmem que estamos fazendo televisăo com o dinheiro da igreja. No entanto, obedecemos a alguns padrőes cristăos." A intençăo de Walter Clark é abocanhar o público evangélico (um quarto da populaçăo do Estado ou 4 milhőes de crentes) e 69% dos aparelhos desligados, subvertendo a mesmice televisiva. "Năo tenho bola de cristal, mas minha previsăo é atingir um índice de audięncia próximo aos dois dígitos."

Sua idéia é fazer da TV Rio uma televisăo comunitária, "sem cair em coisas escabrosas e deprimentes". Sua visăo da televisăo atual é desanimadora. Xuxa, por exemplo, năo tem futuro. "O merchandising está fazendo mal a ela." O padrăo global é uma neurose. "Uma idéia obsessiva de se chegar ŕ perfeiçăo, que é inatingível." O telejornalismo atual năo passa, na sua opiniăo, de um produto desprezível e tendencioso e as melhores experięncias estăo sendo feitas nas emissoras educativas. "Precisamos injetar sangue novo na TV."

Sem cigarros, bebidas e jogos - E isso, com certeza, năo faltará ŕ nova emissora, que já começa com uma inovaçăo na área de publicidade: nela estăo vetados os anúncios de cigarros, bebidas alcoólicas e jogos de azar. "Está havendo um profundo retrocesso nos anúncios televisivos", diz o pastor Fanini. "Năo vamos tolerar abusos." A TV Rio, segundo Walter Clark, será "obscenamente carioca". Sem salário e tendo uma participaçăo nos lucros e no faturamento da emissora, o diretor está otimista. "A televisăo por rede tende a saturar. O pior é que fui eu que a inventei e hoje estou condenando. Todos os canais vęm perdendo audięncia, mesmo a Globo. Há um potencial enorme a ser explorado por emissoras locais."

Com base nisso, a programaçăo da TV Rio será sincronizada com o cotidiano carioca, com dez câmaras (as "carioquinhas") espalhadas pela cidade, e calcada nos programas de rádio. "Năo vamos fazer uma TV para a Zona Sul", explica Clark. "Ambicionamos atingir o público da Zona Norte, geralmente desprezado pelas outras emissoras. A idéia de se adaptar o espírito do rádio ŕ televisăo năo é nova. Só demorou a ser aplicada." Na recente seleçăo de repórteres, locutores e câmaras que a TV Rio realizou, foram selecionados 619 dos 3.361 candidatos inscritos, que arcarăo com a responsabilidade de mostrar, no ar, a proposta da emissora. "A Globo está cheia de incultos; a Bandeirantes é uma catedral da mediocridade; a Manchete está sem rumo; e o SBT năo oferece nada de novo", dispara Walter Clark. "Por isso, vamos apostar na renovaçăo."

Darlene em açăo - Parece que quem encontrou na TV Rio o lugar ideal para unir sua profissăo ŕ missăo pastoral é Helena Brandăo, ex-Darlene Glória,

que abandonara a vida artística para se dedicar ŕ religiăo, voltando há pouco tempo para um papel na novela Carmen, da Manchete. Na nova emissora, caberá a ela os programas Radial Evangélica, mesclando informaçăo e entretenimento, e Reencontro, programa de auditório da antiga TV Rio e que agora será gravado em estúdio. O próprio Fanini comandará Debate, mesa-redonda em que serăo discutidos temas ligados ŕ comunidade, como aborto e violęncia. "Toda a parte da manhă será dedicada ŕ programaçăo evangélica", explica Gilberto Loureiro, diretor artístico, de produçăo e programaçăo da emissora.

O restante do dia estará distante da religiăo. Selma Vieira, da Rádio Transamérica, comandará um programa dirigido ŕs donas-de-casa. As "carioquinhas" entrarăo em açăo, enviando quatro flashes de quatro minutos de duraçăo por hora ŕ emissora. Haverá ainda, ŕ tarde, programas para adolescentes da Zona Norte - de entrevistas, músicas e videoclipes. Ŕ noite, vai ao ar Alerta Rio, programa policial apresentado pelo veterano Afonso Soares, da Rádio Globo, enfocando a violęncia cotidiana. Séries que marcaram época na antiga TV Rio e na extinta Tupi foram recuperadas e serăo apresentadas na Sessăo em Preto e Branco (O Fugitivo), Cidade Nua, Corda Bamba e outras). A síntese das notícias do dia será apresentada em Rio Nove e Meia. Neila Tavares comandará Acesso Público, que pretende ser uma tribuna livre para a populaçăo carioca.

