Thursday, April 29, 2010

1975 - Dias Gomes Protesta Censura de Roque Santeiro

Revista EX
1/9/1975
Autor: Dias Gomes
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A TELENOVELA É A ÚLTIMA TRINCHEIRA


O povo é meu parceiro. Um parceiro invisível, milhőes de olhos, de ouvidos, braços, que colaboram comigo durante a feitura de uma novela. Vocęs pesquisam, fazem perguntas a ele; eu tenho ele do meu lado, participando. Entăo, eu tenho a possibilidade de ter uma percepçăo um pouco diferente do que o povo é, do que o povo sente, do que o povo deseja, através de um laboratório que é a telenovela, que todo dia eu abro e vejo no ar.

Uma das coisas fascinantes da telenovela é poder fazer uma experięncia diária. Vocę tem um laboratório aberto todas as noites, no qual vocę faz a experięncia, e logo vocę tem a reaçăo e pode aproveitar esse resultado, ainda no decorrer da própria novela. A reaçăo é um troço novo, que se manifesta de uma maneira inteiramente nova.

Vocę cria determinadas personagens que passam a viver. O povo as trata como seres vivos. Eu ignoro o Ibope. Eu acho que um dado completo é a reaçăo popular. O que năo quer dizer que vocę tenha obrigaçăo de agradar ao popular. Por exemplo, no início da minha segunda novela eu achei que o público de tv se chocava muito com minha formaçăo brechtiana: năo tinha distanciamento suficiente para criticar. Entăo se eu me propunha a fazer crítica da realidade brasileira eu năo tinha platéia sensível, era uma platéia muito envolvida pela magia.

Entăo quando fiz Assim na Terra Como no Céu,eu invocava o tipo devida de Ipanema. E eu necessitava de uma platéia crítica: eu ia colocar criticamente um estilo de vida. Entăo imaginei o seguinte: uma heroína, vinda da Zona Norte, chegava em Ipanema e, quando estava prestes a se destruir encontra um padre, por ele se apaixona e volta a ser uma criatura dessas capazes de apaixonar qualquer espectador. Ela quer se libertar da barra pesada de Ipanema, casar - e aí a matam. A platéia passou a criticar a novela, "como é que o senhor mata uma moça pura, poderia até ser minha irmă, e conserva esse banqueiro porco, que vai casar com uma mocinha?" O pessoal passou a agredir a novela sem saber que, na verdade, estava assimilando aquilo que eu queria passar. Era urna prova de que eu estava enxergando as coisas. Eu tento levar o público a uma saudável tomada de conscięncia.

Eu acho o povo brasileiro um povo altamente desesperançado. Que procura algo em que se agarrar, nem que seja um mito, e encontrar saída para os seus problemas. Ele reage ŕ colocaçăo de seus problemas de uma maneira muito calorosa, muito emocional, mas reage também de uma maneira um tanto pessimista.

Tenho procurado abordar na tv uma temática brasileira, colocando os problemas do nosso povo, da nossa realidade, o tanto quanto a censura e a profundidade da televisăo me permitem. E tem sido esse o meu trabalho há 6 anos. Năo me arrependo absolutamente, acho que tem sido uma experięncia altamente gratificante para mim.

A proposta de Roque Santeiro era justamente esta: encontrar uma maneira de contar autenticamente brasileira. Eu achava que geralmente a disposiçăo das cenas na telenovela era plasmada na influęncia do cinema americano. Os atores também, na soluçăo de suas cenas quase sempre adotavam padrőes. Os diretores do mesmo modo partiam de grandes filmes. Entăo eu propunha uma lavagem cerebral em mim e no texto, ra começo de conversa, e depois na direçăo; e que os atores também procurassem um comportamento autenticamente brasileiro.

Por exemplo, quando houvesse uma briga, que năo fosse uma briga como no cinema americano. Brasileiro geralmente năo briga de soco. Geralmente, quando se vai fazer uma cena de luta, a maneira que o sul-americano consagrou é a americana: o boxe.

Brasileiro briga com pontapé, rolando no chăo, metendo o dedo no olho; é uma briga livre, a nossa. O nosso idioma também tem o seu som, é muito onomatopaico, principalmente no Nordeste. E năo se transmite porque os atores estăo muito preocupados com determinados padrőes de postura, de inflexăo de voz.

Tudo isso consistia em encontrar uma linguagem que năo fosse calcada no cinema, que fosse alguma coisa que partisse da nossa maneira de pensar; a gente mesmo năo sabia onde ia dar, mas que fosse um ponto de partida. Daí eu ter buscado os cantores populares, os mitos populares para ser o background de Roque Santeiro. É uma história popular cantada de maneira como a cantaria um cantador nordestino. É difícil de explicar; é uma coisa que a gente tem de transmitir para elaborar. E aí vocę sentir a reaçăo popular de calor ou de frieza.

Usando a realidade brasileira, năo posso menosprezar qualquer elemento. Agora vocę me pergunta: "Por que tem sempre padre na tua realidade?" Porque sempre tem padre na sua vida, em qualquer parte que vocę vá tem sempre. O padre é a figura da História do Brasil, desde a Primeira Missa, que foi rezada por eles. O padre numa cidade do interior é uma figura importante. Săo elementos de determinada realidade que eu procuro analisar.

Năo procuro soluçőes; năo compete ao teatro apresentar soluçőes. A funçăo do teatro é conscientizar, mais nada. Do teatro năo sai revoluçăo, nem da televisăo. O máximo que podemos pretender é levar ao povo a conscięncia de seus problemas. Mas quais săo esses problemas, nós năo vamos botar na tv. É um dado histórico.

Eu fui pra televisăo por motivos praticamente econômicos. Estava impossível continuar fazendo teatro.° teatro sofreu a partir de 64 um estrangulamento cultural, econômico e político. Eu teria que optar; fazer um teatrinho dito político, abandonar a minha linha de pesquisa; ou entăo procurar outro meio de vida. O teatro é considerado năo sei por que como uma fonte de subversăo, capaz de abalar os pilares do regime. É ridículo! Ridículo que nosso teatro de elite seja considerado subversivo. Embora a minha geraçăo de dramaturgos tenha apontado na década de 50 uma bandeira de teatro popular e político, na verdade o nosso teatro nunca chegou a ser político, quanto mais popular. Um teatro popular no palco; e na platéia a elite!

Dessa contradiçăo palco-platéia nasceu a minha frustraçăo e o fim total de qualquer propósito. Para que nossas propostas pudessem caminhar, seria preciso que o governo se interessasse e tivesse a cultura como uma de suas metas. Mas nós jamais tivemos um governo desse tipo.

Ŕs vezes, os políticos nos tratam bem. Somos os homens que manipulam a opiniăo pública. Mas atitudes concretas absolutamente nenhuma. Se năo há em relaçăo a artes mais elitistas como teatro, literatura, cinema, năo deveria haver evidentemente com uma forma de arte popular. Nunca a cultura foi meta do governo. O único homem que falou de cultura neste país era louco: Jânio Quadros.


Entăo, era inviável a minha profissăo de dramaturgo. Daí eu ter ido para a televisăo. Estava no meu campo de trabalho, encarei assim. E já que tinha de fazer televisăo, decidi suar a camisa, como faço no futebol de praia. Foi essa a minha atitude inicial. Eu sou obrigado a escrever 20 laudas por dia. O trabalho é 95% braçal. Quando termino uma novela pareço um trapo, pois passei 7, 8 meses escrevendo 20 laudas por dia, impedido de ir a teatro, cinema, ver amigos - é realmente desumano. Mas năo tem jeito, năo depende da direçăo da Globo, porque telenovela é um gęnero que inventamos e que só pode ser feito dessa maneira.

Nessa profissăo suicida que é escrever telenovela (a censura é pior que os incidentes da produçăo; o autor torna-se um alvo de tensőes, tanto é que Jorge Andrade escreveu uma novela só; e Lauro César Muniz, que escreveu Escalada, do meio pro fim teve que escrever com um médico na cabeceira), eu descobri a televisăo com todos os preconceitos que levam para ela, numa atitude, reacionária que os intelectuais tinham e alguns ainda tęm. Tenho um amigo artista plástico, que diz:

- Nunca tive um aparelho de tv, nem nunca terei, jamais deixarei entrar na minha casa.

Um ótimo sujeito, grande amigo, mas com uma posiçăo altamente elitista. Eu sinto nos intelectuais anti-tv uma atitude ultrapassada; intelectuais com atitudes - classificados de burros. Era moda dizer que se era contra a televisăo, no Brasil. Os verdadeiros intelectuais já entenderam; só persistem os subintelectuais. Ignorar a tv hoje é năo poder interpretar o sistema. Há toda uma geraçăo que está aí se desenvolvendo, essencialmente formada pela televisăo. A minha atitude diante da televisăo é de seriedade. A mesma com que eu fazia teatro. E descobri, de repente, que tinha nas măos um poderoso meio de expressăo e que todos os preconceitos contra ela eram idiotas.

Mas diante da tv eu tenho que me exercitar, porque descobri, que ela é a forma de expressăo do nosso tempo. A televisăo nivela tudo. E terrível e violenta, enquanto está sendo visto, e extremamente precária depois que passa. Como é o nosso tempo. Nós vemos ídolos serem feitos da noite ara o dia. Aquilo que nos tempos antigos era um processo de um século, hoje é feito em 2 ou 3 anos. Hoje há um tremendo esforço, para se conseguir muito pouco -se vocę considerar o fator tempo, a duraçăo da mensagem (năo o fator impacto, que é o maior que qualquer arte jamais pode pretender).

E a gente sempre tem medo de pronunciar a palavra arte. Essa é uma atitude de espanto diante de uma coisa nova. Ainda há uma atitude de espanto diante da televisăo! Como houve espanto em relaçăo ao cinema. Até os anos 20, ninguém chamava o cinema de arte! Nem Lumičre pôde prever que o cinema seria chamado de arte. E todos esses preconceitos que existiram contra o cinema, existem hoje com a televisăo.

Ela é tudo do nosso tempo. Ao mesmo tempo uma coisa poderosa, que atinge milhőes em determinado momento - uma associaçăo assim de poder e fraqueza ao mesmo tempo. Vocę pode assistir um combate em algum país, ver pessoas morrendo naquele mesmo momento diante de vocę. Vocę tem este poder divino de ser onipresente através da sua pequena janela, a tv. E ao mesmo tempo vocę é terrivelmente impotente porque năo pode fazer nada por aquele pais. Esta sensaçăo de potęncia e impotęncia é própria de nosso tempo. O mundo pode ser destruído num apertar de botăo.

Quer dizer, nós adquirimos o poder dos deuses e a fraqueza imensa da criatura humana. Năo poder fazer nada, diante do sistema.

A telenovela, eu acho que foi a única coisa que a televisăo brasileira inventou -o resto é cópia do rádio e da televisăo importada. Esta característica da telenovela, de arte que está acontecendo e que até mesmo ignora o que vai acontecer, todos os fatores, a censura, a morte de um ator, uma atriz que engravida - esta característica criou uma fórmula nova de expressăo; de todas, a mais aberta: é talvez a única arte realmente aberta que existe. Na medida em que vocę executa recebendo a colaboraçăo de uma platéia imensa, recebendo colaboraçőes dos próprios artistas, realizando uma arte que năo aconteceu, mas está acontecendo - porque ela acontece dia a dia, e nesse dia a dia a reaçăo do público influi nos acontecimentos, na vida cotidiana, na soluçăo. Porque ela entra dentro da sua casa, se intromete na sua vida, quase que violenta a sua própria vontade, te obriga a ver. É gratuita, mas também năo pede licença.

A telenovela vem da Argentina, Cuba, México, que săo os países que inventaram a novela radiofônica. O que existe no Brasil é uma coisa completamente diferente. A telenovela transformou-se, desligou-se quase de suas origens - năo todas as telenovelas. As da Globo tęm estas características. A influęncia do cinema americano e europeu, do romance moderno, e histórias mais complexas com um aprofundamento maior de personagens, enredos e subenredos. Entăo é esse produto que já foge ŕs características lineares. É uma outra coisa, que está muito mais aparentada ao cinema e ao romance moderno que ŕs suas origens.

