Thursday, April 29, 2010

1975 - Dias Gomes Protesta Censura de Roque Santeiro

Revista EX
1/9/1975
Autor: Dias Gomes
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A TELENOVELA É A ÚLTIMA TRINCHEIRA


O povo é meu parceiro. Um parceiro invisível, milhőes de olhos, de ouvidos, braços, que colaboram comigo durante a feitura de uma novela. Vocęs pesquisam, fazem perguntas a ele; eu tenho ele do meu lado, participando. Entăo, eu tenho a possibilidade de ter uma percepçăo um pouco diferente do que o povo é, do que o povo sente, do que o povo deseja, através de um laboratório que é a telenovela, que todo dia eu abro e vejo no ar.

Uma das coisas fascinantes da telenovela é poder fazer uma experięncia diária. Vocę tem um laboratório aberto todas as noites, no qual vocę faz a experięncia, e logo vocę tem a reaçăo e pode aproveitar esse resultado, ainda no decorrer da própria novela. A reaçăo é um troço novo, que se manifesta de uma maneira inteiramente nova.

Vocę cria determinadas personagens que passam a viver. O povo as trata como seres vivos. Eu ignoro o Ibope. Eu acho que um dado completo é a reaçăo popular. O que năo quer dizer que vocę tenha obrigaçăo de agradar ao popular. Por exemplo, no início da minha segunda novela eu achei que o público de tv se chocava muito com minha formaçăo brechtiana: năo tinha distanciamento suficiente para criticar. Entăo se eu me propunha a fazer crítica da realidade brasileira eu năo tinha platéia sensível, era uma platéia muito envolvida pela magia.

Entăo quando fiz Assim na Terra Como no Céu,eu invocava o tipo devida de Ipanema. E eu necessitava de uma platéia crítica: eu ia colocar criticamente um estilo de vida. Entăo imaginei o seguinte: uma heroína, vinda da Zona Norte, chegava em Ipanema e, quando estava prestes a se destruir encontra um padre, por ele se apaixona e volta a ser uma criatura dessas capazes de apaixonar qualquer espectador. Ela quer se libertar da barra pesada de Ipanema, casar - e aí a matam. A platéia passou a criticar a novela, "como é que o senhor mata uma moça pura, poderia até ser minha irmă, e conserva esse banqueiro porco, que vai casar com uma mocinha?" O pessoal passou a agredir a novela sem saber que, na verdade, estava assimilando aquilo que eu queria passar. Era urna prova de que eu estava enxergando as coisas. Eu tento levar o público a uma saudável tomada de conscięncia.

Eu acho o povo brasileiro um povo altamente desesperançado. Que procura algo em que se agarrar, nem que seja um mito, e encontrar saída para os seus problemas. Ele reage ŕ colocaçăo de seus problemas de uma maneira muito calorosa, muito emocional, mas reage também de uma maneira um tanto pessimista.

Tenho procurado abordar na tv uma temática brasileira, colocando os problemas do nosso povo, da nossa realidade, o tanto quanto a censura e a profundidade da televisăo me permitem. E tem sido esse o meu trabalho há 6 anos. Năo me arrependo absolutamente, acho que tem sido uma experięncia altamente gratificante para mim.

A proposta de Roque Santeiro era justamente esta: encontrar uma maneira de contar autenticamente brasileira. Eu achava que geralmente a disposiçăo das cenas na telenovela era plasmada na influęncia do cinema americano. Os atores também, na soluçăo de suas cenas quase sempre adotavam padrőes. Os diretores do mesmo modo partiam de grandes filmes. Entăo eu propunha uma lavagem cerebral em mim e no texto, ra começo de conversa, e depois na direçăo; e que os atores também procurassem um comportamento autenticamente brasileiro.

Por exemplo, quando houvesse uma briga, que năo fosse uma briga como no cinema americano. Brasileiro geralmente năo briga de soco. Geralmente, quando se vai fazer uma cena de luta, a maneira que o sul-americano consagrou é a americana: o boxe.

