Friday, April 2, 2010

1979 - Balanço da Programação

Jornal do Brasil
30/12/1979
Paulo Maia
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A FALĘNCIA DAS ALTERNATIVAS


O ano de 1979 foi o da falęncia dos projetos alternativos ŕ maciça audięncia da Rede Globo de Televisăo. Em dezembro, pouco antes de se encerrar a década, Walter Avancini fez as malas e deixou o Sumaré com uma programaçăo confiável do ponto-de-vista da qualidade em muitos de seus setores, mas sem qualquer resposta mais efetiva em termos quantitativos de audięncia No mesmo dia, coincidentemente, Carlos Augusto de Oliveira, o Guga, irmăo de Boni, se despedia de seus planos, deixando o Morumbi com algumas telenovelas e uma participaçăo maior da produçăo nacional numa rede nascente.

De Avancini restou o grande espetáculo do ano na Tupi, que foi o Festival de Música Popular Brasileira, levado ao ar no fim do ano. Sua maior vantagem foi a de levar a música para o horário nobre, antes congestionado apenas de novelas. Sua desvantagem fundamental a que consagrou sua desimportância, foi a pouca representatividade do material apresentado ao telespectador. Quem viu as quatro noites sabe muito bem que ali năo se apresentou os matérias mais representativo da produçăo da musica popular brasileira no último ano da década de 70, principalmente quando se sabe que 1979 foi um ano particularmente rico em termos de quantidade de lançamentos, embora năo tenha sido o esperado momento revolucionário, capaz de virar a MPB de pernas para o ar.

De Guga restou, pelo menos, o melhor programa de televisăo do ano. O Grupo Viramundo adaptou o poema Cobra Norato, de Raul Bopp, clássico da literatura modernista brasileira, para o teatro de marionetes. Sua versăo, particularmente rica, foi filmada para a televisăo, num trabalho incomparável do produtor Barros Freire Pode-se dizer que Cobra Norato representou, no fim da década para a televisăo brasileira o que Macunaíma tal como adotado pelo Grupo Pau Brasil e pelo encenador Antunes Filho significou para o teatro. Além disso num momento de incertezas causadas principalmente pelos surpreendentes índices de audięncia alcançados pelos filmes embolorados da TV Record, destaque negativo maior do ano que termina, Guga soube valorizar o profissional brasileiro investindo numa produçăo própria e criando uma imagem diferente para a Rede Bandeirantes, antes privilegiando apenas seu telecine. Resta saber se tais produçőes compensarăo e frutificarăo. Isso só o futuro dirá. E como dizia o ex-Ministro Armando Falcăo, "o futuro a Deus pertence".

Ocioso é destacar mais um ano de predomínio da Rede Globo nas listagens do IBOPE. A telenovela das 22 horas foi substituída pelas minisséries nacionais e, se elas năo corresponderam ŕs perspectivas mais otimistas, năo deixaram de alimentar argumentos ufanistas Aplauso morreu porque a média de suas apresentaçőes năo correspondeu ŕ critica nem ao público, oscilando da qualidade de produçőes como A Rainha do Agreste. de Ferreira Gullar, ao baixo nível de encenaçőes como a que pretendia homenagear o grande escritor Joăo Guimarăes Rosa. As outras fizeram por merecer isso.

A decepçăo do ano fica por conta da novela Os Gigantes, um retumbante elogio ŕ chatice escrito por um bom autor e interpretado por um bom elenco. Năo fosse este o ano do telejornal semanal Abertura, que reuniu o maçante grupo de comentaristas da televisăo brasileira durante toda sua existęncia, Lauro Cesar Muniz e Dina Sfat năo teriam concorrentes em sua discussăo estéril sobre a eutanásia num país onde milhőes de pessoas morrem de fome diariamente

Este foi o ano da abertura política e, por isso, rimos as bandeiras despregadas com a impagável Salomé de Chico City, e o imbatível Dr Sardinha, do Planeta dos Homens. No telejornalismo, a televisăo brasileira demonstrou movimentaçăo, espalhando correspondentes por todas as capitais importantes do mundo e pondo repórteres no lugar dos apresentadores no Jornal da Globo, no fim da noite. Mas năo ganhou em dinamismo. Ao contrário, nem contratando comentaristas especializados - os grandes ausentes do telejornalismo brasileiro nos últimos anos e nas últimas décadas - esse jornal noturno evitou de ser o soporífero do ano. Por incrível que pareça também porque a Sinopse inteligente de Sebastiăo Nery saiu do ar, o melhor do telejornalismo brasileiro năo foi transmitido pelas grandes redes A honre coube a pobre TV Borborema - canal 9 de Campina Grande na Paraíba uma das mais modestas filhas da família associada. Trata-se do programa semanal Confidencial do repórter Cinco Maira.

Agora, mais do que nunca. convém rediscutir o papel das emissoras educativas estatais e a mudança de direçăo da TV Educativa - Canal 2 - do Rio, causada pela morte do Professor Gilson Amado, por todos lamentada por ensejar a abertura a tal debate.

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