Atençăo a seu público - Nos finais de semana a TV Rio terá programas musicais, de entretenimento, esporte e humor. Perfeito Fortuna, do Circo Voador, comandará um programa de calouros, nos moldes do saudoso Papel Carbono, que Ari Barroso fazia na Rádio Nacional, e aos irmăos Paulo e Chico Caruso caberá Os grandes Carusos, com humor, música e charges. Mas as manhăs de domingo serăo dedicadas ŕs igrejas evangélicas. Afinal, é bom năo esquecer que só a Congregaçăo Batista, a que pertence Fanini, reúne 4 milhőes de cristăos em 3.500 igrejas na cidade do Rio de Janeiro, que esperam, atentos e ansiosos, o nascimento da emissora. E essa boa fatia de público quer, e deve, ser satisfeita.

1976 - Airton e Lolita Rodrigues

Movimento
16/8/1976
Inimá Simőes
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O PROGRAMA DA ''FAMAAÍLIA BRASILEIRA''


Há quase trinta anos no ar, o programa ''Clube dos Artistas'', com o casal Airton e Lolita Rodrigues, ainda alimenta as aspiraçőes de uma grande faixa da sociedade brasileira

Na falta de recordes em competiçőes esportivas internacionais, o Brasil vai juntando suas marcas mundiais no setor de rádio e TV. Este ano já foram anunciados pelo menos tręs campeőes de longevidade. Alziro Zarur (seu programa teria alcançado 33.000 audiçőes em todo o país completadas em julho, embora năo ficassem esclarecidos os critérios usados para se concluir pela quebra do recorde mundial), Aerton Perlingeiro com o "Almoço com as Estrelas"pela Tupi (TV) do Rio que atingiu as 1040 apresentaçőes correspondentes a 16 anos no ar. E o "Clube dos Artistas", também das Emissoras Associadas, considerado o programa mais antigo da TV Brasileira, talvez do mundo.

O casal de apresentadores, Airton e Lolita Rodrigues, responde pela conduçăo do "Clube", que foi ao ar poucos meses após a inauguraçăo da TV Tupi de Săo Paulo, a primeira emissora brasileira a transmitir imagens, em setembro de 1950. Em todo esse período o "Clube dos Artistas" já teve vários apresentadores, mas a perfeita identificaçăo só ocorreu com Airton e Lolita,responsáveis pela "marca" do programa.

Todas as sextas-feiras, durante duas horas, os telespectadores assistem ao desfile de convidados do "Clube" - artistas, políticos do interior, debutantes, rotarianos, etc - que invariavelmente compőem um quadro no mínimo anacrônico de nossa sociedade (e saudosista). Estruturado como um clube (mesas, pista de dança) onde as pessoas só dizem coisas agradáveis e difundem mensagens de otimismo, o programa se revela um digno sucessor de outro que em sua época áurea trouxe muito prestígio ŕ apresentadora Hebe Camargo.

Acabando de comemorar 25 anos de casados (com missa televisionada), o casal Airton - Lolita vem correspondendo a certas identificaçőes do público, hipoteticamente situados numa faixa intermediária, tanto ao nível etário quanto social. Da sua estréia até os dias de hoje, o "Clube" já sofreu inúmeras modificaçőes. Mas a sua essęncia continua intocada,o que se constitui no motivo de sua audięncia e sucesso (segundo o Diário da Noite, de Săo Paulo, em 1973 o programa conseguia até 80 pontos de audięncia em Belém do Pará, além de muito sucesso no S u do país). Esse fator básico é explicado como sendo a combinaçăo de simplicidade, informalidade e despretenciosidade. Isto funciona como um perfeito cartăo de visitas para o casal de apresentadores entrar nos lares brasileiros. O Airton, de sua parte, lembra alguém bonachăo, meio carpirăo, que nunca fez mal a ninguém. Nem aos convidados (que sempre recebe com carinho), nem ao telespectador a quem nunca feriu com observaçőes mais críticas ou severas. Numa entrevista ŕ Folha de Săo Paulo de 26 de julho de 1973 ele afirmava: "Nós temos conseguido um certo prestígio para o programa. Năo é um. 'mundo căo' . Poderá ter suas deficięncias mas nunca será um 'mundo căo' . Nós temos uma linha de apresentaçăo - moderaçăo - a ponto de ser o programa que maior número de cardeais apresentou na TV".

