Wednesday, April 14, 2010

1979 - Malu Mulher

VEJA
18/7/1979
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A MULHER DESCASADA
A VIAJANTE SOLITÁRIA - Os caminhos da liberdade de Malu Mulher, a nova heroína da televisăo, e a vida de um grupo cada vez maior: o das mulheres descasadas

De repente, a socióloga Maria Lúcia, a Malu, começou a colher as sementes que plantou no dia em que se separou de Pedro Henrique, há menos de dois meses. Na semana passada, por exemplo, ela já passara por episódios traumatizantes ao se envolver num caso de aborto; teve que resolver o destino da avó materna, desprezada por toda a família; e, finalmente, recebeu em casa nada menos que a melhor amiga e a própria măe, ambas dispostas a despachar seus respectivos maridos e partir para uma vida nova. "Ser livre năo é isso", aconselhou Malu ŕs trôpegas aspirantes a descasadas. "Tenham juízo". Esses exemplos de bom senso, sociabilidade e calor humano ajudaram a retocar o retrato da principal heroína - digamos assim - da televisăo brasileira de hoje. Afinal, numa noite de junho, por volta de 10 e meia da noite, Malu foi vista por milhőes de testemunhas entrando na bonita casa de praia de um amigo, em Ubatuba. De dia ela havia depilado pernas e axilas, lavado os cabelos, exercitado ao telefone um tom de voz insinuante de promessas e esperanças. De noite, dirigiu-se ŕ cama do amigo, fez alguns rodeios, deitou-se - e, diante de uma platéia consternada e aflita, fracassou miseravelmente. Mas por pouco tempo. Antes de 11 da noite, enlaçada pelos braços, pela compreensăo e pela competęncia do amigo, ela voltava ŕ cama para uma nova batalha de carícias.

MOMENTO DE ĘXTASE - Ainda aflita, quem sabe roendo as unhas numa torcida surda ou numa condenaçăo silenciosa, a grande platéia plantada diante dos aparelhos de TV viu entăo uma cena extraordinária: a măo de Malu, primeiro crispada, soltava-se e abria-se numa prova de que o orgasmo finalmente explodia no vídeo nacional. Năo se sabe a extensăo de insônia e euforia que este momento de prazer provocou dentro dos lares. Mas descobriu-se que Malu, como sua intérprete Regina Duarte, a "Namoradinha do Brasil", e como a própria televisăo năo seriam mais as mesmas.

Esta noite de ęxtase de Regina Duarte diante das câmaras marcou o momento mais intenso, mas năo o único, do seriado Malu Mulher, o mais discutido e até agora o mais bem-sucedido dos quatro que a Rede Globo lançou em maio para substituir os enlatados estrangeiros. Em todos os sentidos, dentro e fora de um estúdio de televisăo, esses episódios de toda quinta-feira marcaram encontro com alguns dos temas mais caros (e apesar disso esquecidos) que estabelecem os limites entre puro divertimento e realidade pura: a solidăo, o medo de envelhecer, os tabus de família, os planos de sepultar a vida antiga e começar tudo de novo.

Por tudo isso Malu recebeu, na última quinta-feira, o apelido de "Subversiva" - nome do episódio e das açőes que ela estaria desencadeando na imaginaçăo de outras pessoas. "Năo tenho obrigaçăo de te satisfazer todas as noites", esbraveja Gilda (Lúcia Alves) para o marido Amorim (Ricardo Petraglia). "Casamento é um saco", grunhe Pedro Henrique (Denis Carvalho), morto de sono, ao ser acordado por Amorim. Já Malu, filosofando na noite do sábado em que a história se passa (para terminar no domingo), espanta-se: "Minha casa, albergue das liberadas!"

"CHUMBO GROSSO" - Na Globo, que pagou para ver no que ia dar seu projeto mais delicado, o ambiente é de euforia: Malu Mulher está em primeiro lugar de audięncia no Rio de Janeiro, com 52 pontos, em segundo em Săo Paulo, com 49 (um pouco abaixo de Carga Pesada), empata em Brasília com Plantăo de Polícia, ganha em Belo Horizonte e no Recife só perde para Aplauso. O programa, por certo, tem sofrido alguns ataques. Quase uma seçăo inteira de cartas do Jornal do Brasil, há duas semanas, foi ocupada por leitores que expressaram suas "repugnâncias" ante um episódio que tratou de aborto. A hoje semi-obscura Tradiçăo, Família e Propriedade (TFP) animou-se a sair das catacumbas para atacar o seriado pelos programas de rádio. E mesmo a equipe que gerou e pôs Malu no mundo as coisas năo săo tranqüilas.