Brasileiro briga com pontapé, rolando no chăo, metendo o dedo no olho; é uma briga livre, a nossa. O nosso idioma também tem o seu som, é muito onomatopaico, principalmente no Nordeste. E năo se transmite porque os atores estăo muito preocupados com determinados padrőes de postura, de inflexăo de voz.

Tudo isso consistia em encontrar uma linguagem que năo fosse calcada no cinema, que fosse alguma coisa que partisse da nossa maneira de pensar; a gente mesmo năo sabia onde ia dar, mas que fosse um ponto de partida. Daí eu ter buscado os cantores populares, os mitos populares para ser o background de Roque Santeiro. É uma história popular cantada de maneira como a cantaria um cantador nordestino. É difícil de explicar; é uma coisa que a gente tem de transmitir para elaborar. E aí vocę sentir a reaçăo popular de calor ou de frieza.

Usando a realidade brasileira, năo posso menosprezar qualquer elemento. Agora vocę me pergunta: "Por que tem sempre padre na tua realidade?" Porque sempre tem padre na sua vida, em qualquer parte que vocę vá tem sempre. O padre é a figura da História do Brasil, desde a Primeira Missa, que foi rezada por eles. O padre numa cidade do interior é uma figura importante. Săo elementos de determinada realidade que eu procuro analisar.

Năo procuro soluçőes; năo compete ao teatro apresentar soluçőes. A funçăo do teatro é conscientizar, mais nada. Do teatro năo sai revoluçăo, nem da televisăo. O máximo que podemos pretender é levar ao povo a conscięncia de seus problemas. Mas quais săo esses problemas, nós năo vamos botar na tv. É um dado histórico.

Eu fui pra televisăo por motivos praticamente econômicos. Estava impossível continuar fazendo teatro.° teatro sofreu a partir de 64 um estrangulamento cultural, econômico e político. Eu teria que optar; fazer um teatrinho dito político, abandonar a minha linha de pesquisa; ou entăo procurar outro meio de vida. O teatro é considerado năo sei por que como uma fonte de subversăo, capaz de abalar os pilares do regime. É ridículo! Ridículo que nosso teatro de elite seja considerado subversivo. Embora a minha geraçăo de dramaturgos tenha apontado na década de 50 uma bandeira de teatro popular e político, na verdade o nosso teatro nunca chegou a ser político, quanto mais popular. Um teatro popular no palco; e na platéia a elite!

Dessa contradiçăo palco-platéia nasceu a minha frustraçăo e o fim total de qualquer propósito. Para que nossas propostas pudessem caminhar, seria preciso que o governo se interessasse e tivesse a cultura como uma de suas metas. Mas nós jamais tivemos um governo desse tipo.

Ŕs vezes, os políticos nos tratam bem. Somos os homens que manipulam a opiniăo pública. Mas atitudes concretas absolutamente nenhuma. Se năo há em relaçăo a artes mais elitistas como teatro, literatura, cinema, năo deveria haver evidentemente com uma forma de arte popular. Nunca a cultura foi meta do governo. O único homem que falou de cultura neste país era louco: Jânio Quadros.


Entăo, era inviável a minha profissăo de dramaturgo. Daí eu ter ido para a televisăo. Estava no meu campo de trabalho, encarei assim. E já que tinha de fazer televisăo, decidi suar a camisa, como faço no futebol de praia. Foi essa a minha atitude inicial. Eu sou obrigado a escrever 20 laudas por dia. O trabalho é 95% braçal. Quando termino uma novela pareço um trapo, pois passei 7, 8 meses escrevendo 20 laudas por dia, impedido de ir a teatro, cinema, ver amigos - é realmente desumano. Mas năo tem jeito, năo depende da direçăo da Globo, porque telenovela é um gęnero que inventamos e que só pode ser feito dessa maneira.

Nessa profissăo suicida que é escrever telenovela (a censura é pior que os incidentes da produçăo; o autor torna-se um alvo de tensőes, tanto é que Jorge Andrade escreveu uma novela só; e Lauro César Muniz, que escreveu Escalada, do meio pro fim teve que escrever com um médico na cabeceira), eu descobri a televisăo com todos os preconceitos que levam para ela, numa atitude, reacionária que os intelectuais tinham e alguns ainda tęm. Tenho um amigo artista plástico, que diz:

- Nunca tive um aparelho de tv, nem nunca terei, jamais deixarei entrar na minha casa.