Airton e sua esposa săo os depositários desse segmento da classe média que se defende das circunstâncias através dos mitos familiares. A comemoraçăo das bodas de prata do casal tem essa funçăo no "mundo conturbado e confuso de hoje, servindo como um reforço do conjunto de normas que configura o caráter social do público do programa.

Deixando todos ŕ vontade, o "casal harmonia", continua recebendo os "amigos" de uma maneira bem brasileira, fazendo jus ŕ nossa fama de hospitalidade. Isso cai como uma luva para o telespectador, uma vez que eles săo apresentados como "iguais". "Nós somos o que vocęs săo", poderia ser a filosofia da dupla, o que permite que se fixem nesse ponto os mecanismos de projeçăo e identificaçăo do telespectador.

Nessa condiçăo de depositários de um bem comum e a serviço de um quadro de valores estabelecidos e cristalizados é que eles fundamentam sua continuidade rente ŕs câmeras. Airton falando de sua filha e de sua esposa ilustra significativamente essas afirmaçőes. "Minha filha me faz um homem orgulhoso". "Lolita torce e vibra como qualquer telespectador. Faz parte de sua personalidade ser uma esposa simples e sem afetaçőes".

Essas características servem a várias funçőes para quem assiste. Primeiro, como elemento diferenciador de outros programas, ao se contrapor por exemplo a outros programas, como o do Chacrinha (que o público do "Clube" deve considerar muito escachado e popularesco), Flávio Cavalcanti (intransigente demais e vivendo crise de credibilidade) e Sílvio Santos (que apesar do carisma năo perde o jeităo de vendedor bem sucedido). Airton e Lolita tem apenas simplicidade, humildade, espontaneidade para oferecer, embora isso năo impeça ao Airton de provocar algumas situaçőes, no mínimo hilariantes, como foi o caso da apresentaçăo do cantor Morris Albert,confundido pelo apresentador com a fábrica de cigarros Phillip Morris. Mas nesse caso, o aspecto anedótico ao invés de prejudicar serve mais como ajuda a imagem de espontâneo e simples do apresentador.

Embora năo seja na atualidade um campeăo de audięncia (na sexta-feira seis de agosto, dia das bodas do casal, o programa alcançou uma média em Săo Paulo de 17.6 no Ibope, enquanto um filme exibido pela Globo chegava a 39) nas capitais, ele consegue um público fiel e atencioso no interior e em outros estados distantes dos centros culturais de decisăo. A bondade de Airton que colabora para manter uma boa audięncia - uma das maiores da emissora - e que é destilada a casa sexta-feira já mereceu comentários como a da escritora Lilian Silva (?) numa homenagem realizada no Fazano, em 1968: "Ele deve dizer no seu íntimo: como é bom ser bom". O reconhecimento aos serviços prestados pelo Clube já foi também divulgado oficialmente pela Câmara Municipal de S.P. que o considerou o "Programa da família brasileira".

Assim, o programa de televisăo que há mais tempo esta no ar na América do Sul (Folha de S.P.) é também com certeza um dos mais envelhecidos. O seu concorrente mais ilustre em termos de longevidade - o "Ed Sullivan Show" - já desapareceu, embora tenha permanecido por 23 anos na TV americana. Um bom exemplo para quem acha que algumas coisas boas para os EUA podem ser boas também para nós.