Por que acontece isso? Acho que fundamentalmente pela falęncia do teatro como arte de massas, embora tenhamos levantado aquela bandeira do teatro popular; e o cinema transformou-se num cinema hermético, numa total incomunicaçăo.

Acho muito cedo fazer um balanço da influęncia da tv sobre outros tipos de arte. Também é uma característica do nosso tempo: exigir as coisas num espaço de tempo muito pequeno. Pois já se pergunta sobre o fim das telenovelas! O que é uma coisa altamente ridícula. O teatro, que tem mais de 2 mil anos; e perguntar sobre o fim do teatro eu já acho uma coisa idiota. Entăo, uma coisa que começou ontem, onde ainda estamos engatinhando, procurando a linguagem, e há os idiotas que escrevem para jornal: "Há sintomas de que a novela vai terminar." Esses caras que ficam querendo analisar uma novela por padrőes literários, é uma atitude inteiramente furada. Em 1ş lugar eles precisam encontrar novos padrőes estéticos.

A novela resolve o problema de toda a faixa de horário diário. Quando vocę faz um programa, vocę resolve o problema de um dia da semana. A novela resolve uma faixa inteira, vocę ganha uma sustentaçăo do público; em termos de estratégia está certo. E a novela brasileira está sendo exportada. Irmăos Coragem foi lançada no México năo como novela: foi lançada como uma série americana, diária, ŕs 9 h da noite, numa emissora que estavam 5ş lugar de audięncia. E o que aconteceu? A emissora passou para o 1° lugar naquele horário. Foi uma revoluçăo.

Causa muita estranheza aos americanos, que seus enlatados năo consigam entrar no horário nobre da programaçăo brasileira. Li unia vez um artigo que analisava o que havia no mundo todo, e o articulista constatava que no mundo todo a programaçăo era parecida, toda importada da América. Estranhamente, no Brasil, havia ŕs 8 h um seriado brasileiro; ŕs 9, um programa de humorismo brasileiro, ŕs 10, Bandeira 2 (de Dias Gomes - NR). Em todos os outros países, a năo ser onde as televisőes săo estatais, os horários nobres exibem a programaçăo americana.

A telenovela foi a única trincheira que nós conseguimos, a única barricada que conseguimos levantar, contra a invasăo dos enfadados amerianos. Entăo, quando os pseudo-intelectuais atacam a telenovela, torcem pelo fim da telenovela, estăo sendo profundamente antibrasileiros, antipopulares, antiintelectuais. É realmente a única trincheira. Năo houvesse a telenovela, e os horários das 6 ŕs 10 estariam importando para nós uma cultura que năo é a nossa, deformando a cultura brasileira. E nós estaríamos também mandando royalties para fora. Estamos criando campo de trabalho, de experimentaçăo brasileira.

A Globo começou a industrializaçăo da tv brasileira, que exige dos empregados, evidentemente, o máximo - como toda indústria. Ela é uma empresa altamente capitalista. As pessoas que manuseiam os aparelhos, os tapes da Rede Globo, săo técnicos feitos há pouco tempo. Săo jovens, feitos aqui no Brasil, que erram, que tęm know-how precário e evidentemente quando já erros, devem expedir seus memorandos.

Se eu tenho de escrever 20 laudas por dia, o ator também tem de decorar as 20 laudas. E o diretor tem que gravar estas 20 laudas. Entăo, a desumanidade no meu trabalho existe em relaçăo ao diretor, em relaçăo aos técnicos. Agora, isso é porque a gente inventou um troço como a telenovela, a gente inventou uma coisa que tem o seu lado fascinante, o fascinante de ser novo; mas tem o negativo de exigir um tipo de trabalho que realmente năo está de acordo com o trabalho intelectual a que estamos habituados. Mas năo tem saída. A saída destrói o meio.

A crise da censura? Năo pode ser analisada isoladamente. Este fato atinge teatro, cinema, muitas peças foram proibidas. A crise, realmente, năo é da telenovela. A crise é da cultura brasileira.

(Depoimento a Joăo Antônio, Hamilton Almeida Filho e Paulo Patarra).

Wednesday, April 28, 2010

AFASTAMENTO DE CHACRINHA DA TV GLOBO É CONSUMADO E CASO AGORA VAI À JUSTIÇA

Jornal do Brasil
8/12/1972
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- Quando eu estou, estou; quando năo estou, năo estou.


Desta vez o óbvio năo cheira a absurdo na frase de Chacrinha, agora "Senhor Abelardo Barbosa" para a diretoria da Rede Globo.

Ele está e năo está na emissora, que ontem recebeu notificaçăo da 2Ş Vara da Justiça do Trabalho exigindo a rescisăo do contrato do animador, que tem mais um ano de validade, representa Cr$ 3 milhőes e quatro vezes isso em audięncia.

O ANTI-ESPETÁCULO

Nem que multiplicassem por mil as 21 polegadas dos vídeos năo haveria espaço para mostrar o que o espectador năo vę. E se levassem a imagem ao ar todo mundo desligaria o botăo, porque a festa é completamente inversa nos bastidores.

No caso específico da rescisăo de contrato do Chacrinha há juízes, oficiais de Justiça, notificaçőes, palavras ásperas proibidas pela censura, altos empresários calculando cifras, departamentos jurídicos preparando açőes. É o antiespetáculo.

Anteontem estourou a notícia da saída do Chacrinha do canal 4. Até as 16 horas de ontem ninguém queria prestar declaraçőes: Chacrinha evitava entrevistas, a Rede Globo năo podia se pronunciar por falta de elementos e a TV Tupi, altamente Interessada na contrataçăo do astro, aguardava os acontecimentos.

A VERSĂO DE UM

A entrega da notificaçăo judicial ŕ Rede Globo afastou a rolha que bloqueava as informaçőes. Chacrinha, que duas horas antes "estava dormindo" fez o Sr. Ramalhete, seu assessor, procurar os jornais e se prontificar a dar entrevistas e ser fotografado.

Antes disso apenas seu filho Jorge falara:

- o Chacrinha năo pode receber hoje, está dormindo, mas se vocęs quiserem amanhă ele concede entrevistas.

Em seguida explicou que a JBM - empresa do Sr. Abelardo, Barbosa, que compra tempo de TV para o Chacrinha - havia pedido rescisăo de contrato com a TV Globo, alegando rompimento em uma das cláusulas. Este dispositivo obriga as partes a se consultarem previamente sobre a mudança de horário na apresentaçăo dos programas.

- Em um dia nós recebemos tręs memorandos modificando horários, sem consulta prévia. Um dia o programa começava ŕs sete porque era conveniente a audięncia daquele horário, no outro começava ŕs oito para estender o interesse dos espectadores pelo programa.

AS RAZŐES SĂO OUTRAS

Jorge pediu desculpas pelo sono do pai e revelou que havia convites de todas as emissoras para a transferęncia da Hora da Buzina e da Buzina do Chacrinha. Condicionou o aceitamento dos convites ŕ formalizaçăo do rompimento com a TV Globo.

Chacrinha falaria mais tarde e estabeleceria desencontros de informaçőes. Era a vez de ouvir a Rede Globo. O porta-voz da diretoria geral, após reuniăo, disse:

- A Rede Globo năo considera o contrato do Sr. Abelardo Barbosa rescindido, mesmo porque o contrato tem validade até dezembro de 1973. Estamos aguardando o Sr. Abelardo Barbosa, tanto que o esperamos hoje (ontem) ŕ noite para fazer seu programa, como o aguardamos ontem (anteontem). Vamos notificá-lo judicialmente, e aguardamos sua apresentaçăo no domingo. A programaçăo está feita: o cantor José Roberto casará no palco com a chacrete Angélica; haverá a quarta eliminatória do concurso para eleger a mais bela empregada doméstica; o Velho Guerreiro oferecerá Cr$ 1 mil a quem cantar melhor Os Brutos Também Amam, além do quadro Guerra é Guerra e do Calouro Exportaçăo.

Sem se deter para comentar a ironia da programaçăo, o porta-voz da Rede Globo encerrou a declaraçăo oficial da empresa:

- Estamos esperando, certos de que ele estará aqui no domingo para fazer o programa.

FALA O "PIVOT"

Nada mais declarou a emissora, revelando apenas que outra notificaçăo judicial estava em andamento, esta com o endereço do Sr. Abelardo Barbosa, convocando-o a comparecer para cumprir seu contrato.

O telefonema de Chacrinha chegava ŕ redaçăo. Elogiou a reportagem publicada ontem sobre os acontecimentos que o envolviam, isso através do assessor, e depois ele mesmo prestou suas declaraçőes. Foi breve:

- O problema realmente é em relaçăo a horário. Tudo o que meu filho lhe disse está correto; o que houve foi isso mesmo, exclusivamente. Em 10 dias mudaram cinco vezes o horário.

Disse que o problema nada tinha a ver com contratos astronômicos e negou (aí a contradiçăo) que houvesse convites ou entendimentos com outras emissoras, uma vez que a decisăo só poderia ser tomada após pronunciamento definitivo da Justiça.

A VERDADE SURGE

Acontece que ontem ŕ noite o Sr. Bustamente, um dos diretores da TV Tupi, esteve no apartamento da Avenida Atlântica 1558, onde mora o animador, e aí começava outra história.

"DISCOTECA" ESTRÉIA 4Ş FEIRA NA TV TUPI

Sem camisa, de bermuda colorida e boné de jóquei, Chacrinha informou na noite de ontem, em seu apartamento na Av. Atlântica, que já está organizando seu programa de estréia na TV Tupi, quarta-feira.

Por isso mesmo, sua casa estava repleta de pessoas, todas muito mais preocupadas em bolar o que o Velho Guerreiro fará no próximo programa do que em sua inesperada saída da TV Globo. Justificando o movimento desusado, Chacrinha explicou que sua equipe de produçăo estava ali, porque a direçăo do Canal 4 havia fechado a sala onde ele planejava A Buzina e a Discoteca.

Descontraído, Chacrinha teve tempo para fazer comentários sobre as vaquejadas de Surubim, município pernambucano onde nasceu, e sobre o seu grande amigo Mauro Mota, da Academia Brasileira de Letras.

Depois dividiu uma dose de uísque com um dos repórteres que o entrevistavam, dizendo: Aló Seu, rosbife, me dá um gole desse uísque. E comentou:

- Foi a mesma badalaçăo quando troquei a TV Rio pela TV Globo. É a história que se repete, dona Vitória.

Numa das salas do grande apartamento, sorridentes e desembaraçadas, algumas chacretes. conversavam sobre os últimos acontecimentos. Elas eram unanimas em afirmar que mudar de emissora năo representava nada. O negócio era continuar trabalhando com o Chacrinha.

Enquanto isso Dona Florinda, mulher do Velho Guerreiro, recomendava ŕs empregadas para suspender as rodadas de uísque, "pois daqui a pouco o pessoal vai pensar que esse é um ambiente de festa e năo um ambiente de trabalho".

Chacrinha ouviu as ordens de sua mulher e sorriu. Aparentemente continuava tranqüilo, embora reconhecesse que "sempre sinto um friozinho na barriga quando mudo de estaçăo".








UM NOVO TELEJORNALISMO E OS LIMITES DA CENSURA

Jornal do Brasil
4/11/1977
Paulo Maia
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Por exercer há muito tempo o absoluto monopólio de audięncia da TV no Brasil, a Rede Globo de Televisăo sempre se pretendeu mais censurada do que suas concorrentes em termos de telejornalismo. Seus profissionais sempre se disseram mais vigiados do que os da Tupi, da Bandeirantes, de emissoras locais, e mesmo das emissoras educativas estatais. Até que ponto isso seria verdade e até que ponto esse tipo de defesa năo representa um mascaramento de temerosa autocensura? Năo se pode garantir absolutamente a veracidade de uma ou de outra hipótese, mas sim acrescentar a opiniăo de um repórter de uma equipe rival e de reconhecida competęncia profissional, para quem, "enquanto outras emissoras procuram se manter, nas fronteiras permitidas pela Censura e dentro dos parâmetros da ética duvidosa da questăo da concessăo precária dos canais e da existęncia de uma legislaçăo específica para o assunto, o telejornalismo da Globo sempre esteve aquém desses limites".