Um ótimo sujeito, grande amigo, mas com uma posiçăo altamente elitista. Eu sinto nos intelectuais anti-tv uma atitude ultrapassada; intelectuais com atitudes - classificados de burros. Era moda dizer que se era contra a televisăo, no Brasil. Os verdadeiros intelectuais já entenderam; só persistem os subintelectuais. Ignorar a tv hoje é năo poder interpretar o sistema. Há toda uma geraçăo que está aí se desenvolvendo, essencialmente formada pela televisăo. A minha atitude diante da televisăo é de seriedade. A mesma com que eu fazia teatro. E descobri, de repente, que tinha nas măos um poderoso meio de expressăo e que todos os preconceitos contra ela eram idiotas.

Mas diante da tv eu tenho que me exercitar, porque descobri, que ela é a forma de expressăo do nosso tempo. A televisăo nivela tudo. E terrível e violenta, enquanto está sendo visto, e extremamente precária depois que passa. Como é o nosso tempo. Nós vemos ídolos serem feitos da noite ara o dia. Aquilo que nos tempos antigos era um processo de um século, hoje é feito em 2 ou 3 anos. Hoje há um tremendo esforço, para se conseguir muito pouco -se vocę considerar o fator tempo, a duraçăo da mensagem (năo o fator impacto, que é o maior que qualquer arte jamais pode pretender).

E a gente sempre tem medo de pronunciar a palavra arte. Essa é uma atitude de espanto diante de uma coisa nova. Ainda há uma atitude de espanto diante da televisăo! Como houve espanto em relaçăo ao cinema. Até os anos 20, ninguém chamava o cinema de arte! Nem Lumičre pôde prever que o cinema seria chamado de arte. E todos esses preconceitos que existiram contra o cinema, existem hoje com a televisăo.

Ela é tudo do nosso tempo. Ao mesmo tempo uma coisa poderosa, que atinge milhőes em determinado momento - uma associaçăo assim de poder e fraqueza ao mesmo tempo. Vocę pode assistir um combate em algum país, ver pessoas morrendo naquele mesmo momento diante de vocę. Vocę tem este poder divino de ser onipresente através da sua pequena janela, a tv. E ao mesmo tempo vocę é terrivelmente impotente porque năo pode fazer nada por aquele pais. Esta sensaçăo de potęncia e impotęncia é própria de nosso tempo. O mundo pode ser destruído num apertar de botăo.

Quer dizer, nós adquirimos o poder dos deuses e a fraqueza imensa da criatura humana. Năo poder fazer nada, diante do sistema.

A telenovela, eu acho que foi a única coisa que a televisăo brasileira inventou -o resto é cópia do rádio e da televisăo importada. Esta característica da telenovela, de arte que está acontecendo e que até mesmo ignora o que vai acontecer, todos os fatores, a censura, a morte de um ator, uma atriz que engravida - esta característica criou uma fórmula nova de expressăo; de todas, a mais aberta: é talvez a única arte realmente aberta que existe. Na medida em que vocę executa recebendo a colaboraçăo de uma platéia imensa, recebendo colaboraçőes dos próprios artistas, realizando uma arte que năo aconteceu, mas está acontecendo - porque ela acontece dia a dia, e nesse dia a dia a reaçăo do público influi nos acontecimentos, na vida cotidiana, na soluçăo. Porque ela entra dentro da sua casa, se intromete na sua vida, quase que violenta a sua própria vontade, te obriga a ver. É gratuita, mas também năo pede licença.

A telenovela vem da Argentina, Cuba, México, que săo os países que inventaram a novela radiofônica. O que existe no Brasil é uma coisa completamente diferente. A telenovela transformou-se, desligou-se quase de suas origens - năo todas as telenovelas. As da Globo tęm estas características. A influęncia do cinema americano e europeu, do romance moderno, e histórias mais complexas com um aprofundamento maior de personagens, enredos e subenredos. Entăo é esse produto que já foge ŕs características lineares. É uma outra coisa, que está muito mais aparentada ao cinema e ao romance moderno que ŕs suas origens.