1969 - TV ACM

O Cruzeiro
17/3/1969
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TV ARATU, A IMAGEM DA BAHIA
A Bahia está orgulhosa de sua segunda estaçăo de televisăo. Com uma potęncia irradiada de 32 kw ERP e cobrindo 36 cidades do litoral e do interior - inclusive nos Estados de Alagoas e Sergipe - entrou em funcionamento na semana passada a TV Aratu, Canal 4, em Salvador. Inaugurada pelo Governador Luís Viana Filho, com a presença do Prefeito Antônio Carlos Magalhăes, do Cardeal-Arcebispo Eugęnio Veiga, e outras autoridades, a TV Aratu constituiu-se, desde os primeiros momentos de sua existęncia, numa grande atraçăo para os baianos de todas as camadas sociais.

Para conquistar a preferęncia do público, os diretores da TV Aratu, Srs. David Raw e Alberto Maluf, basearam toda a programaçăo nos espetáculos de maior audięncia no Rio e Săo Paulo, especialmente aqueles produzidos pela Rede Globo e Rede Excelsior de Televisăo. Assim, os baianos já estăo assistindo a novelas líderes de audięncia tais como A Última Valsa e Vidas em Conflito ou programas do prestígio de A Buzina do Chacrinha, Balança Mas Năo Cai, Telecatch e Os Campeőes da Popularidade.

Para o lançamento de sua programaçăo, a TV Aratu preparou um grande show, levando a Salvador nomes famosos como Natália Timberg, Paulo Goulart, Henrique Martins, Nicete Bruno, Zé Kéti e Odete Lara. Murilo Néri se encarregou de apresentâ-los ao público. Ainda como convidados da direçăo do Canal 4, estiveram em Salvador os Srs. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, diretor da Rede Globo de Televisăo, Waldemar de Moraes, diretor da Rede Excelsior de Televisăo, o compositor Miguel Gustavo, o General José Carlos Grossi, e o jornalista Ponce de Léon. Encerrando a grande festa de inauguraçăo da TV Aratu, foi oferecido um coquetel ŕ sociedade baiana no Hotel da Barra.


1985 - O Palhaço do Silvio Santos

Jornal do Brasil
3/11/1985
Marília Martins
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BOZO, TVS, DE SEGUNDA A SEXTA, DAS 8H ÀS 15H




Este é o telefone: 585-1385, Săo Paulo. Basta discar, dizer o seu nome, quantos anos tem, e talvez a cidade onde mora. Năo há tempo para mais. Tudo muito simples, rápido. Basta aceitar as regras do jogo, comportadamente. As suas reaçőes já estăo previstas. O resto se torna mais fácil. Do outro lado da linha, um palhaço de enorme cabeleira ruiva, sempre sorridente e solícito, vai perguntar qual o seu palpite para a corrida de cavalos desta manhă: o branco, o preto ou o malhado? Trata-se de um brinquedo, miniaturas movidas a eletricidade, claro. Cavalos de verdade năo cabem num estúdio de TV e este programa năo tem externas. Mesmo assim, é o acaso que decide. Se vocę ganhar, o auditório de crianças, transformado em claque, aplaude e vocę recebe um brinde: uma boneca para a menininha, um tanque de guerra para o garotinho. Se vocę errar, bem, se errar, a mesma claque, comportadamente, grita em coro: "Ah ... que peninha!...- Vocę prefere apostar em animais vivos? Năo se preocupe: há também uma corrida de ratinhos (estes todos brancos). Que tal? E se năo gostar de corridas, tudo bem. Há muitos concursos, muitos jeitos de ganhar. Tanto para o telespectador quanto para o auditório. De testes de memória a sorteios de cartas, calouros (com um júri de bonecas), apostas de todo o tipo. Quer aparecer no vídeo? Vá ao auditório. Ou entăo mande uma foto, outra vez com seu nome e a cidade onde mora. Ela poderá ficar no ar por 30 segundos, em meio aos comerciais. É este o pacto que Bozo e sua família de palhaços, Mafalda, Papudo e Salci, propőem ao espectador, o que torna a Sessăo Desenho uma espécie de vestibular para o programa Sílvio Santos. Responda certo e ganhe um brinde. De um lado, permite-se a participaçăo no programa, do outro, domesticam-se as respostas. Via concursos e sorteios, ternatiza-se o sonho da ascensăo social (vocę pode ganhar milhőes). Afinal, é desde criança que se formam os compradores do Baú da Felicidade. Por trás de tudo, a idéia de que a TV é só para isto mesmo: entorpecer, hipnotizar, divertir, passar o tempo. E transformar espectadores em consumidores no prazo mais curto possível.