Durante longos anos, os telejornais da Globo se mantiveram friamente distantes dos grandes fatos políticos nacionais levados aos jornais; mesmo na época da rigorosa censura ŕ imprensa do Governo Médici. Sobre política a televisăo foi omissa ou, como querem os produtores de seus noticiários, obrigada a ficar omissa, reservando seus horários nobres para a lacrimosidade das telenovelas e riso o nonsense de seus shows milionários. O Jornal Nacional, muito mais do que a funçăo de tribune aggrandie que o republicano histórico Benjamin Constant atribuía ao jornalismo, preferia o abrigo daquilo que os franceses chamam de faits divers, cujo representante máximo na televisăo brasileira é o show dominical Fantástico, na mesma Rede, ou seja, a divulgaçăo de fatos extraordinários, em tom de amenidade, por locutores elegantes e agradáveis ao paladar do grande público.

De repente, contudo, o tempo dos telejornais da Globo, particularmente do noturno Amanhă, antecipado na programaçăo diária para o final da novela Nina, passou a contar com preciosos minutos de noticiário político. O Congresso Nacional, em Brasília, passou a receber visitas constantes das simpáticas comunicadoras globais, que mantiveram seus elegantes penteados, mas passaram a abordar temas menos digestivos e antes restritos ŕs páginas das editorias políticas dos grandes jornais do eixo Rio-Săo Paulo. Ante a realidade trágica da morte do jovem repórter Geraldo Costa Manso, que estaria sendo preparado para se investir a funçăo de uma espécie de Walter Cronkite caboclo, a emissora o substituiu por um repórter competente vindo de O Estado de Săo Paulo, Sérgio Mota Melo, e até no início da madrugada, entre dois enlatados violentos, o departamento de telejornalismo passou a produzir um novo programa, Painel, em que os temas políticos săo abordados com mais freqüęncia em entrevistas mais cuidados e com tempo mais generoso do que o oferecido no corre-corre dos telejornais diários, ainda muito impregnados de faits divers - principalmente O Jornal Nacional, espremido entre as duas novelas de maior audięncia do horário nobre.

O que teria acontecido? Teria o telejornalismo da Globo avançado mais em direçăo ŕs chamadas "fronteiras da legalidade", ultrapassando barreiras de medo, autocensura ou riscos (os já muito conhecidos riscos da espada de Dâmocles da concessăo precária de canais pelo Governo aos particulares). Ou, ao contrário, essas fronteiras de permissividade traçadas aleatoriamente pela Censura é que teriam avançado, permitindo-se um debate político mais amplo? Seja qual for a resposta, a verdade é que o telejornalismo global entrou a tempo no debate político nacional, pois corria o risco de ser ultrapassado violentamente pelos fatos, como, aliás, vinha sendo. Num momento em que as opçőes democráticas săo debatidas no sério da sociedade civil e a Naçăo se levanta para garantir que năo é um gigante adormecido em berço esplęndido, năo teria sentido, nem do ponto-de-vista mercadológico, manter uma distancia fria dos fatos que simplesmente atropelam a vida do cidadăo comum. Năo noticiar os estudantes nas ruas, a discussăo sobre o diálogo político Arena-MDB e outros fatos importantes seria um pecado mortal de omissăo, do ponto-de-vista da conquista do público consumidor, por maior que seja o monopólio da audięncia da Rede.

De qualquer forma, partindo-se de qualquer dessas análises, a abertura de um espaço político no tempo da televisăo monopolista de audięncia no Brasil é um fato alvissareiro para todos aqueles que acreditam no estado de direito, na democracia e no primado da Naçăo sobre as atividades (simplesmente gerenciais) do Estado. E significa uma distensăo autęntica e útil no sentido da participaçăo da, sociedade civil na geręncia dos negócios do Estado, que săo de seu interesse específico.










Thursday, April 15, 2010

1983 - Chapelin no SBT, Silvio X Jota


Jornal do Brasil
15/4/1983
Roberto Jacob e Martha Baptista
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CIRANDA DAS ESTRELAS
Importantes mudanças começam a agitar o vídeo brasileiro. A primeira delas - năo por ordem cronológica, mas de impacto, na medida em que colheu todo mundo de surpresa - é a que vai levar Sérgio Chapelin da Globo para a Sílvio Santos. Locutor do chamado "Padrăo global", ele aceita o desafio de trocar a imagem estática, da cintura para cima, a que todos se acostumaram nos últimos onze anos, pela de corpo inteiro, que o obrigará a andar pelo palco, a fazer entrevistas, a lidar com os auditórios. Isto é, deixa o Jornal Nacional pelo Show Sem Limites e passa a ganhar cinco vezes mais (Cr$ 5 milhőes por męs). Outra mudança é a de J. Silvestre, que terá na Bandeirantes o pacote que Sílvio Santos lhe recusou: além de Cr$ 30 milhőes por męs por seu programa de pręmios, a chance de escrever uma novela a quatro măos com a mulher, Nívea. Moisés Weltman, que era um ativo membro do esquema do Sistema Brasileiro de Televisăo, vai ser diretor da TV Manchete. E Cidinha Campos, há tręs anos afastada do vídeo, reaparece, também na TVS, com A Mulher é o Show. Vai reformular o programa que Silvestre apresentava. Nele, a mulher como ser inteligente "e năo leviana, entregando pręmios vestida de maiô".

UM "SHOW" SEM LIMITE E DE CORPO INTEIRO - Por onze anos sua imagem esteve de tal forma presente na programaçăo do Canal 4 - Jornal Nacional, Globo Repórter e outros - que se acabou convertendo num dos chamados padrőes globais. No caso, de locutor. Ele e Cid Moreira, na verdade alunos da mesma escola, săo hoje mestres e ao mesmo tempo modelos dos apresentadores de telejornais. Como será a Globo sem Chapelin? E como ficará ele em outro vídeo?

- Meu tempo bíblico é de nove anos. Já estava na hora de mudar.

Tempo bíblico, portanto, vencido já há dois anos, pois em mesmo há onze que ele apresentava, todas as noites, tirando as férias, o Jornal Nacional, programa de maior audięncia na televisăo brasileira. Chapelin resolveu aceitar o convite do Sistema Brasileiro de Televisăo para, já a partir de segunda-feira, liderar o programa Show Sem Limite da TVS, até entăo dirigido por J. Silvestre, que passa a fazer um programa nos mesmos moldes na Bandeirantes.

Para Chapelin, a mudança é boa, năo só pelo desafio do novo - agora ele năo mais aparecerá só em meio-corpo, mas andará pelo palco, fará entrevistas, se movimentará muito, mas também pelo aumento de salário, que ficará cinco vezes mais gordo.

No apartamento simples de Copacabana, comprado sem muita facilidade há tręs anos (até entăo morava em Jacarepaguá), Chapelin recebe representantes de todos os órgăos de imprensa. De chinelos, tímido, mas sem formalidade. Quanto vai ganhar, năo diz, mas se ganhava Cr$ 1 milhăo por męs na Globo basta multiplicar por cinco: bem menos do que recebia J. Silvestre, a quem vai substituir: Cr$ 20 milhőes.

- Quero correr o risco de mudar - diz esse locutor de 42 anos, tręs filhos (Flávio, 18 anos; Luciana 16, e Sérgio Luiz, 15) e um enteado (Jorge, 11), filho da mulher Regina. - Quero ver no que vai dar. Para ser animador de programa de TV ninguém precisa ser vulgar ou grosseiro responde a uma referęncia a seu jeito requintado, bem diferente do padrăo mais desenvolto dos comunicadores. - Se sua participaçăo for sincera e correta, as pessoas văo avaliar bem o seu trabalho.

Sérgio Chapelin começou sua carreira em Valença (RJ), onde nasceu e fez programas de auditório. No Rio, trabalhou nas Rádios Tamoio, Nacional (como locutor comercial do Programa Paulo Gracindo) e na JORNAL DO BRASIL, nesta por nove anos. Começou a ler noticiário exatamente na JB. Um curso de teatro o deixou "meio hippie", segundo ele mesmo. De repente, virou professor de teatro e chegou até a dar aulas. Um convite e alguns testes, e Sérgio Chapelin foi convidado para ser locutor da TV Globo, em 1971.

- Nesta época - lembra - os telejornais exigiam muito dos locutores, porque era texto e mais texto, com pouquíssima imagem. Meu maior acidente aconteceu com um acidente: um aviăo caiu no Rio e eu tive que ler 20 nomes de japoneses que morreram.

De rádio ao ouvido e com a atençăo presa ao telefone, ele dá uma entrevista ao vivo. Sua voz é elogiadíssima e provoca o assédio constante de făs ardorosas. Daí os inúmeros convites para trabalhar em "festas de personalidade": apresentar formaturas, desfiles de moda, festas de debutantes e até inauguraçăo de uma siderúrgica ou uma piscina.

A televisăo é um veiculo extraordinário - diz Sérgio. Ganhei popularidade e a possibilidade de conseguir algum dinheirinho. Sempre tive uma relaçăo boa com meus colegas e diretores - sempre fui bom profissional, bom funcionário. Meu diretor na Globo, Armando Nogueira, comportou-se cordialmente na minha saída. Já pedi a liberaçăo do meu aviso prévio. Minha situaçăo agora depende da empresa.

O novo programa Show Sem Limite será gravado ŕs segundas-feiras, em Săo Paulo. Sérgio năo precisará sair de Copacabana. Continuará próximo a seus quatro filhos, a sua mulher e aos audiovisuais, documentários e comerciais que costuma gravar no Rio, sem falar dos programas da Rádio Ministério da Educaçăo e Cultura.

Sérgio Chapelin acha que vai ter jogo de cintura para estar ŕ frente de um show de variedades. E lembra que seu primeiro trabalho na televisăo foi como ator: fez uma ponta em Otelo, de Shakespeare.

(Em Săo Paulo, o diretor da TVS, Luciano Callegari, năo quis dizer quanto a emissora pagará a Chapelin, afirmando somente que "para os padrőes da casa, é uma contrataçăo cara".)

NOS CORREDORES GLOBAIS., A SURPRESA DOS COLEGAS - Cerca de 19h30min de quarta-feira. Yolanda Cardoso, a Alda Maria de Louco Amor, entra no estúdio A da TV Globo, onde se gravava a novela de Gilberto Braga, e diz: "Gente, tá um zumzum-zum incrível no corredor. O Sérgio Chapelin pediu demissăo em caráter irrevogável". O clima agitou-se, todo mundo querendo saber por que e para onde iria o locutor. Yolanda se lamenta com os colegas de novela:

- Puxa, no meu texto tem uma fala em que eu afirmo que a voz de um personagem é tăo bonita quanto a do Chapelin. Agora vou ter de trocar, vou dizer que é como a do Cid Moreira.

Nesse momento estăo todos os funcionários andando pelos corredores, buscando maiores informaçőes sobre a salda do locutor. No terceiro andar, na redaçăo do Telejornalismo, Chapelin conversa com a equipe, explicando seus motivos.

- Foi uma proposta irrecusável da TVS, tanto do lado profissional quanto financeiramente. Eu conversei com o Armando Nogueira e ele entendeu minha posiçăo. Saio bem com todo mundo.

Logo em seguida, Sérgio apresentou o Jornal Nacional, ao lado de Cid Moreira. Ŕ saída, foi assediado por dezenas de repórteres e fotógrafos e brincou: "Puxa, vocęs querem uma coletiva?". E entăo contou que já vinha mantendo entendimentos com Luciano Callegari, diretor da TVS, há cerca de 15 dias, e este lhe disse que só daria resposta definitiva na próxima semana. Por isso, espantou-se na noite de terça-feira quando, ao chegar em casa, o advogado da TVS já estava ŕ sua espera com um contrato exatamente nas bases que ele queria.

Com a entrevista no meio do corredor começou a juntar muita gente. Cid Moreira se aproximou e fez questăo de lhe apertar a măo:

- Olha aí, pessoal: registrem que eu estou desejando muito sucesso aqui para o Sérgio.