Por que acontece isso? Acho que fundamentalmente pela falęncia do teatro como arte de massas, embora tenhamos levantado aquela bandeira do teatro popular; e o cinema transformou-se num cinema hermético, numa total incomunicaçăo.

Acho muito cedo fazer um balanço da influęncia da tv sobre outros tipos de arte. Também é uma característica do nosso tempo: exigir as coisas num espaço de tempo muito pequeno. Pois já se pergunta sobre o fim das telenovelas! O que é uma coisa altamente ridícula. O teatro, que tem mais de 2 mil anos; e perguntar sobre o fim do teatro eu já acho uma coisa idiota. Entăo, uma coisa que começou ontem, onde ainda estamos engatinhando, procurando a linguagem, e há os idiotas que escrevem para jornal: "Há sintomas de que a novela vai terminar." Esses caras que ficam querendo analisar uma novela por padrőes literários, é uma atitude inteiramente furada. Em 1ş lugar eles precisam encontrar novos padrőes estéticos.

A novela resolve o problema de toda a faixa de horário diário. Quando vocę faz um programa, vocę resolve o problema de um dia da semana. A novela resolve uma faixa inteira, vocę ganha uma sustentaçăo do público; em termos de estratégia está certo. E a novela brasileira está sendo exportada. Irmăos Coragem foi lançada no México năo como novela: foi lançada como uma série americana, diária, ŕs 9 h da noite, numa emissora que estavam 5ş lugar de audięncia. E o que aconteceu? A emissora passou para o 1° lugar naquele horário. Foi uma revoluçăo.

Causa muita estranheza aos americanos, que seus enlatados năo consigam entrar no horário nobre da programaçăo brasileira. Li unia vez um artigo que analisava o que havia no mundo todo, e o articulista constatava que no mundo todo a programaçăo era parecida, toda importada da América. Estranhamente, no Brasil, havia ŕs 8 h um seriado brasileiro; ŕs 9, um programa de humorismo brasileiro, ŕs 10, Bandeira 2 (de Dias Gomes - NR). Em todos os outros países, a năo ser onde as televisőes săo estatais, os horários nobres exibem a programaçăo americana.

A telenovela foi a única trincheira que nós conseguimos, a única barricada que conseguimos levantar, contra a invasăo dos enfadados amerianos. Entăo, quando os pseudo-intelectuais atacam a telenovela, torcem pelo fim da telenovela, estăo sendo profundamente antibrasileiros, antipopulares, antiintelectuais. É realmente a única trincheira. Năo houvesse a telenovela, e os horários das 6 ŕs 10 estariam importando para nós uma cultura que năo é a nossa, deformando a cultura brasileira. E nós estaríamos também mandando royalties para fora. Estamos criando campo de trabalho, de experimentaçăo brasileira.

A Globo começou a industrializaçăo da tv brasileira, que exige dos empregados, evidentemente, o máximo - como toda indústria. Ela é uma empresa altamente capitalista. As pessoas que manuseiam os aparelhos, os tapes da Rede Globo, săo técnicos feitos há pouco tempo. Săo jovens, feitos aqui no Brasil, que erram, que tęm know-how precário e evidentemente quando já erros, devem expedir seus memorandos.

Se eu tenho de escrever 20 laudas por dia, o ator também tem de decorar as 20 laudas. E o diretor tem que gravar estas 20 laudas. Entăo, a desumanidade no meu trabalho existe em relaçăo ao diretor, em relaçăo aos técnicos. Agora, isso é porque a gente inventou um troço como a telenovela, a gente inventou uma coisa que tem o seu lado fascinante, o fascinante de ser novo; mas tem o negativo de exigir um tipo de trabalho que realmente năo está de acordo com o trabalho intelectual a que estamos habituados. Mas năo tem saída. A saída destrói o meio.

A crise da censura? Năo pode ser analisada isoladamente. Este fato atinge teatro, cinema, muitas peças foram proibidas. A crise, realmente, năo é da telenovela. A crise é da cultura brasileira.

(Depoimento a Joăo Antônio, Hamilton Almeida Filho e Paulo Patarra).

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