Wednesday, April 28, 2010

UM NOVO TELEJORNALISMO E OS LIMITES DA CENSURA

Jornal do Brasil
4/11/1977
Paulo Maia
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Por exercer há muito tempo o absoluto monopólio de audięncia da TV no Brasil, a Rede Globo de Televisăo sempre se pretendeu mais censurada do que suas concorrentes em termos de telejornalismo. Seus profissionais sempre se disseram mais vigiados do que os da Tupi, da Bandeirantes, de emissoras locais, e mesmo das emissoras educativas estatais. Até que ponto isso seria verdade e até que ponto esse tipo de defesa năo representa um mascaramento de temerosa autocensura? Năo se pode garantir absolutamente a veracidade de uma ou de outra hipótese, mas sim acrescentar a opiniăo de um repórter de uma equipe rival e de reconhecida competęncia profissional, para quem, "enquanto outras emissoras procuram se manter, nas fronteiras permitidas pela Censura e dentro dos parâmetros da ética duvidosa da questăo da concessăo precária dos canais e da existęncia de uma legislaçăo específica para o assunto, o telejornalismo da Globo sempre esteve aquém desses limites".

Durante longos anos, os telejornais da Globo se mantiveram friamente distantes dos grandes fatos políticos nacionais levados aos jornais; mesmo na época da rigorosa censura ŕ imprensa do Governo Médici. Sobre política a televisăo foi omissa ou, como querem os produtores de seus noticiários, obrigada a ficar omissa, reservando seus horários nobres para a lacrimosidade das telenovelas e riso o nonsense de seus shows milionários. O Jornal Nacional, muito mais do que a funçăo de tribune aggrandie que o republicano histórico Benjamin Constant atribuía ao jornalismo, preferia o abrigo daquilo que os franceses chamam de faits divers, cujo representante máximo na televisăo brasileira é o show dominical Fantástico, na mesma Rede, ou seja, a divulgaçăo de fatos extraordinários, em tom de amenidade, por locutores elegantes e agradáveis ao paladar do grande público.

De repente, contudo, o tempo dos telejornais da Globo, particularmente do noturno Amanhă, antecipado na programaçăo diária para o final da novela Nina, passou a contar com preciosos minutos de noticiário político. O Congresso Nacional, em Brasília, passou a receber visitas constantes das simpáticas comunicadoras globais, que mantiveram seus elegantes penteados, mas passaram a abordar temas menos digestivos e antes restritos ŕs páginas das editorias políticas dos grandes jornais do eixo Rio-Săo Paulo. Ante a realidade trágica da morte do jovem repórter Geraldo Costa Manso, que estaria sendo preparado para se investir a funçăo de uma espécie de Walter Cronkite caboclo, a emissora o substituiu por um repórter competente vindo de O Estado de Săo Paulo, Sérgio Mota Melo, e até no início da madrugada, entre dois enlatados violentos, o departamento de telejornalismo passou a produzir um novo programa, Painel, em que os temas políticos săo abordados com mais freqüęncia em entrevistas mais cuidados e com tempo mais generoso do que o oferecido no corre-corre dos telejornais diários, ainda muito impregnados de faits divers - principalmente O Jornal Nacional, espremido entre as duas novelas de maior audięncia do horário nobre.

O que teria acontecido? Teria o telejornalismo da Globo avançado mais em direçăo ŕs chamadas "fronteiras da legalidade", ultrapassando barreiras de medo, autocensura ou riscos (os já muito conhecidos riscos da espada de Dâmocles da concessăo precária de canais pelo Governo aos particulares). Ou, ao contrário, essas fronteiras de permissividade traçadas aleatoriamente pela Censura é que teriam avançado, permitindo-se um debate político mais amplo? Seja qual for a resposta, a verdade é que o telejornalismo global entrou a tempo no debate político nacional, pois corria o risco de ser ultrapassado violentamente pelos fatos, como, aliás, vinha sendo. Num momento em que as opçőes democráticas săo debatidas no sério da sociedade civil e a Naçăo se levanta para garantir que năo é um gigante adormecido em berço esplęndido, năo teria sentido, nem do ponto-de-vista mercadológico, manter uma distancia fria dos fatos que simplesmente atropelam a vida do cidadăo comum. Năo noticiar os estudantes nas ruas, a discussăo sobre o diálogo político Arena-MDB e outros fatos importantes seria um pecado mortal de omissăo, do ponto-de-vista da conquista do público consumidor, por maior que seja o monopólio da audięncia da Rede.

De qualquer forma, partindo-se de qualquer dessas análises, a abertura de um espaço político no tempo da televisăo monopolista de audięncia no Brasil é um fato alvissareiro para todos aqueles que acreditam no estado de direito, na democracia e no primado da Naçăo sobre as atividades (simplesmente gerenciais) do Estado. E significa uma distensăo autęntica e útil no sentido da participaçăo da, sociedade civil na geręncia dos negócios do Estado, que săo de seu interesse específico.










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