Thursday, April 8, 2010

1969 - 17 Pobres Anos de TV Educativa

Jornal do Brasil
13/10/1969
---------------------



TV EDUCATIVA SE ARRASTA COM SEU PROBLEMAS
Introduzida no Brasil há 17 anos para suprir as deficięncias de um ensino tradicional e lento, a TV Educativa só encontrou dificuldades para se manter. Em luta permanente contra a escassez de recursos, jamais terá resultados satisfatórios se continuar no mesmo esquema, segundo afirmam seus organizadores.

A televisăo como veículo de educaçăo ainda é subestimada pelas autoridades do pais, que parecem năo acreditar muito em sua eficięncia. As verbas săo difíceis, a concessăo de canais específicos esbarra numa série de burocracias. As dotaçőes orçamentárias săo deficientes e no Rio os programas educativos săo transmitidos dentro de horário considerado inconveniente para os que deles necessitam.

DIFICULDADES

A verdadeira fascinaçăo que o brasileiro tem pelos meios de comunicaçăo - há sempre um rádio de pilha ao pé de um ouvido e uma antena de televisăo mal equilibrada em cima de um barraco - deu aos iniciadores da TV Educativa no Brasil a impressăo inicial de que as coisas seriam bem fáceis. Essa atitude receptiva do povo estimulou a idéia de utilizar a televisăo como instrumento para ajudar a remover as barreiras que até entăo impediam o desenvolvimento educacional do país.

A primeira tentativa de se instalar uma estaçăo de TV Educativa no país ocorreu no Rio em 1952. Até 1960 se registram experięncias esparsas, através de programas de natureza cultural ou educativa e, mesmo assim, apenas nos grandes centros. Foi a partir dessa data que a TV Educativa tomou mesmo o seu primeiro grande impulso para tentar solucionar as deficięncias do ensino tradicional e lento do país.

Desde entăo - ao lado de algumas vitórias, como a criaçăo da Fundaçăo Centro Brasileiro de TV Educativa - a educaçăo pela televisăo vem esbarrando numa série de dificuldades, en. que o denominador comum é sempre a falta de recursos suficientes.

Falta de visăo

O Rio até hoje năo conseguiu um canal específico para a TV Educativa. Os programas culturais, essencialmente didáticos, săo transmitidos pela televisăo comercial e submetidos ŕs preferęncias de diretores e patrocinadores.

O horário em que esses programas săo transmitidos é o mais inconveniente possível, todos eles na parte da tarde, quando os interessados estăo em seu trabalho. As possibilidades de o Rio vir a conseguir um canal dedicado apenas ŕ educaçăo, didática ou năo, săo muito remotas, segundo os técnicos da Fundaçăo Centro Brasileiro de TV Educativa.

A causa que impede a Guanabara de possuir um canal eminentemente educativo é o fato de ela năo possuir nenhuma reserva, uma vez que quando esse tipo de televisăo foi criado, todos os canais já estavam outorgados. Săo Paulo, que se encontrava na mesma situaçăo, resolveu o problema de maneira eficiente. Entrou em acordo com o Canal 2 (comercial) e transformou-o em canal-educativo. O Rio năo pode contar com esse esquema porque todos os canais cariocas já estăo reservados.

Na Guanabara o que existe săo programas educativos realizados e emissoras comerciais. Săo basicamente te didáticos (madureza, admissăo e alfabetizaçăo) .

OS PRIVILEGIADOS

Săo Paulo, Pernambuco, R. G. do Sul, Bahia, Goiás, Amazonas e Ceará săo os únicos Estados que possuem canais essencialmente educativos. Ŕ exceçăo de Săo Paulo - que possua~ melhores instalaçőes da América do Sul - os demais Estados mal conseguem manter os programas. Em alguns deles existe o canal, mas năo há equipamento nem dinheiro par sua manutençăo.