Os primeiros episódios, por exemplo, jamais levados ao ar, trombaram com o próprio superintendente da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, que achou as amostras iniciais adocicadas demais e exigiu "chumbo grosso".

Depois, os autores de Malu iniciaram uma via crucis de desentendimentos e uma das tręs mulheres contratadas, a teatróloga Consuelo de Castro, afastou-se por motivos de "incompetęncia e incapacidade de conciliar suas atividades profissionais com as de măe de família", segundo se resmungou nos corredores da Globo. Outra mulher, a teatróloga e poetisa paulista Renata Pallottini, năo está encontrando tempo de ir ao Rio regularmente. Sozinha entre quatro homens, Lenita Plonczynska, 38 anos, desquitada, vivendo há dez anos com o cineasta Domingos de Oliveira, está achando tudo muito difícil. "Tem muita cabeça masculina pensando em vários níveis, na produçăo, na direçăo, um mundo quase impenetrável para os pensamentos femininos", diz ela.

DE PRISĂO EM PRISĂO - O mundo dos criadores de Malu antecede, assim, as dificuldades que a personagem vai enfrentar a cada capítulo. Segundo Lenita, os homens da equipe ficavam muito preocupados com o fato de eles também terem problemas e demoravam a aceitar que a série é para mulheres. O ator e diretor Denis Carvalho, 31 anos (desquitado duas vezes), adverte para o perigo de que as histórias se tornem "feministas, panfletárias e maniqueístas". Ele se defende: "Seria legal se a gente abordasse o tema do homem desquitado, que deixa o apartamento comprado a duras penas para a mulher, aluga um quarto e sala, e ainda tem que começar tudo de novo". Armando Costa, 46 anos, solteiro, autor de dez roteiros de cinema, atua como poder moderador: "Basta o homem năo ser mal-informado nem machista". Mas prega reformas urgentes para Malu: ela ganha apenas 7.000 cruzeiros de pensăo e vai precisar trabalhar, suas roupas tęm que ser menos sofisticadas. Denis Carvalho impőe: "Ela năo pode ser estuprada, fazer aborto e ser assaltada em episódios seguidos". E proíbe: "Mas também năo pode ficar ditando regras, sendo uma supermulher, como vem acontecendo".

Pobre Malu, desquitada de 32 anos, măe de uma garota de 12, recém-separada do marido para submeter-se ŕ dominaçăo dos roteiristas que tecem as linhas de sua vida. Mas năo seriam justamente essas as maldiçőes que pesam sobre qualquer mulher como ela? Entre a vida de Malu e a de Regina Duarte, por exemplo, há tantas semelhanças que seria ingęnuo pensar em meras coincidęncias, como nos filmes antigos: as duas tęm a mesma idade, săo descasadas, tęm uma situaçăo econômica relativamente estável, declaram-se inseguras e perplexas diante da vida.

DUAS FACES - Além disso, o nome Malu foi escolhido pela própria Regina, como símbolo de um ciclo de sua vida pessoal e artística que ela acredita encerrado. Também se chamava Malu sua personagem de A Deusa Vencida, de 1965, sua estréia na televisăo, uma jovem que sofria de leucemia e passava a novela inteira se despedindo da vida e dos outros. Catorze anos depois, as duas Malu, na pele da mesma atriz, podem ser vistas como as duas faces de uma mesma moeda - a da "Namoradinha do Brasil" e da crença na eterna felicidade prometida pelo casamento, de um lado, e a da defensora da democracia e da integridade individual, de outro. É, ainda, a oposiçăo da criatura forjada nos tempos do "milagre" e da censura a esta outra, fruto de desilusőes. Por fim, a mesma Globo que construiu a Regina-Namoradinha procura agora esculpir a Regina-Descasada. "A Malu de hoje é melhor que eu", diz Regina. "Está na minha frente."

Está na frente, também, segundo desconfiam seus próprios autores, da imensa maioria de espectadoras, descasadas ou năo, que a cada semana se sentam diante do aparelho de TV mais ou menos na esperança de quem se senta diante de um espelho. O número de mulheres separadas no Brasil - cerca de 600.000, segundo o único e já ancestral levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, de 1970 - é bastante grande para garantir ao programa uma audięncia significativa. Mas é também significativo que seus dramas e suas aspiraçőes apenas circunstancialmente nasçam de fato de serem descasadas. Malu, na verdade, năo se esgota na perda de um marido. Por isso, assunto năo vai faltar ao ainda desunido grupo de autores se eles optarem por um programa estritamente realista, ou até naturalista, se quiserem.

