Friday, April 2, 2010

1970 - Gracinha de Sofá...

Jornal do Brasil
23/12/1970
Valério Andrade
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SALA DE VISITAS


O grau de exigęncia do telespectador paulista deve ser bem menor do que o do carioca. O ęxito e a permanęncia de um programa como o Hebe Camargo Show contribuem ativamente para que tal suspeita logo se transforme em certeza.

Os programas produzidos em Săo Paulo, de um modo geral, refletem um comodismo decorrente da falta de concorręncia ou da ausęncia de reaçăo do público. De outra forma, năo haveria explicaçăo razoável e racional para o anormal sucesso da maratona dominical de Sílvio Santos que, lá do seu palco, consegue parar Săo Paulo durante oito horas.

A ANFITRIOA

D. Hebe Camargo poderia, com justiça e sem favor algum, ser eleita a anfitrioa da televisăo brasileira de 1970.

É difícil alguém descobrir programa mais convencional e mais quadrado em termos de concepçăo do que o Show da Hebe, cujo videotape é apresentado, via Canal 13, domingo ŕ noite no Rio.

Existe uma identificaçăo perfeita entre o espírito do programa e a personalidade visual da animadora. Plantada no palco, decorado e enfeitado como uma sala de visitas, Hebe recebe os seus convidados ante uma platéia que parece vę-la como o símbolo máximo da classe média paulistana.

A MAGIA DO RISO

Nos 10 mandamentos selecionados por Dale Carnagie, no seu famoso manual sobre a arte de conquistar pessoas e vencer na vida sem fazer muita força, o riso ocupa lugar de destaque. Mas ele adverte aos aspirantes ao sucesso de que o riso deve ser espontâneo, pois, do contrário, o indivíduo terminará sua carreira como vendedor de dentifrícios, meta obviamente modesta para quem pretende conviver com os Rockefellers.

No Brasil, contudo, o riso já provou que pode fazer milagres no vídeo. Sílvio Santos, enquanto ri, enriquece, e Hebe parece rir ŕ toa para năo perder a audięncia.

Se tudo tem um limite, o riso também deve ter. Se Hebe Camargo exibisse os 52 tapes do ano, veria, com alguma surpresa, que já ultrapassou há muito o limite do riso e da autenticidade.

A MUDANÇA EXTERIOR

Todo programa é forçado a apresentar eventualmente alguma aparente modificaçăo. Mesmo o de Hebe Camargo năo poderia fugir a tal imposiçăo. O telespectador vigilante certamente já observou que a produçăo andou mexendo no programa.

A estrutura continuou inalterável, sua imobilidade cęnica permanece intocável, mas, a bem da verdade devemos registrar que os carpinteiros entraram em açăo, modificando cenário montado no palco da Recorde...

Em relaçăo ŕ anfitrioa, que também cultiva a imagem da boa fada no meio artístico, pode-se acrescentar que ela mudou o penteado antiga e aparentemente deixou de usar laqué. Ah', tem mais: também retirou da sala de visitas o seu retrato gigante.

E o estilo? Bom, este năo sofreu nenhuma alteraçăo: "Ai, gente, vocęs năo imaginam como estou contente, vamos receber em nosso auditório uma de nossas maiores cantoras."

Ou entăo: "Ah, Evinha, como gostaria de ter uma filhinha como vocę, tăo bonitinha, tăo meiguinha, com uma vozinha tăo rouquinha."

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