O substituto de Chapelin será Celso Freitas, hoje apresentador do Jornal da Globo.

UMA NOVELA A QUATRO MĂOS E MAIS 10 MILHŐES

SĂO PAULO - O apresentador J. Silvestre abandonou a TVS, acertando com a Bandeirantes. Esta deve pagar-lhe Cr$ 30 milhőes (Cr$ 10 milhőes a mais do que na TVS), comprar seus programas de pręmios e permitir que ele escreva uma novela a quatro măos com sua esposa, D Nívea, exatamente todo o pacote que Sílvio Santos rejeitou para năo ter um concorrente dentro de sua própria emissora. Pelo menos é o que afirma Waldemar de Moraes, diretor do programa de Silvestre, Show sem Limite, além de seu amigo pessoal desde 1945, quando começaram na Rádio Bandeirantes.

Waldemar de Moraes năo entende o que o amigo fez com ele: "Eu era diretor do programa por escolha dele mesmo, e me sinto prejudicado profissionalmente com o seu abandono intempestivo, sem ao menos um telefonema". O apresentador J. Silvestre está proibido de dar declaraçőes ŕ imprensa pela TV Bandeirantes, segundo informa o Diretor de Comunicaçăo dessa emissora. Geraldo Tassinari, "até o dia, 20, quando haverá uma coletiva para a imprensa", explica.

O Diretor do Núcleo de Novelas da TVS e do programa Show sem Limite, Waldemar de Moraes, tem certeza de que "a saída do J. Silvestre se prende a negócios. Ele queria que a TVS assumisse uma novela que ele está escrevendo com sua mulher; além disso, a novela, segundo ele próprio, é apenas chamariz para outros negócios, pois Silvestre tem uma firma que vende programas de pręmios. O Sílvio Santos sentiu que iria sofrer concorręncia dele.

Waldemar de Moraes sente-se traído pelo amigo, pois em momento algum, naquele 4 de abril, J. Silvestre telefonou para o diretor avisando-o de que faltaria ao programa. Naquele dia, a convidada do quadro Esta É a Sua Vida era a atriz de cinema Florinda Bolkan, que estava acompanhada de parentes, amigos e dos cantores Fagner e Belchior, entre outros.

- E o J. Silvestre simplesmente năo apareceu. No dia seguinte, me telefonou, dizendo que sentia muito, mas năo ia mais comparecer ao programa, sem dizer os reais motivos dessa conduta - conta Waldemar. Na quarta-feira, dia 6 ele me procurou, confirmando sua atitude de năo mais apresentar o programa e dizendo que seu advogado já havia entrado com um pedido de rescisăo de contrato com a TVS. O J. Silvestre, como todo mundo sabe, passava os fins de semana em sua casa em Itanhaém, chegando algumas horas antes do programa para ler o script. Naquele dia 4 de abril cansei de telefonar-lhe, sem resposta. Creio que isso năo se faz com um amigo de quase 40 anos.

A surpresa de Waldemar de Moraes é ainda maior por ter sido ele justamente quem aproximou J. Silvestre da TVS e de Sílvio Santos quando o apresentador já estava de passagens compradas para a Florida, onde vivia anteriormente. A Globo mostrou interesse em contratá-lo quando ele apresentou o programa Esta E a Sua Vida com Renato Aragăo. Mas, a Globo năo resolvia lhe dar o salário que queria, ele resolveu embarcar de volta aos EUA- "Fomos nós que fizemos ele permanecer aqui e agora ele faz isso. É triste. Ele poderia sair, mas năo dessa maneira".

TRĘS ANOS DEPOIS, A MULHER INTELIGENTE - Cidinha Campos vai voltar ŕ TV. Afastada do vídeo desde sua participaçăo em Aqui e Agora (TV Bandeirantes) há tręs anos, ela foi convidada pela TVS para apresentar A Mulher é um Show (terça-feira, 21h) em substituiçăo a J. Silvestre, mas por năo gostar da forma como a mulher é colocada no programa năo aceitou e agora tem carta branca para bolar o seu próprio. Cidinha, que năo tem pressa para apresentar seu projeto ŕ direçăo da TVS, năo quis revelar muito sobre seus planos; contou apenas que pretende usar "uma velha idéia", que o programa deverá ser ao vivo e realizado no Teatro da TV, no Rio, onde é gravado O Povo na TV. Só năo sabe se a TVS aprovará o projeto por depender da contrataçăo de outros profissionais. Por exemplo, ela gostaria de ter na produçăo a jornalista e ex-deputada Heloneida Studart, que já participa do seu programa na Rádio Tupi. "Vou fazer um programa para homens e mulheres com a presença de mulheres inteligentes", afirmou, após criticar a maneira como A Mulher é um Show coloca a mulher: leviana, fazendo sorteios e entregando pręmios de maiô.

1981 - Bandeirantes Abandonou Rosa Baiana

Amiga TV
12/8/1981
Graça Perri
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A BANDEIRANTES NĂO AJUDOU ROSA BAIANA
A novela chega ao fim com a revolta do autor, Lauro César Muniz

''A Bandeirantes ainda năo está preparada para um grande sucesso em telenovelas. Rosa Baiana foi uma empreitada muito difícil, porque năo tivemos apoio de ninguém, nem ao menos da própria casa. Ninguém se preocupou com esta novela e ela acabou relegada a segundo plano.''

Com este desabafo, Lauro César Muniz, autor de Rosa Baiana, expőe as dificuldades e milhőes de problemas que enfrentou. Uma novela que era considerada como uma grande inovaçăo, pois ela foi feita "desafiando alei da gravidade". Totalmente gravada em locaçőes fora do centro de produçőes, ou seja, longe do estúdio, Rosa Baiana chega ao seu final, depois de 141 capítulos gravados na raça e praticamente contando só com a boa vontade dos atores. Era uma novela que tinha todos os ingredientes para dar certo, mas que resultou numa experięncia fraca, bem longe de ser o grande marco dentro da televisăo brasileira, proposto pela Bandeirantes, quando ainda a supervisăo era de Walter Avancini. Mas, apesar dos pesares, conseguiu chegar ao fim, deixando muitos saldos negativos e alguns positivos. E Lauro César quem conta:

"Em primeiro lugar, năo tínhamos uma organizaçăo montada na Bahia, uma infraestrutura, o que dificultava tudo, pois se um equipamento quebrava, tínhamos que mandá-lo para Săo Paulo, sendo preciso parar as gravaçőes. Além disso, é sabido que o som de externa é muito deficiente e isso fez com que a novela se ressentisse na parte técnica. Depois, faltou uma unidade de direçăo, pois foi dirigida por cinco pessoas, o que fez com que o ritmo se quebrasse. Além do mais, năo havia direçăo de arte; tudo que harmoniza o visual da novela năo existia. Os atores se vestiam e se maquilavam a seu bel-prazer. E o último golpe de misericórdia foi retirá-la da programaçăo de sábado, sem que ninguém fosse consultado se devia ou năo."

Por estes e tantos outros motivos, Rosa Baiana, no lugar de um grande marco, deixa um grande vazio. Na verdade, a idéia inicial nasceu de um tripé, formado por Lauro César, Walter Avancini e David José. Mas, logo no início das gravaçőes, este tripé foi desfeito. David José se incompatibilizou com a Bandeirantes e com Lauro - segundo ele, David interpretava os capítulos de forma diferente do que ele escrevia - e acabou saindo da direçăo. Avancini também se desentendeu com a casa e foi embora. Logo, o tripé ficou reduzido a uma perneta, só com Lauro, e perdeu em grande parte - ou todo - o apoio que era dado principalmente por Avancini, o pai da novela, o único e mais empenhado em levar adiante o projeto inovador.

Mas, os problemas năo paravam e tudo contribuía para a fraca qualidade da novela, mesmo assim levada até o final. Houve vezes em que a cena era gravada com uma só câmara, take por take, influindo também na qualidade, porque sempre perdia naturalidade e fluęncia. Dos 37 personagens, 22 atores nunca tinham feito telenovela, sendo totalmente inexperientes. E a interferęncia maior foi do próprio governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhăes, que năo permitia que a novela fosse passada lá. Segundo explicaçőes extra-oficiais, ele achava que Rosa Baiana năo refletia o que o seu governo tinha como ideal. Ele queria o lado turístico, e Rosa Baiana mostrava o lado pobre, feio, os prostíbulos. Só depois das gravaçőes encerradas é que foi permitida a sua apresentaçăo no estado, pois assim năo poderiam ocorrer interferęncias por parte do povo.

E o clímax dos problemas ocorreu com o abandono de Walter Prado (Orestes) das gravaçőes dos últimos 20 capítulos. Segundo Lauro César, coisa nunca vista em seus 17 anos de televisăo: Walter Prado simplesmente arrumou sua trouxa e veio embora para Săo Paulo, deixando o autor num verdadeiro abismo, pois seu personagem era um dos pontos fortes da novela, calcado no mito de Electra, que era Helena (Wanda Stefania), apaixonada pelo pai.

A EXPERIĘNCIA FALOU MAIS ALTO - Se, por um lado, os problemas atrapalharam o desenvolvimento da novela, por outro há de se louvar o trabalho do elenco mais experiente que defendeu "bravamente a novela e, se năo fez mais, foi por falta de infra-estrutura", como diz Lauro. E os atores novos que se perdiam na interpretaçăo ganhavam na "verdade, no jeito baiano de ser, falar e agir".

Desta forma, chegando ao final aos trancos e barrancos, a novela deixa duas saudades: a primeira, a perda de Rafael de Carvalho, o Edmundo Lua Nova, que morreu vítima de enfarte, aos 63 anos de idade. E a segunda, a saudade dos atores que viveram mais de seis meses na terra abençoada por Nosso Senhor do Bonfim, desfrutando de todas as mordomias - apesar do sufoco dos horários de gravaçőes -, que năo foram poucas.

SÓ UMA SURPRESA NO FINAL - No final, tudo se arruma. Agenor (Gianfrancesco Guarnieri) fica com Natália (Ana Maria Magalhăes) e o filho que nasceu preto, confirmando que era de Raimundo (Antônio Pitanga), mas é assumido por Agenor. Maria Rosa (Márcia Corban) fica sozinha com as tręs filhas, assim como Raimundo. Matilde (Regina Dourado) fica só após a morte de Walter Beleza (Raymundo de Souza), quando entăo conhece Ademar, amigo de Walter, que o substitui com a mulher e as amantes. Roberto (Joăo Signorelli) deixa a mulher grávida e vai viver com Cláudia (Tânia Regina). Edinho (Taumaturgo Ferreira) continua com Leonor, mesmo sem se casar, como era a vontade da măe. Ivan (Edgar Franco) volta para Márcia (Zélia Toledo). Neide (Maria Luiza Castelli) passa a viver com seu misterioso namorado (interpretado por Luiz Gustavo) depois de apresentá-lo a Ivan, ŕ filha e ŕ Rosa Baiana (Naney Wanderley).

Rosa Baiana, após a morte do filho Walter Beleza, resolve consertar o mundo e muda radicalmente suas idéias. E quando recebe uma carta de Edmundo Lua Nova (Rafael de Carvalho) dizendo que o circo em que trabalha chega a Salvador dia 30. Ela reúne os filhos, noras e genro, aceita todos e pede a presença deles no circo neste dia. A última cena é a apresentaçăo de Edmundo no circo, sendo aplaudido por toda a família, numa homenagem prestada por toda a equipe da novela ao Rafael de Carvalho.

1977 - O Fim da TV Rio


Jornal do Brasil
7/4/1977
Míriam Alencar
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A ÚLTIMA EMISSĂO DE TV
- Reabram a TV Rio! Isto năo é um pedido, é uma súplica.