UMA E OUTRA - Toda essa trama que encaminha a vida das descasadas brasileiras encarna-se, de maneira exemplar, na Malu das quintas-feiras, ou mais exatamente em Regina Duarte - a moça de quem se espera exatamente aquilo que ela faz. Regina năo é uma atriz, é uma estrela, isto é, alguém com quem o público se identifica a um tal ponto em que toda noçăo de realidade e fantasia se esvai. Além disso, Regina Duarte - com suas 300 cartas de făs por semana - é realmente tudo que finge ser em cena. Filha de pais pobres do interior de Săo Paulo (nascida em Franca, criada em Campinas), mudou-se para a capital. Casou-se, por amor, com um namorado dos tempos de colégio em Campinas, Marcos, com quem teve dois filhos, André, de 8 anos, e Gabriela, de 5. Vivia sorrindo e bem disposta.

Nas emissoras de TV, onde procurava trabalho sempre em companhia da măe, diziam: "É boazinha, meiga, năo dá trabalho, é boa atriz". Uma de suas professoras de dicçăo comentou: "Vocę fala como se estivesse pedindo desculpas".

Aos 15 anos, escreveu em seu diário: "Hei de ser famosa, tăo conhecida que năo haverá ninguém neste país capaz de dizer: 'Eu nunca ouvi falar nela'". Walter Avancini, que a chamou para A Deusa Vencida, animou-se ao ver Regina fazendo o anúncio de uma geladeira, revirando os olhos ora para o namorado, ora para o refrigerador. Sua virtude? "Sempre disseram que eu era muito simpática", diz ela.

Estudou balé, que odiava mas praticava por se constituir numa prova de virtude. Até os 12 anos queria ser menino, pois achava o mundo dos homens menos repressivo que o das mulheres. Jogava futebol e chegou a ser uma fanática religiosa, certa de que Nossa Senhora de Fátima apareceria também para ela. A "Namoradinha do Brasil" surgiu com a novela Minha Doce Namorada, no papel de Patrícia, muito igual ŕ própria Regina da época: "Eu acreditava que tudo só tinha que melhorar. Estava preocupada em amar e ser amada, ser feliz no casamento, ter uma casa, marido e um automóvel".

PARA QUALQUER HORA - Hoje, Regina Duarte acredita mais na apariçăo de um disco voador, fez campanha política pelo MDB nas últimas eleiçőes, descasou, tomou raiva de seu papel - de atriz e de mulher. "Era tudo coisa já vista, já feita", diz ela. "Os autores escreviam sempre papéis adequados ŕ minha imagem. Tinha a impressăo de um trator passando em cima de mim." Animou-se a posar nua, ou quase, para a revista Playboy, foi procurar um analista e lembra do tempo em que estava grávida pela segunda vez: "Foi quando tudo começou. A gravidez foi para mim um processo revolucionário. Eu comecei a me perguntar a respeito de tudo o que fazia, do que eu tinha a oferecer a meus filhos". Năo abriu a boca sobre a censura durante muitos anos, mas um dia abandonou as luzes dos refletores da Globo, mostrou as pernas no show Regina Mon Amour e subiu ao palco para ser Janete, a prostituta da peça Réveillon, de Flávio Márcio. Foi quando provou que veio para ficar: invertendo totalmente sua imagem, Regina Duarte ficou em cartaz mais de um ano - mais que uma novela de sucesso - e como produtora do espetáculo conseguiu ganhar mais dinheiro que na TV.

Hoje, nem socialista nem religiosa, mas "apenas atriz", como gosta de dizer, Regina Duarte tem uma história pessoal tăo rica que um escritor de TV năo encontraria nenhuma dificuldade em adaptar suas aventuras tanto para o horário das 6 da tarde quanto para algum - ou muitos - episódios de Malu. "Amamentei meus filhos e foi maravilhoso", diz a Malu das 6 da tarde, em sua casa no bairro paulistano da Lapa, sobre sua atual campanha a favor da alimentaçăo natural das crianças. "Eu era muito reprimida, hoje tenho minha sensualidade sob controle", repete uma outra Regina, versăo 10 da noite, uma mulher ainda descasada lembrando sem inibiçőes que só teve seu primeiro orgasmo um ano depois do casamento. Sobre ela mesma, em qualquer horário, diz, sem empostaçăo nem drama: "Năo sei. É uma loucura".

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