Monday, April 5, 2010

1971 - Dick Cavett

Jornal do Brasil
11/6/1971
Valério Andrade
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O SUCESSO AMERICANO



Com 34 anos, faturando cerca de US$ 15 mil (Cr$ 78 mil) semanais, Dick Cavett é a mais recente imagem de sucesso da televisăo americana. Com uma audięncia calculada em 3.400 mil telespectadores, seu programa vai ao ar cinco vezes por semana, no horário noturno. Embora "ainda esteja pressionando o nariz contra a vitrina do show business, ávido para falar sobre o seu próprio programa", Dick Cavett acaba de ser consagrado com uma reportagem de capa no Time.

A ESCALADA

A carreira de Dick Cavett foi mais ou menos igual ŕs de tantos outros artistas que conseguiram concretizar o sonho americano. Nascido em Nebraska, filho único de um professor de Literatura Inglesa, destacou-se desde cedo por sua voz ressonante e grave: "Tenho a impressăo de que cerca de 90% de minha vida tęm sido modelados por minha voz, tanto como um estorvo como uma vantagem. Sempre houve uma terrível incongruęncia dessa voz grave saindo deste corpo minúsculo. Quando cheguei ao quarto ano, minha voz soava exatamente como a de meu pai ao telefone."

Desde jovem, Dick Cavett deixou-se seduzir pelo mundo da fantasia e almejou privar da intimidade das celebridades. Certa ocasiăo quando Bob Hope apresentou-se em Lincoln, Dick conseguiu abordá-lo no camarim: "Ótimo show Bob.", "Obrigado, meu filho." - respondeu-lhe laconicamente o comediante.

Diplomou-se em Yale, participou de encenaçőes teatrais, especializou-se em números de mágica, partiu (em 1958) rumo ŕ TV. Numa sociedade altamente competitiva, năo é fácil conseguir-se uma chance, e só os mais fortes resistem aos sucessivos năo. Nessa época, em que vivia rondando as agęncias de artistas Dick Cavett confessa que por vezes, se tornava tăo deprimido que se recusava a sair da cama durante dias.

Mas năo ficou na cama. Tornou-se piadista profissional. Trabalhou para Jerry Lewis em Hollywood. Năo gostou. Voltou para Nova Iorque. Escreveu piadas para Jack Paar. Foi ele quem bolou a apresentaçăo que o animador fez de Jayne Mansfield no vídeo: "E aqui estăo eles!... Jayne Mansfield! "

NO TOPO

Hoje Dick Cavett tem uma equipe fixa de 29 pessoas trabalhando para ele. Năo precisa maís ir ao camarim puxar conversa com alguma celebridade. Elas é que văo ao seu encontro.

O forte do Dick Cavett Show săo as entrevistas. Ao contrário do que ocorre aqui, em que entrevistado e entrevistador encontram-se acidentalmente no vídeo, esse trabalho exige prévia programaçăo por parte do staff. Uma série de fichas, contendo informaçőes sobre os candidatos, estăo devidamente catalogadas no seu escritório. Após a triagem e o levantamento de cada dossię, o produtor-executivo entrega a Dick tudo o que ele precisa saber sobre o convidado da noite.


Noel Coward, Fred Astaire, Robert Mibchum, Rock Hudson, Jack Benny foram algumas entre as muitas personalidades do show business que passaram perante as câmaras do Dick Cavett Show. O programa é planejado durante o dia gravado a partir dias 6 da tarde, levado ao ar ŕs 11h30m. Nessa altura da noite Dick já se acha na cama diante de um aparelho de TV, assistindo ao seu próprio show.

ESTILO IMPREVISÍVEL

Em termos de TV, o Dick Cavett Show năo apresenta nenhuma inovaçăo, podendo mesmo ser taxado de quadrado. O segredo do ęxito das entrevistas repousa na seleçăo dos candidatos e na maneira como Dick conduz os encontros. As vezes - como ocorreu entre o negro Jim Brown e o racista Lester Maddox (da Geórgia) - o estúdio ameaça transformar-se num ringue de boxe. De acordo com o Time, "Cavett dá em seus convidados um banho de calor, inteligęncia e raciocínio rápido. Seu método de pensar assemelha-se a uma lâmpada Grimes num carro de radiopatrulha, girando incessantemente, dardejando lampejos e fazendo observaçőes de toda espécie sobre o assunto em questăo."

Certa ocasiăo, após uma de suas desabusadas apariçőes no vídeo, o escritor Norman Mailer, ao sair de cena, deixou cair um livro. Cavett foi ŕ revanche: "Ei, Norman, vocę deixou cair o seu exemplar de Dale Carnegie."

Num debate sobre a invasăo do Laos, o Time anotou uma observaçăo que exprime o senso de humor do homem da capa: "Năo é verdade que estejamos alargando a guerra, estamos apenas estreitando a Asia."


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