O apelo patético foi feito ontem por Ramon Backx van Buggenhout, superintendente da emissora. Ele tentava reproduzir para a imprensa a situaçăo da TV Rio, que teve cassada a concessăo de seu canal. Depois de um dia exaustivo correndo gabinetes ŕ procura de apoio e soluçăo, o superintendente afirmou só ter tomado conhecimento da medida na manhă de ontem, pelos jornais. Sua primeira providęncia foi ir ao Dentel, onde foi informado de que ainda năo tinham recebido nenhuma comunicaçăo oficial da cassaçăo. Voltando ŕ emissora, onde o aguardavam dezenas de funcionários ávidos de notícias, foi procurado por volta das 14h30m por um representante da Delegacia Regional do Trabalho. O delegado, Sr Luís Carlos de Brito, convocava-o para um encontro que durou até quase o fim da tarde.

- Fiz um apelo ao Ministro do Trabalho mostrando que o problema da TV Rio năo é só dos 147 empregados do corpo estável, mas de um quadro vivo de mais de 600, que, com suas famílias, representam cerca de 2 mil 500 pessoas sem mercado de trabalho. O Sr Luís Carlos de Brito me ouviu com simpatia e prometeu o seu apoio para que a cassaçăo seja revista. Na verdade, durante o tempo em que a emissora esteve paralisada, nem 5% do pessoal que procurou trabalho em outros locais conseguiu emprego. Săo pessoas que tęm até 20 anos de casa. E nós afirmamos com certeza que a TV Rio é viável e recuperável, precisa é de uma administraçăo moderna, como, estávamos tentando implantar, e de voltar ao ar imediatamente.

Inaugurada em 1954, com 23 anos de existęncia, a TV Rio conheceu anos de glória. Teve os melhores programas e as maiores audięncias, e foi a primeira a transmitir em cores. As mudanças constantes de administraçăo levaram-na ŕ situaçăo atual, com um passivo que chega quase aos Cr$ 60 milhőes. Seus empregados năo recebem há quatro meses. A dívida para com os funcionários 77 cerca de 70% entraram na Justiça para receber os atrasados chega a Cr$ 6 milhőes. Com os telefones cortados por falta de pagamento, segundo alguns, por causa da chuva, afirmam outros, a TV Rio necessita de uma receita de Cr$ 6 milhőes a Cr$ 7 milhőes, por męs, para se manter.

Com uma folha de pagamento que atinge os Cr$ 410 mil mensais, e salários que văo de Cr$ 1 mil 200 a Cr$ 20 mil, a emissora esteve fora do ar por 45 dias. O prazo oficial é de 30 dias, mas depois de um apelo ao Dentel, conseguiram mais 15 dias. Para que a emissora voltasse a funcionar, o que aconteceu sábado passado, um grupo de produtores e apresentadores, que se intitulou "comissăo financeira" tirou dinheiro de seu próprio bolso (um total de cerca de Cr$ 800 mil) para, pelo menos, solucionar parcialmente os problemas de pagamento atrasados. Esse grupo é integrado por Henrique Lauffer, Joăo Roberto Kelly, J. B. de Aquino, Anuar Salles, Paulo Monte, Martinho Duarte, Josias Alt e Cláudio Ferreira. Houve quem sé propusesse (o nome foi omitido por Ramon van Buggenhout) a vender uma sua propriedade, no valor de Cr$ 120 mil, para ajudar a TV Rio.

- Desde que assumimos a superintendęncia, em 2 de fevereiro de 1976 - afirma Ramon van Buggenhout - estamos tentando resolver os problemas financeiras. Năo temos dinheiro, ao contrário da TV Globo, para comprar enlatados caríssimos. Por isso, nossa programaçăo passou a ser 80% ao vivo. A concorręncia da TV Globo é sufocante. Ficamos como terceira opçăo, tentando ser uma emissora carioca. Do passado năo podemos falar, pois quando os responsáveis anteriores saíram, levaram até os livros de contabilidade. Eu mesmo năo recebo meu salário (năo disse quanto ganha) há algum tempo e vivo com dificuldade. Quando comecei aqui, tinha tręs carros. Hoje ando com o carro de um de meus filhos.

Ramon van Buggenhout relaciona os acionistas da TV Rio: A. Augusto Amaral de Carvalho - 100 mil açőes; José Salimen - 117 mil 770 açőes; Walmor Bergersch - 117 mil 720; Frei Cyrillo Mattiello - 58 mil 860; Frei Antônio Guizzardi - 241 mil 980 (é o maior acionista); Frei Osébío Borghetti - 58 mil 860; Frei José Pagno - 58 mil 860. Um total de 872 mil açőes.

Durante o dia de ontem o superintendente da TV Rio tentou comunicar-se com os acionistas, que săo do Rio Grande do Sul, e só conseguiu falar com o advogado do grupo, Sr Marquile Scorzelli, que informou já se ter comunicado com todos.

Ontem, ŕs 16 horas, a TV Rio entrava no ar, e assim se manterá até que seu cristal seja retirado e os transmissores lacrados. O superintendente afirmou que a emissora vai entrar com recurso pedindo a revisăo da Cassaçăo, com a esperança de que o Governo veja o problema dos empregados. Caso consiga, pretende "lutar para pagar as dívidas e colocar os salários em dia, com a emissora no ar". Caso ela passe para outras măos, há a esperança de seu pessoal ser aproveitado pelos prováveis futuros donos.

SÓ E SEM SUBSTITUTA

Brasília e Porto Alegre - O Ministro das Comunicaçőes, Sr Quandt de Oliveira, informou ontem que o Ministério năo vai abrir edital para preenchimento do canal vago deixado pela TV Rio. "Mesmo que apareçam interessados" - esclareceu o Ministro. Em Porto Alegre, a diretoria da Rádio e TV Difusora distribuiu nota na qual desmente e vinculaçăo da TV Rio ŕ empresa gaúcha.

DO ALTO DO IBOPE Ŕ MORTE NO 36ş ANDAR

Autor/Repórter: Maria Helena Dutra

Uma estaçăo de televisăo năo morre, definha. Vai sendo esquecida e um dia, năo tem mais recursos para ir ao ar. Sua sobrevivęncia nunca é heróica e seu fim jamais chega a ser glorioso.

Este comentário teórico de Walter Clark Bueno, diretor-geral da Rede Globo de Televisăo, define com precisăo o estágio final da Televisăo

Rio, onde ele trabalhou durante 10 anos, e que aos 21 anos de existęncia chegou a melancólico final. "Se a estaçăo năo for vendida em dois meses" -comentava em meados de 1976 Herman Kyaw, o produtor faz-tudo do canal 13 - "ela vai ter mesmo que ,acabar, pois já chegamos ŕ etapa de falta de peças para reposiçăo, de năo termos mais as coisas mínimas. Assim, se nada for feito, ela fecha sozinha".

Um final que foi por todos aguardado e explicado como a conseqüęncia inevitável de desatinos empresariais que marearam a existęncia da TV Rio. Fundada em 1955, pertencia a concessăo ao grupo Machado de Carvalho, proprietário também da Televisăo Record de Săo Paulo. Por problemas de desentendimentos de família, a estaçăo,carioca foi praticamente doada por Paulo Machado de Carvalho a seu cunhado Joăo Batista do Amaral. Este manteve o controle da estaçăo durante seu apogeu, inicio da década de 60, e no começo da decadęncia quando perdeu a competiçăo para a TV Excelsior e depois Globo, até vendę-la no final dessa década para o grupo da Televisăo Difusora de Porto Alegre. Este grupo, dominado pelos frades capuchinhos, fez um investimento muito forte, na esperança de que o Governo permitisse a entrada do grupo Gerdau na transaçăo. O que năo aconteceu porque este grupo pedia ao mesmo tempo um generoso financiamento governamental para sua siderúrgica no Rio Grande do Sul. Algo que lhe seria negado caso tivesse dinheiro para comprar uma estaçăo de televisăo. Evidentemente, a TV Difusora ficou sozinha no empreendimento, que tentou sustentar durante dois anos. Mas a falta de recursos, e os pesados juros do dinheiro levantado para a compra do equipamento novo, estavam prejudicando muito a emissora do Rio Grande do Sul. Venderam entăo a Rio ao grupo Scorzelli, que contava com a ajuda do Banco Halles; uma semana depois da transaçăo, o Halles estava cassado. Roberto Scorzelli, dono da agęncia de propaganda Artplan, ficou responsável pelas dívidas deste negócio, principalmente a compra de Cr$ 2 milhőes em filmes. Vendeu entăo a Rio para o grupo Vitória-Minas, que acabou. sendo cassada pelo Governo, devido irregularidades em seus negócios imobiliários e de cadernetas de poupança.

Todas essas transaçőes eram feitas sem qualquer autorizaçăo do Governo, que concede o canal. Em 1975, o Sindicato dos Trabalhadores em Radiodifusăo pediu providęncias ao Governo e este, através do Ministério das Comunicaçőes, exigiu que a Televisăo Difusora reassumisse o controle da Rio. Eles entăo colocaram Ramom van Burghenaut na superintendęncia-geral, com a missăo única e específica de tentar a venda da estaçăo. Algo difícil de realizar porque suas dívidas, chegavam a Cr$ 75 milhőes.

Logo que um anúncio Ia ao ar, funcionários ou fornecedores recorriam ŕ agęncia para vincular a conta ao pagamento de suas dívidas, e ninguém tinha coragem de continuar anunciando. Um jornalista afirmou certo dia que o grupo imobiliário Letra estaria interessado em comprar a estaçăo; no dia seguinte, formava-se fila de oficiais de justiça na porta da empresa, já preparados para cobrar dívidas. O negócio foi desfeito antes de começar. A soluçăo encontrada pelos 120 funcionários que ainda restavam na, estaçăo, e que fizeram um pacto entre eles de năo permitir seu fechamento, foi vender espaço para pessoas interessadas em fazer programas. Por absoluta e involuntária ironia, estas pessoas eram chamadas de concessionárias a pagavam o tempo que ocupavam, média mensal de Cr$ 80 mil a Cr$ 90 mil, aos próprios funcionários, que sobreviviam desta maneira. Por isso, a programaçăo passou a ter atraçőes variadas, como jornal sobre agricultura e pecuária, Yvon Curi recepcionando amigos, Wilson Nascimento falando de corridas de cavalos, a Uniăo Espírita Brasileira programando macumba e candomblé.

Os únicos filmes da estaçăo eram em preto e branco. A RCA, que chegou a colocar a estaçăo fora do ar durante quase uma semana por falta de pagamento, levou a câmera colorida, e só os filmes da distribuidora Dife, de Săo Paulo, onde ela, devia menos, podiam ser passados-em preto e branco. Além desses, os filmes fornecidos gratuitamente pelos consultados.

Esta situaçăo forçava a TV Rio a ter 80% de sua programaçăo feita ao vivo, realizada no estúdio sem multa agitaçăo ou dramaticidade, porque se fala e se briga muito pouco num clima sem entusiasmo. Apenas 10 técnicos, se revezavam e os apresentadores, sem nenhuma preocupaçăo de consumo ou de audięncia, iam se revezando e improvisando os programas. Em certa época, parte da tarde, quatro mulheres faziam entrevistas e promoçőes as mais disparatadas. Nem a presença de Caetano Veloso e Vinícius de Moraes, entrevistados no mesmo dia, foi capaz de provocar rebuliço. Foram tratados da mesma maneira que o figurinista desconhecido que lá ia apresentar seus vestidos ou a diretora de uma escolinha que levava um balezinho infantil. O ambiente era lúgubre, apesar de muito limpinho. Público no Ibope dava traço ou seu máximo pique, 7%; ao vivo, nenhum. Também como chegar numa estaçăo que estava praticamente nó 36ş andar de um edifício normal, em alturas desafiantes a qualquer curiosidade.

"O princípio da decadęncia foi quando a estaçăo saiu de sua sede tradicional, o antigo Cassino Atlântico, no final do Posto Seis, em Copacabana, e foi passar uns tempos em Vila Isabel. Depois subiu para cá, montando até um auditório que custou Cr$ 50 mil e raramente foi usado" - dizia Herman, desolado, em sua sala, ŕ beira do precipício de onde se avistava Ipanema e a Lagoa, e do qual era protegido apenas por uma tęnue janela comum.

Enquanto isso, o transmissor, no Sumaré, era mantido na base do esparadrapo. E na estaçăo, faltavam video-tape, filme, caminhăo de externa. Só havia sobrado duas câmeras coloridas, o telecine, duas mesas de corte, uma com efeito eletrônico outra sem, duas mesas de áudio. Tudo operado por pessoas resignadas mas inteiramente desesperançadas de um final feliz para o drama sem glória que eles ajudavam a representar.

