Thursday, April 15, 2010

1981 - Bandeirantes Abandonou Rosa Baiana

Amiga TV
12/8/1981
Graça Perri
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A BANDEIRANTES NĂO AJUDOU ROSA BAIANA
A novela chega ao fim com a revolta do autor, Lauro César Muniz

''A Bandeirantes ainda năo está preparada para um grande sucesso em telenovelas. Rosa Baiana foi uma empreitada muito difícil, porque năo tivemos apoio de ninguém, nem ao menos da própria casa. Ninguém se preocupou com esta novela e ela acabou relegada a segundo plano.''

Com este desabafo, Lauro César Muniz, autor de Rosa Baiana, expőe as dificuldades e milhőes de problemas que enfrentou. Uma novela que era considerada como uma grande inovaçăo, pois ela foi feita "desafiando alei da gravidade". Totalmente gravada em locaçőes fora do centro de produçőes, ou seja, longe do estúdio, Rosa Baiana chega ao seu final, depois de 141 capítulos gravados na raça e praticamente contando só com a boa vontade dos atores. Era uma novela que tinha todos os ingredientes para dar certo, mas que resultou numa experięncia fraca, bem longe de ser o grande marco dentro da televisăo brasileira, proposto pela Bandeirantes, quando ainda a supervisăo era de Walter Avancini. Mas, apesar dos pesares, conseguiu chegar ao fim, deixando muitos saldos negativos e alguns positivos. E Lauro César quem conta:

"Em primeiro lugar, năo tínhamos uma organizaçăo montada na Bahia, uma infraestrutura, o que dificultava tudo, pois se um equipamento quebrava, tínhamos que mandá-lo para Săo Paulo, sendo preciso parar as gravaçőes. Além disso, é sabido que o som de externa é muito deficiente e isso fez com que a novela se ressentisse na parte técnica. Depois, faltou uma unidade de direçăo, pois foi dirigida por cinco pessoas, o que fez com que o ritmo se quebrasse. Além do mais, năo havia direçăo de arte; tudo que harmoniza o visual da novela năo existia. Os atores se vestiam e se maquilavam a seu bel-prazer. E o último golpe de misericórdia foi retirá-la da programaçăo de sábado, sem que ninguém fosse consultado se devia ou năo."

Por estes e tantos outros motivos, Rosa Baiana, no lugar de um grande marco, deixa um grande vazio. Na verdade, a idéia inicial nasceu de um tripé, formado por Lauro César, Walter Avancini e David José. Mas, logo no início das gravaçőes, este tripé foi desfeito. David José se incompatibilizou com a Bandeirantes e com Lauro - segundo ele, David interpretava os capítulos de forma diferente do que ele escrevia - e acabou saindo da direçăo. Avancini também se desentendeu com a casa e foi embora. Logo, o tripé ficou reduzido a uma perneta, só com Lauro, e perdeu em grande parte - ou todo - o apoio que era dado principalmente por Avancini, o pai da novela, o único e mais empenhado em levar adiante o projeto inovador.

Mas, os problemas năo paravam e tudo contribuía para a fraca qualidade da novela, mesmo assim levada até o final. Houve vezes em que a cena era gravada com uma só câmara, take por take, influindo também na qualidade, porque sempre perdia naturalidade e fluęncia. Dos 37 personagens, 22 atores nunca tinham feito telenovela, sendo totalmente inexperientes. E a interferęncia maior foi do próprio governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhăes, que năo permitia que a novela fosse passada lá. Segundo explicaçőes extra-oficiais, ele achava que Rosa Baiana năo refletia o que o seu governo tinha como ideal. Ele queria o lado turístico, e Rosa Baiana mostrava o lado pobre, feio, os prostíbulos. Só depois das gravaçőes encerradas é que foi permitida a sua apresentaçăo no estado, pois assim năo poderiam ocorrer interferęncias por parte do povo.

E o clímax dos problemas ocorreu com o abandono de Walter Prado (Orestes) das gravaçőes dos últimos 20 capítulos. Segundo Lauro César, coisa nunca vista em seus 17 anos de televisăo: Walter Prado simplesmente arrumou sua trouxa e veio embora para Săo Paulo, deixando o autor num verdadeiro abismo, pois seu personagem era um dos pontos fortes da novela, calcado no mito de Electra, que era Helena (Wanda Stefania), apaixonada pelo pai.

A EXPERIĘNCIA FALOU MAIS ALTO - Se, por um lado, os problemas atrapalharam o desenvolvimento da novela, por outro há de se louvar o trabalho do elenco mais experiente que defendeu "bravamente a novela e, se năo fez mais, foi por falta de infra-estrutura", como diz Lauro. E os atores novos que se perdiam na interpretaçăo ganhavam na "verdade, no jeito baiano de ser, falar e agir".

Desta forma, chegando ao final aos trancos e barrancos, a novela deixa duas saudades: a primeira, a perda de Rafael de Carvalho, o Edmundo Lua Nova, que morreu vítima de enfarte, aos 63 anos de idade. E a segunda, a saudade dos atores que viveram mais de seis meses na terra abençoada por Nosso Senhor do Bonfim, desfrutando de todas as mordomias - apesar do sufoco dos horários de gravaçőes -, que năo foram poucas.

SÓ UMA SURPRESA NO FINAL - No final, tudo se arruma. Agenor (Gianfrancesco Guarnieri) fica com Natália (Ana Maria Magalhăes) e o filho que nasceu preto, confirmando que era de Raimundo (Antônio Pitanga), mas é assumido por Agenor. Maria Rosa (Márcia Corban) fica sozinha com as tręs filhas, assim como Raimundo. Matilde (Regina Dourado) fica só após a morte de Walter Beleza (Raymundo de Souza), quando entăo conhece Ademar, amigo de Walter, que o substitui com a mulher e as amantes. Roberto (Joăo Signorelli) deixa a mulher grávida e vai viver com Cláudia (Tânia Regina). Edinho (Taumaturgo Ferreira) continua com Leonor, mesmo sem se casar, como era a vontade da măe. Ivan (Edgar Franco) volta para Márcia (Zélia Toledo). Neide (Maria Luiza Castelli) passa a viver com seu misterioso namorado (interpretado por Luiz Gustavo) depois de apresentá-lo a Ivan, ŕ filha e ŕ Rosa Baiana (Naney Wanderley).

Rosa Baiana, após a morte do filho Walter Beleza, resolve consertar o mundo e muda radicalmente suas idéias. E quando recebe uma carta de Edmundo Lua Nova (Rafael de Carvalho) dizendo que o circo em que trabalha chega a Salvador dia 30. Ela reúne os filhos, noras e genro, aceita todos e pede a presença deles no circo neste dia. A última cena é a apresentaçăo de Edmundo no circo, sendo aplaudido por toda a família, numa homenagem prestada por toda a equipe da novela ao Rafael de Carvalho.

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