Friday, April 2, 2010

1976 - Tupi na Berlinda

Jornal do Brasil
25/7/1976
Maria Helena Dutra
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O TEMPO PASSOU, SÓ QUE A TUPI NĂO VIU


Na tela da televisăo, um contrafeito Wilson Simonal canta canhestramente um bando de músicas brasileiras, por ele pontuadas com muitos "oh yeah", na frente de um painel que dói na vista pelo excesso de cores conflitantes. Sob a orientaçăo de Cayon Gadia, novo diretor dos musicais da Rede Tupi de Televisăo, especial de Simonal, transmitido na quinta-feira da semana passada, apresentou ainda um número histórico e apoteótico na televisăo brasileira. Com coreografia de Aladia Centenaro, pioneira dos balés televisados, dança-se, nada mais nada menos, que um imbróglio do primeiro movimento da Quinta Sinfonia de Beethoven, arranjada para marcha militar e interpretada num arremedo xinfrim das vinhetas do Fantástico.

Nos intervalos comerciais, a estaçăo anuncia Sílvio Santos, Mannix, um

venerando enlatado ancestral de Kojak e Clube dos Artistas, programa que está há 25 anos no ar com a dupla simpática e anódina formada por Ayrton e Lolita Rodrigues e o mesmo sistema de apresentar convidados quase sempre supérfluos e desnecessários. Ainda năo existem chamadas publicitárias, mas já se anunciou oficialmente que Chacrinha estreará no sábado, 7 de agosto, na mesma estaçăo revivendo a sua Discoteca, agora apenas um triste e nada espontâneo programa.

Para quem gosta de televisăo e sabe que ela tem recursos para poder se tornar um divertimento agradável e um meio de informaçăo necessário, nada pode ser mais triste do que assistir ŕ programaçăo atual da Rede Tupi de Televisăo e ser ameaçado pelas suas novas atraçőes. Sua linha de novelas já apresentou em tempos antigos despretensiosas narrativas populares bem trabalhadas; agora perdeu a ingenuidade e năo adquiriu nem técnica nem ritmo. Reduziu-se ao vazio convencional, em câmara lenta, com elenco sem motivaçăo e direçăo. Papai Coraçăo é debilóide, Apóstolos de Judas é uma paródia repleta de minorias étnicas que năo consegue reeditar os sucessos que portugueses e italianos já tiveram no canal com o mesmo autor, Geraldo Vietri. Xeque-Mate e folhetim maniqueísta de apoplético mau gosto, que maltrata até a esplęndida atriz Liliam Lemmertz com inacreditável peruca e extrema vilania. Para o futuro, anunciam uma versa cabocla dos Irmăos Karamazov, de Dostoievsky. Sem comentários.

Seu telejornalismo é limitado pela previsibilidade, pois normalmente năo passa de ilustraçăo de múltiplas cerimônias oficiais. Para o futuro, a única exceçăo nas ameaças: a esperança de um bom programa de debates intitulado Cartas na Mesa, possivelmente ŕs 11h da noite de terça-feira. A dúvida vai por conta da Censura, que impossibilitou a sua estréia há cerca de duas semanas.

Só que, infelizmente, este ameaçado programa é a única promessa de renovaçăo e inteligęncia dentro da desesperante programaçăo da segunda rede de estaçőes de televisăo do país. Sua linha de filmes de longa metragem é repetitiva como as das outras estaçőes e seus enlatados igualmente violentos e transferidos sistematicamente dos dias e horários previamente anunciados. Entre eles se destaca um seriado supostamente Inglęs chamado Jason King, que năo passa de constrangedora chanchada detetivesca de surpreendente pobreza de recursos de produçăo. Nas transmissőes esportivas seus locutores insistem nas gracinhas e na loquacidade e esquecem o jogo, e seu debate sobre futebol é segunda-feira quando tudo já foi dito, visto e comentado sobre as competiçőes, de domingo.

Mas é na linha de show e humor que mais se revela o anacronismo do enfoque e da empostaçăo de toda a programaçăo da Tupi. Suas duas produçőes cômicas, Sossega Leăo e Deu a Louca no Show, estăo datadas do princípio do século. Na primeira, agora exibida aos sábados e que vai se mudar para segunda-feira, é visível a intençăo de reeditar a fórmula da Família Trapo, de antológico sucesso nos tempos em que a Televisăo Record de Săo Paulo tinha elenco. Mas a exumaçăo é tăo destituída de graça que os competentes atores Felipe Carone e Nair Belo fazem pena com suas graças descabidas e ridículas. No segundo, ŕs quartas-feiras, fica a penosa impressăo de reconstituiçăo histórica porque seus participantes, de Paulo Celestino a Renato Corte Real, se limitam a repetir pela enésima vez os mesmos tipos e piadas que assolam, todos os canais de televisăo do Brasil há mais de 15 anos. No domingo, ficam Os Trapalhőes, ŕs vezes até divertido, mas sempre apenas uma contrafacçăo de um humor popular muito mais solto e criativo do que este que Renato Aragăo apresenta.

Para os musicais, restou a quinta-feira. Várias fórmulas se sucedem e nenhuma encontra alguma linguagem; formam, no máximo uma algaravia. Para os especiais escolhem Simonal, para a Grande Parada ficam com Cidinha Campos e irrelevantes perguntas e vários compositores e cantores, que rescendem a trabalho realizado rapidamente nos bastidores, e Isaac Karabtchewsky no seu persistente trabalho de rotular músicas bombásticas e grandiloqüentes como eruditas. De vez em quando surge o Brasil Som 76, agora sem apresentador fixo, depois que a Tupi despediu por telefone a perfeita cantora e digna profissional que é Elizabeth Cardoso. Atitude que năo melhorou em nada um programa que se vale unicamente dos méritos e talentos de suas ocasionais atraçőes.

Para o futuro, a linha de shows será completada com Chacrinha tentando reencontrar um público de hábitos de distraçăo bastante alterados, e Sílvio Santos, aos domingos, tentando também manter sua maratona ŕ cata de incautos que ainda acreditam em carnęs. Durante nove horas estará presente em dois canais - também no 11, de sua propriedade - forçando, exercendo todas as pressőes possíveis para manter viva sua máquina de exploraçăo da ingenuidade popular. É difícil dizer se conseguirá, mas se o passar do tempo năo muda com rapidez hábitos culturais arraigados, ele se sucede muito ligeiro no embaralhamento de valores da sociedade de consumo. Um dado muito importante no planejamento da programaçăo de uma estaçăo de televisăo e que parece ter sido inteiramente esquecido pela Rede Tupi na sua procura de fórmulas antigas para resolver problemas novos.

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