Uma história que começou alegre em julho de 55 e se tornou, pelo menos para uma pessoa, radioso início de uma carreira de sucesso. Com 19 anos de idade, Walter Clark Bueno entrou para a TV Rio, em abril de 1956, como assistente de diretor comercial Cerqueira Leite. Para Walter, a ida para a televisăo era apenas um caminho curto-para o cinema, só que ficou nela até hoje, chegando aos 40 anos a ser diretor da Rede Globo de Televisăo.

O primeiro dono da estaçăo, Joăo Batista do Amaral, apelidado de Pipa, hoje retirado numa enorme mansăo em Angra dos Reis, "era um gęnio, sabia que o modelo americano das redes era o futuro da televisăo. Mas năo confiava em ninguém e năo se dava coma família. Recebeu meia dúzia de equipamentos dos Machado de Carvalho e criou a Rio" - historia Clark. Ele foi transformado em diretor comercial com 23 anos. "As pessoas, porém, recusava-se a falar comigo, nenhum empresário acreditava em televisăo ainda. Assim mesmo conseguimos fazer uma programaçăo muito popular e em 1958 chegávamos ao primeiro lugar de audięncia, com o boxe no domingo, o Teatro Moinho de ouro, de Vítor Berbara e humorísticos, como Noites Cariocas, Chacrinha, Big Lar Show, O Riso é o Limite. A estaçăo começou a ter lucro, mas claudicou depois porque faltou a seus donos a conscięncia de equipar, usávamos câmeras de antes da II Guerra Mundial. Além disso em 1963 a TV Excelsior levou todo nosso elenco numa mesma noite, pagando o dobro dos salários. Como a estaçăo ia custar ainda seis meses para ir ao ar, sugeri ŕ direçăo contratar José Bonifácio Oliveira Sobrinho, o Boni, que estava na TV Bandeirantes. Mas eles recusaram e trouxeram de volta Péricles do Amaral, o primeiro diretor artístico da casa. Foi a vitória da fórmula antiga, a única coisa que conseguimos foi realizar a primeira novela diária, da televisăo carioca. A Morte sem Espelhos, de Nélson Rodrigues, com Fernanda Montenegro e Sérgio Brito. Mas o Juiz de Menores implicou e ela só pôde ser transmitida ŕs 11 da noite. Quando a vaca foi pro brejo mesmo, quase dois anos depois, eles aceitaram o Boni, único que sabia tudo sobre produçăo, um dos seis maiores especialistas do gęnero no mundo. Ele só ficou seis meses, mas começamos lá um processo que iria mais tarde irromper na Globo."

É evidente a emoçăo de Clark ao lembrar-se destes tempos duros mas vitais de sua mocidade. Na solidăo de seu enorme escritório, ele lembra que naquela época fazia de tudo. "Brincavam até comigo que no final dos créditos da emissora era preciso colocar os dizeres: Preocupaçăo Geral - Walter Clark. O ambiente era de paixăo coletiva. Em agosto de 1965 terminamos o Direito de Nascer no Maracanăzinho, a primeira grande festa popular da televisăo no Rio."

A Rio se caracterizava nessa época por uma promoçăo agressiva, realizada pelo mesmo Panessa que depois faria a publicidade da Globo. "Foi lá que lançamos a programaçăo por faixas, e começamos a fazer uma correta promoçăo comercial da televisăo, mais perto do marketing." A salda de Boni, foi uma das causas do afastamento do próprio Clark, em 1965. "Eu era tăo arraigado ŕ estaçăo, que fiquei um męs chorando ŕs escondidas, e o dia anterior ŕ assinatura do meu contrato com a Globo foi o pior da minha vida. E assinei este contrato ouvindo e vendo o programa Musikelly da Rio, que era na época campeăo total de audięncia."

Também emocionado foi o depoimento de Joăo Loredo, diretor artístico da Rio, de 1956 a 1960. "Foi a época da estruturaçăo da Rio, mas uma fase muito amadorística, quando tudo era feito na base do vamos fazer e pronto. Uma fase que se estruturou graças ao apoio de comerciantes, como Medina e outros, que levantaram a Rio. E que chegaria ao apogeu em 1960, quando eu já estava fora de lá, com a introduçăo do vídeo-tape no Chico Anísio Show, dirigido por Carlos Manga. A decadęncia da estaçăo foi devida unicamente ŕ sua estrutura empresarial muito familiar e uma geręncia financeira muito peculiar. Os donos compravam casa e a mobiliavam com permutas; tinha-se muito anúncio, mas jamais o dinheiro entrava. A primeira estaçăo de televisăo-empresa no Brasil foi a Globo; por isso acho que a televisăo é hoje muito melhor que antigamente. O único problema de agora é que a programaçăo está demais congelada pelo tape, que está sendo utilizado erradamente. Năo considero muito importante a Rio para a história da televisăo brasileira, porque ela jamais representou o papel da Tupi, a academia dos profissionais, e da Globo, a sua definitiva profissionalizaçăo."

Para Geraldo Casé, veterano profissional de 26 anos de televisăo e filho de Ademar Casé, um dos pioneiros do rádio e da propaganda no Brasil, o enfoque é outro: "A TV Rio foi muito importante, porque foi o apogeu da televisăo romântica, no país. Meu pai tinha a idéia de realizar um programa de variedades na televisăo, um precursor do Fantástico, mas ao vivo, que foi Noite de Gala. Mas a Tupi recusou. Abraăo Medina, dono das lojas Rei da Voz, resolveu topar e fomos fazer o programa na Rio. O único estúdio que tinham - corria o ano de 1955 - era um quarto e sala. E havia apenas uma câmera. Fizemos estúdio novo, evidentemente sem tratamento acústico, o que dava uma reverberaçăo grandiosa, e realizamos um programa sem ritmo, descozido, que durou, na sua primeira audiçăo, mais de tręs horas. Tinha Carlos Thiré, Tom Jobim (ganhava 20 contos, uma fortuna), Vinícius de Morais. Sérgio Porto, o apresentador, năo conseguiu decorar as falas, e por isso ficou depois quatro anos afastado da televisăo e só reapareceu no mesmo Noite de Gala mas de costas para a câmera. Lá estavam Henrique Pongetti, Fernando Sabino, Chico Anísio, Walter D'Avila, Luís Delfino, Elizeth Cardoso e muito mais gente. Saiu tudo baratinado e improvisado, mas o público gostou; Medina, acreditou e chegou até a financiar a compra da segunda câmera, da estaçăo. Noite de Gala viveu 11 anos, foi a mola propulsora de uma época porque marcou o inicio da grande produçăo em televisăo".

Também para Casé a TV Rio começou a acabar devido ŕ estrutura paternalista e familiar da sua direçăo. E ele prefere a televisăo atual, diagnosticando nela o mesmo mal: "O única defeito de hoje é que estăo confundindo apuro técnico com criatividade. Mas também era impossível fazer uma boa televisăo na Rio, porque ela funcionava contra qualquer princípio técnico. As câmeras Dumont eram consertadas, com arame, barbante e esparadrapo. O impacto das primeiras redes, tipo de organizaçăo que barateia todos os custos, acabou com a TV romântica e impôs o modelo industrial."

Com oito anos ininterruptos de crítica de televisăo, Artur da Távola, que já foi da Última Hora e agora é de O Globo, define a história da televisăo brasileira por suas décadas.

"A década de 50 foi a época da implantaçăo, a de 60 a da profissionalizaçăo e a de 70 a da expansăo. A Rio marcou sua passagem na conquista da profissionalizaçăo, mas năo aferiu seus resultados, ela pifa quando a TV Excelsior se implanta. Mas foi na Rio que nasceu o video-tape, que permitiu mudar a produçăo e a instalaçăo definitiva do fenômeno da telenovela. Foi também nela que começaram os grandes investimentos publicitários na televisăo. Enfim, vencida a época heróica, pioneira, a Rio começa a fase de transiçăo para o profissionalismo. Mas esta já chega nacional e por isso pode ser objeto de grandes investimentos. A Rio, năo se tornando rede, começa definhar. Seus donos bem que tentaram, mas năo conseguiram dar este passo empresarial. Também é bom destacar que a Rio foi a primeira televisăo a usar a política como atraçăo nos programas de Murilo Melo Filho, depois nos pronunciamentos de Carlos Lacerda. e mais tarde no Preto no Branco e Pingo nos Is e Encontro com a Imprensa. Os programas políticos eram de auditório, imagine só. Foi ela que começou a sair do estúdio e ir para onde estavam acontecendo as coisas. Daí por que se tornou simpática e preferida do público".




Wednesday, April 14, 2010

1979 - Malu Mulher

VEJA
18/7/1979
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A MULHER DESCASADA
A VIAJANTE SOLITÁRIA - Os caminhos da liberdade de Malu Mulher, a nova heroína da televisăo, e a vida de um grupo cada vez maior: o das mulheres descasadas

De repente, a socióloga Maria Lúcia, a Malu, começou a colher as sementes que plantou no dia em que se separou de Pedro Henrique, há menos de dois meses. Na semana passada, por exemplo, ela já passara por episódios traumatizantes ao se envolver num caso de aborto; teve que resolver o destino da avó materna, desprezada por toda a família; e, finalmente, recebeu em casa nada menos que a melhor amiga e a própria măe, ambas dispostas a despachar seus respectivos maridos e partir para uma vida nova. "Ser livre năo é isso", aconselhou Malu ŕs trôpegas aspirantes a descasadas. "Tenham juízo". Esses exemplos de bom senso, sociabilidade e calor humano ajudaram a retocar o retrato da principal heroína - digamos assim - da televisăo brasileira de hoje. Afinal, numa noite de junho, por volta de 10 e meia da noite, Malu foi vista por milhőes de testemunhas entrando na bonita casa de praia de um amigo, em Ubatuba. De dia ela havia depilado pernas e axilas, lavado os cabelos, exercitado ao telefone um tom de voz insinuante de promessas e esperanças. De noite, dirigiu-se ŕ cama do amigo, fez alguns rodeios, deitou-se - e, diante de uma platéia consternada e aflita, fracassou miseravelmente. Mas por pouco tempo. Antes de 11 da noite, enlaçada pelos braços, pela compreensăo e pela competęncia do amigo, ela voltava ŕ cama para uma nova batalha de carícias.

MOMENTO DE ĘXTASE - Ainda aflita, quem sabe roendo as unhas numa torcida surda ou numa condenaçăo silenciosa, a grande platéia plantada diante dos aparelhos de TV viu entăo uma cena extraordinária: a măo de Malu, primeiro crispada, soltava-se e abria-se numa prova de que o orgasmo finalmente explodia no vídeo nacional. Năo se sabe a extensăo de insônia e euforia que este momento de prazer provocou dentro dos lares. Mas descobriu-se que Malu, como sua intérprete Regina Duarte, a "Namoradinha do Brasil", e como a própria televisăo năo seriam mais as mesmas.

Esta noite de ęxtase de Regina Duarte diante das câmaras marcou o momento mais intenso, mas năo o único, do seriado Malu Mulher, o mais discutido e até agora o mais bem-sucedido dos quatro que a Rede Globo lançou em maio para substituir os enlatados estrangeiros. Em todos os sentidos, dentro e fora de um estúdio de televisăo, esses episódios de toda quinta-feira marcaram encontro com alguns dos temas mais caros (e apesar disso esquecidos) que estabelecem os limites entre puro divertimento e realidade pura: a solidăo, o medo de envelhecer, os tabus de família, os planos de sepultar a vida antiga e começar tudo de novo.

Por tudo isso Malu recebeu, na última quinta-feira, o apelido de "Subversiva" - nome do episódio e das açőes que ela estaria desencadeando na imaginaçăo de outras pessoas. "Năo tenho obrigaçăo de te satisfazer todas as noites", esbraveja Gilda (Lúcia Alves) para o marido Amorim (Ricardo Petraglia). "Casamento é um saco", grunhe Pedro Henrique (Denis Carvalho), morto de sono, ao ser acordado por Amorim. Já Malu, filosofando na noite do sábado em que a história se passa (para terminar no domingo), espanta-se: "Minha casa, albergue das liberadas!"