1981 - Silvio de Abreu às Sete

O Globo
8/11/1981
Artur da Távola
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JOGO DA VIDA - PRIMEIRAS IMPRESSŐES
Telenovelas săo um mistério, ainda, por mais que se lhe conheçam muitas peculiaridades, fórmulas etc. Umas pegam de imediato; outras, demoram a pegar; terceiras, jamais pegam.

Parecem pessoas. Há pessoas imediatas: logo passam os elementos de sua simpatia. Há pessoas mediatas, aos poucos sendo descobertas pelos demais. Há pessoas que jamais transmitem elementos favoráveis ao julgamento empático.

"Jogo da Vida" já havia "pegado" no segundo capítulo. Ao fim da primeira semana já incendiara o interesse do público. Isso de "pegar", em telenovela independe de qualidade, proposta, elenco, direçăo, etc. Uma grande parte de seus mecanismos de comunicaçăo ainda săo secretos.

"Brilhante", por exemplo, só agora começa a "pegar". Tem ótimo elenco, direçăo, boa história, produçăo, mistério, elementos clássicos do folhetim, tem tudo. Mas custou a pegar. "O Amor é nosso" idem, inclusive uma proposta de alta qualidade e seriedade. Jamais pegou. "Marron Glacę" foi pegando aos poucos e ao fim incendiara o interesse dos telespectadores.

"Jogo da Vida" "pegou" de imediato. Tenho procurado estudar esse fenômeno. Năo tenho, ainda, respostas prontas. Parece-me ser algo ligado a uma imediata assimilaçăo empática dos personagens. O grande público năo resiste muito tempo sem definir simpatias, antipatias, preferęncias, identificaçőes fáceis do papel e dos símbolos representados pelos personagens.

E necessário que os símbolos representados pelos personagens estejam dentro dos marcos de expectativa e conhecimento dos telespectadores.

Outro elemento fundamental pa. ra a novela "pegar" de imediato é começar năo no começo mas no meio de uma história. Exemplo: a separaçăo de Jordana (Glória Menezes) e o marido (Paulo Goulart) com que năo é casada mas vive há mais de vinte anos. Esta separaçăo já está em fase de acabamento quando a novela começa. As histórias pegam assim pelo meio, aquecem a trama. Idem, o caso de ''Badaró" (Carlos Vereza) que já aparece fugindo da policia. Idem o da irmă dele (Rosamaria Murtinho), que năo quer que se saiba ser da família de um marginal.

O fato de "pegar" rápido, porém, năo diz dos méritos totais de uma novela. É um dos elementos. Os demais surgirăo (ou năo) do andamento da obra. É cedo para analisar.

Sylvio de Abreu, o autor, mesmo quando apenas substituía outros, como aconteceu quando do enfarte de Cassiano Gabus Mendes, no meio de "Plumas e Paetęs", revelara-se, já um ótimo construtor de situaçőes cômicas. Isso ressalta no clima solto e alegre, indispensável para o agrado do telespectador das sete da noite.

Os atores estăo muito bem. Talvez Paulo Goulart ainda tenha que definir a linha de seu personagem. Percebe-se o ótimo ator tateando entre fazę-lo caricato ou apenas levemente cômico e algo romântico (a mim me parece melhor este caminho). Lúcia Alves anda querendo repetir a Veroca de "Plumas e paetęs". Deve cuidar. Carlos Vereza e Cláudio Correia e Castro já estăo sensacionais no papel. Conseguiram compor os personagens de imediato. Isso é essencial. Maitę Proença parece que tomou vitaminas. De "As tręs Marias" (novela na qual estreou na Rede Globo) para agora, deu impressionante salto de beleza e densidade de atuaçăo. Ótima, igualmente, desde o primeiro capitulo em que apareceu. Elizangela como a menina sonsa que se faz e boba.

Talentosíssimos os letreiros. Cenografia e vestuário muito bons.

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