TV Educativa de Săo Paulo e a de Recife săo mantidas por verbas estaduais, sendo que a de Săo Paulo ainda é apoiada financeiramente pela Fundaçăo Anchieta, Centro Paulista de Radio e TV Educativa. Em Recife a TV Educativa ocupa o Canal 11 e b‘stante conhecida como TV-Universitária.

Salvador - Apesar de já ter o canal, ainda está comprando equipamentos. Depende de verbas estaduais e luta bastante contra a falta de recursos. Há muitos planos, alguns engavetados, mas a escassez de verbas impede que o trabalho vá para a frente. Há uma prévia de gastos de NCr$ 3 milhőes que somente serăo aplicados na medida em que forem escolhidas boas programaçőes.

Porto Alegre - Possui o Canal 7, da Universidade de Santa Maria. É mantida pela Secretaria de Educaçăo do Estado e pelo auxílios federais. Embora năo seja a das mais atingidas pela falta de recursos, ainda năo conseguiu o mesmo estágio da TV Educativa de Săo Paulo.

Goiânia - Possui apenas um canal e seu funcionamento está ainda na fase de projeto. Sofre bastante com a falta de recursos. Năo possui técnicos especializados.

Manaus - Ainda tem problemas idęnticos ao de Goiânia. mas suas perspectivas săo bem mais animadoras. Assim que entrar no ar, a TV Educativa de Amazonas lançará um raio de transmissăo de 200 quilômetros, cobrindo toda a microrregiăo n.ş 7, isto é, Manaus, Careiro, Itacoatiara, Manacapuru, Nova Olinda do Norte e Silves, ou seja 42% da populaçăo ao Estado.

Está programada a instalaçăo de 500 telepostos nessa área, onde o ensino será orientado com cursos de alfabetizaçăo, madureza, utilidade prática, culinária, orientaçăo técnica aos lavradores e mesas-redondas sobre a Amazônia.

A segunda etapa da TV Educativa prevę a penetraçăo da sua imagem em toda a Amazônia, através de estaçőes repetidoras que deverăo ser instaladas em Belterra, no Pará, para cobrir Santarém, Parintins, Humaitá, Maués, e pequenas cidades, e em Pôrto Velho para cobrir Rondônia. No Rio Branco, para cobrir o Estado do Acre; em Benjamin Constant para atender toda a área até Tefé e, finalmente, o pico da Neblina para atender a todo o Território de Roraima.

AUXÍLIOS EXTERNOS

O que realmente supre as dificuldades que as TVs Educativas encontram para se instalar no país e a ajuda externa, năo em forma de dinheiro mas de técnicos especializados. Agora mesmo a UNESCO tem um de seus melhores elementos percorrendo vários Estados brasileiros, visitando as Tvs Educativas, conversando com seus responsáveis, a fim de sentir de perto o problema e apresentar sugestőes.

A grande dificuldade é a de levar a educaçăo a lugares ande năo haja sequer energia elétrica, muito menos televisăo ou rádio. Surge entăo a necessidade de o Estado adquirir os aparelhos e instituir os centro comunitários, forçando a populaçăo do local a participar da iniciativa. Săo idéias que já foram apresentadas ŕs autoridades, mas que até agora năo receberam a aprovaçăo final.

Para que a TV Educativa possa estender sua programaçăo a todo o pais, a Comissăo Nacional de Atividades Espaciais - CNAE - elaborou um projeto que prevę a utilizaçăo de um satélite de comunicaçőes para fins educacionais.

O projeto tomou o nome de SACI (Satélite Avançado de Comunicaçőes Interdisciplinares), e foi feito sob a coordenaçăo de engenheiros brasileiros e estrangeiros. Esse projeto prevę que em 1980 haverá 24,3 milhőes de estudantes no sistema cujo custo médio anual é de 19 milhőes de dólares. Desses 24,3 milhőes, 182 só terăo acesso ŕ TV Educativa se for utilizado o satélite.

O esquema SACI já parte da suposiçăo de que existe efetivamente no país um sistema, de TV Educativa, mas só com a utilizaçăo do satélite é que ela conseguirá resultados satisfatórios.


No comments:

Post a Comment

Followers