"CHUMBO GROSSO" - Na Globo, que pagou para ver no que ia dar seu projeto mais delicado, o ambiente é de euforia: Malu Mulher está em primeiro lugar de audięncia no Rio de Janeiro, com 52 pontos, em segundo em Săo Paulo, com 49 (um pouco abaixo de Carga Pesada), empata em Brasília com Plantăo de Polícia, ganha em Belo Horizonte e no Recife só perde para Aplauso. O programa, por certo, tem sofrido alguns ataques. Quase uma seçăo inteira de cartas do Jornal do Brasil, há duas semanas, foi ocupada por leitores que expressaram suas "repugnâncias" ante um episódio que tratou de aborto. A hoje semi-obscura Tradiçăo, Família e Propriedade (TFP) animou-se a sair das catacumbas para atacar o seriado pelos programas de rádio. E mesmo a equipe que gerou e pôs Malu no mundo as coisas năo săo tranqüilas.

Os primeiros episódios, por exemplo, jamais levados ao ar, trombaram com o próprio superintendente da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, que achou as amostras iniciais adocicadas demais e exigiu "chumbo grosso".

Depois, os autores de Malu iniciaram uma via crucis de desentendimentos e uma das tręs mulheres contratadas, a teatróloga Consuelo de Castro, afastou-se por motivos de "incompetęncia e incapacidade de conciliar suas atividades profissionais com as de măe de família", segundo se resmungou nos corredores da Globo. Outra mulher, a teatróloga e poetisa paulista Renata Pallottini, năo está encontrando tempo de ir ao Rio regularmente. Sozinha entre quatro homens, Lenita Plonczynska, 38 anos, desquitada, vivendo há dez anos com o cineasta Domingos de Oliveira, está achando tudo muito difícil. "Tem muita cabeça masculina pensando em vários níveis, na produçăo, na direçăo, um mundo quase impenetrável para os pensamentos femininos", diz ela.

DE PRISĂO EM PRISĂO - O mundo dos criadores de Malu antecede, assim, as dificuldades que a personagem vai enfrentar a cada capítulo. Segundo Lenita, os homens da equipe ficavam muito preocupados com o fato de eles também terem problemas e demoravam a aceitar que a série é para mulheres. O ator e diretor Denis Carvalho, 31 anos (desquitado duas vezes), adverte para o perigo de que as histórias se tornem "feministas, panfletárias e maniqueístas". Ele se defende: "Seria legal se a gente abordasse o tema do homem desquitado, que deixa o apartamento comprado a duras penas para a mulher, aluga um quarto e sala, e ainda tem que começar tudo de novo". Armando Costa, 46 anos, solteiro, autor de dez roteiros de cinema, atua como poder moderador: "Basta o homem năo ser mal-informado nem machista". Mas prega reformas urgentes para Malu: ela ganha apenas 7.000 cruzeiros de pensăo e vai precisar trabalhar, suas roupas tęm que ser menos sofisticadas. Denis Carvalho impőe: "Ela năo pode ser estuprada, fazer aborto e ser assaltada em episódios seguidos". E proíbe: "Mas também năo pode ficar ditando regras, sendo uma supermulher, como vem acontecendo".

Pobre Malu, desquitada de 32 anos, măe de uma garota de 12, recém-separada do marido para submeter-se ŕ dominaçăo dos roteiristas que tecem as linhas de sua vida. Mas năo seriam justamente essas as maldiçőes que pesam sobre qualquer mulher como ela? Entre a vida de Malu e a de Regina Duarte, por exemplo, há tantas semelhanças que seria ingęnuo pensar em meras coincidęncias, como nos filmes antigos: as duas tęm a mesma idade, săo descasadas, tęm uma situaçăo econômica relativamente estável, declaram-se inseguras e perplexas diante da vida.

DUAS FACES - Além disso, o nome Malu foi escolhido pela própria Regina, como símbolo de um ciclo de sua vida pessoal e artística que ela acredita encerrado. Também se chamava Malu sua personagem de A Deusa Vencida, de 1965, sua estréia na televisăo, uma jovem que sofria de leucemia e passava a novela inteira se despedindo da vida e dos outros. Catorze anos depois, as duas Malu, na pele da mesma atriz, podem ser vistas como as duas faces de uma mesma moeda - a da "Namoradinha do Brasil" e da crença na eterna felicidade prometida pelo casamento, de um lado, e a da defensora da democracia e da integridade individual, de outro. É, ainda, a oposiçăo da criatura forjada nos tempos do "milagre" e da censura a esta outra, fruto de desilusőes. Por fim, a mesma Globo que construiu a Regina-Namoradinha procura agora esculpir a Regina-Descasada. "A Malu de hoje é melhor que eu", diz Regina. "Está na minha frente."

Está na frente, também, segundo desconfiam seus próprios autores, da imensa maioria de espectadoras, descasadas ou năo, que a cada semana se sentam diante do aparelho de TV mais ou menos na esperança de quem se senta diante de um espelho. O número de mulheres separadas no Brasil - cerca de 600.000, segundo o único e já ancestral levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, de 1970 - é bastante grande para garantir ao programa uma audięncia significativa. Mas é também significativo que seus dramas e suas aspiraçőes apenas circunstancialmente nasçam de fato de serem descasadas. Malu, na verdade, năo se esgota na perda de um marido. Por isso, assunto năo vai faltar ao ainda desunido grupo de autores se eles optarem por um programa estritamente realista, ou até naturalista, se quiserem.

UMA E OUTRA - Toda essa trama que encaminha a vida das descasadas brasileiras encarna-se, de maneira exemplar, na Malu das quintas-feiras, ou mais exatamente em Regina Duarte - a moça de quem se espera exatamente aquilo que ela faz. Regina năo é uma atriz, é uma estrela, isto é, alguém com quem o público se identifica a um tal ponto em que toda noçăo de realidade e fantasia se esvai. Além disso, Regina Duarte - com suas 300 cartas de făs por semana - é realmente tudo que finge ser em cena. Filha de pais pobres do interior de Săo Paulo (nascida em Franca, criada em Campinas), mudou-se para a capital. Casou-se, por amor, com um namorado dos tempos de colégio em Campinas, Marcos, com quem teve dois filhos, André, de 8 anos, e Gabriela, de 5. Vivia sorrindo e bem disposta.

Nas emissoras de TV, onde procurava trabalho sempre em companhia da măe, diziam: "É boazinha, meiga, năo dá trabalho, é boa atriz". Uma de suas professoras de dicçăo comentou: "Vocę fala como se estivesse pedindo desculpas".

Aos 15 anos, escreveu em seu diário: "Hei de ser famosa, tăo conhecida que năo haverá ninguém neste país capaz de dizer: 'Eu nunca ouvi falar nela'". Walter Avancini, que a chamou para A Deusa Vencida, animou-se ao ver Regina fazendo o anúncio de uma geladeira, revirando os olhos ora para o namorado, ora para o refrigerador. Sua virtude? "Sempre disseram que eu era muito simpática", diz ela.

Estudou balé, que odiava mas praticava por se constituir numa prova de virtude. Até os 12 anos queria ser menino, pois achava o mundo dos homens menos repressivo que o das mulheres. Jogava futebol e chegou a ser uma fanática religiosa, certa de que Nossa Senhora de Fátima apareceria também para ela. A "Namoradinha do Brasil" surgiu com a novela Minha Doce Namorada, no papel de Patrícia, muito igual ŕ própria Regina da época: "Eu acreditava que tudo só tinha que melhorar. Estava preocupada em amar e ser amada, ser feliz no casamento, ter uma casa, marido e um automóvel".

PARA QUALQUER HORA - Hoje, Regina Duarte acredita mais na apariçăo de um disco voador, fez campanha política pelo MDB nas últimas eleiçőes, descasou, tomou raiva de seu papel - de atriz e de mulher. "Era tudo coisa já vista, já feita", diz ela. "Os autores escreviam sempre papéis adequados ŕ minha imagem. Tinha a impressăo de um trator passando em cima de mim." Animou-se a posar nua, ou quase, para a revista Playboy, foi procurar um analista e lembra do tempo em que estava grávida pela segunda vez: "Foi quando tudo começou. A gravidez foi para mim um processo revolucionário. Eu comecei a me perguntar a respeito de tudo o que fazia, do que eu tinha a oferecer a meus filhos". Năo abriu a boca sobre a censura durante muitos anos, mas um dia abandonou as luzes dos refletores da Globo, mostrou as pernas no show Regina Mon Amour e subiu ao palco para ser Janete, a prostituta da peça Réveillon, de Flávio Márcio. Foi quando provou que veio para ficar: invertendo totalmente sua imagem, Regina Duarte ficou em cartaz mais de um ano - mais que uma novela de sucesso - e como produtora do espetáculo conseguiu ganhar mais dinheiro que na TV.

Hoje, nem socialista nem religiosa, mas "apenas atriz", como gosta de dizer, Regina Duarte tem uma história pessoal tăo rica que um escritor de TV năo encontraria nenhuma dificuldade em adaptar suas aventuras tanto para o horário das 6 da tarde quanto para algum - ou muitos - episódios de Malu. "Amamentei meus filhos e foi maravilhoso", diz a Malu das 6 da tarde, em sua casa no bairro paulistano da Lapa, sobre sua atual campanha a favor da alimentaçăo natural das crianças. "Eu era muito reprimida, hoje tenho minha sensualidade sob controle", repete uma outra Regina, versăo 10 da noite, uma mulher ainda descasada lembrando sem inibiçőes que só teve seu primeiro orgasmo um ano depois do casamento. Sobre ela mesma, em qualquer horário, diz, sem empostaçăo nem drama: "Năo sei. É uma loucura".

1972 - Balança Mas Não Cai na Tupi

VEJA
6/9/1972
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RECEITA GARANTIDA
Receita garantida

Construído pelo arquiteto do riso Max Nunes, em 1950, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, o "Edifício Balança Mas Năo Caí" conquistou um público fiei que o acompanhou durante os dezenove anos, do rádio à TV. Finalmente há um ano, com a direçăo da Rede Globo pretendendo melhorar o nível de sua programaçăo, o "Balança", classificado como um programa de boa audiência (cerca de 30% de ibope, em seus últimos tempos), mas de baixa categoria, foi derrubado, dando lugar a "Uau".

Brandăo Filho, o primo pobre, Paulo Gracindo, o primo rico, Lúcio Mauro, o Fernandinho, e Sônia Mamede, Ofélia, foram alguns dos muitos cômicos revelados ou consagrados no "Balança", e que, na época, lamentaram o fim do programa, aparentemente definitivo. Contudo, a idéia de reconstruir o "edifício" brotou há cerca de um mês no diretor geral da Rede Tupi, José Arrabal. Preocupado em aumentar a audiência da rede no Rio e em Săo Paulo, ele se lembrou dos velhos programas de sucesso, e lançou como teste a "Comédia do Costinha". O resultado foi surpreendente, e o programa tem hoje o maior Ibope carioca da casa: 20%, contra 17% de Flávio Cavalcanti. Animado, Arrabal começou a reerguer o "Balança Mas Năo Cai". Entrou em entendimento com a Rádio Nacional, dona do titulo, que deu a sua cessăo à Tupi. Neste sábado, às 20h30, o programa volta ao ar.

A FÉ E O CONSOLO - "Precisam desesperadamente de audiência e, como năo temos condiçőes de fazer um programa caro, o jeito foi apelar para uma receita que sabemos ter sucesso garantido", diz Eduardo Sidney, o diretor de programaçăo da emissora. "Isso năo quer dizer que voltaremos aos tempos antigos. O edifício receberá tratamento especial. Será limpo, veloz, digno, sem no entanto perder suas características populares."

Dos velhos atores, poucos săo os que irăo participar do novo edifício. Zé Trindade, Lilico, Manuel Vieira e Vagareza continuarăo presentes. Brandăo Filho, Sônia Mamede e Lúcio Mauro na última hora năo puderam aceitar o convite - săo contratados da Globo até dezembro próximo, e năo conseguiram ser liberados. Paulo Gracindo, com muito prestígio na Globo depois de "Tucăo", nem pensa em voltar a ser o primo rico. Será substituído por seu filho Gracindo Júnior e o papel do pobre ficará com Jorge Loredo.

Wilton Franco, diretor de programas famosos como "Noites Cariocas", da TV Rio, e "A Cidade Se Diverte", na Excelsior, também tem certeza de que pode ressuscitar o velho "Balança". "Năo é um programa superado."

Quem năo está nem um pouco satisfeito com a reconstruçăo do "edifício" é o seu inventor, Max Nunes. Por esquecimento ele năo registrou o título na Divisăo de Propriedades Industriais, e agora tem que se conformar em ver a sua criaçăo apresentada por outra emissora. "Todo o Brasil sabe que o programa é meu. Acho uma falta de ética profissional o seu relançamento sem a minha presença. O que me consola é que ele vai dar emprego a muitos amigos meus, comediantes, atualmente sem ter o que fazer", diz ele.



Friday, April 9, 2010

1982 - O Novo Jornal da Globo

O Globo
22/8/1982
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GLOBO NO FIM DE NOITE


Entre Belisa Ribeiro, Renato Machado e Luciana Villas Boas há, além da profissăo, um forte ponto em comum: estăo todos absolutamente apaixonados pelo que fazem agora e se confessam deslumbrados com a força, a beleza e o poder da imagem. Acostumados a trabalhar usando apenas a linguagem escrita, de repente sentem-se dominados e desafiados pela linguagem visual que a televisăo oferece e exige. Luciana, que já havia enfrentado as câmaras anteriormente, na TV Educativa, mas ainda está um pouco assustada com a mudança que sua vida sofreu nos últimos meses, comenta:

- O trabalho que fazemos atualmente é tăo estimulante e absorve tanto nosso tempo, que eu, por exemplo, năo consigo adormecer antes dos duas e meia da madrugada. Belisa diz que sua maior preocupaçăo e mostrar-se compreensiva com os convidados do programa:

- Sei muito bem que como é o nervosismo que eles sentem, porque já passei por isso. A gente pode estar inteiramente segura de que do que está fazendo, do que vai falar, mas a câmara realmente assusta um pouco. Eu ainda năo me acostumei e estou desde novembro na Globo e no vídeo. Como sou muito exigente comigo mesma, sempre acho que o que fiz poderia ser melhor.

O jornalismo parece năo ter segredos para Renato Machado, que iniciou sua carreira há 15 anos, na Rádio BBC de Londres.

- Comecei numa época muito especial. Entre 67 e 68, aconteceram coisas importantíssimas no mundo: os primeiros movimentos de contestaçăo nos Estados Unidos, o assassinato de John Kennedy, a guerra do Vietnă, os Beatles, a minissaia. Eu estava em Londres e isso me influenciou muito na escolha da política internacional como setor de especializaçăo, onde trabalhei muitos anos. Aprendi muito, mas também descobri coisas novas, essenciais até, com a televisăo. Ela tem a imagem, o tempo, o minuto. Este imediatismo da TV faz com que a gente viva sempre num clima de envolvimento total, dentro da alta temperatura das matérias, do que está acontecendo e a imagem está mostrando. Belisa, Renato e Luciana estăo ligadas no ''Jornal da Globo'', embora, oficialmente, comecem a trabalhar ŕs 13 horas, quando se reúnem para discutir as matérias que văo apresentar ŕ noite. Depois, saem para as reportagens de rua e, no final da tarde, voltam para escrever e editar o material colhido. Em seguida, uma rápida passadinha em casa para troca de roupa e a volta ŕ redaçăo para os preparativos finais, antes de o programa entrar no ar. Enquanto vai em casa, Belisa aproveita para conversar com os filhos, Gabriel e Thiago, de 9 e 4 anos, sobre os acontecimentos do dia:

- Quando vim para a Rede Globo, sabia que o trabalho, com o qual tenho sempre uma relaçăo de entrega total, ia me absorver multo. Expliquei aos meus filhos que ia ter menos tempo para estar com eles e prometi compensar nos fins de semana, quando salmos para longos passeios. Solteira, Luciana mora com os pais, enquanto decora um apartamento para se mudar no fim do ano, e está concluindo o curso de Comunicaçăo pela manhă. Formada em História, até pouco tempo pensava em ser apenas professora universitária:

- Resisti ao jornalismo porque minha família toda é ou foi jornalista e eu queria ter uma vida acadęmica, dedicada somente aos estudos. Mas, curiosamente, meu primeiro emprego foi na Rádio BBC, em Londres, onde fui morar aos 18 anos. Trabalhei lá dois anos. Na volta ao Brasil, me formei e năo pensava em jornalismo. Fui para a TV Educativa como roteirista e acabei apresentando pequenos programas, até o convite para o ''Jornal da Globo". Ainda năo deu para me adaptar ŕ nova vida e sinto falta de tempo para correr oito quilômetros diariamente, como fazia antes.

Renato Machado foi contratado inicialmente pela Rede Globo para fazer o ''Globo Repórter''. Com a guerra das Malvinas passou a fazer comentários nos telejornais. Participou também de quatro programas da série "Sem censura" e, durante a Copa do Mundo, passou um męs trabalhando no escritório da emissora em Londres. Solteiro, morando sozinho, Renato conta que ouvir música - "de preferęncia erudita, de preferęncia moderna" - é o que mais gosta de fazer. Mas também năo esconde que adora preparar um bom prato e garante que a comida, quando é feita por quem gosta de cozinhar, tem um gosto diferente. Como quem gosta de comer bem gosta de beber bem, sua paixăo săo os vinhos:

- Tenho uma grande biblioteca especializada no assunto, mas infelizmente năo tenho dinheiro para ter a adega que gostaria. Năo bebo sempre os melhores vinhos, mas sei tudo sobre eles.

Fora do trabalho, Belisa, Renato e Luciana se ocupam de coisas diferentes, mas tęm ainda um outro ponto em comum: gostam muito de ler, estudar e, principalmente, de se manter informados sobre todos os acontecimentos.

1971 - Fogo na Globo

O Globo
1/11/1971
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CANAL 4 VOLTA COM TODOS OS PROGRAMAS


Às onze horas de sábado "Big Boy" chegou a TV GLOBO - onde os bombeiros ainda trabalhavam no rescaldo do incęndio da véspera - e comentou: "Nunca mais vou dizer que é uma braza "

A essa hora, muitos dos funcionários que tinham passado a noite no local começavam a ir para casa. Outros movimentavam-se para colocar no ar a estaçăo, usando os geradores próprios, pois a energia elétrica ainda năo fora restabelecida.

A perícia estava examinando tudo e fotografando para estudos posteriores. Ficou constatado que năo há qualquer perigo de desabamento. Por volta do meio-dia, a força foi religada e a TV GLOBO voltou ao ar. Transmitiu inicialmente um comunicado e um telejornal.

O palco, onde estava sendo feita a gravaçăo do programa Moacyr Franco Especial quando começou o incêndio, ficou totalmente destruído. Na manhă de sábado os bombeiros ainda permaneciam no local, para a operaçăo de rescaldo. De vez em quando aparecia um novo foco de incêndio, mas o trabalho dos bombeiros, de localizaçăo desses focos, era dificultado pelo grande volume de fumaça, que invadia tudo pelos corredores.

Năo foi possível estimar de pronto os prejuízos em equipamentos. Mas se sabia, na manhă de sábado, que além dos ctenários, o guarda-roupa estava totalmente perdido.

Quanto a causa do incêndio só a Perícia poderá dar a palavra final, após o exame das numerosas fotografias colhidas. Inicialmente, supunha-se que o incêndio tivesse sido causado por curto-circuito em uma das câmaras. Em seguida, surgiu outra hipótese: um curto nos exaustores do sistema de ar condicionado central.

O auditório, com capacidade para 300 pessoas, năo voltara logo a ser usado. Vários teatros e cinemas puseram à disposiçăo da TV-GLOBO suas salas, para transmissăo de programas de auditório, O programa do Chacrinha, por exemplo, deverá ser feito em Săo Paulo e transmitido para o Rio.

As novelas e outros programas gravados văo ser examinados, pois năo se sabe ainda se o calor afetou as fitas. A aparelhagem de vídeo-tape, bastante delicada, foi sem duvida a mais atingida. A programaçăo, no entanto, continuará sendo apresentada, transmitida por uma das mesas do segundo andar, que năo foi atingida.

Em nota oficial, a TV-GLOBO comunicou que os shows de auditórios serăo transferidos e a emissora avisará as mudanças de local.

A nota oficial, divulgada Sábado, foi a seguinte:

"A REDE GLOBO de Televisăo informa ao público que o incęndio irrompido à noite passada em suas instalaçőes năo impediu que, num esforço conjunto de diretores e funcionários, a emissora reinicia-se suas transmissőes normais. O incęndio declarou-se às 20h20m e destruindo o palco-auditório e equipamentos de estúdio de vídeo-tape, especialmente o destinado às transmissőes a cores. Năo houve vitimas. A REDE GLOBO de Televisăo manifesta seus agradecimentos ao Governador Chagas Freitas, ao Corpo de Bombeiros e a toda populaçăo carioca. Informa também que toda a programaçăo habitual será apresentada ao público e pede atençăo para os comunicados referentes a realizaçăo de shows habitualmente apresentados no auditório, e que terăo que ser transferidos."

DIRETOR AGRADECE SOLIDARIEDADE

O Sr. Walter Clark Bueno, diretor da Rede GLOBO de Televisăo, fez o seguinte pronunciamento ao se reiniciarem as transmissőes:

"A Rede GLOBO de Televisăo agradece, ardentemente, ao Corpo de Bombeiros da Guanabara pela pronta e decisiva operaçăo de combate ao incêndio ocorrido ontem à noite nas suas instalaçőes, na Rua Von Martius. Năo menos expressiva para nós, da Rede GLOBO, foi a solidariedade do povo carioca, manifestada por toda sorte de ajuda e oficialmente representada pelo Governador Chagas Freitas, que compareceu em pessoas à sede da Globo, no momento mais dramático do incêndio.

Nosso reconhecimento público também ao gesto da TV Tupi, incorporando-se à Equipe GLOBO, durante e depois do acidente.

Dependendo ainda do pronunciamento da Perícia, o fogo parece ter começado no setor de ar condicionado do Estúdio A, assumindo logo vulto impressionante, que, em pouco tempo, destruiu por completo o nosso palco-auditório. A operaçăo, de que participaram os infatigáveis funcionários de toda a hierarquia da Rede GLOBO, durou cerca de oito horas e foi muito dificultada pelo excesso de fumaça que bloqueou inteiramente a penosa manobra dos bombeiros para chegar às nascentes do fogo. A fumaça e o calor danificaram sensivelmente as instalaçőes da emissora, atingindo, inclusive, valioso equipamento eletrônico.

Com o testemunho de todos vocês, o incêndio nos atingiu na hora em que a Rede GLOBO de Televisăo mais se empenha para oferecer um nível de qualidade técnica e artística à altura de nosso incomparável público, justamente às vésperas da grande realidade da tevê colorida. Tenham, porém, a certeza de que o incêndio de ontem năo nos desanima do grande e honroso desafio que representa para nós a liderança. Pelo contrário, a Rede GLOBO, amparada na aplicaçăo profissional de seus funcionários e estimulada pela confiança de seu público, venceu o "round" e continuou no ar com sua programaçăo integral: "shows", novelas filmes de longa metragem e telejornais, cumprindo, assim, mesmo na adversidade, a regra de ouro de sua vida que é recrear e informar o povo deste respeitável País.

Năo nos esquecemos jamais de que há seguramente dois anos a GLOBO de Săo Paulo, que agora nos socorreu com sua imagem, sofria um incêndio de vulto aterrador e de cujas cinzas partiu a nossa equipe para o grande empreendimento na integraçăo nacional através da imagem. Se agora estamos diante de novo desafio, é sinal de que dias muito melhores haveremos de construir sempre de măo dadas com você."

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